A pátria sem chuteiras

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VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960

hoje
Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade

Depois do apito final do jogo entre Brasil e Noruega, comentaristas de todas as áreas, não somente do futebol, mas de todas as áreas correram para apresentar explicações e visões dessa derrota ao grande público. O que sabemos desde há muito, é que a Seleção, como o nome indica como reunião dos melhores, é, antes de tudo a “pátria de chuteiras”. Somos nós mesmos em campo, com toda a nossa bagagem cultural e nossas idiossincrasias e nossos complexos. Apesar das mazelas que o país parece experenciar desde 1500, sempre acreditamos ser uma potência de primeiro mundo, quando o assunto é futebol. Perdendo essa que seria a nossa única qualidade perante o mundo, o que nos resta? Nesse caso antes mesmo de reformular o modelo e a arquitetura de nosso futebol profissional, sufocado pelos descaminhos da cartolagem e das contas mal explicadas de cada federação e mesmo da CBF, envolta agora em escândalos de toda a ordem, é preciso é mais a fundo e analisar essa derrota como um todo. Com isso fica patente que estamos em meio a uma crise não só no futebol mas em todas as áreas da vida nacional. A começar pelo Estado, pela República, pelos Poderes e por aí vai.
expressões definiram tão bem o Brasil quanto a célebre imagem criada por Nelson Rodrigues da “pátria de chuteiras”. O futebol nunca foi apenas um esporte entre nós. Foi uma forma de identidade nacional, uma linguagem comum entre ricos e pobres, uma rara ocasião em que o país parecia esquecer suas diferenças para reconhecer-se como nação. Durante décadas, a Seleção Brasileira representou algo muito maior do que onze jogadores em campo. Ela simbolizava a ideia de que, apesar de todas as dificuldades econômicas, políticas e sociais, havia pelo menos um território onde o Brasil permanecia soberano. Hoje essa certeza já não existe. A derrota para a Noruega, por si só, não representa uma tragédia esportiva. No futebol, perder faz parte do jogo. O que desperta inquietação é o contexto em que ela ocorre.
A Seleção parece ter perdido aquilo que durante décadas foi sua maior virtude: personalidade. Não faltam atletas talentosos. O Brasil continua exportando jogadores para os principais campeonatos do mundo. Os clubes europeus seguem disputando nossos jovens talentos antes mesmo que completem uma temporada no futebol profissional. O problema, portanto, não parece residir na matéria-prima. Talvez esteja naquilo que acontece antes que esses jogadores entrem em campo. O futebol brasileiro passou a refletir, de maneira quase perfeita, as virtudes e os defeitos da própria sociedade. A desorganização administrativa, a instabilidade institucional, a falta de planejamento de longo prazo, o excesso de personalismo, a dificuldade de prestar contas e a permanente sucessão de disputas pelo poder também encontraram espaço dentro das estruturas esportivas. A Confederação Brasileira de Futebol tornou-se, nos últimos anos, protagonista de sucessivas crises administrativas, disputas judiciais, mudanças de comando e questionamentos sobre sua governança. Em diversas federações estaduais, dirigentes permanecem décadas no poder, frequentemente protegidos por estruturas pouco transparentes e sistemas eleitorais que dificultam a renovação. O torcedor acompanha resultados dentro de campo, mas raramente conhece o funcionamento das instituições responsáveis por administrar o esporte mais popular do país. Nenhuma organização produz excelência esportiva quando sua administração convive permanentemente com incertezas
Quando a criatividade florescia na economia, na cultura e na vida pública, ela também aparecia nos gramados. Quando predominavam organização, disciplina e objetivos claros, essas qualidades igualmente se refletiam na camisa amarela. Hoje o espelho parece devolver outra imagem. Vivemos um período marcado por intensa polarização política, crescente desconfiança nas instituições, dificuldades econômicas persistentes, baixo crescimento da produtividade, deficiências educacionais, violência urbana e sucessivos escândalos envolvendo diferentes setores da vida pública. Independentemente das interpretações políticas que cada cidadão faça desse cenário, há um dado difícil de contestar: a confiança coletiva encontra-se profundamente abalada.
Durante décadas, o sucesso da Seleção serviu, em alguma medida, como elemento de compensação simbólica. Em meio às crises nacionais, permanecia a convicção de que ainda éramos referência mundial em pelo menos uma atividade. O futebol funcionava como uma espécie de patrimônio emocional da República. Essa função parece estar desaparecendo. A camisa amarela já não desperta unanimidade. A Seleção já não intimida adversários. O chamado “futebol-arte”, que encantou o mundo, tornou-se lembrança histórica mais do que realidade contemporânea.
O futebol tornou-se uma atividade altamente profissionalizada, baseada em ciência esportiva, planejamento estratégico, análise de desempenho, gestão financeira e formação continuada. A improvisação perdeu espaço. Outros países aprenderam. A derrota diante da Noruega, portanto, talvez não seja apenas um resultado esportivo. Ela funciona como metáfora de um país que parece ter perdido parte de sua capacidade de transformar talento em excelência, potencial em realização e tradição em liderança. A Seleção permanece sendo a pátria de chuteiras. Se ela hoje parece jogar abaixo de sua história, talvez seja porque reflete, com fidelidade desconfortável, as dificuldades, as incertezas e as contradições de um Brasil que ainda procura reencontrar seu próprio rumo em pleno século XXI.

ROGACIANO

Será inaugurada em Fortaleza, no próximo dia 23, a partir das 19h, a exposição “Rogaciano Leite e os Congressos de Cantadores”
A mostra será realizada no Espaço Cultural da Cegás, no bairro José de Alencar, e vai até o dia 28 de agosto.
Rogaciano Leite (1920 -1969) foi jornalista, compositor e poeta.
É autor de “Carne e Alma”, obra poética aplaudida pela critica nacional.
O jornalista e poeta Nonato Freitas, amigo de Rogaciano Leite, do qual foi colega de jornal, em Fortaleza, escreveu um cordel sobre o notável bardo.
A obra escrita por Nonato Freitas fará parte da exposição.
Helena Roraima Leite, filha de Rogaciano, é uma das organizadoras do evento.

 

A frase que foi pronunciada:
No futebol, a pior cegueira é só enxergar a bola.”
Nelson Falcão Rodrigues

História de Brasília
As crianças no Hospital de Sobradinho viveram momentos horríveis nestas noites de frio. Dormiam em caixotes de madeira com serragem, por falta de cobertores. (Publicada em 24.05.1962)

A sombra do crime sobre o futebol

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Criada em 1960 por Ari Cunha

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Durante décadas, o futebol brasileiro foi visto como muito mais que um esporte. Foi elemento de identidade nacional, instrumento de integração social e um dos poucos espaços onde ricos e pobres dividiam a mesma paixão. Nas arquibancadas, nos campos de várzea e nos grandes estádios, consolidou-se uma das mais importantes manifestações culturais do país. Hoje, porém, essa tradição enfrenta um adversário muito mais perigoso do que qualquer rival dentro das quatro linhas: a expansão silenciosa do crime organizado sobre a economia do futebol.
Recentes investigações conduzidas por autoridades brasileiras e estrangeiras mostram que organizações criminosas passaram a enxergar o futebol não apenas como entretenimento, mas como um ambiente extremamente atraente para movimentação de recursos financeiros, lavagem de dinheiro, manipulação de resultados e ampliação de influência econômica. Trata-se de um fenômeno que já havia sido observado em diversas partes do mundo e que agora desperta crescente preocupação também no Brasil.
Relatórios de órgãos de segurança pública, investigações da Polícia Federal e estudos de organismos internacionais apontam que essas organizações diversificaram suas fontes de receita, passando a atuar em setores como mineração ilegal, contrabando de combustíveis, comércio clandestino de cigarros, grilagem de terras, transporte, logística, mercado imobiliário, fintechs clandestinas, empresas de fachada e esquemas de lavagem de dinheiro. Além disso afirmam investigadores que nos últimos anos, o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e outras organizações ampliaram significativamente sua atuação para além do tráfico de drogas. Essa diversificação segue uma lógica empresarial. Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, já afirmou que o tráfico continua extremamente lucrativo, mas também se tornou mais arriscado diante da cooperação internacional entre agências de combate ao narcotráfico.
Para reduzir riscos e ampliar receitas, essas organizações passaram a investir em atividades que ofereçam aparência de legalidade. Infelizmente o futebol tornou-se um desses ambientes. O setor reúne algumas características particularmente vulneráveis. A circulação de grandes volumes financeiros, as negociações internacionais de atletas, a valorização subjetiva dos direitos econômicos, os contratos de publicidade, o patrocínio privado e a enorme quantidade de empresas intermediárias que criam oportunidades que podem ser exploradas para ocultação da origem ilícita de recursos.
Não se trata de um problema exclusivamente brasileiro. Na Europa, diferentes operações policiais já identificaram grupos mafiosos infiltrados em clubes, torcidas organizadas, casas de apostas e esquemas de manipulação de partidas. A Interpol, a Europol e organismos ligados à FIFA vêm alertando há anos para o crescimento das chamadas redes internacionais de manipulação esportiva. A Ásia tornou-se um dos maiores mercados clandestinos de apostas do planeta. Na Itália, investigações envolvendo a máfia demonstraram, em diferentes momentos, tentativas de utilização de clubes para lavagem de capitais. Na Bélgica, Espanha, Grécia e outros países europeus também surgiram operações policiais relacionadas à manipulação de resultados. O Brasil passou a integrar esse mapa de preocupação. A explosão das plataformas de apostas esportivas acelerou ainda mais esse cenário. A regulamentação do setor buscou criar regras para um mercado que já existia informalmente, mas especialistas em prevenção à lavagem de dinheiro alertam que a fiscalização precisa acompanhar a velocidade da expansão dessas empresas.
Atualmente as apostas esportivas movimentam atualmente centenas de bilhões de dólares por ano em todo o mundo. Grande parte desse volume circula por empresas sediadas em diferentes jurisdições, dificultando o rastreamento financeiro. No Brasil, o crescimento foi extraordinário. Patrocínios de empresas de apostas passaram a ocupar praticamente todas as camisas dos clubes das principais divisões. Estádios receberam nomes comerciais vinculados às plataformas. Programas esportivos, transmissões televisivas e redes sociais passaram a incorporar publicidade permanente dessas empresas. Esse novo modelo econômico trouxe receitas importantes para clubes que enfrentavam graves dificuldades financeiras. Ao mesmo tempo, aumentou o desafio regulatório. A manipulação de resultados tornou-se uma preocupação constante.
Operações conduzidas pelo Ministério Público e pelas polícias estaduais identificaram esquemas envolvendo atletas, intermediários e apostadores interessados em eventos específicos das partidas, como cartões amarelos, escanteios e faltas, sem necessidade de alterar necessariamente o placar final. Essa modalidade de fraude tornou-se sofisticada exatamente porque movimenta enormes volumes financeiros em mercados pouco perceptíveis ao torcedor comum. É importante distinguir fenômenos diferentes. A grande maioria dos clubes, atletas, dirigentes e empresas do setor atua dentro da legalidade. Também não há base para afirmar que plataformas de apostas regularmente autorizadas participem de atividades criminosas apenas por integrarem esse mercado. Essencialmente, o problema reside na utilização desse ecossistema por indivíduos ou organizações que buscam explorar suas vulnerabilidades. É justamente por isso que fiscalização eficiente se torna indispensável.

A frase que foi pronunciada:
“É só o começo”
Carlo Ancelotti

História de Brasília
A exposição de arte popular do aeroporto abriu, inaugurou, fechou e nunca mais abriu. (Publicada em 22.05.1962)

Terremotos e governos: qual desastre deixa cicatrizes mais profundas?

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Cidade destruída por terremoto na Venezuela com bandeira ao fundo

 

Poucas imagens são tão devastadoras quanto a de uma cidade destruída por um terremoto. Em poucos segundos, inocentes morrem, prédios desaparecem, estradas racham, hospitais entram em colapso e os milhares de sobreviventes têm a vida alterada para sempre. Foi exatamente esse cenário que voltou a assombrar a Venezuela após os fortes terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram o país nesta semana, provocando mortes, centenas de feridos e danos extensos à infraestrutura. Autoridades venezuelanas decretaram estado de emergência diante da magnitude da tragédia. Mas o que causa mais danos a uma nação, uma catástrofe natural ou um governo incapaz, corrupto ou destrutivo? Terremotos matam depressa. Maus governos costumam matar devagar. A natureza é indiferente às ideologias. Quando as placas tectônicas se movem, não perguntam quem está no poder. Não distinguem ricos de pobres, governistas de oposicionistas. Simplesmente liberam forças acumuladas durante séculos. Em poucos minutos, o trabalho de gerações pode ser reduzido a escombros.

Governos ruins operam de forma diferente. Seus efeitos são graduais. Quase imperceptíveis no início. Primeiro surgem pequenos sinais de deterioração institucional. Depois aparecem a inflação, a fuga de capitais, a perda de confiança dos investidores, o enfraquecimento dos serviços públicos, a corrupção crescente e o aumento da pobreza. Quando a população percebe a dimensão do estrago, grande parte do dano já foi produzida. A história oferece inúmeros exemplos. O terremoto de Lisboa, em 1755, destruiu boa parte da capital portuguesa e matou dezenas de milhares de pessoas. Mesmo assim, Portugal conseguiu reconstruir sua principal cidade em poucas décadas. A Alemanha saiu arrasada da Segunda Guerra Mundial. Suas cidades estavam em ruínas. Sua infraestrutura havia desaparecido. Poucos anos depois iniciava uma das mais impressionantes recuperações econômicas da história moderna. O Japão sofreu terremotos, tsunamis e duas bombas atômicas. Ainda assim transformou-se em uma das maiores economias do planeta.

Catástrofes naturais podem destruir patrimônio. Instituições sólidas permitem reconstruí-lo. O problema surge quando o desastre natural encontra um Estado enfraquecido. Nesse caso, o terremoto deixa de ser apenas um fenômeno geológico. Passa a funcionar como um teste brutal da qualidade das instituições nacionais. Hospitais não funcionam; os serviços de emergência não respondem; as estradas não resistem; as construções não obedecem normas técnicas; os recursos destinados à prevenção não chegam ao destino correto. É óbvio que cada uma dessas questões remete menos à geologia e mais à política. Países bem administrados também sofrem terremotos. A diferença é que costumam sofrer menos mortes.
Ano caso da Venezuela a tragédia chega carregando décadas de problemas econômicos, institucionais e sociais. Antes mesmo dos tremores, milhões de venezuelanos haviam deixado o país em uma das maiores crises migratórias da história recente da América Latina. A produção petrolífera caiu drasticamente ao longo dos últimos anos. Serviços públicos enfrentaram dificuldades recorrentes. A infraestrutura envelheceu. Tudo isso amplia a vulnerabilidade diante de qualquer desastre natural. O terremoto não criou esses problemas. Apenas os expôs de forma dramática. Há uma diferença importante entre um fenômeno natural e um fenômeno político. Nenhum cidadão pode impedir um terremoto. Já os erros humanos são, em teoria, evitáveis. Corrupção não é força da natureza. Má gestão não é fenômeno geológico. Desvios de recursos públicos não são inevitáveis.

Aristóteles observava que a finalidade da política é criar condições para uma vida boa em comunidade. Séculos depois, Winston Churchill resumiria o mesmo princípio ao afirmar que o preço da grandeza é a responsabilidade. Governos existem justamente para preparar a sociedade para enfrentar o imprevisível. Ninguém espera que um governante impeça terremotos. Espera-se, porém, que reduza seus efeitos. Por isso talvez seja inútil tentar estabelecer uma competição entre tragédias naturais e tragédias políticas. Cada uma destrói de maneira diferente. Os erros políticos podem destruir durante décadas. O caso venezuelano mostra que as duas formas de desastre podem acabar se encontrando no mesmo lugar. Quando isso ocorre, o resultado costuma ser especialmente cruel para a população comum, que perde duas vezes: primeiro para a natureza, depois para as falhas humanas.
Enquanto equipes de resgate procuram sobreviventes entre os escombros e o país tenta medir a extensão dos danos, permanece uma lição que atravessa séculos e continentes. Uma boa escolha no momento do voto frequentemente determina quantos sobreviverão quando a terra voltar a tremer.

A frase que foi pronunciada:
“Precisamos de um terremoto político, não de um terremoto geológico.”

Davan Yahya Khalil
Ninguém pode negar a importância da preservação da memória coletiva, da construção da identidade de um povo, o estímulo ao pensamento crítico, a coesão social, a formação educacional da população. A não ser a autoridade que permite uma obra durar mais de 10 anos para entregar aos contribuintes a sala Villa Lobos, do Teatro Nacional. Essa, autoridade não se preocupa.

História de Brasília
O Setor de Residências Econômicas será um dos mais belos bairros de Brasília. Estão ampliando tôdas as casas, e já começaram o trabalho de urbanização, com o asfaltamento de ruas internas. (Publicada em 22.05.1962)

O Estado como indutor da desigualdade

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Charge do Bira

 

Em 2024, o Brasil registrou o índice de Gini de 0,82, um número que não é apenas uma estatística fria, mas um veredito moral sobre as escolhas que fizemos como nação. Numa resposta rápida, esse índice mostra, em uma escala de 0 a 1, uma avaliação da desigualdade dentro de uma distribuição, quase sempre referente à renda ou riqueza de uma população. Gini é um conceito importante na Economia. O “zero” é a igualdade perfeita e o “um” é a desigualdade máxima.

Empatados com a Rússia em meio a uma guerra e situados entre as 56 nações mais desiguais do planeta, carregamos uma distinção que nenhum governo deveria aceitar com normalidade. O que torna esse dado ainda mais perturbador é o fato de que, nas últimas duas décadas, o país foi governado por forças que se autoproclamaram, incansavelmente, defensoras dos mais pobres. A pergunta que não se pode mais adiar é simples e devastadora: se o Estado governa para os desvalidos, por que a desigualdade não para de crescer?

Há um paradoxo que corrói a credibilidade do discurso público brasileiro há gerações: quanto mais o Estado se proclama redentor dos pobres, mais concentrada se torna a renda. Não é acidente. Não é azar histórico. É o resultado previsível de um modelo em que o aparato público cresceu não para redistribuir riqueza, mas para redistribuir poder e, com ele, privilégios. Marcadas, nas últimas décadas, por governos que ergueram sua identidade sobre o vocabulário da justiça social: transferência de renda, inclusão produtiva, combate à fome, ampliação de direitos.

Não se nega que programas como o Bolsa Família tenham impedido cenários ainda mais graves. O que se questiona, com dados e rigor, é a narrativa de que tais iniciativas, diante do custo do Estado brasileiro, representam uma política genuína de redução de desigualdade ou apenas um anestésico para uma ferida que o próprio governo faz sangrar.

O Gini de 0,82, vale lembrar, não mede apenas a diferença entre ricos e pobres em termos de renda anual. Ele captura a distância abissal entre aqueles que acessam o Estado como fonte de proteção e renda garantida e servidores estáveis, aposentados precoces, pensionistas privilegiados e aqueles que financiam esse sistema sem jamais dele se beneficiar proporcionalmente. O índice, nesse sentido, é um espelho do Estado, não apesar dele.

Segundo dados do Tesouro Nacional, o peso dos tributos sobre o PIB supera consistentemente os 33%, patamar comparável ao de nações escandinavas mas sem nenhuma das contrapartidas em qualidade de serviços públicos que justificariam tal extração. A pergunta que todo cidadão deveria fazer ao assinar a declaração de imposto de renda é: onde foi parar esse dinheiro?

Gasto público desordenado alimenta a inflação crônica que corrói o poder de compra das camadas mais vulneráveis. A inflação não é um imposto sobre os ricos, é um imposto regressivo que devora o salário do trabalhador informal, a aposentadoria mínima da dona de casa e a poupança inexistente do jovem da periferia. Quando o governo gasta além do que arrecada, a conta não vai para o Ministério da Fazenda. Vai para a feira do sábado de quem ganha um salário mínimo.

Há um mecanismo ainda mais perverso que o simples desperdício: a captura do Estado por grupos de interesse organizados em torno do poder político. Em economias onde as regras são feitas pelos mesmos que se beneficiam delas, a desigualdade não é uma falha do sistema, é o sistema funcionando exatamente como planejado.

Ao longo de décadas de alternância entre projetos que, no fundo, compartilhavam o mesmo amor pela expansão do Estado, um ecossistema brasileiro mantém a proximidade com o poder público e esse é o principal fator de sucesso econômico. Não o mérito, não a inovação, não o risco empreendedor, mas a capacidade de capturar contratos, subsídios, isenções e proteções tarifárias que o Estado distribui a seus favoritos.

O capitalismo de compadres, como o chamam os economistas, não é o capitalismo: é o seu oposto, travestido de mercado. Os grandes conglomerados que se beneficiaram de décadas de financiamentos subsidiados do BNDES, de desonerações setoriais e de proteções alfandegárias, não competiram no mercado, jogaram no campo inclinado montado pelo Estado. O resultado foi a criação de oligopólios disfarçados de campeões nacionais, acumulação de capital às custas do erário e concentração de renda que nenhum programa social conseguiria reverter.

Para cada real distribuído em transferências, outro e muitas vezes mais foi entregue disfarçado de política industrial. Quando o Estado escolhe vencedores, ele inevitavelmente cria perdedores. E os perdedores no Brasil não são as grandes empresas que sobreviveram sem subsídio: são o microempreendedor esmagado pela burocracia, o trabalhador informal que não tem acesso ao crédito, o jovem de escola pública que concorre em condições desiguais com o filho de quem soube negociar com o poder.

A desigualdade brasileira tem endereço. E muitas vezes esse endereço fica em Brasília. Nenhum investimento social reduz desigualdade de forma mais duradoura do que uma educação pública de qualidade universal. É o único mecanismo capaz de romper o ciclo intergeracional da pobreza, de garantir que o filho do agricultor do semiárido tenha as mesmas chances cognitivas e profissionais que o filho do advogado de Higienópolis.

 

A frase que foi pronunciada:
“A quem recorrer?”
Dona Dita pensando nas notícias desanimadoras

 

 

História de Brasília
Como sempre, o st. Afonso Almiro viajou para o Rio no mesmo dia, mas nessa oportunidade, prestou um relevante serviço ao Distrito Federal, e, particularmente, às Fundações da Prefeitura do Distrito Federal.

 

Vaidade, poder e ambição

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Charge do Cazo para o Blog do AFM

 

Parece que a relação entre o poder político, a fragilidade institucional e práticas de corrupção constitui objeto permanente de estudo da ciência política, da economia institucional e da sociologia contemporânea. O tema atravessa diferentes sistemas políticos, regimes econômicos e períodos históricos, figurando como uma das principais variáveis associadas à perda de eficiência estatal, à redução da credibilidade pública e ao comprometimento da capacidade administrativa dos Estados. O debate não se restringe à esfera moral ou jurídica. Organismos multilaterais, centros de pesquisa econômica e instituições acadêmicas tratam a corrupção como fator mensurável de impacto econômico e institucional.

John Emerich Edward Dalberg-Acton, historiador britânico formulou, em correspondência de 1887, uma das observações mais frequentemente mobilizadas em estudos sobre concentração de poder: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. A formulação tornou-se referência em análises sobre mecanismos de controle institucional.

Na tradição filosófica moderna, Thomas Hobbes descreveu a necessidade de estruturas reguladoras como forma de conter a tendência humana à disputa por recursos e poder. Em Leviatã, publicado em 1651, Hobbes apresentou a organização estatal como resposta àquilo que chamou de conflito permanente entre interesses concorrentes.

A literatura contemporânea da psicologia moral acrescenta novos elementos a esse debate. O psicólogo social Albert Bandura descreveu o fenômeno do “desengajamento moral”, mecanismo pelo qual indivíduos passam a justificar gradualmente condutas incompatíveis com normas éticas inicialmente aceitas. Estudos nessa linha indicam que desvios institucionais frequentemente resultam de processos graduais de racionalização, e não de rupturas abruptas.

Registros históricos mostram a recorrência desse fenômeno. Na Roma republicana, a concentração progressiva de poder e a fragilidade dos mecanismos de contenção institucional estiveram associadas ao enfraquecimento das estruturas republicanas. Historiadores como Mary Beard apontam que práticas como compra de apoio político, patronagem e alianças informais contribuíram para o rearranjo institucional que culminou na transição para o Império.

No século 20, o caso alemão tornou-se objeto central de análise sobre captura institucional. Hannah Arendt observou que processos de deterioração institucional frequentemente se desenvolvem dentro das próprias estruturas legais, mediante sucessiva neutralização de freios normativos. A análise permanece referência para estudos sobre erosão institucional.

Na América Latina, investigações recentes ampliaram o alcance empírico dessas observações. O caso da Odebrecht revelou operações financeiras ilícitas em ao menos 12 países, segundo dados apresentados por autoridades judiciais brasileiras, norte-americanas e suíças. O acordo firmado com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos apontou pagamentos superiores a US$ 788 milhões em propinas distribuídas internacionalmente.

No Brasil, a Operação Lava-Jato produziu uma das maiores investigações de corrupção da história recente do país. Dados oficiais indicam centenas de condenações, dezenas de acordos de colaboração premiada e recuperação bilionária de ativos. As decisões judiciais relacionadas ao caso produziram debates técnicos sobre garantias processuais, competência jurisdicional e alcance institucional das investigações.

Independentemente das interpretações jurídicas posteriores, os processos revelaram mecanismos complexos de intermediação financeira, contratos direcionados e estruturas organizadas de repasse ilícito. O impacto econômico da corrupção também tem sido objeto de mensuração.

O Banco Mundial estima que a corrupção consome globalmente cerca de US$ 2,6 trilhões por ano, o equivalente a aproximadamente 5% do Produto Interno Bruto mundial. No Brasil, estimativas produzidas por centros de pesquisa nacionais apontam perdas anuais situadas entre 1% e 4% do PIB. Considerando a dimensão atual da economia brasileira, esse intervalo corresponde a valores superiores a R$ 100 bilhões anuais. Esses números aparecem associados a impactos indiretos igualmente relevantes.

Já a organização Transparência Internacional tem destacado que ambientes institucionais com maior percepção de corrupção tendem a apresentar menor taxa de investimento, rebaixamento do crédito regulatório e maior custo de financiamento.

No Índice de Percepção da Corrupção, o Brasil tem oscilado em posições intermediárias e inferiores entre os países avaliados. O economista Daron Acemoglu, em estudos sobre desenvolvimento institucional, argumenta que “instituições inclusivas são fundamentais para prosperidade de longo prazo”. A formulação integra pesquisas que relacionam crescimento sustentável à qualidade institucional e à previsibilidade jurídica.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“É impossível não sentir vergonha pelo que aconteceu no Brasil.”

Ministro Luís Roberto Barroso, sobre a corrupção

Foto: Nelson Jr./STF/Divulgação

 

História de Brasília

As notícias para Brasília são as melhores possíveis. O ministro da Fazenda não fez, no dia anunciado, o esquema de verbas para Brasília porque não veio ao DF na quarta-feira, como estava anunciado. (Publicada em 20/5/1962)

BRB e a caixa de pandora. Respingos nas eleições.

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Foto: Divulgação/ENB

 

À medida que se aproxima o calendário eleitoral no Distrito Federal, um fator extrínseco à disputa política tradicional começa a ganhar peso e pode influenciar decisivamente o ambiente das urnas: a confiança ou a falta dela nas instituições locais. E, nesse contexto, a situação do Banco de Brasília (BRB) emerge como um elemento sensível, capaz de afetar não apenas a percepção econômica, mas também o humor político do eleitorado. Instituições financeiras públicas carregam uma dupla responsabilidade. De um lado, operam dentro das regras de mercado; de outro, representam o Estado e, portanto, o interesse coletivo. Quando surgem questionamentos sobre gestão, exposição a riscos ou decisões estratégicas controversas, o impacto ultrapassa o balanço contábil e atinge diretamente a confiança da sociedade.

Nos últimos anos, a imprensa local e nacional tem acompanhado de perto os movimentos do BRB, especialmente sua estratégia de expansão, aquisição de ativos e parcerias. Reportagens têm destacado tanto o crescimento da instituição em determinados períodos quanto preocupações relacionadas à qualidade de ativos, exposição a riscos e necessidade de ajustes na carteira. Como ocorre com qualquer banco, decisões desse porte envolvem riscos calculados mas, quando os resultados passam a ser questionados, a cobrança pública se intensifica. Balanços financeiros divulgados indicam que o banco passou por fases distintas, com momentos de expansão relevante e, posteriormente, necessidade de revisão de estratégias.

Ainda que a análise de responsabilidades deva ser feita com base em dados concretos e processos formais, a percepção popular tende a associar resultados negativos à condução política. Outro aspecto que amplia a sensibilidade do tema é o potencial impacto sobre a população. Embora o sistema financeiro brasileiro possua mecanismos de proteção, como o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), qualquer instabilidade em um banco público gera apreensão. A ideia de que prejuízos possam, direta ou indiretamente, recair sobre os contribuintes alimenta um sentimento de insegurança. A cobertura da imprensa tem enfatizado justamente esse ponto: a necessidade de transparência. Em situações que envolvem recursos públicos e instituições estratégicas, a clareza das informações não é apenas desejável é essencial. Quanto mais opaco o cenário, maior o espaço para especulação, desconfiança e desgaste institucional. Esse ambiente de incerteza pode, sim, transbordar para o campo eleitoral. Quando temas relevantes permanecem sem esclarecimento adequado, o debate político tende a ser contaminado por ressentimentos, suspeitas e narrativas conflitantes. No entanto, é preciso cautela ao interpretar esse cenário.

A ideia de que eleições ocorreriam “sob vingança” ou “sem paz” é uma projeção possível, mas não inevitável. Democracias convivem com crises e, ainda assim, mantêm processos eleitorais regulares. O que define a qualidade desse processo é justamente a capacidade das instituições de oferecer respostas claras e dentro da legalidade. Nesse sentido, o papel dos órgãos de controle como tribunais de contas, Ministério Público e instâncias reguladoras torna-se central. São essas instituições que têm a responsabilidade de apurar eventuais irregularidades, avaliar a consistência das decisões tomadas e, quando necessário, responsabilizar agentes públicos ou privados. Sem esse trabalho técnico, o debate público corre o risco de se apoiar mais em percepções do que em fatos.

A classe política local também não escapa desse escrutínio. Em sistemas democráticos, decisões estratégicas envolvendo instituições públicas são, em maior ou menor grau, compartilhadas entre diferentes atores. Isso não significa atribuir culpa indistinta, mas reconhecer que governança é um processo coletivo, que exige vigilância constante. Para o eleitor, o cenário se apresenta como um teste de maturidade institucional. Diante de informações complexas e, por vezes, incompletas, será necessário separar análise técnica de discurso político.

Quanto mais cedo e de forma mais clara forem apresentados os dados, explicações e eventuais correções de rumo, menor será o impacto sobre o ambiente político. Se há dúvidas, elas precisam ser respondidas. Se há problemas, precisam ser corrigidos. E se há responsabilidades, devem ser apuradas dentro do devido processo legal. O Distrito Federal possui estrutura institucional suficiente para enfrentar esse tipo de desafio. O que está em jogo não é apenas o futuro de uma instituição financeira, mas a credibilidade de um sistema que depende, acima de tudo, da confiança de seus cidadãos. E é justamente essa confiança que definirá se o processo eleitoral transcorrerá sob tensão ou sob a normalidade democrática que se espera de uma capital que abriga o centro do poder nacional.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Novo crime hediondo: desviar dinheiro do trabalhador, como quem subtrai não apenas cifras, mas tempo de vida convertido em esforço, expectativa e dignidade, erodindo silenciosamente o pacto social que sustenta a confiança nas instituições e naturalizando a ideia perversa de que o sacrifício coletivo pode ser apropriado por poucos sem consequência proporcional.”

É o que fala o coração dos honestos

Charge do Cazo

 

História de Brasília
Os cariocas estão chamando o anexo do Congresso de sanduíche de vento. (Publicada em 17/5/1962)

Transparência Internacional faz novo e preocupante alerta

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Imagem: reprodução da internet

 

Relatórios e declarações recentes envolvendo a Transparência Internacional e a atuação de parlamentares no Senado Federal reacendem um dos temas mais sensíveis da vida pública brasileira: a relação entre instituições do Estado e a criminalidade organizada. Trata-se de um debate que exige, acima de tudo, cautela, rigor analítico e responsabilidade na interpretação dos fatos. Segundo avaliação divulgada pela Transparência Internacional, há sinais preocupantes de fragilidade institucional que poderiam favorecer a chamada “captura do Estado”, conceito utilizado na ciência política para descrever situações em que interesses privados ou ilícitos passam a influenciar decisões públicas de maneira indevida. A entidade, conhecida por seus relatórios globais sobre corrupção, frequentemente utiliza indicadores e análises comparativas para apontar riscos sistêmicos, e não necessariamente para afirmar conclusões definitivas sobre casos específicos.

A menção à “captura do Estado” carrega peso conceitual significativo. Trata-se de um fenômeno estudado em diversos países, especialmente aqueles com instituições mais frágeis ou em processo de consolidação. No entanto, sua aplicação exige critérios claros e evidências consistentes. Generalizações amplas podem gerar efeitos colaterais indesejados, como a deslegitimação indiscriminada de instituições que continuam desempenhando funções essenciais.

Outro aspecto relevante é o impacto desse tipo de debate sobre a confiança pública. Quando a sociedade passa a perceber que instituições estão comprometidas, o risco não é apenas político, mas também social e econômico. Os investimentos são afetados, a governabilidade se fragiliza e o próprio tecido democrático pode sofrer erosão. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que o sistema institucional brasileiro dispõe de mecanismos de freios e contrapesos. A atuação de tribunais, órgãos de controle, imprensa e sociedade civil constitui uma rede que, embora imperfeita, tem capacidade de investigar, expor e, em muitos casos, corrigir desvios.

No mesmo contexto, declarações atribuídas ao senador Alessandro Vieira, no âmbito de uma CPI, acrescentam uma dimensão política e institucional ao debate. Relatórios parlamentares, por sua natureza, são instrumentos de investigação política, com valor relevante, mas que não substituem o devido processo legal conduzido pelas instâncias judiciais competentes. Pedidos de indiciamento, portanto, devem ser compreendidos como parte de um processo, e não como veredictos conclusivos. Esse conjunto de elementos relatórios de organizações internacionais, investigações parlamentares e cobertura midiática contribui para formar uma percepção pública de risco institucional. No entanto, é fundamental distinguir entre percepção, indício e comprovação.

Em democracias consolidadas, acusações graves contra autoridades exigem provas robustas, respeito ao contraditório e decisões fundamentadas no sistema de justiça. Por outro lado, ignorar alertas dessa natureza também não é uma opção responsável. O Brasil já enfrentou, em diferentes momentos de sua história recente, escândalos de corrupção que envolveram agentes públicos e privados em larga escala. Investigações conduzidas por órgãos como o Ministério Público, a Polícia Federal e o próprio Judiciário revelaram esquemas complexos que afetaram a confiança nas instituições. Nesse sentido, o alerta sobre possíveis vulnerabilidades institucionais deve ser entendido como um chamado à vigilância e ao fortalecimento dos mecanismos de controle. Transparência, accountability e independência dos poderes são pilares para evitar que estruturas estatais sejam utilizadas de forma indevida.

A cobertura da imprensa, por sua vez, desempenha papel central nesse processo. Veículos de comunicação têm noticiado tanto os alertas de organizações internacionais quanto as disputas políticas internas, contribuindo para ampliar o debate público. No entanto, a responsabilidade jornalística exige que essas informações sejam apresentadas com contexto, evitando conclusões precipitadas. O momento exige equilíbrio. De um lado, não se pode minimizar alertas sobre possíveis riscos de infiltração criminosa ou de captura institucional. De outro, é igualmente importante evitar narrativas que transformem suspeitas em certezas sem o devido respaldo factual.

A democracia se sustenta justamente na capacidade de lidar com crises por meio de instituições. Quando essas instituições são questionadas, a resposta não deve ser o descrédito generalizado, mas o fortalecimento dos mecanismos de investigação, transparência e responsabilização. O desafio, portanto, não está apenas em identificar eventuais problemas, mas em enfrentá-los dentro das regras do Estado de Direito. Isso implica respeitar processos, garantir ampla defesa e assegurar que decisões sejam baseadas em evidências. Se há riscos, eles devem ser tratados com seriedade. Se há acusações, devem ser investigadas com rigor. E se há dúvidas, devem ser esclarecidas com transparência.

Fora desse caminho, o debate corre o risco de se transformar em terreno de incerteza permanente, onde a confiança pública se deteriora sem que soluções concretas sejam construídas. No fim, a solidez de uma nação não se mede pela ausência de crises, mas pela forma como elas são enfrentadas. E é justamente nesse ponto que se define se os alertas servirão como instrumento de fortalecimento institucional ou como elemento de desestabilização.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“A CPI do Crime Organizado não tem lado, não tem preferência institucional e não tem compromisso com órgãos, governos ou figuras públicas. Nosso compromisso é com a verdade, com os fatos e com o interesse da população brasileira.”
Senador Fabiano Contarato

Senador Fabiano Contarato. Foto: Geraldo Magela / Agência Senado

 

História de Brasília
Outra solução também dada pelo presidente foi sobre o caso dos professores. Hoje haverá aula no ensino médio, e os professôres já deixaram as casas do BNDE, invadidas na madrugada de 21 de abril. (Publicada em 17. 05.1962)

O sigilo como biombo

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Na tradição republicana, a publicidade dos atos do poder não é um detalhe administrativo, é o próprio fundamento da legitimidade. O que se faz em nome do público deve ser conhecido pelo público. Ainda assim, no Brasil, consolida-se um padrão inquietante: a ampliação de mecanismos de sigilo sobre gastos e condutas de autoridades, frequentemente sob justificativas vagas de segurança institucional ou interesse estratégico. O resultado é uma inversão de princípios. O que deveria ser exceção torna-se regra; o que deveria ser visível passa a ser ocultado.

Não é difícil compreender por que isso preocupa. O bem e a ética não dependem da sombra para existir. A virtude administrativa não necessita de compartimentos herméticos. Quando a opacidade se transforma em rotina, instala-se a suspeita de que o sigilo não protege o interesse público, mas resguarda o constrangimento de revelações incômodas. O paradoxo republicano do segredo não é uma criação inocente.

A república nasce da ideia de coisa pública. Sua lógica é a do escrutínio. O sigilo, por definição, restringe o olhar coletivo e limita a capacidade de controle social. Ele pode ser necessário em circunstâncias específicas e temporárias, mas torna-se contraditório quando aplicado a despesas ordinárias, decisões administrativas corriqueiras ou atos que envolvem recursos do contribuinte. A institucionalização de prazos extensos de confidencialidade, como sigilos prolongados sobre determinados gastos ou agendas oficiais, não apenas posterga o controle; ele o esvazia. O tempo, nesse contexto, funciona como instrumento de esquecimento. A informação chega tarde demais para produzir responsabilidade política ou jurídica. A opacidade prolongada não protege a estabilidade; ela protege a impunidade.

A história administrativa demonstra uma regularidade: quanto maior a distância entre o ato público e a fiscalização pública, maior o risco de desvio. O segredo funciona como um amortecedor moral, pois reduz o custo reputacional imediato de decisões questionáveis e dilui a possibilidade de reação social. Quando despesas, contratos ou deslocamentos oficiais são retirados do alcance dos olhos dos contribuintes, cria-se um ambiente propício a despadronização de controles, com os critérios tornando-se flexíveis e casuísticos. Nessas condições, a administração deixa de ser apenas ineficiente; ela se torna estruturalmente vulnerável. O custo democrático do segredo é alto e impreciso. O dano provocado pelo sigilo não é apenas financeiro. Ele atinge a própria arquitetura da confiança pública. A transparência permite que o cidadão compreenda não apenas quanto se gasta, mas a razão dos investimentos. Sem essa mediação, a autoridade se distancia da sociedade e o poder perde seu caráter justificável.

A infiltração oportunista passa a ser a regra geral. Ambientes institucionais cobertos de névoa tornam-se mais permeáveis a influências indevidas. A fragilidade de controles e a rarefação de fiscalização pública ampliam o espaço para interesses paralelos e redes informais de poder. Não se trata de um evento abrupto, mas de um processo incremental: pequenas concessões de opacidade que, somadas, abrem portas a práticas cada vez mais difíceis de rastrear. A presença de mecanismos robustos de publicidade não elimina o risco de desvio, mas eleva o custo de sua prática. O sigilo permanente, ao contrário, reduz esse custo e aumenta a previsibilidade da impunidade.

Em democracias maduras, despesas de autoridades são objeto de prestação de contas contínua: relatórios periódicos, justificativas documentadas, auditorias independentes e acesso público a dados essenciais. Quando essas etapas são suprimidas ou adiadas por longos períodos de confidencialidade, o controle deixa de ser preventivo e torna-se meramente histórico, isso é, quando ainda ocorre. O prejuízo é duplo. Primeiro, porque a sociedade não pode avaliar a razoabilidade do gasto no tempo em que ele produz efeitos. Segundo, porque a responsabilização, quando possível, perde eficácia pedagógica.

O aspecto mais preocupante não é a existência pontual de segredo, mas sua transformação em cultura. Quando a administração passa a operar sob a presunção de que a publicidade é um risco e não um dever, inverte-se o vetor republicano. A exceção torna-se hábito; o hábito, norma; e a norma, tradição. Não se engane, esse tipo de cultura produz efeitos sistêmicos e de longo prazo. O enfraquecimento de órgãos de controle é o primeiro efeito. Vem ainda a redução da qualidade do gasto público, com o aumento do custo de conformidade para quem atua corretamente.

Num Estado, o que não são luzes são trevas. Em regimes de baixa transparência, o que se vê não é apenas a falta de informação, mas a forma que o poder assume quando não precisa prestar contas. É uma paisagem de contornos distópicos e duros. O que temos em nosso caso é  o claro do discurso público e o escuro das práticas resguardadas. E, como em uma fotografia hiper-realista, o contraste excessivo não embeleza, pelo contrário, ele evidencia nosso drama. A ética pública repousa sobre um princípio elementar: quem administra recursos coletivos deve explicá-los ao coletivo.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“A Europa foi criada pela história. A América foi criada pela filosofia.”

Margaret Thatcher

Margaret Thatcher. Foto: britannica.com

 

História de Brasília

Causou estranheza na Novacap a presença do cel. Barlem e do dr. Bessa, examinando processos relacionados com o inquérito. É que os dois membros da Comissão estiveram na Novacap sem que o dr. Waldir Santos, outro membro da comissão, tivesse conhecimento do assunto. (Publicada em 16.05.1962)

Inversão da lógica

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Charge: Luiz Fernando Cazo

 

Existe uma aritmética que se repete com regularidade perturbadora na vida pública do Brasil. É uma matemática peculiar, na qual o resultado das operações nunca recai sobre quem executa o desvio, mas sobre quem jamais participou dele. Trata-se da socialização do prejuízo e da privatização da culpa, um mecanismo que transforma a corrupção em um imposto informal permanente, cobrado sobretudo dos mais vulneráveis.

Na lógica perversa desse sistema, o ciclo é previsível: um escândalo é revelado, cifras bilionárias são mencionadas, investigações são anunciadas, e, ao final, o rombo é incor porado ao orçamento público. O dano não desaparece; ele apenas muda de titular. O que era um passivo decorrente de condutas ilícitas converte-se em ônus coletivo, distribuído entre contribuintes que não tiveram qualquer participação no delito. O mecanismo do deslocamento de responsabilidade é contínuo e injusto.

A corrupção, em sua forma estrutural, não é apenas a apropriação indevida de recursos. É, sobretudo, um processo de transferência de custos. O agente que desvia não apenas subtrai valores: ele cria uma lacuna fiscal que precisa ser preenchida. E essa recomposição, raramente, ocorre por meio de ressarcimento efetivo. Em vez disso, observa-se um padrão recorrente que torna o dano reconhecido como passivo público. Com isso, o orçamento absorve o impacto; ajustes fiscais são implementados e a carga recai sobre serviços públicos ou elevação da tributação.

O resultado é uma equação assimétrica: quem comete o ato ilícito, raramente, repara integralmente o dano, enquanto quem nada fez passa a financiá-lo ad infinitum. Essa dinâmica rompe um princípio básico de justiça distributiva: a correspondência entre responsabilidade e consequência. Quando o vínculo entre ato e reparação se dissolve, a punição perde seu caráter pedagógico e a lei perde sua função equilibradora. Daí, advém a erosão silenciosa da renda social e suas consequências no IDH. O efeito macroeconômico desse processo é cumulativo. Cada episódio de malversação incorporado ao orçamento público representa uma redução indireta da renda social disponível. O prejuízo manifesta-se de diversas formas: na redução de investimentos públicos es senciais; na deterioração de serviços sociais; no aumento de tributos diretos ou indiretos; na expansão da dívida pública e na compressão do poder de compra coletivo.

Diante desse quadro, propostas mais rigorosas surgem no debate público: transformar corrupção em crime hediondo e imprescritível; extinguir ou restringir drasticamente o foro privilegiado; endurecer regras de inelegibilidade; fortalecer mecanismos de compliance e transparência; aprimorar sistemas de controle interno e externo; e ampliar a digitalização e rastreabilidade dos gastos públicos. Trata-se de uma forma difusa de transferência regressiva de renda, em que os recursos que deveriam ampliar o bem-estar coletivo convertem-se em perdas absorvidas pelos próprios contribuintes.

A psicologia social da impunidade passa a ser aceita como regra geral e como processo contra o qual nada pode ser feito. A repetição desse padrão produz um efeito psicológico profundo na sociedade. A cada novo escândalo, instala-se uma sensação de inevitabilidade. O cidadão passa a antecipar o desfecho antes mesmo do julgamento: o dano será coletivo, a restauração incerta e a vida seguirá com um custo adicional invisível. Esse processo gera algumas consequências sociais relevantes, como o descrédito institucional na percepção de que a justiça não recompõe o equilíbrio; na normalização do desvio com a ideia de que a corrupção é estrutural e inevitável e na desmobilização cívica, com a sensação de impotência diante do sistema que privilegia os poderosos. A justiça, quando incapaz de restaurar o equilíbrio entre dano e o ajuste, deixa de ser percebida como balança imparcial e passa a ser vista como registro formal de desigualdades. Daí a regressividade do prejuízo se instala de forma permanente.

Um dos aspectos mais paradoxais dessa “matemática do desvio” é seu caráter regressivo. Embora a corrupção seja frequentemente associada a altos escalões administrativos e políticos, seus custos são distribuídos de maneira inversa à renda. E isso ocorre porque os tributos indiretos pesam proporcionalmente mais sobre os mais pobres, com os serviços públicos deteriorados afetando principalmente quem mais depende deles e com ajustes fiscais incidentes sobre consumo e a renda do trabalho. Assim, a corrupção opera como um mecanismo indireto de redistribuição negativa: retira recursos do conjunto da sociedade e os transforma em perda coletiva concentrada nos estratos inferiores. A quebra do princípio reparatório passa a ser norma.

Em sistemas jurídicos orientados pelo princípio da res ponsabilidade, o dano gera a obrigação de reparar. Esse princípio não é apenas jurídico; é civilizatório. Ele assegura que a ordem social não seja sustentada pela transferência arbitrária de custos. Trata-se de uma situação em que perdas extraor dinárias tornam-se parte da normalidade fiscal. Essa norma lização produz ainda outros efeitos sistêmicos com o plane jamento público baseado e transformado em perdas previsíveis. O custo da corrupção, portanto, não é apenas financeiro. É também institucional e moral. Ele corrói a ideia de que o esforço produtivo individual será protegido por regras justas.

Quando o contribuinte percebe que financia prejuízos alheios sem compensação institucional, o contrato social se fragiliza. Uma ordem pública sustentável exige que o dano recaia sobre quem o produz e que o preço seja pago efetiva mente e não simbolicamente. O princípio é simples: quem gera o prejuízo deve suportar seu custo.

 

A frase que foi pronunciada:
“A corrupção é paga pelos pobres.”

Papa Francisco

Foto: Paul Haring/CNS.

 

História de Brasília
O sr. Laranja Filho depôs na Comissão de Inquérito, apresentando suas declarações por escrito, e, pelos comentários dos jornais, referia-se somente à situação da emprêsa, nada declarando sôbre os cinco ou dez por cento da Caixinha. (Publicada em 16/5/1962)

Como desinvestir no próprio futuro

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Dr.a Tatiana Sampaio, pesquisadora que descobriu a polilaminina. Foto: faperj.b

Nos últimos três anos, o Brasil tem ocupado posições que constrangem uma nação com ambição de protagonismo global. Não se trata de um tropeço isolado, mas de um padrão que se repete em indicadores internacionais que medem aquilo que sustenta o desenvolvimento moderno: integridade institucional, ambiente econômico e capacidade de inovar. O retrato é conhecido, mas, nem por isso, menos inquietante.

No Índice de Percepção da Corrupção 2025, divulgado pela Transparência Internacional, o país caiu para a 107ª posição entre 182 países, com  35 pontos em uma escala de 0 a 100. Trata-se de uma das piores colocações da série histórica recente, refletindo deterioração da percepção institucional no cenário internacional.

Em competitividade, o diagnóstico também é severo. No
ranking de 2025 do IMD World Competitiveness Center, o Brasil ocupa a 53ª posição entre 69 economias avaliadas, evidenciando entraves estruturais à produtividade, à eficiência do setor público e ao ambiente de negócios. Já no Índice de Liberdade Econômica 2025, produzido pela The Heritage Foundation, o país é classificado como “Mostly Unfree” (majoritariamente não livre), com pontuação inferior à média mundial, posição incompatível com a retórica de modernização. Independentemente da matriz ideológica do instituto, o dado reforça a percepção internacional de insegurança regulatória e instabilidade normativa.

Esses números não são meras abstrações. Eles se traduzem em investimento menor, inovação mais lenta, oportunidades escassas e dialogam com dados internos. Segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o Brasil registrou cerca de 29 mil pedidos de patente em 2023, número modesto para uma economia do porte brasileiro e ainda fortemente concentrado em depositantes estrangeiros. No cenário global, conforme a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, o país permanece distante das nações líderes em depósitos de patentes.

Em termos práticos, significam menos empresas de base tecnológica, menos patentes, menos empregos qualificados, menor densidade inovadora e inserção periférica nas
cadeias globais de valor. E, sobretudo, significam um Estado que falha em criar as condições mínimas para que a inteligência nacional floresça.

É nesse contexto que ganha contornos simbólicos o episódio envolvendo a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Reportagens publicadas em 2024 indicaram que a instituição deixou de manter a vigência de uma patente relacionada à tecnologia conhecida como polilaminina por inadimplência de taxas junto ao INPI. Logo, a instituição teria perdido a proteção de patente de uma tecnologia conhecida como Polilamina, resultado de anos de pesquisa pública. O caso, ainda que específico, tornou-se metáfora de uma fragilidade  estrutural, a dificuldade de transformar pesquisa pública em ativo protegido e economicamente explorável.

Mais do que um revés administrativo, o episódio expõe um paradoxo. O Brasil investe cerca de 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, segundo dados do Banco Mundial, percentual inferior ao de países que lideram a inovação global, como Coreia do Sul e Israel, que superam 4% do PIB. Investimos pouco e, quando investimos, frequentemente falhamos na proteção estratégica do resultado. O fato expõe uma ferida aberta: o país que se pretende potência científica não consegue honrar custos básicos para proteger a própria invenção. A Polilamina é fruto de pesquisa de ponta em materiais e poderia ter impulsionado cadeias industriais inteiras, atraído investimentos e projetado o Brasil no circuito internacional de inovação.

Em ambientes onde ciência é tratada como política de Estado, descobertas com potencial disruptivo são cercadas por mecanismos ágeis de proteção e transferência tecnológica. Aqui, sucumbem à burocracia, à escassez orçamentária e à indiferença. O dano é duplo. Perde-se o retorno econômico direto e, ao mesmo tempo, dilui-se o prestígio científico. Há casos na história recente em que descobertas laboratoriais, devidamente protegidas e desenvolvidas, renderam reconhecimento máximo à pesquisa, inclusive o mais alto prêmio internacional da área. Ao permitir que uma inovação se perca por inadimplência, o Brasil envia ao mundo uma mensagem inequívoca: a ciência não é prioridade. Esse descompasso entre discurso e prática não é novo.

Laboratórios operam com equipamentos obsoletos, editais são irregulares, bolsas não acompanham a inflação e jovens pesquisadores migram para centros estrangeiros. A evasão de cérebros, frequentemente tratada como fatalidade, é, na verdade, consequência lógica de um ambiente que oferece pouco horizonte. A inteligência não abandona o país por capricho; ela busca condições de trabalho.

O argumento de restrição fiscal, recorrente em tempos de aperto, não resiste a um exame mais atento. Países que hoje lideram em inovação fizeram escolhas claras: protegeram seus sistemas de ciência e tecnologia mesmo em períodos de crise. Investimento em pesquisa não é gasto supérfluo; é infraestrutura do século XXI. Sem ele, qualquer projeto de desenvolvimento é retórica vazia.

Há, ainda, um problema de coordenação. O Brasil produz ciência de qualidade em diversas áreas, mas falha na tradução do conhecimento em produto, na proteção da propriedade intelectual e na conexão com o setor produtivo. A perda de uma patente relevante por inadimplência revela a ausência de um sistema robusto de governança da inovação, aquele que acompanha prazos, assegura recursos e transforma descobertas em valor econômico e social.

Os rankings internacionais, tão frequentemente descartados como percepções externas, são, na verdade, espelhos imperfeitos de realidades internas. Quando um país figura mal em integridade, competitividade e liberdade econômica, o efeito cumulativo recai justamente sobre o ecossistema que deveria produzir soluções: a ciência. Sem ambiente institucional estável, o laboratório se isola; sem mercado dinâmico, a invenção não escala; sem proteção jurídica eficiente, a patente não sobrevive.

O custo dessa trajetória é pago em silêncio. É pago pelo estudante que abandona a pesquisa por falta de bolsa; pelo laboratório que fecha as portas; pela empresa que deixa de inovar; pela sociedade que perde acesso a tecnologias próprias. É pago, sobretudo, pelo futuro, que se torna cada vez mais dependente de soluções importadas.

Não faltam exemplos de reversão possível. Onde houve continuidade de financiamento, metas claras de inovação e valorização da carreira científica, resultados surgiram. O Brasil possui massa crítica, universidades consolidadas e pesquisadores reconhecidos internacionalmente. O que falta é decisão política consistente, previsibilidade orçamentária e gestão eficiente da propriedade intelectual.

A agenda é conhecida: garantir financiamento estável e plurianual; simplificar processos de registro e manutenção de patentes; fortalecer núcleos de inovação tecnológica nas universidades; criar pontes efetivas com a indústria; valorizar carreiras científicas.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Todo filme de desastre começa com o governo ignorando um cientista.”
Anônimo

Charge do Gilmar Fraga

 

História de Brasília
Ela surgiu, inocentemente, de uma conversa no bar do acampamento do jornal, àquela época secretariado pelo Eduardo Santa Maria. Êle sugeriu que o jornal deveria ter uma coluna para defender a cidade, e assim teve início o nosso trabalho. (Publicada em 15.05.1962)