O Titanic e o trajeto da soberba

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Titanic prester a zarpar do porto de Southampton, na Inglaterra. • Getty Images

 

A Epopeia do RMS Titanic permanece, mais de um século depois, como uma das metáforas mais poderosas sobre o destino de projetos grandiosos conduzidos sob o signo da autoconfiança excessiva. Concebido como símbolo máximo da engenharia e do progresso de sua época, o navio partiu cercado por expectativas quase míticas de invulnerabilidade. Poucos dias depois, repousava no fundo do Atlântico, vítima não apenas de um iceberg, mas de uma cadeia de decisões equivocadas, negligência e soberba. A história, que poderia ser apenas um episódio trágico do início do século XX, revela, na verdade, um padrão recorrente que se repete em empresas, governos e instituições públicas ao longo do tempo. Sempre que decisões são tomadas com base em ilusões de controle absoluto, desprezo por limites e ausência de transparência, o resultado tende a seguir uma rota previsível: o colapso.

Marcada por um espírito de competição e afirmação de poder a construção do navio tratava de provar ao mundo a capacidade técnica e econômica de uma era. No entanto, no processo, escolhas críticas foram relativizadas. Redução no número de botes salva-vidas, velocidade elevada em área de risco e confiança excessiva nos sistemas de segurança compuseram um cenário em que o desastre deixou de ser uma possibilidade remota para se tornar uma consequência provável. Transpondo essa lógica para o campo institucional, observa-se fenômeno semelhante.

Projetos públicos e privados frequentemente nascem sob promessas grandiosas, discursos otimistas e projeções ambiciosas. O problema surge quando esses projetos deixam de ser guiados por critérios técnicos, responsabilidade fiscal e ética administrativa, passando a ser conduzidos por interesses políticos, vaidades pessoais ou expectativas irreais. Nesse contexto, a metáfora da “carta náutica da ética pública” ganha relevância. Assim como uma embarcação depende de mapas, instrumentos e regras claras de navegação para evitar perigos, instituições dependem de princípios como transparência, prestação de contas e respeito às normas para garantir sua sustentabilidade. Quando esses parâmetros são ignorados, a navegação torna-se errática.

Max Weber, ao tratar da ética da responsabilidade, alertava que o exercício do poder exige consciência das consequências dos atos. Para Weber, governar não é apenas decidir, mas assumir os riscos e impactos dessas decisões. Quando essa responsabilidade é substituída por voluntarismo ou improviso, o resultado tende a ser instabilidade. No ambiente empresarial, casos de colapsos corporativos ao redor do mundo mostram como estratégias baseadas em crescimento acelerado sem fundamentos sólidos podem levar à ruína. Empresas que ignoram riscos, mascaram informações ou operam com estruturas frágeis podem, por um tempo, sustentar a aparência de sucesso. Mas, assim como no Titanic, basta um evento crítico para expor fragilidades acumuladas.

No setor público, os efeitos são ainda mais amplos. Decisões mal fundamentadas não afetam apenas acionistas ou investidores, mas toda a sociedade. Obras superfaturadas, políticas públicas mal planejadas e gestão ineficiente de recursos geram impactos que se estendem por anos, comprometendo desenvolvimento econômico e qualidade de vida.

Outro elemento presente na tragédia do Titanic foi a comunicação falha. Alertas sobre icebergs foram recebidos, mas não devidamente considerados. A crença na invulnerabilidade do navio reduziu a percepção de risco. Em instituições, fenômeno semelhante ocorre quando críticas são ignoradas, órgãos de controle são enfraquecidos ou informações são deliberadamente omitidas. A ausência de mecanismos eficazes de controle e transparência cria um ambiente propício para decisões desconectadas da realidade. Sem feedback adequado, líderes podem acreditar que suas escolhas são infalíveis, reforçando um ciclo de autoconfiança que se afasta progressivamente dos fatos.

Editorialmente, a lição que emerge dessa analogia é clara. Não são apenas icebergs que afundam grandes projetos, mas a combinação de arrogância, falta de planejamento e desprezo por limites. A ética pública, nesse sentido, não é um adorno moral, mas um instrumento de sobrevivência institucional. Respeitar normas, ouvir alertas, planejar com base em dados e manter transparência não são obstáculos ao progresso, mas condições para que ele seja sustentável. Ignorar esses princípios pode até gerar resultados imediatos, mas tende a produzir crises no médio e longo prazo.

A história do Titanic não é apenas um relato do passado. Ela continua a se repetir, em diferentes escalas e contextos, sempre que instituições acreditam estar acima das regras que deveriam segui-las. E, como no oceano, os sinais de perigo raramente desaparecem, eles apenas aguardam o momento em que serão finalmente percebidos. No fim, toda travessia exige prudência. Porque, diante da força dos fatos, nenhuma construção, por mais grandiosa que pareça, está imune às consequências de escolhas mal orientadas. E quando a rota ignora a carta da ética, o destino dificilmente será outro que não o naufrágio.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Desde o dia em que foi projetado, ele estava praticamente condenado… isso [o uso de rebites de ferro] foi quase o calcanhar de Aquiles do Titanic.”

Paul Louden-Brown, Arquivista da White Star Line

Paul Louden-Brown. Foto de John McVitty.

 

História de Brasília
Esta é, particularmente, uma notícia de grande repercussão para os pais, que estavam enfrentando uma situação de desespero vendo o exemplo que os professôres estavam dando a seus filhos. (Publicada em 17. 05.1962)

Uma referência em questão: o Hospital das Forças Armadas

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Foto: fab.mil

Durante décadas, o Hospital das Forças Armadas, em Brasília, foi símbolo de excelência médica no serviço público brasileiro. Equipamentos de ponta, corpo clínico qualificado e estrutura moderna colocavam a instituição entre as mais bem avaliadas do país, não apenas no âmbito militar, mas no sistema de saúde como um todo. Hoje, porém, pacientes reclamam de um processo gradual de deterioração.

Relatos recorrentes apontam para dificuldades no atendimento, atrasos em procedimentos, carência de insumos e equipamentos defasados. Situações que, isoladamente, poderiam ser atribuídas a problemas pontuais, mas que, somadas ao longo do tempo, revelam um quadro estrutural mais profundo. O que antes era referência passa a conviver com sinais claros de desgaste institucional. Um dos fatores centrais desse processo está na redução ou insuficiência de investimentos ao longo dos anos.

Hospitais de alta complexidade exigem atualização constante de tecnologia, manutenção de equipamentos e capacitação contínua de equipes. Sem esse ciclo permanente de modernização, a defasagem torna-se inevitável. Dados gerais sobre o sistema público de saúde no Brasil mostram que o investimento per capita ainda enfrenta limitações quando comparado a países com sistemas equivalentes. No caso de instituições específicas como o Hospital das Forças Armadas, a situação se agrava quando há ausência de planejamento estratégico de longo prazo voltado à preservação de sua capacidade operacional.

Outro ponto crítico é a gestão de pessoal. Profissionais altamente qualificados, quando inseridos em ambientes com limitações estruturais, tendem a enfrentar desmotivação. Falta de recursos, sobrecarga de trabalho e dificuldades operacionais impactam diretamente a qualidade do atendimento e o clima organizacional. Em hospitais, onde a eficiência depende da integração entre equipes e tecnologia, esse tipo de desgaste tem efeitos imediatos.

Especialistas em administração hospitalar destacam que a qualidade do serviço está diretamente ligada à combinação de fatores como infraestrutura adequada, financiamento contínuo e valorização do corpo técnico. A ausência de qualquer um desses elementos compromete o funcionamento do sistema como um todo. No caso do Hospital das Forças Armadas, soma-se ainda uma questão institucional mais ampla. Hospitais militares ocupam um espaço específico dentro do sistema de saúde, atendendo não apenas militares, mas também seus dependentes e, em alguns casos, o público civil. Essa dupla função exige equilíbrio delicado entre missão institucional e capacidade operacional.

É importante, contudo, analisar o fenômeno com cautela. A deterioração de instituições públicas raramente é resultado de uma única gestão ou de um único período. Em geral, trata-se de um processo cumulativo, resultado de decisões sucessivas, prioridades orçamentárias e contextos econômicos diversos. Ainda assim, o impacto sobre a população atendida é imediato. O futuro, caso não haja intervenção consistente, tende a seguir essa trajetória de declínio. Esse é o risco clássico de instituições que deixam de ser prioridade em políticas públicas.

Por outro lado, fizemos contato com a Comunicação Social da instituição onde o Coronel Sergio nos informou o seguinte: “Nesses 54 anos de história, o Hospital das Forças Armadas tem prezado pela posição de referência na capital da República. Os problemas enfrentados atualmente pela instituição estão sendo mapeados para serem resolvidos pontualmente. Numa busca constante de acompanhar o desenvolvimento tecnológico o HFA comemora a aquisição de uma plataforma robótica. Além disso, em recente pesquisa realizada foi percebido uma melhora no grau de satisfação de nossos usuários. Mas a gestão atual está focando nas baixas avaliações e tomando providências para mitigar os problemas.” Por acesso livre ao Blog do Ari Cunha, o leitor pode acompanhar um vídeo criado por ocasião do aniversário da instituição.

O futuro, por sua vez, dependerá das escolhas feitas agora. Enfrentar essa fase com coragem e determinação é a única forma de preservar e eventualmente recuperar o papel que o Hospital das Forças Armadas já desempenhou no sistema de saúde brasileiro.

 

A frase que foi pronunciada:

“Não é o mais forte da espécie que sobrevive, nem o mais inteligente, mas sim aquele que melhor se adapta às mudanças.”

Charles Darwin

Fotografia de Charles Darwin tirada por volta de 1874 por Leonard Darwin. Foto: Domínio público

 

História de Brasília

Outra solução também dada pelo presidente foi sobre o caso dos professores. Hoje haverá aula no ensino médio, e os professôres já deixaram as casas do BNDE, invadidas na madrugada de 21 de abril. (Publicada em 17. 05.1962)

O peixe caro num país de mar imenso

Publicado em Deixe um comentárioÍntegra

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

 

Extensão costeira de mais de 7.400 quilômetros e uma zona econômica exclusiva que avança por centenas de milhas mar adentro deveriam, em tese, garantir ao Brasil uma abundância de pescado acessível à população. No entanto, a realidade que se impõe nos balcões de supermercados e peixarias é outra: peixe caro, muitas vezes inacessível, transformado em item ocasional na mesa de milhões de brasileiros. Episódios como o de uma simples posta de pescada amarela, com pouco mais de 100 gramas, sendo vendida por R$ 89, deixam de ser exceção e passam a simbolizar uma distorção estrutural. Não se trata apenas de um problema pontual de preços, mas de um conjunto de falhas que, somadas, produziram um cenário em que um recurso abundante se torna escasso na prática.

Primeira camada dessa distorção está na própria estrutura da cadeia produtiva do pescado. Ao contrário de países que desenvolveram uma indústria pesqueira robusta, com logística integrada e políticas de incentivo claras, o Brasil ainda opera de forma fragmentada. Grande parte da pesca é artesanal, com baixa produtividade e limitada capacidade de armazenamento e distribuição. Essa característica, por si só, não seria um problema se houvesse infraestrutura adequada para escoamento e conservação. No entanto, deficiência crônica em portos pesqueiros, ausência de cadeias de frio eficientes e custos elevados de transporte encarecem o produto desde a origem. O peixe, altamente perecível, exige rapidez e tecnologia para chegar ao consumidor final com qualidade e cada falha nesse processo se traduz em aumento de preço.

Outro fator relevante é a carga tributária. Embora alimentos básicos tenham, em alguns casos, regimes diferenciados, o sistema tributário brasileiro permanece complexo e oneroso. Custos indiretos acumulam-se ao longo da cadeia, desde o combustível utilizado nas embarcações até a energia necessária para conservação e transporte. No final, o consumidor paga a conta. Também pesa a burocracia regulatória. Licenças ambientais, autorizações de pesca e regras muitas vezes inconsistentes ou sobrepostas criam um ambiente de insegurança para o setor. Evidentemente, a preservação ambiental é essencial, mas a ausência de políticas equilibradas, que conciliem sustentabilidade com produção, acaba desestimulando investimentos e reduzindo a oferta.

Enquanto isso, o país assiste ao crescimento da importação de pescado. Em vez de abastecer o mercado interno com sua própria produção, o Brasil recorre a fornecedores externos para suprir parte da demanda. Esse fenômeno revela uma contradição evidente: um país com vasto litoral que não consegue transformar seu potencial em oferta acessível. Há ainda o problema da concentração na distribuição. Grandes redes varejistas, com poder significativo de negociação, acabam influenciando preços e margens. Em muitos casos, o pequeno produtor ou pescador recebe valores reduzidos por sua produção, enquanto o consumidor final paga preços elevados. A diferença entre esses dois extremos evidencia distorções no funcionamento do mercado.

Ao longo do tempo, o consumo de pescado no Brasil permaneceu relativamente baixo em comparação com outros países costeiros. Essa menor demanda histórica contribuiu para a falta de investimentos estruturais no setor, criando um ciclo em que baixa oferta e alto preço se retroalimentam. Não se pode ignorar, ainda, o impacto do custo do combustível. A atividade pesqueira depende diretamente de embarcações, e o preço do diesel influencia de forma decisiva o custo final do produto. Oscilações nesse insumo afetam toda a cadeia, pressionando ainda mais os preços. Especialistas em economia do setor apontam que países que conseguiram democratizar o acesso ao pescado investiram em três pilares: infraestrutura, política pública consistente e integração de mercado. Sem esses elementos, a abundância natural não se traduz automaticamente em acessibilidade econômica.

No caso brasileiro, ausência de uma estratégia nacional clara para o setor pesqueiro contribuiu para o cenário atual. Políticas públicas, quando existem, tendem a ser fragmentadas, descontinuadas ou insuficientes para enfrentar desafios estruturais. Resultado é um paradoxo difícil de ignorar. Em um país com vastos recursos naturais, o peixe torna-se artigo caro. Em um território cercado por água, o acesso ao alimento que dela provém é limitado. E, em uma economia que busca crescimento, um setor com enorme potencial permanece subexplorado.

É preciso organização, investimento e políticas eficazes para que essa riqueza se converta em benefício real para a população. Enquanto essas questões estruturais não forem enfrentadas, cenas como a de um consumidor diante de um balcão, surpreso com o preço de um alimento que deveria ser comum, continuarão a se repetir. E o mar, imenso e generoso, seguirá distante da mesa da maioria.

 

A frase que foi pronunciada:
“Se Deus quiser quando eu voltar do mar/ Um peixe bom eu vou trazer.”

Suíte do Pescador – Dorival Caymmi

História de Brasília
O ministro da Fazenda, que estava com viagem marcada para Brasília hoje à tarde, chegará cedo, para organizar um esquema de pagamentos e liberação de verbas. (Publicada em 17. 05.1962)

Subjetivismos legais

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Foto: senado.leg

 

Discussões recentes no Senado Federal sobre a criminalização da misoginia reacenderam um debate antigo, mas sempre atual: até que ponto o direito pode ou deve avançar sobre comportamentos e discursos sem comprometer garantias fundamentais como a liberdade de expressão e a segurança jurídica? Texto aprovado, ao estabelecer que o juiz deve considerar discriminatória qualquer conduta que cause “constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida” a determinados grupos, introduz um elemento central de controvérsia: a subjetividade.

Termos amplos, abertos e dependentes de interpretação individual passam a ocupar o núcleo de uma norma penal, justamente o campo do direito em que a precisão deveria ser máxima. No direito penal moderno, vigora o princípio da legalidade estrita. Não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal. Esse princípio não é mero formalismo; ele representa uma proteção contra arbitrariedades. Quando a lei se torna vaga, o risco não é apenas teórico: amplia-se o espaço para interpretações divergentes, decisões inconsistentes e eventual uso instrumental do sistema de justiça.

O jurista italiano Luigi Ferrajoli, um dos principais teóricos do garantismo penal, sustenta que normas penais devem ser claras, precisas e estritas justamente para evitar abusos de poder. Para Ferrajoli, a vagueza normativa compromete a previsibilidade do direito e enfraquece sua legitimidade. Sob essa ótica, dispositivos legais que dependem fortemente da percepção subjetiva do julgador tendem a gerar insegurança jurídica.

No Brasil, vozes relevantes do meio jurídico também têm se manifestado sobre os riscos de expansão do direito penal para áreas sensíveis e de difícil delimitação. Miguel Reale Jr. já alertou, em diferentes ocasiões, para o perigo do chamado “direito penal simbólico”, no qual leis são criadas mais para transmitir mensagens políticas do que para produzir efeitos concretos e equilibrados. Nesse tipo de legislação, a intenção pode até ser legítima, mas os instrumentos utilizados acabam gerando distorções.

Outro nome frequentemente citado nesse debate é Ives Gandra da Silva Martins, que tem defendido a necessidade de preservar limites claros à atuação estatal, especialmente quando se trata de restringir liberdades individuais. Para Gandra, normas excessivamente abertas podem ser utilizadas de maneira seletiva, dependendo do contexto político e social.

A crítica central não reside necessariamente no objetivo da lei para combater discriminação e proteger grupos vulneráveis, mas na forma como esse objetivo é operacionalizado. Ao deslocar para o juiz a tarefa de definir, caso a caso, o que constitui constrangimento ou humilhação, a norma transfere para o campo da interpretação individual aquilo que deveria estar claramente delimitado no texto legal. Esse deslocamento tem consequências práticas.

Dois juízes, diante de situações semelhantes, podem chegar a conclusões completamente diferentes. O que para um magistrado pode ser entendido como crítica legítima, para outro pode ser classificado como conduta discriminatória passível de sanção penal. Essa imprevisibilidade fragiliza a confiança no sistema de justiça.

O filósofo do direito Norberto Bobbio já afirmava que a segurança jurídica é um dos pilares do Estado de Direito. Sem ela, cidadãos deixam de saber quais comportamentos são permitidos ou proibidos, e o direito passa a ser percebido como instrumento incerto, sujeito a variações interpretativas.

Outro ponto relevante diz respeito à liberdade de expressão. Democracias consolidadas reconhecem que esse direito não é absoluto, mas também estabelecem limites claros para sua restrição. Quando normas legais ampliam excessivamente o campo de intervenção estatal sobre discursos, surge o risco de autocensura não por proibição explícita, mas por medo de interpretações desfavoráveis.

Nesse contexto, alguns críticos associam esse tipo de legislação a tendências internacionais que buscam regular discursos considerados ofensivos ou discriminatórios. Esse fenômeno, frequentemente descrito como parte de agendas contemporâneas de regulação social, tem gerado debates intensos em diversos países. Enquanto defensores argumentam que tais medidas são necessárias para proteger grupos historicamente vulneráveis, opositores alertam para riscos de excessos e restrições indevidas à liberdade individual.

Importante observar que o Brasil possui um conjunto robusto de leis voltadas ao combate à discriminação, incluindo normas sobre racismo, injúria qualificada e violência de gênero. A criação de novos tipos penais, especialmente com formulações amplas, levanta a questão sobre sua real necessidade e eficácia.

Além disso, há o impacto institucional. O sistema de justiça brasileiro enfrenta críticas relacionadas à morosidade,
complexidade e, em alguns casos, falta de uniformidade nas decisões. A introdução de normas subjetivas tende a ampliar esses desafios, aumentando o número de disputas judiciais e a dificuldade de aplicação consistente da lei.

O debate sobre essa lei não deveria se limitar a rótulos ou polarizações ideológicas. Trata-se de uma discussão sobre os limites do direito penal, o equilíbrio entre proteção e liberdade e a qualidade das normas que regem a convivência social. Se o objetivo é fortalecer o Estado de Direito, o caminho passa menos pela multiplicação de leis e mais pela construção de um ordenamento jurídico coerente, previsível e capaz de garantir, ao mesmo tempo, proteção e liberdade. Fora disso, o risco é substituir a segurança do direito pela incerteza das interpretações — um cenário que nenhuma sociedade democrática pode considerar desejável.

 

A frase que foi pronunciada:
Quanto maior o número de leis, tanto maior o número de ladrões.
Lao-Tsé

Lao Tsé. Ilustração: correiobraziliense.com

 

História de Brasília
Disse que as verbas da Novacap serão liberadas para os pagamentos imediatos, e futuras obras serão atacadas. (Publicada em 17/5/1962)

A Europa hoje é o nosso amanhã

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Foto: reprodução da internet

É muito mais que uma crise. A Europa passa por um processo acelerado de desgaste cultural, político e institucional que suas lideranças insistem em tratar como fenômeno passageiro. Não o é. O que está em curso é uma mudança estrutural, e a recusa em nomeá-la com clareza pode custar caro ao futuro do continente.

O primeiro sinal dessa transformação está nas ruas das grandes cidades europeias. Paris, Bruxelas, Berlim, Estocolmo, todas enfrentam, em maior ou menor grau, dificuldades concretas de integração de populações imigrantes, especialmente oriundas de países de maioria islâmica. Não se trata de retórica: são bairros segregados, aumento da tensão social, episódios recorrentes de violência urbana e uma sensação crescente de perda de controle por parte do Estado.

A narrativa oficial insiste em classificar esses problemas como “desafios de inclusão”. Mas essa formulação suave esconde um fato mais duro: o modelo multicultural europeu falhou em produzir coesão. Em vez de integração, o que se observa, em muitos casos, é a formação de sociedades paralelas, com códigos culturais próprios e, por vezes, em choque com os valores liberais que sustentaram a Europa moderna.

Negar esse conflito não o elimina, apenas o agrava. Isso não significa, como frequentemente se afirma de maneira alarmista, que a Europa esteja prestes a se tornar um “continente islâmico”. Esse tipo de previsão simplifica uma realidade muito mais complexa. No entanto, também é um erro negar que há uma mudança demográfica e cultural relevante em curso, e que ela vem sendo administrada com hesitação e, muitas vezes, com medo de enfrentar o debate de forma franca.

Ao mesmo tempo, a União Europeia demonstra sinais claros de desgaste como projeto político. A promessa de prosperidade e estabilidade deu lugar a uma estrutura percebida como burocrática, distante e incapaz de responder com rapidez a crises sucessivas, sejam elas econômicas, migratórias ou geopolíticas.

O Brexit não foi um acidente isolado, mas um sintoma visível de um mal-estar mais profundo. A centralização de decisões em Bruxelas, muitas vezes desconectadas das realidades nacionais, alimenta o crescimento de movimentos que questionam não apenas políticas específicas, mas a própria ideia de integração supranacional.

Um dia ela foi exemplo de coordenação entre nações soberanas, hoje, a Europa parece presa entre a necessidade de união e o impulso de fragmentação. Mas, talvez, o aspecto mais sensível dessa crise esteja no campo cultural. A Europa contemporânea vive uma redefinição acelerada de valores, família, identidade, religião, pertencimento. As chamadas pautas identitárias ganharam espaço e influência, promovendo mudanças reais na legislação, na educação e no debate público.

Para muitos, isso representa avanço e ampliação de direitos. Para outros, uma ruptura brusca com fundamentos históricos da civilização europeia. O problema não está na existência dessas pautas, mas na forma como o debate tem sido conduzido: frequentemente polarizado, intolerante a divergências e incapaz de construir consensos mínimos. Em vez de fortalecer o tecido social, o confronto constante tende a fragmentá-lo ainda mais. Quando a isso se soma uma crise de identidade de um continente que já não sabe definir com clareza o que é, o que defende e quais são seus limites, o resultado é previsível: insegurança, reação e radicalização.

É nesse ambiente que crescem tanto movimentos nacionalistas quanto formas mais rígidas de afirmação cultural dentro de comunidades imigrantes. Um alimenta o outro. E o centro político, historicamente responsável pelo equilíbrio europeu, perde espaço. A Europa, portanto, não está “acabando”. Mas está, sim, enfraquecida e, sobretudo, indecisa. E essa hesitação é, talvez, seu maior risco.

Para a América Latina, o cenário europeu funciona como um aviso — não como um destino inevitável, mas como um exemplo de como múltiplas crises podem se sobrepor quando não enfrentadas com clareza. Importar, de forma acrítica, debates europeus sobre identidade, cultura e organização social pode produzir distorções profundas em sociedades com trajetórias completamente diferentes.

Com os próprios desafios, a América Latina ainda traz desigualdade, fragilidade institucional, violência e não pode se dar ao luxo de incorporar conflitos externos sem reflexão. Ao mesmo tempo, há lições importantes: a necessidade de políticas de integração eficazes, a importância de preservar coesão social e o risco de permitir que o debate público seja capturado por extremos. A realidade não é morna. Mas também não é simples.

Na Europa, não há o enfrentamento a uma única ameaça, nem a um único culpado. Enfrenta o acúmulo de decisões mal calibradas, omissões prolongadas e uma dificuldade crescente de encarar os próprios dilemas sem recorrer a slogans sejam eles otimistas ou apocalípticos. O futuro do continente dependerá menos de narrativas e mais de escolhas concretas.

 

A frase que foi pronunciada:
“A Europa precisa encontrar um equilíbrio entre responsabilidade e solidariedade.”
Angela Merkel

 

Burj Khalifa
Foram usados 330 mil metros cúbicos de concreto e 100 mil toneladas de aço. O prédio mais alto do mundo tem 828 metros de altura e foi construído em seis anos. Já em Brasília, uma década é necessária para a reforma de um teatro e, até hoje, não é possível atravessar da Asa Norte à Asa Sul pelo Eixão sem passar por uma obra, que parece eterna.

Teatro Nacional, em Brasília. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Agência Brasil

 

História de Brasília
O presidente João Goulart chegou a Brasília depois de muito tempo, mas, pelas boas notícias que trouxe, compensou a ausência, na qual teve mais tempo para meditar sobre o Distrito Federal. (Publicada em 17/5/1962)

Uma decisão de consequências profundas

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Charge do Cazo

 

“Ser ou não ser”, a célebre dúvida de Hamlet, atravessa séculos como símbolo de um dilema existencial. No cenário contemporâneo do Brasil, a questão assume contornos distintos, mas não menos dramáticos. Não se trata aqui de filosofia, mas de segurança pública, soberania e definição jurídica: devem organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho ser classificadas como grupos terroristas por potências estrangeiras, especialmente pelos Estados Unidos?

O tema, à primeira vista técnico, carrega implicações profundas. A classificação de um grupo como organização terrorista não é meramente simbólica. Ela aciona uma série de instrumentos jurídicos, financeiros e militares que ampliam significativamente a capacidade de combate por parte de Estados que adotam essa designação. No caso norte-americano, por exemplo, o enquadramento como organização terrorista permite sanções econômicas mais duras, bloqueio de ativos internacionais e até operações extraterritoriais em determinadas circunstâncias. Comparação com grupos como o Hamas ou outras organizações classificadas como terroristas revela o peso dessa decisão. Não se trata apenas de reconhecer a periculosidade dessas facções, algo já amplamente documentado, mas de alterar o enquadramento jurídico internacional sob o qual elas são tratadas.

No Brasil, tanto o PCC quanto o Comando Vermelho possuem histórico de atuação que vai muito além do crime comum. Controle territorial, capacidade de coordenação nacional e internacional, influência sobre economias ilegais e enfrentamentos diretos com o Estado demonstram um nível de organização que desafia as classificações tradicionais de criminalidade. Em diversas ocasiões, essas facções foram capazes de paralisar cidades, coordenar ataques simultâneos e impor regras próprias em áreas sob sua influência.

Relatórios do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o crime organizado no país movimenta bilhões de reais anualmente, com atuação que se estende ao tráfico internacional de drogas, armas e lavagem de dinheiro. Essa dimensão econômica e operacional aproxima essas organizações de estruturas que, em outros contextos, já foram classificadas como terroristas. Entretanto, a decisão de enquadrá-las formalmente como tais não é simples nem isenta de controvérsias.

Do ponto de vista jurídico, o terrorismo costuma ser definido não apenas pela violência, mas pelo objetivo político de intimidar populações ou governos. Nesse aspecto, especialistas divergem sobre se facções brasileiras, cuja motivação principal é econômica, se enquadrariam plenamente nessa categoria. Por outro lado, a linha que separa crime organizado de terrorismo torna-se cada vez mais tênue em um mundo onde organizações criminosas assumem funções de controle territorial, exercem poder paralelo e, em alguns casos, influenciam estruturas políticas. Em determinadas regiões, a presença dessas facções altera diretamente a vida cotidiana da população, impondo regras, restringindo liberdades e desafiando a autoridade estatal.

Do ponto de vista estratégico, a eventual classificação por parte dos Estados Unidos teria efeitos imediatos. Instituições financeiras globais passariam a adotar medidas mais rigorosas contra fluxos de recursos associados a essas organizações. Empresas e indivíduos ligados direta ou indiretamente poderiam ser alvo de sanções. Além disso, abrir-se-ia espaço para cooperação internacional mais intensa no combate a essas redes. No entanto, esse movimento também levanta questões delicadas sobre soberania. A atuação direta de uma potência estrangeira em questões de segurança interna brasileira, ainda que sob o argumento de combate ao crime organizado, pode gerar tensões diplomáticas e políticas. Países tradicionalmente defendem o controle exclusivo sobre seus assuntos internos, especialmente em temas sensíveis como segurança e justiça. Percepção popular, contudo, parece caminhar em outra direção. Diante do avanço da violência e da sensação de insegurança, parcela significativa da população tende a apoiar medidas mais duras, inclusive aquelas que envolvam cooperação internacional ampliada.

Esse apoio reflete, em grande medida, a frustração com a capacidade do Estado de conter o crescimento e a sofisticação do crime organizado. Nesse contexto, surge um contraste evidente entre expectativa social e ação institucional. Enquanto cidadãos demandam respostas mais efetivas, políticas públicas frequentemente avançam de forma gradual, limitadas por restrições legais, orçamentárias e políticas. Esse descompasso alimenta a percepção de que o problema cresce mais rápido do que as soluções.

Especialistas em segurança alertam que o enfrentamento de organizações como PCC e Comando Vermelho exige abordagem multifacetada. Não se trata apenas de repressão policial, mas também de inteligência financeira, cooperação internacional, reformas no sistema prisional e políticas sociais capazes de reduzir a base de recrutamento dessas facções.

Entre o “ser” e o “não ser”, a decisão carrega implicações que vão muito além da classificação formal. Porque, no fim, mais importante do que o nome atribuído a essas organizações é a capacidade efetiva de contê-las. E essa responsabilidade, em última instância, continua sendo de quem detém o poder e o dever de garantir a segurança e a ordem dentro das próprias fronteiras.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Cuida de evitar os crimes, para que não sejas obrigado a puni-los.”
Confúcio

Foto: reprodução da internet

História de Brasília
Foi a apresentação de um relatório bem diferente do relatório apresentado dias antes à companhia, e publicado no CORREIO BRAZILIENSE depois de sua demissão. (Publicada em 16.05.1962)

Por onde iniciar a reconstrução de um novo país: pelo piso ou pelo teto?

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Charge do Nando Motta

 

Há países que se definem por suas instituições. Outros, por seus conflitos. O Brasil, infelizmente, segue sendo definido por seus abismos. Entre o piso e o teto salarial, entre a realidade da maioria e os privilégios de poucos, desenha-se um retrato incômodo de uma República que ainda não conseguiu se livrar de vícios históricos. Não se trata apenas de números. Trata-se de um sistema que naturalizou a desigualdade e, pior, a institucionalizou.

A expressão “teto constitucional” deveria, em tese, representar um limite moral e jurídico. No Brasil, tornou-se quase uma ficção contábil. O teto do funcionalismo gira hoje em torno de R$ 46 mil, mas, na prática, uma série de benefícios os chamados “penduricalhos” permite que remunerações ultrapassem com folga esse valor, chegando em alguns casos a mais de R$ 80 mil mensais. Há registros de pagamentos que alcançam a casa dos R$ 100 mil, distantes não apenas da média do trabalhador brasileiro, mas de qualquer parâmetro razoável de equidade.

Enquanto isso, o Brasil real vive outra dimensão. A renda média da população gira em torno de R$ 2 mil mensais, e a renda domiciliar per capita ficou próxima de R$ 2.069 em 2024. No próprio serviço público, frequentemente apontado como privilegiado, a realidade da base desmente essa caricatura: metade dos servidores ganha cerca de R$ 3,2 mil, e 70% recebem até R$ 5 mil mensais. Ou seja, a desigualdade não está apenas entre setor público e privado ela está dentro do próprio Estado. É nesse ponto que o discurso dos privilégios ganha contornos mais complexos. Em média, o Judiciário paga até 61% a mais que o Executivo. Mais do que desigualdade, há concentração. E concentração sustentada por mecanismos formais e informais que burlam o espírito da lei. Os “penduricalhos”, auxílios, indenizações, gratificações, são o instrumento dessa engenharia.

Em 2024, apenas o Judiciário gastou cerca de R$ 10,5 bilhões com salários acima do teto. Não se trata de exceção: trata-se de padrão. A consequência direta é um Estado que reproduz e amplifica a desigualdade que deveria combater. Estudos indicam que membros do alto escalão do poder público chegam a ganhar mais de 20 vezes a renda média da população. Em alguns casos, essa diferença pode atingir 40 vezes. É um nível de disparidade comparável a sociedades historicamente desiguais, mas com uma diferença crucial: aqui, ela é financiada pelo próprio contribuinte.

O argumento recorrente para justificar tais remunerações é o da qualificação, da responsabilidade e da necessidade de atrair talentos. Trata-se de um argumento válido até certo ponto. Nenhum país sério despreza a importância de quadros qualificados no serviço público. Mas há uma diferença clara entre remuneração justa e privilégio institucionalizado. Quando uma minoria consegue sistematicamente ultrapassar limites legais por meio de artifícios, o problema deixa de ser técnico e passa a ser ético. Mais grave ainda é a ausência de padronização. O Brasil possui mais de 290 tabelas salariais no serviço público federal, um mosaico caótico que impede qualquer política coerente de remuneração. Em países mais organizados, estruturas salariais são simples, transparentes e comparáveis. Aqui, a complexidade serve, muitas vezes, como cortina de fumaça. O resultado é um sistema que não apenas distribui mal, mas também comunica mal. Para a população, fica a sensação não totalmente injustificada de que o Estado serve a si próprio. Para os servidores da base, resta a frustração de ver uma pequena elite capturar benefícios desproporcionais. E para o país, sobra a conta: fiscal, social e moral.

Há ainda um componente simbólico que não pode ser ignorado. Repúblicas se sustentam não apenas por leis, mas por exemplos. Quando aqueles que deveriam zelar pela Constituição são os primeiros a contorná-la, o efeito corrosivo é inevitável. A ideia de igualdade perante a lei se fragiliza. O pacto social se desgasta. Dizer que “seguimos sendo dilapidados desde 1500” pode soar como exagero retórico, mas carrega uma intuição histórica difícil de ignorar. O Brasil colonial era marcado pela extração de riqueza concentrada em poucos. Séculos depois, a lógica persiste sob novas formas. Mudaram-se os atores, sofisticaram-se os mecanismos, mas a estrutura de privilégios resiste.

Reformas são necessárias e urgentes. Não para punir o servidor público, mas para corrigir distorções. Isso passa por eliminar brechas legais, padronizar carreiras e, sobretudo, restabelecer o sentido do teto constitucional. Teto não é sugestão. É limite. Sem isso, continuaremos presos a um paradoxo: um país que discute pobreza enquanto financia privilégios; que clama por justiça social enquanto tolera exceções institucionalizadas; que se diz República, mas ainda carrega, no fundo, traços de uma velha monarquia de castas.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Causa perplexidade que a via que admite a criação de deveres não seja admitida também para a regulação de direitos. O julgamento tende a intensificar esse contexto de perda.”

Associação dos Magistrados Brasileiros

Foto: reprodução

 

História de Brasília
Subindo ou descendo uma superquadra, ponha seu carro em segunda. Respeite as faixas amarelas. Nelas, o pedestre pode atravessar a qualquer momento, e tem preferência. (Publicada em 16.05.1962)

O pêndulo da história e os sinais de uma contrarrevolução

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Cenário econômico de 2026 deve ser marcado por desaceleração global Foto: iStock

 

Ciclos históricos raramente se desenvolvem em linha reta. Ao contrário, movem-se como um pêndulo, ora avançando em determinada direção, ora reagindo com igual intensidade no sentido oposto. Essa percepção, que atravessa séculos de reflexão política e filosófica, encontra eco até mesmo na ciência, na formulação clássica da Terceira Lei de Newton: a toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade. Aplicada à dinâmica das sociedades, essa ideia ajuda a compreender momentos de inflexão como o que parece se desenhar no mundo contemporâneo.

Nas últimas décadas, consolidou-se um modelo de globalização que buscava reduzir fronteiras econômicas, integrar culturas e promover fluxos intensos de pessoas, capitais e ideias. Esse movimento foi, em muitos aspectos, responsável por avanços tecnológicos, expansão do comércio e aumento da interdependência entre as nações. No entanto, como ocorre em todo processo histórico de grande escala, os efeitos não foram homogêneos nem isentos de tensões.

Em diversas regiões do mundo ocidental, parte significativa da população passou a perceber esse modelo não como progresso compartilhado, mas como uma transformação acelerada que afetava identidades culturais, estruturas econômicas e formas tradicionais de vida. Surge, então, o que muitos analistas descrevem como um movimento de reação. Não necessariamente organizado ou uniforme, mas perceptível em diferentes países e contextos. Trata-se de uma resposta social e política a mudanças consideradas excessivas ou desconectadas das expectativas de parcelas relevantes da população.

Na Europa, por exemplo, o crescimento de partidos e movimentos críticos à globalização, às políticas migratórias amplas e à centralização de decisões em organismos supranacionais revela uma mudança no humor político. Nos Estados Unidos, fenômenos eleitorais recentes também indicam uma reconfiguração do debate público, com maior ênfase em soberania nacional, controle de fronteiras e revisão de acordos econômicos. Esse movimento não pode ser compreendido apenas como uma rejeição simplista ao novo. Em muitos casos, ele expressa preocupações concretas com emprego, segurança, identidade cultural e coesão social. Ao mesmo tempo, também carrega riscos, especialmente quando se traduz em polarização extrema ou em soluções simplificadas para problemas complexos.

No Brasil, sinais desse pêndulo histórico também se manifestam. O país, que por décadas oscilou entre diferentes projetos políticos e econômicos, experimenta hoje um ambiente de forte polarização ideológica. Parte da sociedade demonstra resistência a agendas percebidas como impostas de cima para baixo, enquanto outra parcela defende a continuidade de transformações sociais e institucionais iniciadas nas últimas décadas.

Esse embate revela algo mais profundo do que simples divergência política. Ele expõe uma disputa sobre o próprio sentido do desenvolvimento, da identidade nacional e do papel do Estado. Em outras palavras, trata-se de uma disputa sobre quais valores devem orientar o futuro da sociedade.

O filósofo Friedrich Nietzsche já falava, no final do século XIX, sobre o avanço do niilismo a perda de referências tradicionais de sentido e valor. Para Nietzsche, esse processo poderia levar a uma crise profunda, na qual antigos sistemas de crenças deixam de oferecer respostas, sem que novos paradigmas estejam plenamente consolidados. A leitura contemporânea desse diagnóstico sugere que parte das tensões atuais pode estar relacionada a esse vazio de referências. Em um mundo onde tradições são questionadas, instituições são desafiadas e identidades são redefinidas, não surpreende que surjam movimentos de reação buscando restaurar algum tipo de estabilidade ou continuidade.

No entanto, é importante reconhecer que o pêndulo da história não opera de forma mecânica ou previsível. A reação a um determinado movimento não significa necessariamente um retorno simples ao passado. Muitas vezes, o que emerge é uma síntese imperfeita entre elementos antigos e novos, moldada pelas circunstâncias específicas de cada época. Nesse sentido, falar em “fim” de um determinado modelo pode ser menos preciso do que reconhecer um processo de transformação. O que está em curso não é apenas a rejeição de ideias associadas à globalização ou a determinadas correntes políticas, mas a tentativa de redefinir os termos do debate em um mundo cada vez mais complexo e interdependente.

O ponto central não está em tomar partido de uma ou outra direção do pêndulo, mas em compreender a lógica que move esse movimento. Ignorar os sinais de insatisfação social pode levar à intensificação de tensões. Por outro lado, respostas precipitadas ou simplificadoras podem agravar problemas que exigem soluções mais elaboradas. O desafio das sociedades contemporâneas é atravessar esse período de transição sem comprometer princípios fundamentais como liberdade, pluralismo e respeito às instituições.

Se há, de fato, uma contrarrevolução em curso, ela não deve ser entendida apenas como negação do que veio antes, mas como parte de um processo maior de ajuste histórico. O pêndulo se move, mas o ponto de equilíbrio ainda está em disputa. E talvez seja justamente aí que reside a principal lição desse momento: mais do que celebrar ou temer o movimento do pêndulo, é preciso compreender que a estabilidade duradoura não nasce dos extremos, mas da capacidade de construir sínteses que preservem o que há de essencial enquanto se adaptam às exigências do tempo presente.

 

A frase que foi pronunciada:
“A vida do Homem oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio, tais são na realidade os seus dois últimos elementos”.

Schopenhauer

Arthur Schopenhauer. Pintura de Jules Lunteschütz, 1855.

 

História de Brasília
Parece que foi ontem. O jornal ainda era um acampamento, todos nós morávamos no local de trabalho, porque ninguém tinha apartamento. Amanhecíamos e anoitecíamos juntos. Foi assim que equipe se consolidou. (Publicada em 16.05.1962)

Terras férteis e mentes preparadas

Publicado em Deixe um comentárioHistória de Brasília, ÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Foto: embrapa.br

 

Poucos sabem que a história da Embrapa é, sem exagero, um dos capítulos mais bem-sucedidos da trajetória recente do Brasil. Criada em 1973, em um contexto de forte intervenção estatal e planejamento estratégico, a empresa se tornou símbolo de como investimento consistente em ciência e tecnologia pode alterar profundamente o destino de uma nação.

De importador de alimentos, o país passou a ocupar posição central no abastecimento global, transformação que não se explica por acaso, mas por décadas de pesquisa aplicada, formação de quadros técnicos e integração entre conhecimento e produção. Esse percurso evidencia uma verdade frequentemente negligenciada no debate público: não há desenvolvimento sustentável sem ciência. A revolução agrícola brasileira, especialmente no Cerrado, só foi possível graças à adaptação de culturas a solos originalmente considerados inférteis, ao desenvolvimento de sementes mais resistentes e ao aperfeiçoamento de técnicas de manejo. Esse esforço não apenas elevou a produtividade, mas também contribuiu para a segurança alimentar interna e para a geração de excedentes exportáveis, com impacto direto na balança comercial e na estabilidade econômica. O caso da Embrapa não é isolado. Ele se insere em uma tradição de iniciativas estatais que, em determinados períodos, priorizaram a construção de capacidades nacionais.

A criação da Embraer, por exemplo, segue lógica semelhante: investimento público inicial, formação de engenheiros altamente qualificados e inserção competitiva em mercados globais. Hoje, a Embraer figura entre as maiores fabricantes de aeronaves do mundo, resultado direto de uma política que enxergou a ciência e a tecnologia como pilares estratégicos. Outras iniciativas daquele período também refletiram essa visão de longo prazo, com a estruturação de centros de pesquisa, universidades e programas de capacitação técnica. Ainda que inseridas em um contexto político controverso, essas ações deixam um legado institucional relevante, demonstrando que políticas públicas orientadas por conhecimento podem produzir efeitos duradouros. No entanto, o sucesso da Embrapa e de instituições semelhantes não deve ser encarado como garantido ou irreversível.

Ao longo das últimas décadas, a ciência brasileira enfrentou oscilações significativas de financiamento e prioridade política. Em diferentes governos houve momentos de expansão, mas também períodos de contingenciamento de recursos, o que compromete a continuidade de pesquisas que, por natureza, exigem planejamento de longo prazo. No caso específico da Embrapa, dificuldades orçamentárias já foram amplamente relatadas por seus próprios dirigentes e por especialistas do setor. A redução de investimentos impacta diretamente a capacidade de inovação, a manutenção de laboratórios e a retenção de talentos. Em um cenário global cada vez mais competitivo, interromper ou enfraquecer esse ciclo de produção de conhecimento representa não apenas uma perda interna, mas também um risco de retrocesso estratégico. Além disso, conflitos no campo que envolvem questões fundiárias, sociais e econômicas complexas por vezes atingem instituições de pesquisa.

É importante tratar esse tema com responsabilidade: episódios de invasão ou depredação, quando ocorrem, devem ser apurados e enfrentados dentro da lei, mas sem generalizações que simplifiquem um problema multifacetado. Ao mesmo tempo, é fundamental garantir a integridade de centros de pesquisa, que são patrimônio público e instrumentos essenciais para o desenvolvimento nacional. A lição que emerge dessa trajetória é clara. Países que investem de forma consistente em ciência colhem resultados em múltiplas dimensões: crescimento econômico, melhoria da qualidade de vida, soberania tecnológica e capacidade de enfrentar desafios globais, como mudanças climáticas e segurança alimentar.

O Brasil já demonstrou, com a Embrapa e a Embraer, que possui talento e competência para liderar em áreas estratégicas. O desafio, portanto, não é provar que a ciência funciona. Isso já está amplamente demonstrado, mas assegurar que ela permaneça no centro das prioridades nacionais. A iniciativa implica em financiamento estável, proteção institucional, valorização dos pesquisadores e um ambiente político que compreenda a ciência não como gasto, mas como investimento. Se o país deseja manter e ampliar sua posição no cenário global, precisa reconhecer que o verdadeiro “celeiro do mundo” não é apenas resultado de terras férteis, mas de mentes preparadas.

É na pesquisa, no laboratório e na educação que se planta o futuro. E, como mostra a história, essa é uma colheita que beneficia toda a sociedade.

 

A frase que foi pronunciada:
“Costumo dizer pelo mundo inteiro que o Brasil hoje possui terra, água, sol… e a Embrapa!

Roberto Rodrigues

Foto: Divulgação

 

Aterro Sanitário

Quem opta pela Chapada dos Veadeiros para curtir Cavalcante, Alto Paraíso, São Jorge leva um susto na estrada. Se a Secretaria do Meio Ambiente de Goiás precisa da localização, já recebeu: GO118. A partir de Planaltina, posto Advance, aparece um aterro sanitário à beira da pista com lixo que vem se acumulando há anos. Não é possível que um governador queira ser presidente da República e não consiga coibir o lixo mal administrado. Assista ao vídeo no link: LIXÃO NA GO-118.

 

História de Brasília
Os nossos agradecimentos às pessoas que nos telefonaram ou nos cumprimentaram pessoalmente pelo segundo aniversário desta coluna. E’ um estimulo para novas latas e novas campanhas. (Publicada em 16.05.1962)

O progresso como avanço da poeira

Publicado em Deixe um comentárioÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

facebook.com/vistolidoeouvido

instagram.com/vistolidoeouvido

 

Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasil

“Ao progresso cabe o avanço da poeira”, escreveu o satirista austríaco Karl Kraus. A frase, aparentemente simples, carrega uma crítica profunda: nem todo avanço técnico ou econômico representa, de fato, um avanço humano. Quando o chamado progresso deixa de servir à dignidade das pessoas, ele se converte em força bruta, uma máquina que constrói à superfície enquanto empurra para debaixo dela tudo aquilo que não quer ou não sabe resolver. Essa contradição torna-se visível de forma incômoda no Brasil contemporâneo e, de maneira particularmente simbólica, em Brasília.

Cidade planejada, concebida como expressão máxima da modernidade urbanística do século XX, Brasília deveria representar ordem, racionalidade e desenvolvimento. No entanto, por baixo de suas vias largas, seus eixos monumentais e sua arquitetura celebrada internacionalmente, cresce uma realidade paralela que desafia qualquer narrativa otimista sobre progresso. Sob viadutos, em áreas esquecidas e até mesmo em galerias pluviais, comunidades inteiras de pessoas vivem à margem daquilo que se convencionou chamar de desenvolvimento. Não se trata apenas de indivíduos isolados, mas de agrupamentos humanos que, privados de acesso à moradia digna, trabalho formal e assistência contínua, acabam criando formas precárias de sobrevivência em espaços que nunca foram pensados para abrigar vida humana.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa situação encontra-se na região do Lago Norte, onde estruturas do complexo viário da nova Braguetto passaram a servir de abrigo improvisado para uma população invisível. Ali, entre concreto, sombra e fluxo constante de veículos, forma-se uma espécie de cidade subterrânea, distante do olhar cotidiano de quem transita acima.

É o retrato literal da poeira de que falava Kraus  aquilo que o progresso levanta, mas prefere não enxergar. Fenômeno não é exclusivo da capital brasileira. Em Nova Yorque, uma das metrópoles mais ricas do planeta, comunidades semelhantes se formaram ao longo das últimas décadas nos subterrâneos do sistema de transporte da Metropolitan Transportation Authority. Reportagens e estudos acadêmicos documentaram a existência de populações vivendo em túneis de metrô, em condições extremas, longe da visibilidade pública e das políticas sociais convencionais.

Comparação entre essas realidades revela um ponto inquietante: níveis distintos de riqueza ou desenvolvimento não impedem a formação de bolsões de exclusão profunda. O que está em jogo não é apenas a capacidade econômica de uma sociedade, mas sua disposição política e moral de integrar todos os seus membros ao espaço público.

No Brasil, dados recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) indicam crescimento significativo da população em situação de rua nos últimos anos. Estimativas apontam para centenas de milhares de pessoas vivendo nessas condições em todo o país. Esse aumento não pode ser explicado apenas por fatores individuais; ele reflete falhas estruturais em políticas habitacionais, mercado de trabalho e redes de proteção social.

Retomando a provocação de Kraus, percebe-se que o progresso material, quando desvinculado da dignidade humana, produz efeitos paradoxais. Grandes obras, expansão urbana e crescimento econômico coexistem com a ampliação da exclusão social. O mesmo trator que abre avenidas e ergue edifícios pode, simbolicamente, empurrar pessoas para as margens invisíveis da cidade. O filósofo Zygmunt Bauman descreveu fenômeno semelhante ao falar da “modernidade líquida”, na qual estruturas sociais se tornam instáveis e indivíduos considerados “excedentes” acabam sendo descartados pelo sistema. Em sociedades marcadas por eficiência e produtividade, aqueles que não conseguem se integrar ao ritmo econômico dominante frequentemente são empurrados para fora do campo de visão. Brasília, com todo o seu simbolismo político e arquitetônico, torna essa contradição ainda mais evidente.

A cidade que abriga os centros de decisão do país convive, ao mesmo tempo, com realidades que parecem pertencer a outro mundo. A poucos quilômetros dos palácios e das instituições, multiplicam-se sinais de abandono social. Importante ressaltar que a existência dessas comunidades não representa apenas uma questão social, mas também um desafio ético e político. Ela questiona diretamente o sentido do desenvolvimento adotado.

Se o progresso não alcança aqueles que mais precisam, ele cumpre plenamente sua função? Ou estaria apenas redistribuindo benefícios de forma desigual, ampliando distâncias já existentes? Editorialmente, a resposta não pode ser confortável. Ignorar essas realidades significa aceitar uma definição de progresso que exclui parte da população. Significa admitir que o avanço material pode coexistir com a degradação humana sem que isso seja considerado um problema central. A imagem da poeira levantada pelo progresso, evocada por Kraus, ganha assim uma dimensão concreta. Reconhecer essa realidade é o primeiro passo. Torná-la visível é o segundo. O terceiro, e mais difícil, é enfrentar as causas estruturais que produzem esse tipo de exclusão. Sem isso, o que continuará avançando não será apenas o progresso, mas também a poeira encobrindo, silenciosamente, aquilo que uma sociedade prefere não ver.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Nossas vidas começam a terminar no dia em que nos calamos sobre as coisas que importam.”

Martin Luther King Jr.

Foto: Martin Luther King, líder do movimento pelos direitos civis nos EUA e Nobel da Paz | Arquivo (blogs.oglobo.globo.com)

 

História de Brasília

Pois bem. O mesmo serviço de imprensa anunciava que terça-feira o presidente viajaria para Brasília. O sr. João Goulart, contrariando a previsão, chegou segunda-feira. (Publicada em 16.05.1962)