A Grande Ilusão do Nosso Século

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Foto: Divulgação

Vivemos numa era em que a aparência suplantou a realidade. Das gôndolas de supermercado às tribunas do Congresso, do feed do Instagram ao cardápio de fast food tudo ostenta uma fachada polida que esconde o vazio ou a mentira por trás. O filósofo Guy Debord previu isso em 1967: a sociedade do espetáculo. Mas o que vivemos hoje vai muito além do que ele imaginou. Não se trata apenas de aparências superficiais. Trata-se de uma arquitetura sistemática do falso, erigida camada por camada, que substitui o real pelo simulacro, até que ninguém mais consiga distinguir um do outro.

George Orwell, em 1984, descreveu um Estado que fabricava mentiras. O que não previu é que o mercado faria o mesmo trabalho, com mais eficiência e sem precisar de cassetetes. “Quando tudo é espetáculo, nada é real — e quando nada é real, qualquer mentira pode parecer verdade.”

Consideremos a moda. Nas vitrines das redes mais populares do Brasil, expõem-se calças jeans fabricadas com rasgos e furos propositais, desbotamento artificial e manchas simuladas vendidas a R$ 350 a peça ou R$1.500. São roupas que, há três décadas, seriam enviadas ao brechó com pena. Hoje, são vistas como sinal de status, dependendo de uma etiqueta na peça. O consumidor paga como rico e se veste como pobre. A indústria da moda transformou o desleixo em estética, o pijama em roupa de rua e o moletom em traje para reuniões remotas. A pandemia acelerou esse colapso das fronteiras: o que se usava para dormir passou a ser aceitável em videoconferências profissionais. O conforto virou desculpa para a dissolução de qualquer padrão. E a indústria, naturalmente, lucrou em cada etapa.

No universo alimentar, a situação é ainda mais grave. Segundo a UFCSPA, mais de 57% das calorias consumidas por brasileiros vêm de alimentos ultraprocessados, aqueles compostos, majoritariamente, de amido modificado, xarope de glicose, corantes artificiais e estabilizantes. São produtos que ostentam embalagens vibrantes com imagens de frutas frescas, enquanto seus ingredientes reais se escondem em letras minúsculas numa fonte ilegível. Um iogurte industrializado típico pode conter apenas 3% de componente lácteo real. O resto é gelificante, adoçante e aroma artificial de morango que nunca viu um morango. A comida de astronauta, desenvolvida para sobrevivência em missões espaciais, desceu às gôndolas dos mercados populares não como inovação, mas como substituição da comida de verdade.

Na arena política, o fake ganhou sofisticação cirúrgica. Pesquisa do Instituto Reuters de 2024 apontou que o Brasil é o país com maior exposição à desinformação política no mundo. Não porque os brasileiros sejam mais ingênuos, mas porque as estruturas de distribuição de mentiras são aqui mais eficientes. Vemos candidatos que se apresentam como ‘do povo’ enquanto gerenciam fortunas offshore. Basta escolher qualquer nome e ler o discurso de posse. Vemos líderes que bradam contra a corrupção enquanto seus filhos registram contratos milionários com o Estado. A dicotomia esquerda-direita, que mobiliza multidões, serve muitas vezes apenas para ocultar que ambos os lados compartilham os mesmos financiadores.

A Guerra do Iraque em 2003 é o caso mais documentado: os EUA invadiram o país com base em ‘provas’ de armas de destruição em massa que jamais foram encontradas. Colin Powell apresentou ao Conselho de Segurança da ONU imagens de satélite que provaram ser fabricadas. Centenas de milhares morreram. Quando a mentira foi revelada numa publicação no The Guardian que dizia: “Um relatório do Senado dos EUA de 2004 detalhou que as avaliações da comunidade de inteligência sobre as armas de destruição em massa iraquianas, feitas antes da guerra, eram fundamentalmente falhas e amplamente influenciadas pela pressão do governo.” O mundo havia mudado e ninguém foi responsabilizado. O padrão se repete. A verdade que liberta chega sempre depois que os fatos já foram sepultados sob novos ciclos de notícias, novas guerras, novas indignações fabricadas. A mentira original cumpriu sua função; a revelação posterior é apenas uma nota de rodapé.

Hoje o Brasil abriga mais de 600 mil estabelecimentos religiosos registrados numero que supera farmácias, escolas e hospitais somados. Parte expressiva desses templos opera como franquias espirituais, onde a fé é monetizada com precisão empresarial: dízimos compulsórios, ‘sementes’ financeiras prometendo retorno sobrenatural, transmissões ao vivo com botão de PIX integrado. O Conselho Federal de Teologia não existe; qualquer pessoa pode se autointitular pastor e iniciar uma congregação. A ausência de regulação cria terreno fértil para o predador espiritual, aquele que usa o sagrado como alavanca para extrair recursos de quem já tem pouco. A fé é real; a estrutura que a comercializa, frequentemente, não.

O mundo fake não é um fenômeno recente nem uma conspiração organizada. É o resultado lógico de sistemas econômicos e políticos que recompensam a aparência sobre a substância, o curto prazo sobre o duradouro, o clique sobre a reflexão. A boa notícia, e há sempre uma, é que a mentira tem custo energético. Exige manutenção constante. A realidade, por mais inconveniente que seja, sempre encontra uma fresta. Cabe a cada um decidir se quer viver no conforto do simulacro ou na lucidez desconfortável do real.

 

A frase que foi pronunciada:
“As bombas atômicas estão se acumulando nas fábricas, a polícia patrulha as cidades, mentiras ecoam pelos alto-falantes, mas a Terra continua girando em torno do Sol.”
George Orwell

George Orwell

 

História de Brasília
O total das verbas liberada num só dia para Brasília atinge a cifra de um bilhão, quinhentos e oitenta e quatro milhões. (Publicado em 20.05.1962)

Crepúsculo da Razão e a Tentação da Servidão Voluntária

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Uma lição no gabinete de história natural; ilustração de “Elementary Work”, de Basedow, por Daniel Chodowiecki.

 

(Carta imaginária de Immanuel Kant para o Brasil em 2026)

Se me fosse permitido observar o estado presente da humanidade, após mais de dois séculos de minha passagem pelo mundo, encontraria uma civilização dotada de recursos materiais e capacidades técnicas que ultrapassariam qualquer expectativa concebível no século XVIII. O homem atravessa oceanos em horas, comunica-se instantaneamente através dos continentes e dispõe de instrumentos capazes de armazenar e processar mais informações do que todas as bibliotecas conhecidas de meu tempo. Mas a questão fundamental permanece inalterada: tornou-se o homem mais livre? A resposta, infelizmente, não parece tão evidente quanto os avanços tecnológicos poderiam sugerir.

Durante muito tempo, a humanidade acreditou que o progresso material seria acompanhado pelo aperfeiçoamento moral. Supunha-se que a expansão do conhecimento conduziria naturalmente ao esclarecimento, que denominei Aufklärung, a saída do homem de sua menoridade autoimposta. Esperava-se que cidadãos instruídos fossem menos suscetíveis ao medo, à manipulação e à tutela dos poderosos. Os acontecimentos recentes parecem desafiar tal esperança.

Uma epidemia de alcance global revelou não apenas a fragilidade dos corpos, mas também a vulnerabilidade dos espíritos. O medo, esse antigo instrumento de governo, reapareceu com extraordinária eficácia. Em muitas nações, homens e mulheres acostumados a proclamar sua independência aceitaram restrições antes impensáveis sem questionamento significativo. Não cabe aqui discutir a necessidade ou não de medidas específicas. O ponto filosófico é outro. A verdadeira preocupação surge quando a obediência deixa de ser resultado da convicção racional e passa a ser produto da simples conformidade. O esclarecimento exige coragem. Exige a disposição de perguntar, de duvidar, de examinar. Quando a dúvida passa a ser considerada suspeita e o questionamento converte-se em transgressão moral, algo essencial à liberdade humana encontra-se ameaçado.

A divisão crescente das sociedades contemporâneas constitui outro fenômeno digno de atenção. Em vez de cidadãos empenhados na busca comum da verdade, observam-se tribos ideológicas empenhadas na confirmação de suas certezas. Os indivíduos não procuram argumentos para testar suas crenças; procuram argumentos para protegê-las. A razão, criada para servir ao conhecimento, converte-se em advogada das paixões. Cada grupo considera-se portador exclusivo da virtude. Cada facção vê na outra não um adversário a ser persuadido, mas um inimigo a ser derrotado. O resultado inevitável é a deterioração do espaço público. O diálogo transforma-se em disputa, a disputa transforma-se em hostilidade e a hostilidade prepara o terreno para novas formas de autoritarismo. Nenhum governo precisa impor censura severa quando os próprios cidadãos aprendem a censurar uns aos outros. Entretanto, seria equivocado atribuir toda responsabilidade aos governantes. A servidão raramente se sustenta apenas pela força. Ela frequentemente depende da colaboração dos próprios submetidos. Muitos indivíduos preferem a segurança da orientação externa ao peso da responsabilidade moral. Desejam que alguém lhes diga o que pensar, o que sentir, o que aprovar e o que condenar. A liberdade exige esforço. A dependência oferece conforto.

Outro aspecto preocupante consiste na crescente subordinação dos princípios aos interesses. Observa-se, em diversos campos da vida pública, uma tendência a avaliar a moralidade das ações não por sua conformidade com o dever, mas por sua utilidade imediata. O que gera lucro torna-se virtuoso. O que produz vantagem política torna-se justificável. O que fortalece determinado grupo passa a ser considerado legítimo. Entretanto, uma sociedade incapaz de distinguir entre conveniência e dever encontra-se em processo de erosão moral.

O imperativo categórico permanece simples em sua formulação e exigente em suas consequências. Antes de agir, cada indivíduo deveria perguntar a si mesmo se aceitaria que a máxima de sua conduta se transformasse em lei universal. A resposta a essa pergunta eliminaria grande parte das hipocrisias contemporâneas.

Muitos defendem para si direitos que negam aos outros. Muitos exigem tolerância para suas opiniões enquanto recusam tolerância às opiniões divergentes. Muitos denunciam abusos quando são vítimas deles, mas permanecem silenciosos quando os abusos favorecem suas causas. Nenhuma dessas atitudes resiste ao teste da universalização.

Ainda assim, não convém concluir este ensaio em tom de desespero. A história humana jamais foi uma marcha linear em direção ao aperfeiçoamento. O progresso moral sempre ocorreu por meio de avanços e retrocessos. A liberdade frequentemente parece enfraquecida antes de recuperar sua força. Permanece válido, portanto, o ideal do esclarecimento.

O destino da civilização não será decidido pelas máquinas, pelos mercados ou pelos governos, mas pela capacidade dos indivíduos de exercerem sua autonomia moral. O maior perigo continua sendo a renúncia voluntária ao uso da própria razão. Enquanto existirem homens e mulheres dispostos a pensar por si mesmos, a examinar criticamente as autoridades, a submeter suas próprias convicções ao escrutínio da razão e a tratar os demais como fins em si mesmos, a esperança não estará perdida.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Não somos ricos pelo que possuímos, mas pelo que podemos dispensar.”
Immanuel Kant

Immanuel Kant. Imagem: reprodução / internet

 

História de Brasília
O Ministério da Saude, por sua vez, autorizou a liberação de uma verba de 574 milhões de cruzeiros para a Fundação Hospitalar. Esta verba irá para o Rio, onde passará pela Divisão de Orçamento. Em seguida, será registrada no Tribunal de Contas, para pronta utilização. (Publicado em 20.05.1962)

O PIX nosso de cada dia

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Foto: reprodução da internet

 

Poucas inovações produzidas pelo Estado brasileiro alcançaram, em tão pouco tempo, o grau de aceitação popular obtido pelo PIX. Criado pelo Banco Central e lançado oficialmente em novembro de 2020, o sistema de pagamentos instantâneos alterou hábitos de consumo, transformou relações comerciais e modificou profundamente a circulação de recursos dentro da economia nacional. Em menos de cinco anos, tornou-se um dos instrumentos financeiros mais utilizados do planeta, superando modalidades tradicionais de transferência bancária e reduzindo significativamente a dependência do dinheiro em espécie. Muito além de uma ferramenta tecnológica, o PIX representa uma mudança estrutural na forma como pessoas, empresas e governos movimentam recursos. A rapidez das operações, a disponibilidade durante vinte e quatro horas por dia e a eliminação de diversas tarifas bancárias fizeram com que a modalidade se popularizasse entre todas as camadas sociais.

Dados do Banco Central mostram que mais de 170 milhões de pessoas e empresas já possuem chaves cadastradas no sistema. O número de transações supera dezenas de bilhões de operações anuais, movimentando trilhões de reais. Em determinados períodos, o PIX já ultrapassou cartões de débito, boletos bancários, TEDs e DOCs somados em quantidade de operações. O sucesso do sistema não ocorreu por acaso. Durante décadas, transferir dinheiro no Brasil significava enfrentar tarifas elevadas, horários restritos e burocracias diversas. Operações simples muitas vezes exigiam deslocamentos físicos até agências bancárias ou dependiam de sistemas lentos e caros. A chegada do PIX eliminou grande parte dessas barreiras. Pequenos comerciantes talvez tenham sido os maiores beneficiários dessa transformação. Antes obrigados a suportar custos relacionados a maquininhas de cartão, taxas de antecipação de recebíveis e prazos para recebimento de valores, passaram a contar com uma ferramenta de liquidação imediata e custo praticamente inexistente.

Em feiras livres, pequenos mercados, salões de beleza, oficinas mecânicas, vendedores ambulantes e milhares de outros negócios espalhados pelo país, o PIX tornou-se a principal forma de pagamento. Dinheiro que antes demorava dias para chegar ao caixa passou a circular instantaneamente. Essa velocidade possui reflexos importantes sobre a economia. Quanto mais rápido o dinheiro circula, maior tende a ser a atividade econômica. Recursos que permaneciam retidos em processos bancários passaram a ser reinvestidos, consumidos ou utilizados quase imediatamente. Trata-se de um ganho de eficiência raramente observado em sistemas financeiros tradicionais. Outro aspecto relevante foi a inclusão financeira. Milhões de brasileiros que possuíam acesso limitado aos serviços bancários passaram a participar mais intensamente do ambiente digital de pagamentos. O telefone celular transformou-se numa verdadeira carteira eletrônica capaz de realizar operações a qualquer hora e em qualquer lugar.

O fenômeno chamou a atenção internacional. Diversos bancos centrais e instituições financeiras passaram a estudar o modelo brasileiro. Países como Índia, Singapura e outros mercados emergentes já possuem sistemas semelhantes, mas o grau de adesão alcançado pelo PIX colocou o Brasil entre as principais referências globais em pagamentos instantâneos.
Por essa razão, parece improvável imaginar um retrocesso significativo nesse sistema. Quando uma tecnologia alcança tamanho grau de aceitação popular, sua permanência passa a depender muito mais da vontade dos usuários do que das instituições que a cercam. O mercado tende a consolidar aquilo que funciona.

Nesse contexto surgem debates envolvendo interesses econômicos distintos. O PIX reduziu receitas obtidas anteriormente por meio de tarifas bancárias, transferências eletrônicas e determinados serviços financeiros tradicionais. Naturalmente, mudanças dessa magnitude alteram estruturas consolidadas há décadas. Instituições financeiras tiveram de adaptar seus modelos de negócios. Algumas passaram a investir em novos produtos digitais. Outras ampliaram serviços complementares. O mercado respondeu com inovação. Afinal, tecnologias que aumentam eficiência costumam deslocar receitas de setores tradicionais para novas áreas da economia.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o sistema financeiro ainda opera fortemente apoiado em cartões, transferências convencionais e estruturas privadas de pagamento. Embora existam iniciativas de pagamentos instantâneos, nenhuma alcançou, até o momento, o grau de universalização observado no Brasil. Especialistas do setor observam que modelos como o PIX pressionam estruturas tradicionais de cobrança. Isso não significa necessariamente oposição institucional ao sistema brasileiro, mas evidencia a existência de interesses econômicos afetados pela mudança tecnológica.

Outro aspecto frequentemente debatido diz respeito à eventual cobrança de tarifas sobre operações realizadas por pessoas físicas. Até o momento, a ampla aceitação do PIX está diretamente associada à simplicidade e ao baixo custo para os usuários. Qualquer alteração significativa nesse equilíbrio poderia encontrar resistência social considerável. A experiência internacional mostra que sistemas financeiros bem-sucedidos costumam crescer justamente quando reduzem atritos para os consumidores.

Em poucos anos, o PIX tornou-se parte integrante da vida econômica nacional. Não se trata apenas de uma ferramenta bancária. Tornou-se infraestrutura básica de funcionamento do comércio, dos serviços e das relações financeiras cotidianas. Quando isso acontece, dificilmente uma inovação desaparece. Ela tende, ao contrário, a se expandir e servir de modelo para outros sistemas ao redor do mundo.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“O PIX uniu direita e esquerda.”

Dona Dita enquanto cria nova chave

Charge do Cazo

 

História de Brasília
O ministério da Fazenda elaborou um esquema para o emprego de 400 milhões pela Prefeitura do Distrito Federal. (Publicado em 20.05.1962)

Imposto na Marra

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Charge do Cazo

 

Em 2016, o Brasil consolidou um triste recorde: atingiu a maior carga tributária bruta de sua história, ultrapassando a barreira dos 36% do Produto Interno Bruto. Em meio a uma das piores recessões das últimas décadas, com desemprego em alta, consumo em queda e empresas fechando as portas, o Estado brasileiro optou por apertar ainda mais os parafusos sobre contribuintes já exauridos.

Nosso país mantém hoje quase cem tributos ativos entre impostos federais, estaduais e municipais, taxas e contribuições de toda ordem. O ICMS, o ISS, o PIS, o COFINS, a CSLL, o IRPJ, o IOF, o IPI, as contribuições previdenciárias e dezenas de outras exações se sobrepõem em camadas que tornam qualquer atividade produtiva um exercício de sobrevivência contábil. Para cada real gerado, mais de um terço é imediatamente absorvido pelo Tesouro, antes mesmo de qualquer despesa operacional. O resultado é o chamado “custo Brasil”: uma combinação de burocracia, insegurança jurídica e tributação confiscatória que coloca o país em desvantagem competitiva frente a qualquer economia minimamente organizada.

Enquanto a média da OCDE situa-se ao redor de 34% do PIB em carga tributária com retorno em serviços de qualidade , o Brasil cobra o mesmo ou mais e entrega serviços públicos notoriamente precários. O economista norte-americano Arthur Laffer demonstrou, com elegante simplicidade, que existe um ponto além do qual o aumento de alíquotas resulta em queda da arrecadação. Abaixo de certo patamar, a tributação incentiva a atividade produtiva e o cumprimento fiscal voluntário. Acima dele, desestimula o investimento, expulsa capitais, estimula a informalidade e reduz a base tributável. O paradoxo é flagrante: ao cobrar mais, o Estado arrecada proporcionalmente menos do que poderia, pois a atividade econômica se contrai, a sonegação cresce e a evasão fiscal legal e ilegal se torna estratégia racional de sobrevivência empresarial.

Parece que a pressão fiscal excessiva não apenas destrói riqueza; ela destrói a própria base sobre a qual a arrecadação futura deveria se sustentar. Multinacionais relocam suas operações para países vizinhos Uruguai, Chile, Colômbia onde a carga é significativamente menor e a previsibilidade jurídica, maior. Empresas nacionais de médio porte, incapazes de arcar com a estrutura de compliance tributário exigida, optam por migrar parcelas de sua produção para o exterior ou simplesmente encerrar atividades. A indústria brasileira, que chegou a representar 32% do PIB nos anos 1980, viu sua participação encolher para menos de 12% em 2016. Parte dessa desindustrialização deve-se à tributação em cascata que onera cada elo da cadeia produtiva, tornando o produto nacional não competitivo mesmo dentro do próprio mercado interno.

Desse modo o Brasil fabrica cada vez menos e importa cada vez mais— para depois tributar as importações também, num ciclo kafkiano de ineficiência. Os números de falências e recuperações judiciais em 2016 atingiram patamares alarmantes. O Serasa Experian registrou crescimento expressivo nos pedidos de recuperação judicial no período, com micro e pequenas empresas respondendo pela esmagadora maioria dos casos. Para esses negócios, a carga tributária não é abstração econômica é causa direta de encerramento.

Um estabelecimento que não consegue repassar ao preço final o custo do Simples, do INSS patronal e das guias municipais, simplesmente fecha. O desemprego resultante alimenta o círculo vicioso: menos trabalhadores formais significam menor arrecadação previdenciária, o que pressiona o governo a elevar alíquotas sobre os contribuintes remanescentes, que por sua vez reduzem ainda mais a contratação. É a dinâmica predatória de um sistema fiscal que se alimenta de sua própria destruição.

Um sistema que pune o trabalho, o investimento e a produção enquanto preserva privilégios de grupos específicos não pode ser chamado de justo. A simplificação do modelo, a exoneração da folha de pagamentos, a eliminação de tributos cumulativos e a adoção de uma estrutura de IVA moderno como fizeram dezenas de países com sucesso é o que esperam os pagadores de impostos. Enquanto o Estado brasileiro não compreender que tributar em excesso não é sinônimo de responsabilidade fiscal, mas sim de miopia estratégica, continuaremos a produzir recordes que ninguém deseja celebrar. O fardo que carregamos é pesado demais.

 

A frase que foi pronunciada:
“Se a história pudesse nos ensinar alguma coisa, seria que a propriedade privada está intrinsecamente ligada à civilização.”
Ludwig von Mises

Ludwig von Mises. Fonte da imagem: Imagem da capa Wikimedia Commons.

 

Ao vento
No Plano Piloto, falta policiamento. Motocicletas disputam calçadas com pedestres, brigas de moradores de rua assustam, disputas no trânsito correm sem fiscalização.

 

História de Brasília
Como sempre, o st. Afonso Almiro viajou para o Rio no mesmo dia, mas nessa oportunidade, prestou um relevante serviço ao Distrito Federal, e, particularmente, às Fundações da Prefeitura do Distrito Federal. (Publicado em 20.05.1962)

Pela sabedoria humana

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Foto: vaticannews.va

 

A Magnífica Humanitas não fala apenas para os 1,4 bilhão de católicos no mundo, fala para qualquer pessoa que acredite que o ser humano não pode ser reduzido a dado, a usuário, a perfil de comportamento, a insumo de treinamento. E essa crença não exige fé religiosa: exige apenas que se leve a sério a pergunta sobre o que nos faz humanos. “Desarmar não significa recusar a tecnologia, mas impedir que ela domine a humanidade”, diz o texto. Há uma coragem intelectual rara na decisão de Leão XIV de fazer da inteligência artificial (IA) o tema central de sua primeira encíclica.

Como estreias, os papas costumam introduzir seus pontificados com documentos cristológicos ou eclesiológicos sobre Cristo, sobre a Igreja. Leão XIV escolheu falar sobre algoritmos, sobre trabalho precário digital, sobre armas autônomas, sobre transhumanismo e pós-humanismo, sobre o risco de que a busca por otimização substitua a busca por sentido. É um gesto de leitura fina da história: reconhecer que o maior desafio pastoral do século 21 não é a secularização em si, mas a substituição silenciosa do humano por métricas de eficiência.

A encíclica critica explicitamente o transhumanismo, ideologia cada vez mais influente nos centros de poder do Vale do Silício de que o ser humano deve e pode ser superado por versões tecnologicamente aprimoradas de si mesmo. Para Leão XIV, a humanidade, mesmo “ferida”, “não deve ser substituída nem superada”. É uma frase simples que contradiz diretamente o discurso de figuras como aquelas que investem bilhões na promessa de imortalidade digital, de uploads de consciência, de fusão entre humano e máquina. A Igreja diz não. E diz com argumentação filosófica, não apenas com dogma.

O Brasil é um caso de estudo singular nesse debate. País de dimensões continentais, com uma das maiores populações do mundo, somos simultaneamente grandes consumidores de tecnologia e grandes produtores das desigualdades que a IA pode aprofundar. Já temos algoritmos decidindo sobre concessão de crédito, sobre candidatos em processos seletivos, sobre monitoramento de periferias urbanas, muitas vezes sem transparência, sem recurso e sem que as populações afetadas sequer saibam que uma máquina está tomando decisões sobre suas vidas.

A Magnífica humanitas chega, portanto, num momento em que o Brasil precisa de parâmetros éticos para a própria política de IA. O Marco Legal da Inteligência Artificial tramita no Congresso, as pressões de empresas contrárias à regulação são intensas, e a sociedade civil ainda não conseguiu articular com força suficiente uma visão de IA que proteja direitos fundamentais. Um documento que
mobilize a base cristã do país, a maior base religiosa de uma nação majoritariamente cristã, em torno de princípios como dignidade humana, bem comum e recusa da escravidão digital pode ter um peso político concreto.

Seria desonesto, neste espaço que preza pela honestidade intelectual, não registrar também as tensões inevitáveis do documento. A Igreja que assina essa encíclica é a mesma que demorou séculos para reconhecer seus crimes históricos, que ainda enfrenta crises de credibilidade profundas ligadas a escândalos de abuso. A crítica ao poder tecnológico ganha força moral quando vem de uma instituição que pratica, internamente, os valores que professa externamente. Esse é um projeto inacabado.

Há também a questão da implementação. Encíclicas são documentos de orientação moral, não de regulação técnica. Nenhuma lei será promulgada pela Magnífica humanitas. Nenhuma corporação será obrigada a mudar seus termos de serviço. O poder da Igreja nesse campo é o poder da palavra, e o poder da palavra, nas condições atuais de fragmentação da atenção e desinformação algorítmica, é um poder real, mas limitado. Inspira legisladores, ativa consciências, fortalece movimentos, mas esse documento depende de atores concretos para se traduzir em mudança.

Ainda assim, registramos aqui o que julgamos ser o mérito central da iniciativa: Leão XIV fez a pergunta certa. Não perguntou “como podemos usar a IA para crescer?”, como perguntam os governos. Não perguntou “como podemos monetizar a IA de forma sustentável?”, como perguntam as corporações. Perguntou “o que a IA faz com o ser humano? E o que queremos que o ser humano seja?”. Essas são as perguntas que a civilização técnica sistematicamente evita, porque suas respostas honestas perturbam os modelos de negócio vigentes. “A IA não é neutra.”

Num mundo em que a velocidade do desenvolvimento tecnológico superou a capacidade das instituições políticas e jurídicas de acompanhá-lo, é surpreendente — e bem-vindo — que a mais antiga instituição ocidental ainda em funcionamento seja a que chama ao freio, à reflexão e ao cuidado com os que ficam para trás. Não é pouco. É, talvez, exatamente o que a época exige. A Magnífica humanitas não vai parar a corrida da IA. Mas pode ajudar a estabelecer, com uma linguagem que atravessa fronteiras culturais e seculares, que existe algo que não deve ser colocado à venda, otimizado por gradiente descendente ou substituído por eficiência computacional: a dignidade de cada ser humano. Enquanto houver quem faça essa pergunta — seja num laboratório de ética, seja num Parlamento, numa sala de aula ou numa sala sinodal do Vaticano —, há esperança de que a escolha que o papa descreve ainda seja possível. A cidade ainda pode ser construída.

 

A frase que foi pronunciada:
“Estruturas legais robustas, supervisão independente, usuários informados e um sistema político que não se exima de sua responsabilidade”.
Papa Leão XIV, sobre a inteligência artificial

Papa Leão XIV. Foto: Reprodução/Vatican News

 

História de Brasília
Mas esteve em Brasília o sr. Afonso Almiro. Diretor Geral da Fazenda Nacional, que, façamos justiça, resolveu em pouco tempo a questão em tôrno de uma verba que poderia não ser recebida. (Publicado em 20/5/1962)

A troca da inteligência artificial

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Papa Leão XIV. Foto: Reprodução/Vatican News

 

Numa segunda-feira de maio, enquanto os mercados globais de tecnologia somavam mais um trilhão em capitalização, um homem de hábito branco sentou-se diante de cardeais e engenheiros de inteligência artificial (IA) no Vaticano. Nunca antes um papa havia estado presente na Sala Sinodal para apresentar ao público um documento magisterial próprio. O gesto era, em si, uma declaração. E o documento que trazia nas mãos, a encíclica Magnifica humanitas, pode ser a mais importante provocação ética do ano. Existe uma tradição dentro da Igreja Católica de responder às grandes revoluções do capitalismo com documentos sociais.

Em 1891, o papa Leão XIII publicou a Rerum novarum, enfrentando de frente os horrores da industrialização, o trabalho infantil, a miséria operária, o acúmulo obsceno de riqueza numa era de máquinas a vapor e chaminés negras. Cento e trinta e cinco anos depois, e não por acaso nessa data exata, o papa Leão XIV assina a Magnifica humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA. O nome escolhido para o pontificado não foi acidente: é uma declaração de continuidade histórica. A nova revolução industrial chegou, e a Igreja pretende ter algo a dizer sobre ela.

A encíclica, dividida em cinco capítulos e com mais de 230 páginas, parte de uma premissa que parece singela, mas é radicalmente subversiva dentro do espírito da época: a tecnologia não é neutra. Numa era em que Silicon Valley vendeu ao mundo a ideia de que o código é pura ferramenta, um martelo não tem moral, argumentam os tecnoentusiastas, Leão XIV diz o contrário com precisão teológica e filosófica.

A IA não é má em si mesma, reconhece o documento, mas também não é inocente. Toda tecnologia carrega consigo os valores, as estruturas de poder e os interesses econômicos de quem a projeta e de quem financia seu desenvolvimento. Fingir o contrário é uma mentira confortável e lucrativa.

Segundo a encíclica, o desafio é “construir uma nova Torre de Babel ou edificar a cidade na qual Deus e a humanidade habitem juntos”. A metáfora da Torre de Babel, usada pelo próprio papa na abertura do documento, é mais do que retórica bíblica. É um diagnóstico preciso da arquitetura atual do poder tecnológico: uma construção monumental financiada por um punhado de corporações, edificada sobre a ilusão de que a tecnologia nos tornará onipotentes, capaz de conectar tudo e a todos e, ao mesmo tempo, profundamente destrutiva da linguagem comum, da confiança mútua e do sentido coletivo.

A Babel digital não derruba as torres; ela destrói os laços. E o papa parece ter enxergado isso. A encíclica não é um documento reacionário. Leão XIV não pede que se apague o código. Pelo contrário: reconhece que a IA pode ser instrumento de libertação, de diagnóstico médico, de democratização do conhecimento. O que o documento questiona, e aqui está sua força provocadora, é quem decide como, a serviço de quem e com qual velocidade essa tecnologia é implantada. Pede prudência. Pede sobriedade. Pede, em linguagem papal, algo que os conselhos de administração das grandes techs tratam como blasfêmia: desaceleração.

O papa chama isso de “desarmar a IA”. A expressão é feliz e incômoda ao mesmo tempo. Desarmar não significa destruir, significa retirar da tecnologia a pretensão de ser neutra, inevitável, imparável. Significa questionar a ideia, hoje dominante nos corredores do poder técnico-financeiro, de que quem tem o poder computacional tem automaticamente o direito de governar.

Como as “novas formas de escravatura”, a encíclica denuncia a economia digital: trabalhadores precários que treinam modelos de linguagem por salários miseráveis, crianças em regiões pobres que trituram terras raras com as próprias mãos para que os chips existam, comunidades inteiras cujos dados são extraídos como matéria-prima sem consentimento real. É um retrato que os relatórios anuais das grandes corporações de tecnologia sistematicamente omitem. Que a imprensa econômica raramente coloca em manchete. Que os governos, seduzidos pela promessa de crescimento e pela pressão dos lobbies, evitam regulamentar com seriedade. A Igreja, sem acionistas a satisfazer, sem anunciantes a proteger e sem eleições a vencer, pode dizer o que muita gente sabe e poucos têm coragem de gritar.

Vivemos um momento de singular fragilidade coletiva. As democracias ocidentais enfrentam crises de legitimidade agravadas por algoritmos que amplificam raiva e desinformação. As guerras, e há mais de uma em curso, utilizam drones autônomos, vigilância por IA e sistemas de decisão que retiram o julgamento humano do campo de batalha. O aquecimento global acelera, enquanto os servidores que sustentam os grandes modelos de linguagem consomem quantidades crescentes de energia e água. A concentração de riqueza aumenta, e parte significativa desse aumento se deve à vantagem acumulada por quem controla os dados e as infraestruturas de IA. Nesse contexto, uma encíclica papal pode parecer um anacronismo para quem vive dentro da bolha secular do tecnocentrismo. Seria um equívoco grave pensar assim.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“A inteligência artificial exige agora ser desarmada, libertada das lógicas que a transformam em instrumento de dominação, exclusão e morte”.
Papa Leão XIV

 

 

História de Brasília

As notícias para Brasília são as melhores possíveis. O ministro da Fazenda não fez, no dia anunciado, o esquema de verbas para Brasília porque não veio ao DF na quarta-feira, como estava anunciado. (Publicado em 20/5/1962)

Voluntariado ao calabouço

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Charge do Cazo

 

Dados divulgados pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda apontam que o mercado regulado de apostas online movimentou aproximadamente R$ 17,4 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025. Estimativas apresentadas pelo Banco Central (BC) durante debates no Senado Federal indicam que o fluxo mensal de recursos destinados às apostas pode variar entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou durante audiência pública, que “há preocupação institucional com os impactos das apostas sobre o endividamento das famílias brasileiras”. O tema passou a integrar discussões sobre estabilidade financeira, crédito ao consumidor e comportamento de consumo.

Levantamento realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo estimou que o avanço das apostas online pode provocar impacto superior a R$ 100 bilhões anuais sobre o varejo nacional, em razão da transferência de parte da renda das famílias para plataformas digitais de apostas. O estudo apontou redução do consumo em segmentos ligados à alimentação, vestuário, eletrodomésticos e serviços.

A relação entre apostas digitais e vulnerabilidade financeira também passou a mobilizar instituições bancárias e empresas do setor privado. Relatórios corporativos divulgados por Itaú Unibanco, XP Inc., Assaí Atacadista e Tok&Stok identificaram aumento da inadimplência familiar associado ao crescimento das apostas on-line. Parte das análises observou migração de recursos antes destinados à poupança, ao consumo doméstico e aos investimentos para plataformas digitais de jogos.

Segundo levantamento do SPC Brasil e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, aproximadamente 39 milhões de brasileiros realizaram apostas online nos últimos doze meses. A pesquisa mostrou ainda que 46% dos apostadores declararam já ter reduzido gastos cotidianos para manter atividades de apostas. Entre os entrevistados, parcela significativa relatou comprometimento de orçamento familiar, atraso de contas e aumento do uso de crédito pessoal.

O tema também alcançou a área da saúde pública. Estudos conduzidos pela Fundação Oswaldo Cruz e por universidades federais passaram a analisar crescimento de sintomas relacionados à ansiedade, compulsão, depressão e dependência comportamental associados ao uso intensivo de plataformas de apostas digitais. O psiquiatra Valentim Gentil afirmou, em seminário sobre saúde mental e jogos, que “o transtorno do jogo compulsivo apresenta dinâmica semelhante à dependência química em muitos pacientes”.

Além dos efeitos econômicos e psicológicos, autoridades passaram a discutir possíveis vulnerabilidades regulatórias do setor. O Ministério Público Federal analisa mecanismos jurídicos relacionados à atuação de empresas autorizadas a operar apostas online no Brasil. Paralelamente, o Ministério da Fazenda iniciou processos de revisão cadastral, fiscalização tributária e adequação das plataformas às novas regras de licenciamento.

O crescimento do setor coincidiu com a intensificação da publicidade de apostas esportivas em transmissões esportivas, redes sociais e plataformas digitais. Clubes de futebol, influenciadores e emissoras de televisão passaram a firmar contratos milionários com empresas de apostas. Em resposta ao avanço dessa publicidade, projetos legislativos apresentados no Congresso Nacional discutem restrições à propaganda direcionada a menores de idade e consumidores vulneráveis.

Outro ponto observado pelas autoridades financeiras envolve a utilização de recursos provenientes de programas sociais em apostas digitais. Estudos apresentados ao Senado indicaram movimentação relevante de valores oriundos de contas associadas ao programa Bolsa Família em plataformas de apostas. Técnicos do governo passaram a discutir mecanismos de bloqueio e controle para evitar utilização indevida desses benefícios.

Especialistas em segurança pública também passaram a analisar o setor sob a perspectiva da lavagem de dinheiro e da atuação de organizações criminosas. Relatórios internacionais produzidos pelo Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI) apontam que plataformas digitais de apostas podem ser utilizadas em operações de ocultação patrimonial, especialmente quando associadas a pagamentos instantâneos, criptomoedas e operações transnacionais.

O Brasil tornou-se um dos maiores mercados globais de apostas online em volume de usuários e movimentação financeira. O crescimento acelerado ocorreu em paralelo à consolidação de um ecossistema digital que reúne publicidade massiva, crédito facilitado, pagamentos instantâneos e acesso contínuo por dispositivos móveis. O debate atual envolve não apenas arrecadação tributária e regulação econômica, mas também impactos sociais, financeiros e institucionais associados à expansão desse novo mercado digital.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Há duas ocasiões na vida em que uma pessoa não deve jogar: quando não tiver posses para isso – e quando tiver.”

Mark Twain

Mark Twain. Foto: biography.com

 

História de Brasília
Quanto às quadras do Setor Comercial Residencial, é preciso que o povo veja a numeração, para saber que é correspondente à da superquadra que fica logo atrás. (Publicada em 18.05.1962)

Na era da midiocracia

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Ilustração: bloghemia.com

 

Não há mais tanta utilidade em tentar antecipar quem ocupará o Palácio do Planalto após 2026, quais partidos formarão maioria no Congresso Nacional ou que grupos tradicionais dominarão os governos estaduais. Parte dos estudos contemporâneos em ciência política, filosofia da tecnologia e sociologia digital passou a discutir a hipótese de que as estruturas clássicas de poder construídas entre os séculos XVIII e XX estejam atravessando um processo gradual de deslocamento histórico. Em lugar da centralidade do Estado nacional, surgem sistemas de influência organizados em torno da informação, dos fluxos digitais e das plataformas tecnológicas globais.

Luciano Floridi, filósofo italiano, professor da Universidade de Oxford e um dos principais teóricos da chamada “filosofia da informação”, utiliza o conceito de hiper-história para descrever sociedades cuja sobrevivência depende integralmente das Tecnologias da Informação e Comunicação. Segundo Floridi, “sociedades hiper-históricas prosperam apenas quando baseadas em TICs e são extremamente vulneráveis a ataques informacionais”. A afirmação aparece em estudos que analisam a transformação da informação em principal eixo de organização econômica, política e cultural do século XXI.

Com o avanço das chamadas TICs, Tecnologias da Informação e Comunicação, altera-se profundamente o funcionamento das relações sociais. Internet, redes sociais, computação em nuvem, inteligência artificial, algoritmos de recomendação e plataformas digitais passaram a mediar não apenas a circulação de dados, mas também relações econômicas, afetivas, profissionais e políticas. A informação tornou-se matéria-prima estratégica.

Empresas como Alphabet, Meta, Amazon, Microsoft e Tencent passaram a concentrar capacidade inédita de coleta, processamento e distribuição de informações em escala planetária. Em alguns casos, o faturamento anual dessas corporações supera o Produto Interno Bruto de diversos países médios. A Alphabet registrou receita superior a US$ 350 bilhões em 2025. A Meta ultrapassou 3 bilhões de usuários ativos mensais em suas plataformas digitais.

Byung-Chul Han, cientista político sul-coreano, passou a utilizar o conceito de “infocracia” para descrever sistemas em que o poder deixa de operar prioritariamente pela coerção física e passa a funcionar pela gestão algorítmica da informação, da atenção e do comportamento. Em uma de suas formulações mais conhecidas, Han afirma que “a informação produz uma nova forma de dominação”. Para o filósofo, o excesso de dados, estímulos e comunicação contínua altera os próprios mecanismos tradicionais da democracia representativa.

Ao mesmo tempo, governos nacionais enfrentam crescente dificuldade para controlar fluxos informacionais transnacionais. Plataformas digitais operam simultaneamente em centenas de países, armazenam dados em servidores distribuídos globalmente e utilizam estruturas jurídicas que frequentemente escapam aos modelos clássicos de regulação estatal. Questões envolvendo privacidade, soberania digital, inteligência artificial e manipulação algorítmica tornaram-se centrais na agenda geopolítica contemporânea.

Estados Unidos e China concentram atualmente os maiores investimentos globais em IA generativa, semicondutores e infraestrutura computacional. Relatório da Stanford University divulgado em 2025 mostrou que investimentos privados globais em inteligência artificial ultrapassaram US$ 180 bilhões em um único ano. A tecnologia tornou-se simultaneamente instrumento econômico, militar e político.

Yuval Noah Harari, historiador israelense, sustenta que “quem controlar os dados controlará o futuro”. A frase sintetiza uma percepção crescente entre pesquisadores de que o domínio informacional tende a se tornar elemento determinante das novas relações de poder global. Nesse cenário, a soberania deixa de depender exclusivamente de território, população e força militar, incorporando capacidade tecnológica e controle de infraestrutura digital.

Parte da literatura acadêmica contemporânea passou a utilizar metáforas biológicas para descrever a crise das estruturas políticas tradicionais. O conceito de “apoptose política”, mencionado em debates recentes sobre teoria do Estado, faz analogia ao processo celular programado de autodestruição. A hipótese sugere que determinadas instituições concebidas para sociedades industriais podem enfrentar esvaziamento gradual de funcionalidade diante da reorganização digital da economia e da vida social.

Esse processo não implica necessariamente desaparecimento imediato dos Estados nacionais, mas aponta para redistribuição de centralidade. Poderes tradicionais, Legislativo, Executivo e Judiciário, passam a compartilhar espaço com plataformas digitais, empresas de tecnologia, sistemas automatizados e redes globais de informação capazes de influenciar mercados, eleições, opinião pública e comportamento coletivo em escala transnacional.

 

A frase que foi pronunciada:
“Na midiocracia, também a política se submete à lógica das mídias de massa. O entretenimento determina a mediação de conteúdos políticos e deteriora a racionalidade.”
Byung-Chul Han

O filósofo Byung-Chul Han. Foto: Massimiliano Minocri (EL PAÍS)

 

História de Brasília
Agora as notícias: o Ministério da Educação autorizou o Tesou a liberar 610 milhões para serem utilizados pela Fundação Educacional. (Publicado em 20.05.1962)

O Estado como indutor da desigualdade

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Charge do Bira

 

Em 2024, o Brasil registrou o índice de Gini de 0,82, um número que não é apenas uma estatística fria, mas um veredito moral sobre as escolhas que fizemos como nação. Numa resposta rápida, esse índice mostra, em uma escala de 0 a 1, uma avaliação da desigualdade dentro de uma distribuição, quase sempre referente à renda ou riqueza de uma população. Gini é um conceito importante na Economia. O “zero” é a igualdade perfeita e o “um” é a desigualdade máxima.

Empatados com a Rússia em meio a uma guerra e situados entre as 56 nações mais desiguais do planeta, carregamos uma distinção que nenhum governo deveria aceitar com normalidade. O que torna esse dado ainda mais perturbador é o fato de que, nas últimas duas décadas, o país foi governado por forças que se autoproclamaram, incansavelmente, defensoras dos mais pobres. A pergunta que não se pode mais adiar é simples e devastadora: se o Estado governa para os desvalidos, por que a desigualdade não para de crescer?

Há um paradoxo que corrói a credibilidade do discurso público brasileiro há gerações: quanto mais o Estado se proclama redentor dos pobres, mais concentrada se torna a renda. Não é acidente. Não é azar histórico. É o resultado previsível de um modelo em que o aparato público cresceu não para redistribuir riqueza, mas para redistribuir poder e, com ele, privilégios. Marcadas, nas últimas décadas, por governos que ergueram sua identidade sobre o vocabulário da justiça social: transferência de renda, inclusão produtiva, combate à fome, ampliação de direitos.

Não se nega que programas como o Bolsa Família tenham impedido cenários ainda mais graves. O que se questiona, com dados e rigor, é a narrativa de que tais iniciativas, diante do custo do Estado brasileiro, representam uma política genuína de redução de desigualdade ou apenas um anestésico para uma ferida que o próprio governo faz sangrar.

O Gini de 0,82, vale lembrar, não mede apenas a diferença entre ricos e pobres em termos de renda anual. Ele captura a distância abissal entre aqueles que acessam o Estado como fonte de proteção e renda garantida e servidores estáveis, aposentados precoces, pensionistas privilegiados e aqueles que financiam esse sistema sem jamais dele se beneficiar proporcionalmente. O índice, nesse sentido, é um espelho do Estado, não apesar dele.

Segundo dados do Tesouro Nacional, o peso dos tributos sobre o PIB supera consistentemente os 33%, patamar comparável ao de nações escandinavas mas sem nenhuma das contrapartidas em qualidade de serviços públicos que justificariam tal extração. A pergunta que todo cidadão deveria fazer ao assinar a declaração de imposto de renda é: onde foi parar esse dinheiro?

Gasto público desordenado alimenta a inflação crônica que corrói o poder de compra das camadas mais vulneráveis. A inflação não é um imposto sobre os ricos, é um imposto regressivo que devora o salário do trabalhador informal, a aposentadoria mínima da dona de casa e a poupança inexistente do jovem da periferia. Quando o governo gasta além do que arrecada, a conta não vai para o Ministério da Fazenda. Vai para a feira do sábado de quem ganha um salário mínimo.

Há um mecanismo ainda mais perverso que o simples desperdício: a captura do Estado por grupos de interesse organizados em torno do poder político. Em economias onde as regras são feitas pelos mesmos que se beneficiam delas, a desigualdade não é uma falha do sistema, é o sistema funcionando exatamente como planejado.

Ao longo de décadas de alternância entre projetos que, no fundo, compartilhavam o mesmo amor pela expansão do Estado, um ecossistema brasileiro mantém a proximidade com o poder público e esse é o principal fator de sucesso econômico. Não o mérito, não a inovação, não o risco empreendedor, mas a capacidade de capturar contratos, subsídios, isenções e proteções tarifárias que o Estado distribui a seus favoritos.

O capitalismo de compadres, como o chamam os economistas, não é o capitalismo: é o seu oposto, travestido de mercado. Os grandes conglomerados que se beneficiaram de décadas de financiamentos subsidiados do BNDES, de desonerações setoriais e de proteções alfandegárias, não competiram no mercado, jogaram no campo inclinado montado pelo Estado. O resultado foi a criação de oligopólios disfarçados de campeões nacionais, acumulação de capital às custas do erário e concentração de renda que nenhum programa social conseguiria reverter.

Para cada real distribuído em transferências, outro e muitas vezes mais foi entregue disfarçado de política industrial. Quando o Estado escolhe vencedores, ele inevitavelmente cria perdedores. E os perdedores no Brasil não são as grandes empresas que sobreviveram sem subsídio: são o microempreendedor esmagado pela burocracia, o trabalhador informal que não tem acesso ao crédito, o jovem de escola pública que concorre em condições desiguais com o filho de quem soube negociar com o poder.

A desigualdade brasileira tem endereço. E muitas vezes esse endereço fica em Brasília. Nenhum investimento social reduz desigualdade de forma mais duradoura do que uma educação pública de qualidade universal. É o único mecanismo capaz de romper o ciclo intergeracional da pobreza, de garantir que o filho do agricultor do semiárido tenha as mesmas chances cognitivas e profissionais que o filho do advogado de Higienópolis.

 

A frase que foi pronunciada:
“A quem recorrer?”
Dona Dita pensando nas notícias desanimadoras

 

 

História de Brasília
Como sempre, o st. Afonso Almiro viajou para o Rio no mesmo dia, mas nessa oportunidade, prestou um relevante serviço ao Distrito Federal, e, particularmente, às Fundações da Prefeitura do Distrito Federal.

 

Bondade com chapéu alheio

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Congresso Nacional. Foto: EBC

 

Às vésperas das eleições, em ritmo de toque de caixa e com a cumplicidade de sempre, o Congresso Nacional aprovou mais um pacote de bondades para os partidos políticos. O custo estimado ao contribuinte brasileiro: mais de R$ 25 bilhões. A conta, como de costume, ficará para o pobre e endividado cidadão comum pagar.

Há uma cena que se repete com regularidade quase cronométrica na política brasileira: quando se trata de aprovar benefícios para si mesmos, os parlamentares deixam de lado as animosidades partidárias, as brigas ideológicas e os discursos inflamados que tanto encantam as plateias nas redes sociais. A polarização desaparece. O palanque emudece. E o plenário vota unido, veloz e, sobretudo, silencioso.

Foi exatamente o que aconteceu mais uma vez. Em sessão realizada às pressas, longe dos holofotes e da atenção da população, o Congresso aprovou um pacote que beneficia as mais de duas dezenas de partidos políticos registrados no país. Entre as medidas aprovadas, destacam-se: a permissão para que as legendas paguem suas multas e dívidas em até 15 anos prazo que nenhum banco concederia a uma família endividada ; a autorização para que telefones partidários realizem disparos em massa de mensagens por meio de robôs; e dispositivos que dificultam, de forma deliberada, que a Justiça Eleitoral cobre dívidas e multas dos diretórios políticos.

Chame-se pelo nome correto: trata-se de um auto-perdão institucionalizado. Os mesmos agentes que detêm o poder de legislar sobre a vida dos cidadãos suas dívidas, seus impostos, suas obrigações aproveitam esse mesmo poder para se livrar das próprias dívidas, enfraquecer os mecanismos de cobrança e garantir vantagens competitivas na disputa eleitoral, como o uso de disparos em massa por robôs, recurso que qualquer empresa privada utilizaria sob risco de sanção.

Mais escandaloso ainda, talvez seja o custo projetado: estimativas apontam para um impacto superior a R$ 25 bilhões aos cofres públicos e, portanto, ao bolso do contribuinte. Para se ter a dimensão do absurdo, esse valor supera o orçamento anual de diversos programas sociais fundamentais para milhões de brasileiros. É dinheiro que poderia financiar escolas, hospitais, saneamento básico e infraestrutura. Em vez disso, servirá para cobrir os rombos criados pelos próprios partidos ao longo de anos de gestão irresponsável de seus recursos.

E, enquanto isso acontece, as famílias brasileiras acumulam um endividamento histórico, avaliado em trilhões de reais. Nenhum projeto de lei aprovado com a mesma velocidade ou com a mesma unanimidade silenciosa foi dedicado a aliviar esse fardo. Nenhum prazo elástico de 15 anos foi concedido ao trabalhador que não consegue quitar seu financiamento. Nenhum dispositivo foi aprovado para dificultar que bancos cobrem dívidas de cidadãos comuns. A lei, como se vê, não é igual para todos.

Esse é o o retrato de uma cultura política que há décadas trata o Estado como patrimônio privado daqueles que têm acesso ao poder. A chanchada não é novidade; esse é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado por quem ocupa o assento para projetar o futuro do país. Mais uma vez é apresentado ao brasileiro projeto da desfaçatez. O resultado mais deletério desse processo não é sequer financeiro. É político e democrático.

Cada vez que o Congresso aprova leis desse tipo, na calada do tempo, nos meandros de interesses escusos, na velocidade e com a coesão que nunca demonstra ao debater reformas estruturais para o país , aprofunda-se o abismo entre a classe política e a população. Mais uma vez a descrença nas instituições cresce. A apatia eleitoral é inevitável.

Os dados de confiança nas instituições políticas brasileiras consistentemente entre os mais baixos do mundo confirmam o diagnóstico. E iniciativas como a aprovada agora não fazem senão confirmar, para o cidadão comum, aquilo que já suspeitava: o Congresso legisla, prioritariamente, para si mesmo. É preciso vigilância ativa de todos para que as respostas a mais essa bofetada sejam devidamente cobradas nas urnas. Ou é isso ou prosseguiremos afundados pelo lamaçal de escândalos e oportunismos, pagando uma conta que não é nossa e que nós não autorizamos de forma alguma.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Todo corrupto quer combater a corrupção. Desde que não seja a dele.”
Leo Dias

Reprodução: Youtube/SBT

 

Todos
Na Asa Norte a situação está incomodando o direito de ir e vir dos cidadãos. O número de pedintes e viciados aumenta, deixando tensos os moradores. É desumano deixar essas pessoas sem assistência.

 

Morosidade
Com um drone, pode-se observar que a obra no início do Eixão Norte não progride. Já são anos forçando os motoristas a perder tempo no trânsito sem o fim desse empreendimento.

 

História de Brasília

Mas esteve em Brasília o sr. Afonso Almiro. Diretor Gerai da Fazenda Nacional, que, façamos justiça, resolveu em pouco tempo a questão em tôrno de uma verba que poderia não ser recebida. (Publicado em 20.05.1962)