O caos da despedida

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Consequentemente, o ambiente é de confronto, com as esquerdas forçando a barra para que esses protestos saiam de controle e acabem fazendo um mártir entre esses estudantes. Desse modo, trata-se da velha aposta no tudo ou nada.

Para Lula, que de modo ambicioso nunca deixou surgir entre suas hostes um herdeiro político, essa seria uma maneira de perder a eleição de um jeito menos patético. No entanto, o fato é que Lula, como outros déspotas que não fizeram herdeiros políticos, envelheceu da pior maneira possível. Assim, acumulou adversários, repetiu erros, mentiu e prometeu um futuro de abundância que parece ter chegado apenas para as pessoas do seu entorno imediato. Por isso, de pai dos pobres, Lula transformou-se no pai da pobreza e das crises. Sua saída de cena não poderia ser feita de outra forma que não em meio ao caos que construiu ao longo de duas décadas.

A despedida de Lula e o cenário pós-primeiro turno reacendem o tom do “nós contra eles”, raiz de toda a polarização política que o país vive desde a chegada do PT ao poder. Numa atitude de quase desespero, o presidente convoca a militância a vir para as ruas para impedir o que chama de retrocesso. O chamamento atendeu logo e de imediato os estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vieram protestar contra as eleições que obrigaram o mandatário a disputar o segundo turno em desvantagem.

A Semeadura da Divisão na Política Nacional

Não há nada de acidental nesse desfecho. A política, como a agricultura, devolve a quem a pratica aquilo que foi semeado. Por conseguinte, Lula semeou, durante anos, a divisão como método de governo. Ao dividir o país entre “nós” e “eles”, entre o povo e as elites, entre os bons e os maus, ele transformou o adversário em inimigo e o debate em trincheira. Ele fez isso quando era conveniente e fez isso quando não era necessário. Agora que a trincheira se volta contra ele, surpreende-se com a hostilidade de metade do eleitorado, como se ela tivesse brotado do nada.

Primeira Colheita: A Crise de Confiança e Escândalos

A primeira colheita é a da desconfiança. O PT chegou ao poder em 2003 prometendo ética na política e entregou, poucos anos depois, o escândalo do Mensalão, seguido do Petrolão, que revelou um esquema de desvio de recursos públicos em escala poucas vezes vista no país. Além disso, entre os escândalos que marcaram a trajetória recente do governo, acrescenta-se o Caso Master, ampliando as controvérsias de gestão.

Posteriormente, Lula acabou condenado, preso e libertado. Teve as condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021 por questões de competência do foro, e não por um julgamento de mérito que o declarasse inocente. Preferiu, porém, tratar a anulação como absolvição moral e o passado como página virada. Entretanto, milhões de brasileiros não a viraram. Quando o escândalo dos descontos indevidos em benefícios do INSS veio à tona, atingindo justamente aposentados e pensionistas, a memória coletiva fez o resto. Assim, a promessa de proteger os mais pobres convivia, mais uma vez, com a sombra da apropriação do dinheiro público.

A gangorra de Lula e Bolsonaro

Segunda Colheita: O Retorno da Realidade Econômica

A segunda colheita é a da economia. Lula voltou ao Planalto vendendo a lembrança dos anos de bonança das commodities, como se a prosperidade do passado fosse um atributo pessoal, e não o produto de um ciclo externo irrepetível. Por outro lado, tratou o equilíbrio das contas públicas como obsessão de rentistas e viu o desconforto do mercado como mera conspiração.

O resultado foi um governo que gastou mais, convenceu menos e conviveu com juros em patamares elevadíssimos, dólar pressionado e alimentos caros na mesa do trabalhador. Desta forma, o brasileiro que ouviu falar de picanha barata e churrasco farto encontrou, no supermercado, uma realidade bem menos generosa. Afinal, prometer abundância e entregar escassez é a forma mais rápida de transformar um líder em personagem de sua própria ironia.

Terceira Colheita: A Solidão Política e a Sucessão

A terceira colheita é a da solidão política. Lula nunca tolerou sombras. Dilma Rousseff, escolhida sem ter feito carreira eleitoral, foi a síntese desse método: um nome de confiança, jamais um rival. Fernando Haddad, em 2018, foi o substituto improvisado de um líder que não aceitava deixar o palco. Nos anos seguintes, quem ousou crescer dentro do partido acabou contido, absorvido ou esquecido.

Como resultado, no momento em que o eleitor pediu renovação, o PT só soube oferecer a mesma figura, aos quase oitenta anos, de volta para mais uma batalha. Consequentemente, quem não prepara a sucessão não pode reclamar quando a sucessão se transforma em disputa selvagem, ou quando o seu fim de carreira se parece mais com um acerto de contas do que com uma despedida.

Quarta Colheita: Credibilidade Externa e Alianças Internacional

A quarta colheita é a da credibilidade externa e dos aliados escolhidos. A diplomacia que se dizia soberana e pragmática mostrou-se, em muitos momentos, fiel a afinidades ideológicas. Observa-se o afago a regimes autoritários na América Latina, a relutância em criticar eleições contestadas e a leniência com ditaduras desde que se declarassem de esquerda.

Portanto, um país que se apresenta ao mundo como defensor da democracia perde autoridade quando seu presidente escolhe a quem cobrar e a quem perdoar. O mesmo vale dentro de casa. Nesse sentido, quem passou anos chamando de golpe qualquer derrota e de fascismo qualquer divergência não tem crédito para pedir serenidade agora.

Quinta Colheita: O Entorno do Poder e o Aparelhamento

A quinta colheita é a do entorno. Em cada governo petista, a promessa de que o Estado serviria aos mais pobres encontrou o obstáculo de uma máquina pública ocupada por aliados, sindicatos e partidos satélites. Estes passaram a tratar cargos e orçamentos como patrimônio. Por causa disso, a distância entre o discurso e a prática ficou evidente.

O líder que dizia governar para quem mais precisa governava, na prática, com quem mais o cercava. O benefício chegou, sim, a muita gente. Contudo, o sentimento que se consolidou na parcela do eleitorado que o abandonou foi o de que a abundância prometida tinha endereço certo, e que esse endereço não era o da periferia que o consagrou.

Sexta Colheita: Relação com as Instituições e a Verdade

A sexta colheita é a da relação com as instituições e com a verdade. Lula atacou a imprensa quando a imprensa o incomodou. Além disso, desqualificou o Judiciário quando o Judiciário o condenou e passou a elogiá-lo quando o Judiciário o beneficiou. Tratou a Constituição como escudo nos dias bons e como obstáculo nos dias ruins.

Do mesmo modo, prometeu, em campanha, o que sabia ser difícil cumprir, desmentiu-se em discursos sucessivos e passou a acusar de mentira quem apontava as contradições. Num país em que a confiança nas instituições já estava corroída, a atitude do presidente não ajudou a reconstruí-la. Em vez disso, aprofundou a erosão que ele mesmo dizia combater.

O Apelo às Ruas no Segundo Turno

É nesse ponto que o apelo às ruas, feito depois do primeiro turno, ganha seu verdadeiro sentido. Não se trata de defender a democracia, a qual está funcionando e acaba de impor ao presidente a obrigação de disputar um segundo turno. Trata-se de reagir ao desagrado das urnas com a velha pedagogia da mobilização, na qual a rua serve de pressão sobre quem votou, sobre as instituições e sobre a narrativa do dia seguinte.

Quando um governante responde a um resultado eleitoral convocando militantes para o confronto, ele diz, na prática, que só reconhece a vontade popular quando ela lhe é favorável. Assim sendo, é a mesma lógica do “nós contra eles”, agora em sua versão final.

O Custo Social da Polarização Política

O custo dessa semeadura não foi pago apenas pelo presidente. Foi pago por famílias que deixaram de conversar à mesa, por amigos que se afastaram, por um debate público reduzido a gritos e por uma política em que quase ninguém ouve ninguém. A polarização que Lula alimentou, e que seus adversários também souberam explorar, tornou o país mais áspero e mais difícil de governar, inclusive para ele.

Certamente, um presidente que depende de maioria para aprovar o que promete precisa de pontes. Por outro lado, quem passou anos dinamitando pontes descobre, tarde demais, que governar exige o que o palanque dispensa.

A Defesa dos Apoiadores no Debate Eleitoral

Há, é claro, a defesa que seus apoiadores farão, e ela não deve ser ignorada. Dirão que o governo reduziu a fome, ampliou programas de transferência de renda, reconstruiu políticas públicas desmontadas nos anos anteriores e que o país cresceu e gerou empregos sob sua gestão.

Além disso, dirão que a anulação das condenações foi uma correção de abusos de uma operação que desrespeitou o devido processo legal, e que a polarização é obra de um campo político inteiro, e não apenas de um homem. Dirão ainda que mobilização popular é direito democrático, e não ameaça. São argumentos legítimos e fazem parte do debate. Mas cabe ao eleitor, no segundo turno, pesar essa defesa contra o balanço que este editorial procurou fazer.

O Balanço Final e o Legado da Divisão

O fato permanece: os governantes não escapam de si mesmos. Lula teve, em três mandatos, a oportunidade rara de ser lembrado como o líder que reconciliou o país e preparou o futuro.

Contudo, preferiu o conforto da divisão, a vaidade da indispensabilidade e a ilusão de que bastaria o carisma para sustentar o que as entregas já não sustentavam. A despedida que se desenha, em meio a protestos, desconfiança e ressentimento, é a conta de um longo processo. O país, cansado, seguirá em frente. Resta saber se o ex-metalúrgico que prometeu unir os brasileiros terá a grandeza de reconhecer, ao final, que a cizânia que agora o cerca tem, em boa medida, a sua assinatura.

A frase que foi pronunciada:

“O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.” Maquiavel

História de Brasília -A Quadra 48 ainda é a grande sem sorte da W-3. Começaram o serviço de urbanização. Deixaram pelo meio, com esgotos e telefones cortados. Consertaram, e diante à poeira. Agora, está sendo preferida pelos ladrões de automóveis. (Publicada em 25.05.1962)

Os impactos das Eleições de 4 de Outubro

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O futuro político do Brasil passará por transformações profundas logo após a contagem final dos votos deste pleito. Portanto, independentemente do resultado verificado nas urnas, nem a esquerda nem a direita sairão deste processo eleitoral do mesmo modo que entraram.

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Nesse cenário de intensas transformações, observaremos o crescimento expressivo de um lado e a diminuição gradual do outro. Alternativamente, nenhum dos dois grupos exercerá um protagonismo tranquilo no poder. Afinal, a forte polarização política no país impede que qualquer governante eleito trabalhe sem enfrentar intensos entraves cotidianos da oposição.

O País que Sairá das Urnas e o Futuro Político do Brasil

Certamente, o país chega a este pleito sob uma visível sensação de esgotamento institucional e social. A disputa atual entre esquerda e direita vai muito além de debates puramente acadêmicos. Atualmente, esse confronto se manifesta nas ruas, nas conversas cotidianas e nas redes sociais de forma visceral.

Consequentemente, o eleitorado manifesta ressentimentos acumulados ao longo dos últimos anos. A população percebe que o destino imediato da nação depende diretamente do combate ideológico travado no ambiente político. Todavia, a realidade socioeconômica impõe desafios muito mais complexos do que a simples retórica partidária.

Por conseguinte, a população exige soluções imediatas para garantir a estabilidade do poder de compra, do trabalho, da segurança e da educação. Além disso, o cidadão busca segurança jurídica e eficiência administrativa por parte do Estado.

O Desgaste da Esquerda e a Redefinição de Forças

Historicamente, a hegemonia das esquerdas se estendeu por mais de duas décadas no cenário nacional. Contudo, essa força política enfrenta agora um desgaste contínuo e acelerado diante dos eleitores. Essa perda de espaço não decorre unicamente da atuação direta da oposição.

Pelo contrário, esse desgaste resulta diretamente de escolhas econômicas equivocadas adotadas pela má gestão pública. Ademais, episódios sucessivos de corrupção abalaram a confiança popular nas instituições governamentais. De fato, o cidadão comum reage às condições diárias do seu orçamento doméstico.

A Ascensão da Direita no Futuro Político do Brasil

Paralelamente, a ascensão da direita ocorreu de forma marcante e estruturada no ambiente político nacional. Esse grupo conquistou uma desenvoltura própria e conta com um expressivo apoio de diversos setores populares. Por essa razão, a antiga hegemonia de esquerda encontra-se verdadeiramente em xeque nestas eleições.

Nesse contexto, a sociedade civil demonstra um amadurecimento significativo em relação aos discursos partidários. De forma geral, os cidadãos rejeitam narrativas puramente ideológicas ou simplistas. Ao mesmo tempo, os eleitores cobram transparência na gestão dos recursos públicos de maneira incisiva.

Dessa maneira, a nova direita ganha espaço ao defender propostas de liberdade econômica e rigor fiscal. Consequentemente, o eleitor exige que a máquina pública funcione com eficiência máxima para atender aos anseios dos contribuintes que pagam os impostos mais altos do universo.

O Combate à Corrupção e a Transparência Pública

Além da questão fiscal, a corrupção continua figurando entre os temas centrais de indignação nacional. Historicamente, os escândalos recorrentes corroeram a credibilidade dos órgãos públicos de forma profunda. Portanto, a sociedade exige mecanismos rigorosos de controle e punição aos desvios de recursos.

Afinal, a população não tolera mais a seletividade no combate aos crimes contra o patrimônio público. Consequentemente, as instituições de fiscalização precisarão atuar de maneira independente e transparente. Apenas assim o governo conseguirá resgatar a confiança indispensável dos cidadãos e dos investidores internacionais.

Assim, o cumprimento estrito das leis torna-se o único caminho viável para assegurar a estabilidade institucional no futuro político do Brasil.

Pragmatismo, Ética e os Desafios do Novo Governo

A princípio, o eleitorado demonstrou um amadurecimento inequívoco ao longo deste pleito de 4 de outubro. Os cidadãos exigem responsabilidade fiscal, conduta ética e resultados concretos em prazos curtos. Dessa maneira, qualquer projeto de poder desconectado das reais necessidades populares ruirá com rapidez.

Em suma, o governante escolhido enfrentará um cenário com pouquíssima margem para erros na gestão econômica. O tempo das promessas demagógicas e dos subterfúgios discursivos esgotou-se definitivamente no país. Em conclusão, a legitimidade da próxima gestão dependerá exclusivamente da entrega de emprego, renda, estabilidade e segurança jurídica.

Por fim, o futuro político do Brasil dependerá da coragem do novo governante para implementar as reformas necessárias e construir uma nação próspera e justa.

A Frase Pronunciada

“Ditadores não têm interesse em permitir eleições que possam destituí-los do poder.”

— Gene Sharp

História de Brasília

A pena de tudo isto é, ainda, porque Claudionor Machado é ex-pracinha, tem medalha de campanha, e o presidente do IAPB não hesitou em jogá-lo na rua. É uma injustiça que o Ministro da Guerra bem poderia corrigir em despacho com o presidente da República. Há decreto amparando os ex-combatentes. (Publicada em 26.05.1962)

Crise nos Poderes da República Altera Cenário Político do País

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Você não precisa ser nenhum vidente em predições do futuro. Do mesmo modo, não precisa ser especialista em ciências políticas. Portanto, é possível antever uma situação de governabilidade estressante. De fato, a crise nos poderes da República se intensifica quando o futuro presidente não possui alinhamento ideológico com os ministros do Supremo Tribunal Federal. Consequentemente, governar torna-se um exercício cheio de impossibilidades reais no Executivo. Além disso, as seguidas interferências desta Corte ocorrem desde o início da campanha. Por isso, a maioria da população entende hoje que o Supremo atua como o principal personagem destas eleições. Assim, possui mais protagonismo do que os próprios candidatos.

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O Hipertrofismo do Judiciário e a Ausência de Garantias

Há, de fato, como as evidências mostram, um nítido hipertrofismo do Judiciário entre os poderes da República. Por conseguinte, mesmo na visão mais otimista dos constitucionalistas, a situação não deverá acabar bem.

Com isso, fica mais uma vez constatado o antigo dizer popular. Um homem ou grupo só mostra seu caráter por completo quando recebe poder sobre outros indivíduos. Portanto, não há garantias para quem quer que seja diante de uma situação como essa. Afinal, um pequeno grupo se arvora em ditar os rumos para uma grande maioria de pessoas. Além disso, essa população sequer concedeu tal poder a esses magistrados.

O Surrealismo Político e o Sentimento de Insegurança

Com isso, não chega a ser exagero afirmar um fato grave. Toda uma nação segue tateando no escuro à espera de saída. Todavia, enfrentamos uma situação surreal que chegou aos píncaros da excentricidade. Atualmente, segundo dados da Associação dos Magistrados Brasileiros, o número de processos pendentes no país ultrapassa a marca de 80 milhões de ações. Por causa desse cenário, existe hoje um medo latente diante do futuro.

O Desmanche dos Freios e Contrapesos na Crise nos Poderes da República

A origem dessa encruzilhada reside no paulatino desmanche do arranjo tripartite. Esse modelo foi originalmente concebido para equilibrar a República. Entretanto, o sistema original de freios e contrapesos transformou-se em uma balança viciada. Nesse arranjo, um único prato acumula o peso da caneta, da interpretação final e da execução sumária de decisões.

O cidadão comum, ao se dirigir às urnas, nutre uma ilusão. Ele acredita que está escolhendo os diretores dos destinos do país. Contudo, assiste à anulação sistemática de prerrogativas do Executivo e do Legislativo. Essas medidas ocorrem por expedientes canetados em gabinetes fechados. Dessa forma, descobre que o sufrágio universal virou uma mera formalidade decorativa.

A Fantasia Jurídica e o Estado de Exceção

O julgamento técnico cede lugar à militância política travestida de direito. Desse modo, a lei passa a ser uma teia tecida para enredar adversários e blindar aliados. Além do mais, criou-se um estado de exceção permanente. Este estado foi codificado sob o pretexto de defesa das instituições. Em razão disso, a própria Constituição é rasgada em nome de sua suposta proteção.

A Paralisia Administrativa Decorrente da Vassalagem Institucional

Qualquer plano de governo correrá o risco diário de ser trancado na gaveta. Do mesmo modo, diretrizes aprovadas pelo voto popular e medidas provisórias sofrem o mesmo impacto. Isso ocorre por decisão individual de um único magistrado.

Por consequência, instala-se a paralisia administrativa no país. Governa-se não mais pela busca da concretização de promessas de campanha. Pelo contrário, o ato de governar torna-se uma maratona humilhante de pedidos de vênia. Tais concessões operam sob a espada de Dâmocles de um processo ou de uma cassação iminente.

Cidadãos Perdidos no Tempo e o Futuro das Liberdades

O sentimento de desamparo que hoje ecoa das ruas não é fruto de histeria coletiva. Trata-se, de fato, da constatação direta de que o contrato social foi quebrado unilateralmente. A nação foi empurrada para um beco sem saída. Ademais, tornou-se refém de um ecossistema punitivo e sufocante. Esse sistema sufoca a liberdade de expressão, atropela o devido processo legal e trata qualquer discordância como ameaça à ordem.

O desfecho dessa crise nos poderes da República não virá do conformismo. Tampouco surgirá da passividade com que as ilegalidades foram naturalizadas. As lideranças políticas e a própria sociedade civil não podem continuar anestesiadas. Se aceitarem o papel de meras espectadoras dessa usurpação de poder, a ruína total das liberdades individuais será apenas uma questão de tempo.

Portanto, romper o cerco desse labirinto exige a restauração imediata dos limites constitucionais. Igualmente, exige a coragem de reenquadrar cada poder dentro de suas devidas atribuições. Devemos agir antes que a sombra do autoritarismo judicial se feche definitivamente sobre o país, sepultando o que resta de nossa soberania popular.

A frase que foi pronunciada:

“Os maiores detratores dos governos são aqueles que pretendem governar.”

Marquês de Maricá

História de Brasília

Uma particularidade da campanha do Agasalho foi visivelmente comentada na sede das Pioneiras. No bolso de um paletó ofertado foi encontrada uma dentadura. O objeto está à disposição do dono. (Publicada em 26.05.1962).

Crise no Supremo Tribunal Federal: O que nasceu torto não se endireita

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A crise no Supremo Tribunal Federal ganhou novos contornos após o pronunciamento da ministra Cármen Lúcia. Ao declarar consternação, admitir o mal-estar cívico e pedir desculpas ao povo brasileiro, a decana fez um diagnóstico devastador do próprio Poder Judiciário. Afinal, a declaração partiu de quem integrou a construção dessa estrutura ao longo de duas décadas.

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Debate eleitoral é uma obrigação moral e ética

Vergonha

Com uma frase mais grave a ministra não abordou apenas a vergonha individual. Além disso, ela lembrou que o Judiciário existe para tranquilizar a sociedade, mas gerou intranquilidade. Quando a corte responsável por pacificar a República se torna a principal fonte de sobressalto, a crise no Supremo Tribunal Federal deixa de ser conjuntural e revela uma falência institucional.

Perda da previsibilidade

O país precisa perguntar onde esse processo começou. O desgaste não surgiu espontaneamente em setembro de 2026. Ele nasceu quando o tribunal decidiu fazer política por meio da forma processual. Ao anular condenações sem analisar o mérito, utilizando argumentos de incompetência territorial, o tribunal dissolveu processos em tecnicalidades e reinseriu atores políticos na disputa eleitoral.

Desconfiança geral

Argumentou-se, na época, que a decisão refletia zelo garantista. Contudo, o resultado prático foi a restauração de velhos métodos e arranjos de bastidor. Com isso, a própria Corte que se apresentava como fiadora da democracia passou a enfrentar o desgaste de não conseguir investigar a si mesma.

Instituições se esvaindo: A ONU de guardiã da paz a palanque ideológico

Omissão institucional

Ao pedir desculpas por não ter promovido o rigor necessário, a ministra reconheceu uma omissão coletiva e continuada. Consequentemente, um tribunal que precisa se desculpar publicamente pelos próprios atos já proferiu uma sentença contra a sua própria atuação.

O depois

Além disso, a Constituição de 1988 confiou ao Supremo a guarda da Carta, mas não a curadoria do debate público. A ampliação de atribuições ao longo dos anos transformou a excepcionalidade em regra. Regimes de exceção, mesmo motivados por boas intenções declaradas, terminam devorando as instituições que os criaram.

Impactos políticos e econômicos

Impactos Políticos e Econômicos no País

As discussões internas no plenário paralisam o julgamento de pautas essenciais. O uso recorrente de pedidos de vista e disputas regimentais demonstra que o adiar virou método. Por conseguinte, esse cenário afeta diretamente a economia e a estabilidade das instituições.

  • Insegurança Jurídica: Pesa sobre contratos de longo prazo e afasta investimentos.
  • Apatia Legislativa: O Congresso reage à invasão de competências com soluções inadequadas.
  • Desgastes Eleitorais: O debate público acaba sequestrado por disputas de gabinetes.

Reformas estruturais

Esta crise no Supremo Tribunal Federal demonstra que não haverá conserto por meio de simples autocrítica. O tempo apenas acentua as inclinações de um modelo que perdeu a confiança da sociedade. Por conseguinte, para recuperar a legitimidade, o país precisa discutir reformas profundas. Medidas como mandatos com prazo certo, limitação de decisões monocráticas e critérios objetivos de indicação tornaram-se indispensáveis. O povo brasileiro não busca apenas desculpas formais, mas exige prestação de contas e responsabilidade institucional.

A frase que foi pronunciada:

“A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica.”

Blaise Pascal

História de Brasília

De tôdas as árvores plantadas na W-3, as mais bonitas são as magnólias, em frente às casas da ECPL, que começarão a florir dentro em pouco. ( Publicada em 26.05.1962)

O QUE NASCEU TORTO NÃO SE ENDIREITOU

Há discursos que valem menos pelo que dizem e mais pelo que denunciam sem querer. Foi o caso da manifestação da ministra Cármen Lúcia na sessão do dia 15 deste mês. Ao declarar-se em estado de consternação e tristeza, ao dizer-se envergonhada de estar ali, ao admitir que o Supremo Tribunal Federal provocou um mal-estar cívico no país e ao pedir desculpas ao povo brasileiro, a decana dos votos moderados fez muito mais do que um desabafo de ocasião. Fez um diagnóstico. E o diagnóstico é devastador precisamente porque veio de dentro, da boca de quem participou, ao longo de vinte anos, da construção do edifício que agora parece ruir.

A frase mais grave da ministra não foi a da vergonha. Foi outra: o Poder Judiciário existe para tranquilizar o povo, e nós geramos intranquilidade. Está aí, em uma linha, a medida exata do fracasso. Uma corte constitucional não é avaliada pela simpatia que desperta nem pela popularidade de seus ocupantes, mas por uma função única e insubstituível de ser o lugar da previsibilidade, o ponto fixo a que o cidadão recorre quando tudo o mais oscila e fica sem chão. Quando o tribunal encarregado de serenar a República se converte na principal fonte de sobressalto nacional, a menos de vinte dias de uma eleição presidencial, não há crise conjuntural. O que há é a  falência de função e tudo o mais que dela poder decorrer.

O país precisa ir além da comoção do momento e perguntar onde toda essa história começou. Esse é um exercício antigo que recomenda voltar atrás para retomar o caminho certo. Ela não começou em setembro de 2026, com relatórios da Polícia Federal circulando pelo plenário, com ministros acusando ministros de seletividade na divulgação de documentos, com mensagens trocadas entre um integrante da Corte e um banqueiro preso, com contratos milionários e pedidos de vista que empurram para o limbo aquilo que o país quer ver urgentemente julgado e finalizado. Tudo isso é apenas sintoma de uma doença que começou lá atrás.

A doença nasceu quando o Supremo decidiu que podia fazer política com a forma. Ao anular condenações inteiras sem enfrentar o mérito de uma única acusação,  valendo-se de filigranas como o caso da incompetência territorial ou de CEP, além da suspeição do julgador,  o tribunal não absolveu ninguém: simplesmente dissolveu o processo no ácido da tecnicalidade e devolveu à disputa presidencial um ator político que a jurisdição ordinária havia, de forma cristalina, condenado em três instâncias. A distinção entre inocentar e desfazer é jurídica, sofisticada e verdadeira. É também irrelevante para o efeito prático que se produziu, e o Supremo sabia disso quando produziu e fabricou esse veneno deletério . Ressuscitou-se um cadáver político, recolocando o defunto diretamente  no Planalto, com a chancela do carimbo processual e ajuda na balança desonesta de uma justiça contaminada pelo o que de pior tem a política.

Quem argumentou, à época, que se tratava de zelo garantista sustentava que o resultado eleitoral posterior legitimaria a decisão. Não foi o que se viu. O que se viu foi a restauração de métodos condenáveis do passado. O país que fora obrigado a passar a borracha sobre os escândalos do petrolão não aprendeu nada de novo, a não ser repetir o modelo velho e execrável do passado. Com isso, inevitavelmente voltaram os arranjos, as intermediações, o balcão em que interesse privado e decisão pública se encontram em algum ponto discreto da agenda. E, desta vez, o enredo alcançou o próprio tribunal que se apresentara como fiador moral do que chamava defesa da democracia.  A Corte que havia se colocado acima da política agora não consegue sequer decidir se pode ou não investigar a si mesma, e transfere para uma sessão futura, ou para a prescrição do interesse público, aquilo que deveria ter resolvido em uma tarde.

É aqui que a ministra, mesmo sem querer, entrega a chave do problema. Ela pediu desculpas por não ter ajudado a promover o rigor e a serenidade que deveria. Ou seja: reconheceu que houve omissão, e omissão continuada, e omissão coletiva. Ora, um tribunal que precisa se desculpar publicamente pelos próprios atos já proferiu contra si a sentença que se recusa a proferir contra seus membros. Nenhuma instituição sobrevive à admissão de que perdeu a régua com que mede os outros.

A Constituição de 1988 confiou ao Supremo a guarda da Carta  não a tutela da democracia, não a curadoria do debate público, não a arbitragem do que o cidadão pode dizer, não o comando de inquéritos em que o mesmo ministro acumula as funções de vítima, investigador, acusador e juiz. Cada uma dessas atribuições foi sendo assumida por conta própria, ao longo de uma década, sob o argumento sempre disponível da excepcionalidade. A excepcionalidade virou regime. E regimes de exceção, mesmo quando montados com togas em pretensas boas intenções declaradas, terminam invariavelmente do mesmo modo, ou seja,  devorando quem os construiu. O espetáculo do dia 15, com ministros expondo uns aos outros diante das câmeras, é a conta atrasada chegando.

Repare-se, ainda, no detalhe que resume o conjunto: a discussão que paralisou o plenário não foi sobre culpa ou inocência de quem quer que seja. Foi apenas sobre o rito  se os casos deveriam ser apreciados juntos ou separados, se cabia a um ministro levantar o sigilo de um procedimento que alcançava um colega, se a questão de ordem prosperava ou não. Terminou como tantas outras vezes, com um placar de quatro a três, pedido de vista, prazo que pode se arrastar por noventa dias e uma sessão futura marcada para depois de algum dia. O país acompanhou horas de embate público para sair sem resposta alguma. Não é lentidão,  é método. Adiar, no Supremo, deixou de ser um acidente do calendário e virou uma forma ou modelo sofisticado de decidir sem assinar embaixo, ou simplesmente sem decidir coisa alguma.

O preço disso não é abstrato. Pesa sobre a economia, que precifica insegurança jurídica em cada contrato de longo prazo. Pesa sobre um Congresso tomado pela apatia e  que reage à invasão de competências com propostas que vão na contramão do que espera o cidadão. A República do rabo preso dita o andamento de regras e tudo, credite ou não, pesa sobre a eleição em curso e sobre o futuro. Dessa forma é preciso deixar claro que  o  debate público foi sequestrado por uma disputa interna de gabinetes, com todo e qualquer  candidato  obrigado a se posicionar sobre o tribunal em vez dos reais problemas do país.  Qualquer que seja o vencedor, ele herdará uma crise que não criou e uma Corte que não confia em si mesma e toda uma herança deixada por um governo que voltou a vida por ação direta do Supremo. Isso não é normalidade republicana ,  é a antessala de um confronto entre Poderes cuja fatura ninguém sabe estimar, nem as eleições.

Não há conserto por dentro. Essa é a conclusão incômoda que a ministra chegou perto de formular e não formulou. Um tribunal cuja crise atual decorre não de  isolados, mas do acúmulo de decisões que subordinaram a norma à conveniência, não se corrige com autocrítica em plenário nem com notas de repúdio à imprensa. O que nasceu torto não se endireita com o tempo. O tempo apenas acentua a inclinação até a queda derradeira. Esse destino triste e incerto está à vista de todos, na jurisprudência que muda conforme o réu, no garantismo que floresce quando o acusado é conveniente e evapora quando não é, na suspeição que se enxerga com nitidez no juiz de Curitiba e que se torna invisível quando o espelho é o próprio plenário.

Dizer que o Supremo perdeu o direito de existir tal como muitos hoje reconhecem e dizem  não é ameaça nem arroubo retórico: é a constatação de que a legitimidade da corte não vem propriamente da Constituição escrita, e sim da confiança que ela difunde diariamente. Essa confiança acabou. O que resta é discutir ou talvez a  refundação com novos modelos e  mandatos com prazo certo, critérios objetivos e sabatina real para a indicação, fim das decisões monocráticas com efeito nacional, vedação absoluta de que o tribunal investigue causas em que seus integrantes sejam parte, prestação de contas de foro e de agenda. Qualquer coisa aquém disso será maquiagem em um edifício que já apresenta rachaduras na fundação.

A ministra pediu desculpas ao povo brasileiro. Não basta. O povo brasileiro, por sua vez, não pede desculpas: pede contas. E há de cobrá-las, nas urnas e fora delas, com a serenidade que a Corte não soube lhe oferecer. Porque o país poderia conviver com juízes que erram quando decidem na forma da lei. O que nenhuma República suporta por muito tempo é um tribunal que erra sempre na direção errada e patentemente contra os interesses da Nação.