O caminho natural das coisas

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Cartunista: Adão Iturrusgarai

 

Nunca foi uma boa ideia pular etapas. Essa é uma verdade simples, quase banal, mas que a política insiste em ignorar com frequência. A história, quando observada sem paixões, mostra que os atalhos, sobretudo na condução do poder, raramente terminam bem. Convém começar pelo óbvio. Experiência importa. Em qualquer atividade humana minimamente complexa, a progressão natural aprender, testar, errar, corrigir é o que permite maturidade de decisão. Ninguém entrega a direção de uma empresa bilionária a quem nunca administrou sequer um pequeno negócio. Ou não deveria entregar. Na política, porém, essa lógica elementar é frequentemente ignorada. Quando se fala em cargos como o de presidente da República, não se trata apenas de ocupar uma cadeira. Trata-se de conduzir um país com milhões de habitantes, uma máquina pública gigantesca e uma economia cheia de fragilidades. Exige-se, portanto, mais do que discurso.

Ao longo da história, exemplos não faltam. Líderes que ascenderam rapidamente, sem a devida experiência administrativa ou política, frequentemente enfrentaram dificuldades para lidar com a complexidade do poder. Em muitos casos, recorreram a improvisos, cercaram-se de assessorias frágeis ou tomaram decisões erráticas.

Por outro lado, há casos de líderes que percorreram etapas mais longas — governos locais, cargos legislativos, funções executivas intermediárias — e chegaram ao topo com uma bagagem mais sólida. Isso não garante sucesso automático, mas oferece instrumentos melhores para enfrentar a realidade. Governar, afinal, não é teoria. É prática acumulada ao longo dos anos. O problema agrava-se quando o eleitorado, movido por frustração ou esperança imediata, passa a enxergar o “novo” como solução automática. O discurso de ruptura, muitas vezes sedutor, pode esconder a ausência de preparo. A promessa de fazer diferente não substitui a capacidade de fazer funcionar. E, nesse momento, escolher certo com quem trabalhar é crucial.

Os custos são muitos quando governar torna-se uma aventura. Custos administrativos, quando decisões mal calibradas geram desperdícios ou paralisia. Custos econômicos, quando políticas mal formuladas afetam investimentos e crescimento. Custos institucionais, quando a falta de experiência leva a conflitos desnecessários entre Poderes ou a uma leitura equivocada das regras do jogo.

Diria o filósofo de Mondubim: nunca colocar os carros adiante dos bois. Esse é o princípio da organização. Da mesma forma, “não começar uma casa pela cumeeira” traduz a ideia de que toda construção — física ou institucional — exige base sólida e prática.

Outro ponto importante diz respeito à própria cultura política. Em democracias mais consolidadas, é comum que lideranças nacionais tenham passado por diferentes níveis de governo ou por longas carreiras legislativas. Isso cria um filtro natural em que competências são testadas ao longo do tempo. Quando esse filtro é ignorado, abre-se espaço para ciclos de entusiasmo e frustração. A cada nova aposta em soluções rápidas, repete-se o padrão: expectativas elevadas, dificuldades na execução e, por fim, decepção. O resultado de todo esse processo é a perda de tempo. Um passo para frente e dez para trás.

A política, quando bem exercida, deveria ser o espaço em que a responsabilidade se sobrepõe à improvisação. Onde o acúmulo de conhecimento orienta decisões. Onde o poder não é um experimento, mas uma continuidade de aprendizado. E, como a História também ensina, repetir erros conhecidos raramente leva a resultados diferentes. Expertise política não é saber dobrar os oponentes pela força do poder ou do dinheiro, ou pela lábia e verborragia, mas agir conforme indica o bom senso e o norte que aponta sempre para o cumprimento dos direitos fundamentais e obrigações do Estado como previsto na Constituição.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Uma marca infalível do amor à verdade é não aceitar nenhuma proposição com maior certeza do que as provas em que ela se baseia podem garantir.”
John Locke

Retrato de John Locke, de Sr. Godfrey Kneller. Fonte: Coleção de Sr. Robert Walpole, Houghton Hall, 1779.

 

História de Brasília
O ministro Ari Franco, que mora em Brasília, onde funciona seu tribunal, endereçou ao sr. Armando Monteiro o seguinte telegrama: “Agradeço V. Exa. convite para assistir posse Comissão Nacional Reforma Agrária dia 14 corrente, salão nobre êsse Ministério Rio de Janeiro. Esclareço Vossência porém não poderia comparecer uma vez que resido em Brasília onde funcionam o Tribunal Superior Eleitoral, órgão que presido, e o Supremo Tribunal Federal, do qual sou um dos juízes. Cordiais saudações. Ari Franco”. (Publicada em 18/5/1962)

Herança

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Charge do Cláudio

 

Chegará ao Planalto, em janeiro de 2027, um presidente que não herdará um país, mas um conjunto de problemas acumulados, encadeados e, em muitos casos, agravados pela omissão e pela má gestão. Não haverá tempo para discursos de posse com promessas vagas. O cenário exigirá decisões imediatas, porque o Brasil que estará à sua frente não será o das campanhas eleitorais, mas o da realidade concreta, dura e pouco negociável. Encontrará, de saída, um quadro fiscal pressionado. As contas públicas, já há anos tensionadas por gastos crescentes e baixa capacidade de investimento, deverão impor limites claros a qualquer aventura política. Qualquer medida mal calibrada terá impacto direto na inflação, nos juros e, por consequência, no bolso da população.

O Brasil convive há décadas com produtividade baixa, ambiente de negócios complexo e insegurança jurídica recorrente. Nenhum presidente resolve isso com discursos. É preciso trabalhar em estruturas como o sistema tributário, burocracia excessiva e um Estado que muitas vezes dificulta mais do que ajuda. Sem enfrentar esses pontos, o país continuará girando em falso.

No campo social, a situação não será mais simples. O grande desafio continuará sendo transformar assistência em autonomia. Isso passa por educação de qualidade, formação profissional e geração de empregos. Sem isso, o ciclo de dependência do Estado se perpetua, e o país não avança. A segurança pública será outro ponto crítico. O avanço do crime organizado, cada vez mais estruturado e com atuação nacional, exigirá coordenação entre União e estados. Será preciso inteligência, integração de dados e, sobretudo, vontade política para enfrentar interesses que já se infiltraram em diversas áreas.

No campo institucional, o próximo presidente encontrará um ambiente de desconfiança. Parte da população não acredita plenamente nas instituições, enquanto outra parte as defende sem reservas. A máquina pública continuará pesada. Gastos obrigatórios comprimem o orçamento, e reformas estruturais seguem sendo evitadas por seu custo político. O novo presidente terá de decidir se enfrenta esse problema ou se apenas o administra. Adiar decisões pode parecer confortável no curto prazo, mas cobra um preço alto adiante.

Na política, encontrará um Congresso fragmentado, com interesses múltiplos e nem sempre convergentes com o interesse público. No cenário internacional, o Brasil continuará inserido em um mundo mais instável. Tensões comerciais, disputas geopolíticas e mudanças nas cadeias produtivas exigirão posicionamento estratégico. Outro ponto inevitável será a agenda ambiental. O país possui ativos relevantes, mas também enfrenta críticas externas e pressões internas. Conciliar desenvolvimento econômico com preservação não é tarefa simples.

Na infraestrutura, o desafio continuará sendo transformar projetos em obras concluídas. Sem melhorar a capacidade de entrega, o Brasil seguirá com gargalos que encarecem a produção e limitam o crescimento. Na educação, os resultados ainda estarão aquém do necessário. Avaliações mostram dificuldades persistentes em aprendizagem básica. Educação não é tema para slogans, mas para políticas consistentes e contínuas.

O próximo presidente também herdará um país cansado. Cansado de promessas não cumpridas, de crises recorrentes e de soluções que não se concretizam. Nada disso será novidade para quem acompanha o país com atenção. O problema nunca foi falta de diagnóstico. O problema sempre foi execução. O Brasil sabe o que precisa ser feito em muitas áreas. Falta fazer.

O presidente que assumir em 2027 terá duas opções. Repetir o roteiro conhecido, adiando decisões e administrando crises, ou enfrentar os problemas com clareza e responsabilidade. O país que será entregue em 2027 não estará condenado, mas tampouco estará resolvido. Será, como tantas vezes na história, um país em aberto. Caberá ao próximo presidente decidir se continuará sendo apenas mais um capítulo de expectativas frustradas ou se iniciará um processo de correção de rumos. O tempo, como sempre, será o juiz mais rigoroso.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“A liberdade que sempre defendemos é a de viver com dignidade, com plenos direitos de expressões e manifestação, e sobretudo de organização. A liberdade que eles pregam é a de oprimir o vulnerável, massacrar o oponente e impor a lei do mais forte acima das leis da civilização. O nome disso é barbárie.”…

Presidente Lula, no discurso de posse

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 

Historia de Brasilia
O ministro da Agricultura mandou um telegrama ao ministro Ari Franco, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, convidando-o para a solenidade de instalação da Comissão de Reforma Agrária, no Rio. (Publicada em 18.05.1962)

Indústria em queda: o retrato de um país que perde tração

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Foto: Reuters/Paulo Whitaker

 

Números recentes do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, IEDI, com base em dados da UNIDO, trazem um diagnóstico incômodo, embora já não propriamente surpreendente, o Brasil está perdendo relevância industrial em ritmo acelerado. Em um mundo no qual a indústria de transformação permanece como eixo estruturante da inovação tecnológica, da produtividade e da geração de empregos de maior qualificação, o país parece avançar na contramão, como se observasse, à distância, uma corrida da qual já participou com mais vigor.

A retração de 1,8% na produção industrial brasileira em 2025 não é apenas um dado conjuntural, desses que se diluem com o tempo e desaparecem das análises mais rigorosas, mas um sintoma de um problema mais profundo, persistente e, sobretudo, cumulativo: a falta de dinamismo. A trajetória recente evidencia uma perda contínua de posição relativa no cenário global, algo que não se constrói de um ano para outro, mas que também não se explica apenas pelo peso do passado. No ranking global de dinamismo industrial elaborado pelo IEDI, o Brasil aparece na 72ª colocação entre 83 países no quarto trimestre de 2025, um resultado que o coloca atrás de praticamente todos os polos industriais relevantes. Mais eloquente do que a posição em si é o movimento: uma queda sequencial que inclui o recuo expressivo de 44 posições em relação ao mesmo período do ano anterior, um deslocamento que, por sua magnitude, dispensa e, ao mesmo tempo, exige explicações.

Esse tipo de deterioração raramente decorre de um único fator. Ele é, em geral, a expressão visível de engrenagens que deixam de funcionar de forma coordenada. Custos elevados, insegurança jurídica, complexidade tributária e infraestrutura deficiente continuam a compor o conhecido mosaico de entraves à competitividade, mas o que chama atenção é a persistência desses elementos, mesmo diante de sucessivos diagnósticos. Como observou recentemente o economista-chefe do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, “o Brasil não enfrenta um problema de falta de diagnóstico, mas de dificuldade em transformar diagnóstico em ação consistente”, uma constatação que, embora recorrente, parece resistir ao desgaste do tempo.

No plano internacional, o cenário tampouco oferece conforto. Ao contrário, tornou-se mais competitivo e mais estratégico. Países centrais passaram a adotar políticas industriais ativas, muitas vezes combinando subsídios diretos, incentivos fiscais e investimentos robustos em inovação e transição energética. Os Estados Unidos, por meio do Inflation Reduction Act, mobilizaram centenas de bilhões de dólares em apoio à indústria verde, enquanto a União Europeia avançou com seu plano de reindustrialização focado em autonomia estratégica. Não se trata apenas de proteger mercados internos, mas de reposicionar cadeias produtivas inteiras. Nesse contexto, a ausência de resposta coordenada não é neutra, ela implica perda de espaço.

O problema brasileiro, como frequentemente apontam relatórios do Banco Mundial e da OCDE, reside menos na falta de iniciativas pontuais e mais na fragmentação das políticas públicas. Programas são anunciados com frequência, mas carecem de continuidade, integração e avaliação de impacto. A instabilidade regulatória e a imprevisibilidade das regras acabam por elevar o custo de investimento, especialmente em setores intensivos em capital e tecnologia.

Outro ponto crítico, talvez o mais silencioso e ao mesmo tempo o mais determinante, é a produtividade. Dados recentes do IBGE indicam que o crescimento econômico observado em 2025, da ordem de 2,3%, não foi acompanhado por ganhos robustos de eficiência, o que reforça a percepção de que o país cresce sem transformar estruturalmente sua base produtiva. Como sintetizou um relatório do IPEA, “sem avanços consistentes de produtividade, o crescimento tende a ser limitado e vulnerável a choques externos”, uma advertência que se projeta para além do curto prazo.

Essa limitação se manifesta de forma concreta: produtos importados tornam-se progressivamente mais competitivos no mercado interno, enquanto as exportações brasileiras enfrentam dificuldades crescentes para se inserir em cadeias globais de valor, especialmente aquelas mais intensivas em tecnologia. O resultado é um processo de desindustrialização que não se anuncia de forma abrupta, mas que se consolida lentamente, quase de maneira silenciosa, até se tornar evidente demais para ser ignorado.

Evidentemente, o impacto desse quadro ultrapassa os limites das fábricas. A indústria possui um conhecido efeito multiplicador sobre a economia, ela articula cadeias produtivas, estimula inovação e sustenta empregos de maior qualificação e renda. Quando esse setor perde dinamismo, o efeito se difunde, menor crescimento, redução de oportunidades e aumento da vulnerabilidade externa. Como já afirmou a própria Confederação Nacional da Indústria, “não há desenvolvimento sustentável sem uma base industrial sólida”, uma frase que, à primeira vista, pode soar como um lugar-comum, mas que encontra respaldo consistente na experiência internacional.

O debate sobre as causas, inevitavelmente, transita pelo terreno das escolhas de política econômica. Há leituras distintas, por vezes conflitantes, sobre prioridades e estratégias. No entanto, independentemente da perspectiva adotada, há um ponto de convergência difícil de contornar, resultados importam, e os resultados, até aqui, têm sido insuficientes para reverter a tendência de perda de relevância industrial.

Isso não significa, contudo, que o cenário esteja dado de forma irreversível. Experiências internacionais mostram que processos de reindustrialização são possíveis quando há consistência de políticas, estabilidade institucional e foco claro em competitividade. Mas essas experiências também indicam que o primeiro passo é reconhecer o problema sem ambiguidade, o segundo é transformá-lo em prioridade política efetiva. A competição global por produção, tecnologia e investimento tornou-se mais intensa e mais seletiva. Países que hesitam, que fragmentam suas estratégias ou que postergam reformas estruturais acabam ficando para trás, e recuperar terreno, uma vez perdido, tende a ser um exercício mais custoso e mais demorado.

Recolocar a indústria no centro da estratégia de desenvolvimento implica em avançar na simplificação tributária de forma efetiva, melhorar o ambiente de negócios, investir em infraestrutura, qualificar a mão de obra e estimular a inovação de maneira integrada. Sem esses elementos, o país continuará assistindo, quase sempre com perplexidade tardia, à erosão de sua base produtiva. A década que se desenha ainda está em aberto, mas os sinais já são suficientemente claros para indicar os riscos de repetição de padrões conhecidos, crescimento baixo, produtividade estagnada e perda de protagonismo. Trata-se, como quase sempre, de escolhas, e das consequências que inevitavelmente decorrem delas.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Por meio de um processo contínuo de inflação, o governo pode confiscar, secretamente e sem ser notado, uma parte importante da riqueza de seus cidadãos.”

John Maynard Keynes

John Maynard Keynes por volta de 1938.
Gordon Anthony (Getty Images)

 

História de Brasília
Se os cariocas soubessem disto, viriam fazer compra em Brasília. O feijão aqui custa 75 cruzeiros, o arroz 35 e o filet mignon (que existe) está sendo vendido a 140 cruzeiros. (Publicada em 17. 05.1962)

Redução da jornada: promessa atraente, riscos ignorados

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Foto: Hermínio Bernardo/TV Globo

 

Propostas de mudança na jornada de trabalho, como o fim da escala 6×1, costumam surgir em momentos politicamente sensíveis. Não é difícil entender a razão. A ideia de trabalhar menos dias e ter mais tempo livre dialoga diretamente com aspirações legítimas da população. O problema começa quando medidas dessa natureza são apresentadas sem o devido lastro econômico e sem avaliação consistente de seus efeitos colaterais. No Brasil, essa discussão ocorre em um contexto particularmente delicado. O país convive com baixo crescimento estrutural, produtividade estagnada, alto nível de informalidade e um ambiente de negócios ainda marcado por insegurança jurídica e elevada carga tributária.

Nesse cenário, qualquer alteração relevante na organização do trabalho precisa ser tratada com extremo cuidado. A experiência internacional mostra que redução de jornada pode funcionar, mas sob condições específicas. Países que avançaram nesse campo, como Alemanha, Holanda e alguns países nórdicos, possuem alta produtividade, forte capital humano, sistemas educacionais robustos e mercados de trabalho altamente formalizados. Ou seja, reduzir jornada nesses contextos não implica necessariamente perda de produção. O Brasil está longe dessa realidade. Aqui, produtividade média é significativamente inferior à de economias desenvolvidas. Dados recorrentes de organismos como OCDE e IBGE mostram que o Brasil produz exatamente a metade por hora trabalhada do que a média internacional. Nesse ambiente, reduzir dias de trabalho sem aumento proporcional de eficiência tende a gerar um efeito direto: aumento de custos.

Para empresas especialmente pequenas e médias isso se traduz em uma equação difícil. Ou se contrata mais gente (aumentando folha salarial), ou se reduz produção, ou se repassa custo para o consumidor. Em qualquer dos casos, há impacto negativo: desemprego, inflação ou queda de competitividade. Setores intensivos em mão de obra, como comércio e serviços, seriam particularmente afetados. São justamente esses setores que mais empregam e que operam com margens apertadas com tantos impostos e cobranças. Alterações abruptas na jornada podem levar ao fechamento de empresas ou à migração para informalidade, fenômeno já elevado no país.

Outro ponto raramente discutido com profundidade é o efeito distributivo da medida. Trabalhadores formais, com contratos protegidos, podem ser beneficiados. Já os informais que representam cerca de 40% da força de trabalho não têm garantia alguma de que terão redução de jornada. Ao contrário, podem enfrentar mais instabilidade. Ou seja, uma política que parece ampliar direitos pode, na prática, aprofundar desigualdades dentro do próprio mercado de trabalho. Há ainda o impacto fiscal indireto. Menor atividade econômica reduz arrecadação, pressionando contas públicas que já operam sob forte restrição. Em um país com dívida elevada e espaço fiscal limitado, esse tipo de efeito não pode ser ignorado.

Nada disso significa que o debate sobre qualidade de vida no trabalho deva ser descartado. Pelo contrário. Jornadas mais equilibradas, saúde mental e produtividade são temas centrais no mundo contemporâneo. Mas o caminho para isso passa por aumento de eficiência, educação, tecnologia e modernização das relações de trabalho, não por decretos descolados da realidade econômica. O Brasil já acumulou experiências suficientes com políticas que priorizaram o ganho político de curto prazo em detrimento da sustentabilidade de longo prazo. O resultado costuma ser conhecido: crescimento baixo, desemprego elevado e frustração social. Discutir o assunto implica reconhecer limites, avaliar custos e, sobretudo, entender que não há atalhos quando se trata de desenvolvimento econômico.

Reduzir a jornada pode ser um objetivo legítimo no futuro. Mas, no presente, a pergunta essencial é outra: o país já criou as condições para sustentar essa mudança sem gerar efeitos adversos? Se a resposta for não, suportada pelos indicadores então insistir na medida pode significar trocar uma promessa atraente por um problema concreto. E, em economia, como na vida pública, promessas sem sustentação costumam cobrar um preço alto. Geralmente para o lado mais fraco da corda.

 

A frase que foi pronunciada:
“Não é que nós somos contra o trabalho, nós somos contra a exploração”, disse ela na Câmara dos Deputados.

Deputada Érika Hilton

Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

 

História de Brasília
Se os cariocas soubessem disto, viriam fazer compra em Brasília. O feijão aqui custa 75 cruzeiros, o arroz 35 e o filet mignon (que existe) está sendo vendido a 140 cruzeiros. (Publicada em 17. 05.1962)

BRB e a caixa de pandora. Respingos nas eleições.

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Foto: Divulgação/ENB

 

À medida que se aproxima o calendário eleitoral no Distrito Federal, um fator extrínseco à disputa política tradicional começa a ganhar peso e pode influenciar decisivamente o ambiente das urnas: a confiança ou a falta dela nas instituições locais. E, nesse contexto, a situação do Banco de Brasília (BRB) emerge como um elemento sensível, capaz de afetar não apenas a percepção econômica, mas também o humor político do eleitorado. Instituições financeiras públicas carregam uma dupla responsabilidade. De um lado, operam dentro das regras de mercado; de outro, representam o Estado e, portanto, o interesse coletivo. Quando surgem questionamentos sobre gestão, exposição a riscos ou decisões estratégicas controversas, o impacto ultrapassa o balanço contábil e atinge diretamente a confiança da sociedade.

Nos últimos anos, a imprensa local e nacional tem acompanhado de perto os movimentos do BRB, especialmente sua estratégia de expansão, aquisição de ativos e parcerias. Reportagens têm destacado tanto o crescimento da instituição em determinados períodos quanto preocupações relacionadas à qualidade de ativos, exposição a riscos e necessidade de ajustes na carteira. Como ocorre com qualquer banco, decisões desse porte envolvem riscos calculados mas, quando os resultados passam a ser questionados, a cobrança pública se intensifica. Balanços financeiros divulgados indicam que o banco passou por fases distintas, com momentos de expansão relevante e, posteriormente, necessidade de revisão de estratégias.

Ainda que a análise de responsabilidades deva ser feita com base em dados concretos e processos formais, a percepção popular tende a associar resultados negativos à condução política. Outro aspecto que amplia a sensibilidade do tema é o potencial impacto sobre a população. Embora o sistema financeiro brasileiro possua mecanismos de proteção, como o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), qualquer instabilidade em um banco público gera apreensão. A ideia de que prejuízos possam, direta ou indiretamente, recair sobre os contribuintes alimenta um sentimento de insegurança. A cobertura da imprensa tem enfatizado justamente esse ponto: a necessidade de transparência. Em situações que envolvem recursos públicos e instituições estratégicas, a clareza das informações não é apenas desejável é essencial. Quanto mais opaco o cenário, maior o espaço para especulação, desconfiança e desgaste institucional. Esse ambiente de incerteza pode, sim, transbordar para o campo eleitoral. Quando temas relevantes permanecem sem esclarecimento adequado, o debate político tende a ser contaminado por ressentimentos, suspeitas e narrativas conflitantes. No entanto, é preciso cautela ao interpretar esse cenário.

A ideia de que eleições ocorreriam “sob vingança” ou “sem paz” é uma projeção possível, mas não inevitável. Democracias convivem com crises e, ainda assim, mantêm processos eleitorais regulares. O que define a qualidade desse processo é justamente a capacidade das instituições de oferecer respostas claras e dentro da legalidade. Nesse sentido, o papel dos órgãos de controle como tribunais de contas, Ministério Público e instâncias reguladoras torna-se central. São essas instituições que têm a responsabilidade de apurar eventuais irregularidades, avaliar a consistência das decisões tomadas e, quando necessário, responsabilizar agentes públicos ou privados. Sem esse trabalho técnico, o debate público corre o risco de se apoiar mais em percepções do que em fatos.

A classe política local também não escapa desse escrutínio. Em sistemas democráticos, decisões estratégicas envolvendo instituições públicas são, em maior ou menor grau, compartilhadas entre diferentes atores. Isso não significa atribuir culpa indistinta, mas reconhecer que governança é um processo coletivo, que exige vigilância constante. Para o eleitor, o cenário se apresenta como um teste de maturidade institucional. Diante de informações complexas e, por vezes, incompletas, será necessário separar análise técnica de discurso político.

Quanto mais cedo e de forma mais clara forem apresentados os dados, explicações e eventuais correções de rumo, menor será o impacto sobre o ambiente político. Se há dúvidas, elas precisam ser respondidas. Se há problemas, precisam ser corrigidos. E se há responsabilidades, devem ser apuradas dentro do devido processo legal. O Distrito Federal possui estrutura institucional suficiente para enfrentar esse tipo de desafio. O que está em jogo não é apenas o futuro de uma instituição financeira, mas a credibilidade de um sistema que depende, acima de tudo, da confiança de seus cidadãos. E é justamente essa confiança que definirá se o processo eleitoral transcorrerá sob tensão ou sob a normalidade democrática que se espera de uma capital que abriga o centro do poder nacional.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Novo crime hediondo: desviar dinheiro do trabalhador, como quem subtrai não apenas cifras, mas tempo de vida convertido em esforço, expectativa e dignidade, erodindo silenciosamente o pacto social que sustenta a confiança nas instituições e naturalizando a ideia perversa de que o sacrifício coletivo pode ser apropriado por poucos sem consequência proporcional.”

É o que fala o coração dos honestos

Charge do Cazo

 

História de Brasília
Os cariocas estão chamando o anexo do Congresso de sanduíche de vento. (Publicada em 17/5/1962)

Saúde pública no DF e o retrato de um amanhã sombrio

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Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

 

Crise da saúde pública no Distrito Federal deixou de ser percepção isolada para se tornar um diagnóstico amplamente documentado por pesquisas, órgãos de controle e pela própria experiência cotidiana da população. O que se vê hoje não é um problema pontual ou conjuntural, mas um colapso progressivo de gestão, planejamento e execução de políticas públicas em um dos setores mais sensíveis do Estado.

Levantamentos recentes mostram que a saúde é, de longe, a área mais mal avaliada pela população do DF. Pesquisa do ObservaDF indica níveis persistentes de insatisfação, com críticas concentradas na má qualidade do atendimento, longas filas e escassez de médicos. Os números ajudam a dimensionar o problema. Estima-se que a fila por consultas, exames e procedimentos ultrapasse a marca de 100 mil demandas reprimidas. Em paralelo, há registros de espera que chegam a meses ou até anos para atendimentos especializados, o que, na prática, significa agravamento de doenças, perda de qualidade de vida e, em muitos casos, risco real à vida dos pacientes.

Esse quadro não surge do nada. Ele é resultado direto de uma combinação de fatores estruturais: falhas de planejamento, gestão ineficiente de recursos, déficit de profissionais e problemas logísticos. Relatórios e ações recentes do Ministério Público do Distrito Federal apontam, por exemplo, falta de equipamentos, carência de pessoal e falhas operacionais como entraves concretos ao funcionamento da rede.

A atenção primária, que deveria funcionar como base do sistema de saúde, também apresenta fragilidades. Embora unidades básicas sejam amplamente utilizadas, a dificuldade de acesso a consultas e a baixa cobertura de acompanhamento preventivo revelam um modelo que não consegue atuar de forma eficaz na prevenção o que acaba sobrecarregando hospitais e emergências.

E é justamente nas emergências que o colapso se torna mais visível. Filas extensas, tempo de espera elevado e sobrecarga de profissionais compõem um cenário que já foi descrito como alarmante por entidades da área. Hospitais operam no limite, enquanto pacientes enfrentam jornadas exaustivas em busca de atendimento básico.

Outro aspecto que agrava a crise é a gestão dos recursos. Apesar de orçamentos bilionários destinados à saúde, há relatos recorrentes de ineficiência na execução, incluindo devolução de verbas federais por incapacidade de planejamento e aplicação. Esse tipo de situação revela um paradoxo típico de sistemas mal geridos: faltam serviços, mas sobram recursos mal utilizados.

Além disso, decisões orçamentárias recentes indicam compressão de investimentos na área, com cortes significativos que impactam diretamente a capacidade de atendimento. Em um cenário já fragilizado, a redução de recursos tende a aprofundar ainda mais os gargalos existentes. Quando cidadãos deixam de acreditar na capacidade do Estado de oferecer atendimento digno, abre-se espaço para soluções improvisadas, judicialização da saúde e aumento da desigualdade no acesso aos serviços.

Há ainda um elemento mais grave, frequentemente apontado no debate público: o risco de que estruturas frágeis se tornem suscetíveis a práticas irregulares. Sistemas com baixa transparência, como já apontado em outras ocasiões nesse espaço, falhas de controle e grande volume de recursos são, historicamente, mais vulneráveis a desvios e corrupção. A saúde pública não admite improviso, nem pode ser gerida sob lógica de curto prazo.

Responsabilidade política, nesse contexto, é inevitável. Gestores atuais e passados respondem, em maior ou menor grau, pelas decisões que moldaram o sistema. No entanto, mais importante do que a atribuição de culpas é a construção de soluções efetivas. Essas soluções passam, necessariamente, por alguns pilares já conhecidos: planejamento estratégico, fortalecimento da atenção primária, gestão eficiente de recursos, valorização de profissionais e implementação de mecanismos rigorosos de controle e transparência.

Sem isso, qualquer tentativa de reforma será superficial. O problema não é a falta de diagnóstico ele está amplamente disponível. O problema é a incapacidade de transformar diagnóstico em ação consistente. O Distrito Federal, por sua importância institucional e capacidade orçamentária, deveria ser referência nacional em saúde pública. O fato de ocupar hoje posição de destaque negativo revela o tamanho do desafio. Se nada for feito de forma estrutural, o cenário tende a se agravar. Mais do que uma crise administrativa, o que está em jogo é a dignidade de uma população que depende do sistema para viver. E esse é um ponto que não admite relativizações: quando a saúde falha, falha o próprio Estado.

 

A frase que foi pronunciada:
“O SUS sofre mais de problemas de gestão do que de concepção.”
Drauzio Varella

Foto: istoe.com.br

 

História de Brasília
Está marcado para amanhã, o julgamento mais sensacional do Tribunal do Juri de Brasília. Será julgado o delegado João Pelles. (Publicada em 17. 05.1962)

PNE e a educação sem rumo

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Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

 

Ao estabelecer metas para uma década inteira, o PNE não é apenas um documento administrativo é um compromisso com o futuro de milhões de estudantes. Por isso, exige rigor técnico, clareza de objetivos e alinhamento com práticas que já demonstraram resultados em outros contextos. O que se observa, contudo, segundo críticos do modelo recentemente apresentado, é um desalinhamento preocupante com tendências internacionais consolidadas. Países que avançaram significativamente em educação como Finlândia, Coreia do Sul, Canadá e Estônia seguiram caminhos relativamente convergentes: simplificação curricular, foco em conteúdos essenciais, avaliação constante de desempenho e forte responsabilização de gestores e sistemas.

Nesses sistemas, a lógica é direta. Define-se o que é essencial aprender, organiza-se o currículo de forma sequencial e cumulativa, mede-se o resultado com instrumentos comparáveis e, a partir daí, ajustam-se políticas e práticas. Não há espaço para ambiguidade excessiva ou metas difusas. A educação é tratada como política de Estado baseada em evidências, não como campo de experimentação ideológica. Outro ponto central nesses modelos é a valorização da gestão escolar. Diretores e equipes pedagógicas assumem papel decisivo, com autonomia para implementar estratégias, mas também com responsabilidade clara pelos resultados. O desempenho não é abstrato: ele é medido, acompanhado e, quando necessário, corrigido. Além disso, políticas bem-sucedidas costumam incorporar mecanismos de incentivo. Escolas que apresentam bons resultados recebem reconhecimento e apoio para expandir práticas eficazes. Ao mesmo tempo, instituições com desempenho insatisfatório são alvo de intervenções estruturadas, com suporte técnico e metas claras de melhoria.

Esse ciclo medir, avaliar, corrigir constitui a base de sistemas educacionais que evoluem de forma consistente. Ele exige transparência, compromisso com dados e disposição para reconhecer falhas. Diante desse panorama, a crítica ao novo PNE se concentra justamente na ausência ou fragilidade desses elementos. A percepção de que o plano carece de foco, apresenta metas genéricas e não estabelece mecanismos robustos de avaliação e responsabilização levanta dúvidas sobre sua eficácia prática. Outro aspecto apontado é a possível politização das diretrizes. Quando políticas educacionais passam a refletir mais disputas ideológicas do que evidências pedagógicas, o risco é desviar o foco do que realmente importa: o aprendizado dos alunos. Educação, nesse sentido, torna-se meio para fins externos, e não um objetivo em si. Especialistas em políticas públicas frequentemente alertam para esse risco. A educação é uma área particularmente sensível, pois seus resultados são de longo prazo. Decisões tomadas hoje impactam gerações futuras. Por isso, a consistência e a estabilidade das políticas são fundamentais.

No Brasil, histórico de mudanças frequentes e descontinuidade de programas já comprometeu avanços em diferentes momentos. Cada novo plano que ignora experiências anteriores ou desconsidera evidências internacionais contribui para a perpetuação de um ciclo de baixa efetividade. Também chama atenção a questão da descentralização. Sistemas educacionais mais eficientes tendem a combinar diretrizes nacionais com autonomia local. Estados e municípios, mais próximos da realidade das escolas, têm maior capacidade de adaptar políticas às suas necessidades específicas. Quando essa autonomia é limitada ou mal estruturada, perde-se flexibilidade e capacidade de resposta.

Outro ponto crítico é a formação de professores. Nenhum plano educacional terá sucesso sem investir de forma consistente na qualificação docente. Países que avançaram nessa área priorizaram seleção rigorosa, formação contínua e valorização profissional. Sem isso, qualquer diretriz curricular tende a permanecer no papel.

Editorialmente, o debate sobre o PNE não deve ser reduzido a disputas partidárias. Trata-se de uma questão estrutural, que exige compromisso com resultados e disposição para aprender com experiências bem-sucedidas, tanto internas quanto externas. A crítica à falta de foco e à possível ideologização não é, portanto, um exercício retórico, mas um alerta sobre riscos concretos. Um plano educacional que não define prioridades claras, não estabelece métricas consistentes e não responsabiliza seus agentes tende a produzir resultados igualmente difusos.

O país já enfrenta desafios significativos na educação básica, com indicadores que, apesar de avanços pontuais, ainda revelam desigualdades profundas e desempenho aquém do desejável em avaliações internacionais. Diante desse cenário, a margem para erro é limitada. Se há um consenso entre especialistas, é o de que a educação exige seriedade, continuidade e base técnica sólida. Planos amplos, porém pouco precisos, podem até gerar expectativas, mas dificilmente entregam resultados concretos.

O futuro da educação brasileira não será definido por discursos, mas pela capacidade de implementar políticas eficazes, monitorar seus efeitos e corrigir rumos quando necessário. Qualquer plano que se afaste dessa lógica corre o risco de se tornar mais um documento formal extenso, ambicioso e, no fim, pouco transformador. E, nesse campo, o custo da ineficácia não é apenas administrativo. Ele recai diretamente sobre milhões de estudantes que dependem da escola pública como principal instrumento de mobilidade social. Ignorar isso é comprometer não apenas uma política, mas o próprio futuro do país.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“A parceria tem a missão de contribuir para qualificar o debate público a partir de análises, dados, evidências e reflexões sobre a importância de um PNE robusto, exequível e orientado pela garantia do direito à aprendizagem.”
Priscila Cruz

Ilustração: educador.brasilescola.uol

 

História de Brasília
Está marcado para amanhã, o julgamento mais sensacional do Tribunal do Juri de Brasília. Será julgado o delegado João Pelles. (Publicada em 17. 05.1962)

A trilha sonora de um sonho na construção de Brasília

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Lúcio Costa e presidente JK. Foto: arquivo.arq

Em 1960, o Brasil assistia a um de seus maiores atos de ousadia histórica: erguer, no coração do país, uma capital inteira praticamente do nada. Brasília surgia sob o signo do concreto, da poeira vermelha e da esperança. Mas não foi apenas o traço de Lucio Costa ou a genialidade de Oscar Niemeyer que deram forma à nova capital. Havia algo invisível, mas profundamente presente, que preenchia os vazios do Planalto Central: a música. Enquanto caminhões levantavam nuvens de terra e os candangos enfrentavam jornadas duras sob o sol do Cerrado, rádios chiavam em barracos improvisados, transmitindo aquilo que, mais do que entretenimento, era consolo, identidade e sonho. A capital nascia do barro, mas também nascia do som. O rádio era o coração pulsante de um país que buscava seu rumo com a construção de uma nova capital.

Antes da televisão dominar os lares, o rádio era soberano. Em 1960, ele não era apenas um meio de comunicação: era companhia, palco e ponte cultural. Programas de auditório, radionovelas, notícias e, sobretudo, música, faziam das ondas do rádio uma espécie de cimento simbólico que unia o país, inclusive aquela nova cidade que ainda nem tinha identidade própria. As listas das músicas mais toca das naquele ano revelam um Brasil musicalmente plural. Entre os grandes sucessos, estavam canções como Banho de lua, de Celly Campello; A noite do meu bem, de Dolores Duran; e Menina moça, de Tito Madi, ao lado de hits internacionais como Put your head on my shoulder, de Paul Anka; e It’s now or never, de Elvis Presley, além de Maysa, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Cauby Peixoto e por aí ia.

Essa mistura de influências não era casual, era o retrato de um país aberto ao mundo, mas ainda profundamente ligado à própria sensibilidade romântica, melancólica e popular. Em Brasília, onde tudo era provisório, o rádio era permanente. Figuras pioneiras da comunicação local, como Galebi Balfaker e outros radialistas que ajudaram a dar voz à nova capital, transformaram o silêncio do Cerrado em um espaço sonoro vibrante. Eles não apenas transmitiam música, ajudavam a criar uma cultura urbana onde antes havia apenas canteiros de obras.

A vida dos candangos era árdua. Vindos de todas as regiões do Brasil, especialmente do Nordeste, carregavam consigo não só ferramentas, mas também suas referências culturais. Nesse contexto, a música funcionava como refúgio emocional. Luiz Gonzaga, com seu baião, levava o Nordeste para o Planalto Central. Seus acordes de sanfona ecoavam como memória viva de uma terra deixada para trás, amenizando a saudade e reforçando a identidade daqueles trabalhadores. Ao mesmo tempo, boleros interpretados por nomes como Nelson Gonçalves embalavam noites solitárias, enquanto o Trio Irakitan trazia harmonias que misturavam romantismo e sofisticação.

Era um período de efervescência musical sem precedentes. No Brasil, nascia a MPB como conceito, enquanto a bossa nova ganhava o mundo com sua batida suave e sofisticada. Poucos anos depois, surgiria a Jovem Guarda, liderada por Roberto Carlos, que aparecia nas paradas de 1960 com “Brotinho sem juízo”. Paralelamente, o mundo vivia a explosão do rock internacional. Elvis Presley era um fenômeno global e, em breve, os Beatles inaugurariam o movimento que ficaria conhecido como iê-iê-iê, influenciando profundamente a juventude brasileira. Essa convivência de estilos criava uma paisagem sonora rica e diversa. Era como se Brasília, ainda em construção, estivesse sendo em balada por uma trilha sonora igualmente em construção.

Brasília não foi apenas um projeto urbanístico. Foi, acima de tudo, um projeto simbólico: a ideia de um Brasil moderno, integrado e voltado para o futuro. E toda grande narrativa precisa de uma trilha sonora. As músicas que tocavam nas rádios naquele período ajudaram a moldar o imaginário coletivo. Elas davam ritmo ao trabalho, preenchiam o silêncio das noites e alimentavam a esperança de que aquele esforço gigantesco resultaria em algo duradouro. Entre um turno e outro, entre um barraco e outro, entre o concreto fresco e o horizonte infinito, havia sempre uma canção. Às vezes romântica, às vezes dançante, às vezes nostálgica, mas sempre presente. Era sem dúvida um tempo de esperança e muita criação nas áreas artísticas. O Brasil de 1960 vivia um raro momento de otimismo.

Construir Brasília simbolizava a capacidade de realização de um país que acreditava em si mesmo. E a música refletia exatamente isso: criatividade, diversidade e vitalidade. Hoje, ao olhar para a cidade consolidada, com suas avenidas largas e monumentos imponentes, é fácil esquecer que tudo começou com improviso, esforço e sonho. Mas há algo que permanece intocado, inclusive a memória afetiva daquele tempo. A memória tem som, cheiro e gosto. O som das rádios chiando ao fundo. O som de um bolero atravessando a noite. O som de um baião trazendo saudade da terra natal, o som de um país que, entre dificuldades e esperanças, ousou reinventar-se. Brasília foi erguida com um misto de concreto e de música. E, talvez, seja essa trilha invisível feita de vozes, acordes e emoções que melhor explica a grandeza daquele momento histórico que ficou perdido na poeira do tempo há 66 anos no passado.

 

A frase que foi pronunciada:
“Ao voltar a Brasília e vê-la construída, com tanta vida, gostaria de lembrá-lo que o Brasil não tem vocação para mediocridade…”
Lucio Costa

Sob a batuta de Lúcio Costa, Oscar se diverte grafite e aquarela, 29x21cm, 2010 (evblogaleria.blogspot.com)

 

História de Brasília
Está marcado para amanhã o julgamento mais sensacional do Tribunal do Júri de Brasília. Será julgado o delegado João Pelles. (Publicada em 17/5/1962)

Querida, encolhi os produtos

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Foto: Ilustração fotográfica da MarketWatch / iStockphoto

 

Há fenômenos econômicos que não precisam de gráficos sofisticados para que sejam percebidos. Basta uma ida ao supermercado, uma visita à padaria da quadra ou mesmo à pequena birosca da rua. É ali, longe das planilhas oficiais e dos discursos cuidadosamente calibrados, que a realidade econômica se revela com maior nitidez e, por vezes, com maior crueza. Entre esses fenômenos, um tem ganhado destaque silencioso: a redução do tamanho dos produtos, prática conhecida internacionalmente como shrinkflation, ou, em bom português, “encolhimento inflacionário”.

À primeira vista, trata-se de um detalhe quase banal: um pacote de biscoito com algumas unidades a menos, um litro de leite que vira 900 ml, um chocolate que perde alguns gramas. Nada que, isoladamente, pareça significativo. No entanto, quando essa prática se torna generalizada, ela passa a representar algo maior , um sintoma de pressões econômicas que não aparecem com a mesma clareza nos indicadores oficiais.

Os índices de inflação, como o IPCA no Brasil, são construídos com base em cestas de produtos e metodologias estatísticas reconhecidas. Não se trata, portanto, de instrumentos arbitrários ou necessariamente manipulados a cada divulgação. Contudo, como toda métrica, eles têm limitações. E uma dessas limitações está justamente na dificuldade de capturar mudanças qualitativas como a redução de quantidade sem uma imediata variação de preço nominal. Em outras palavras: se o preço de um produto permanece o mesmo, mas sua quantidade diminui, o consumidor paga mais por menos, ainda que isso nem sempre se reflita integralmente nos índices no curto prazo.

O resultado é uma percepção difusa, porém persistente, de que “tudo está mais caro”, mesmo quando os números oficiais sugerem uma inflação sob controle.
Essa discrepância entre percepção e estatística não deve ser descartada como mera impressão subjetiva. Ao contrário, ela revela uma tensão importante entre a economia medida e a economia vivida. E é justamente nessa fissura que se instala a desconfiança não apenas em relação aos preços, mas também às instituições responsáveis por medi-los.

Não se trata de afirmar, de forma leviana, que há uma “maquiagem” deliberada e sistemática dos dados por parte do governo. Os institutos de estatística operam com metodologias técnicas, auditáveis e, em geral, alinhadas a padrões internacionais. Ainda assim, governos têm incentivos políticos claros para destacar os aspectos positivos dos indicadores e minimizar aqueles que possam gerar desgaste. A comunicação dos dados, portanto, nem sempre reflete toda a complexidade da realidade econômica. Além disso, há um fator estrutural que contribui para o fenômeno do encolhimento: o comportamento das empresas diante de custos crescentes.

Quando matérias-primas, energia, logística e mão de obra encarecem, os produtores enfrentam um dilema clássico: aumentar preços correndo o risco de perder consumidores ou reduzir custos. A diminuição do tamanho dos produtos surge, então, como uma solução intermediária, menos visível e, muitas vezes, mais aceitável do ponto de vista comercial. Do ponto de vista empresarial, trata-se de uma estratégia racional. Do ponto de vista do consumidor, porém, o efeito é semelhante ao de um aumento de preços com a agravante de ser menos transparente. A embalagem, muitas vezes praticamente idêntica à anterior, sugere continuidade, enquanto o conteúdo revela a mudança. É uma espécie de inflação disfarçada, que exige atenção redobrada para ser percebida. Com o tempo, esse processo pode alterar profundamente a relação de confiança entre consumidores, empresas e governo.

Salários que não acompanham o ritmo dos preços, aumento do endividamento, maior seletividade no consumo todos esses fatores convergem para um cenário em que cada centavo precisa ser melhor administrado. E, nesse contexto, o encolhimento dos produtos funciona como um lembrete constante de que algo não está funcionando como deveria. O desafio, portanto, é duplo. De um lado, é preciso aprimorar as métricas e a comunicação dos indicadores econômicos, de modo a refletir com maior fidelidade a experiência real da população. Isso inclui considerar com mais atenção fenômenos como a redução de quantidade e mudanças na qualidade dos produtos. De outro lado, é necessário enfrentar as causas estruturais da inflação, garantindo estabilidade de preços sem recorrer a soluções artificiais ou narrativas excessivamente otimistas.

Transparência é palavra-chave nesse processo. Consumidores têm o direito de saber exatamente o que estão comprando em quantidade, qualidade e preço. Empresas, por sua vez, devem ser claras em suas práticas, evitando estratégias que possam ser interpretadas como enganosas. E o governo precisa comunicar a realidade econômica com honestidade, reconhecendo avanços, mas também limitações. No fim das contas, a economia não se resume a índices. Ela se manifesta na mesa do café da manhã, no carrinho de supermercado, na conta do mês. Quando esses espaços começam a contar uma história diferente daquela apresentada nos relatórios oficiais, é sinal de que há um descompasso a ser corrigido.

Se nada for feito, corre-se o risco de avançar para um cenário em que a percepção de perda se torne dominante e, com ela, a sensação de que tudo está diminuindo: os produtos, o poder de compra e, em última instância, a confiança no futuro. E essa, mais do que qualquer índice, é a medida mais sensível e mais difícil de recuperar de uma economia.

 

A frase que foi pronunciada:
“Reviva o boicote!”
Leda Assumpção, contra preços abusivos

 

História de Brasília
A fiscalização da Prefeitura foi informada das irregularidades de inumeros taxis de Brasília e solicitou uma “batida” do Serviço de Trânsito. Os resultados foram os mais desanimadores: mais de sessenta carros de praça estavam com taximetros viciados e foram recolhidos ao depósito. (Publicada em 17. 05.1962)

Quem compra, sabe

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Foto: Ilustração: Vandré Kramer/Gazeta do Povo com DALL-E

 

Num país em que a economia se apresenta frequentemente como um exercício de abstração, mediado por gráficos, relatórios e projeções, talvez fosse o caso de deslocar o eixo da análise para um território menos teórico e mais concreto, ainda que menos prestigiado: o cotidiano das donas de casa e dos responsáveis pela administração doméstica. Afinal, poucos observadores acompanham com tamanha precisão a variação dos preços dos alimentos quanto aqueles que, diariamente, percorrem corredores de supermercados e feiras livres em busca de equilíbrio entre renda limitada e necessidades inadiáveis.

Essa observação empírica, construída à margem das fórmulas tradicionais, revela uma dinâmica que nem sempre coincide com os indicadores oficiais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a inflação acumulada dos alimentos no domicílio apresenta variações que, embora relevantes, parecem insuficientes para traduzir a percepção social de encarecimento contínuo. Já entidades do setor, como a Associação Brasileira de Supermercados, apontam aumentos significativamente mais expressivos em itens essenciais: o café torrado com elevação próxima de 40% em períodos recentes, o óleo de soja acumulando reajustes em torno de 30%, a carne bovina variando em patamares semelhantes e o leite longa vida registrando altas próximas de 20%. São números que, isoladamente, poderiam ser relativizados, mas que, em conjunto, compõem um quadro inequívoco de pressão sobre o consumo básico.

O impacto desses aumentos torna-se ainda mais evidente quando se observa o comportamento da cesta básica nas capitais brasileiras. Levantamentos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos indicam que, em 16 das 17 capitais analisadas, houve elevação no custo médio dos itens essenciais ao longo do último período, com variações que, em alguns casos, ultrapassam dois dígitos anuais. Esse movimento não apenas reduz o poder de compra, mas altera qualitativamente o padrão alimentar, induzindo substituições, simplificações e, em situações mais críticas, restrições.

A erosão do poder aquisitivo não é fenômeno recente. Desde a introdução do real, em 1994, estima-se que a moeda brasileira tenha perdido parcela significativa de seu poder de compra ao longo das décadas, ainda que estabilizações pontuais tenham ocorrido. Mais relevante, contudo, é a defasagem entre o salário mínimo vigente e o chamado salário mínimo necessário, calculado pelo DIEESE. Dados recentes apontam que, para sustentar uma família de quatro pessoas com dignidade, seria necessário um rendimento superior a cinco vezes o salário mínimo oficial, superando a marca de sete mil reais mensais. Essa discrepância não se manifesta apenas em estatísticas, mas no cotidiano de milhões de trabalhadores que destinam parcela crescente de sua renda à alimentação.

Não por acaso, estimativas indicam que o brasileiro médio pode comprometer mais de 50% de seus rendimentos apenas com despesas alimentares básicas, sendo necessário, em alguns casos, mais de 100 horas de trabalho mensal para adquirir uma cesta básica. Trata-se de um indicador silencioso, mas eloquente, da deterioração das condições materiais de vida, sobretudo entre as camadas mais vulneráveis.

Diante desse cenário, multiplicam-se estratégias de adaptação que escapam às medições convencionais. A procura por produtos em “xepa”, o consumo de itens próximos ao vencimento, a redução do tamanho das embalagens — prática conhecida como “shrinkflation” — e a fragmentação de produtos tradicionalmente vendidos em cortes maiores tornam-se mecanismos cotidianos de sobrevivência econômica. São ajustes discretos, mas reveladores de uma economia que se reorganiza não pela expansão da renda, mas pela compressão do consumo.

A história, nesse aspecto, oferece paralelos inquietantes. Ao longo dos séculos, movimentos sociais e rupturas institucionais raramente foram impulsionados por formulações ideológicas complexas, mas sim por fatores elementares relacionados à subsistência. O aumento no preço dos alimentos, a escassez e a percepção de injustiça distributiva figuram entre os gatilhos mais recorrentes de instabilidade. A fome, ou mesmo a sua iminência, permanece como um dos mais potentes agentes de transformação social.

Nesse contexto, a experiência das donas de casa — frequentemente relegada ao plano doméstico e invisível — adquire dimensão analítica. Não se trata apenas de percepção subjetiva, mas de leitura contínua de um sistema que se expressa, de forma mais transparente, nas prateleiras do que nos relatórios. A economia, nesse nível, deixa de ser abstração para se tornar prática cotidiana, marcada por escolhas difíceis e renúncias silenciosas.

Talvez resida aí uma das principais contradições do debate contemporâneo: enquanto a linguagem econômica se sofistica, incorporando modelos e métricas cada vez mais complexos, a realidade que pretende explicar se impõe de maneira direta, quase rudimentar. Entre números oficiais e preços efetivos, entre projeções e experiência concreta, estabelece-se uma distância que não pode ser ignorada sem custo.

Perguntar às donas de casa, portanto, não é um gesto de simplificação, mas de reconhecimento. É admitir que, antes de qualquer teoria, existe uma prática que resiste, observa e traduz, diariamente, os movimentos de uma economia que, para muitos, já deixou de ser promessa para se tornar obstáculo.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“A inflação é a maior inimiga de todas as pessoas e das nossas esperanças de crescimento econômico. Ela está na raiz dos problemas.”

Ronald Reagan

Ronald Reagan. Retrato Oficial

 

História de Brasília
Para uma situação como esta, é necessário que uma represália forte dê um ensinamento aos desonestos, reprimindo os abusos para sempre, de uma vez. (Publicada em 17. 05.1962)