Firmeza diplomática não exclui prudência estratégica

Publicado em Íntegra

VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960

hoje

Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

 

Publicada no Diário Oficial americano (Federal Register) a prorrogação por mais um ano da chamada declaração de emergência nacional em relação ao Brasil, a medida estava valendo desde 2025. Em sua justificativa o presidente Trump afirma que “políticas e ações do governo brasileiro ainda representam uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos”. Além desses argumentos o governo americano diz que há no Brasil restrições à liberdade de expressão, violações de direitos humanos e perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro. Afirma ainda o presidente americano que o Supremo age da mesma forma perseguindo opositores e violando direitos humanos. Trata-se de medida nunca antes implementada na história das relações Brasil x EUA em mais de 200 anos. Essas medidas   somam-se ainda a outras como a decretação de tarifas de 25% sobre diversos produtos e outra de 12,5% sobre produtos fabricados com o uso de trabalho forçado.

Esse é o resultado de seguidos atos de desprezo nas negociações bilaterais e de inúmeros impropérios ditos pelo presidente brasileiro em palanques contra Trump. Deixar mais de 2 séculos de amizade irem para o ralo tem suas consequências e só serve para manter um grau de tensão prejudicial ao Brasil e aos brasileiros. Divergências que antes permaneciam restritas aos canais diplomáticos passaram a ocupar discursos públicos, entrevistas, pronunciamentos oficiais e decisões de elevado impacto econômico. O resultado deixou de ser apenas político. Começa a atingir empresas, exportadores, investidores e trabalhadores brasileiros.

Lembramos que os Estados Unidos continuam entre os principais investidores estrangeiros no Brasil e representam um dos mercados mais importantes para produtos brasileiros de maior valor agregado. Empresas dos setores industrial, aeronáutico, siderúrgico, químico e agrícola dependem, em maior ou menor grau, da estabilidade dessa relação. Outro fato é que quando tarifas adicionais passam a incidir sobre exportações brasileiras, quem paga a conta não é o governo ou seu partido, mas toda a população. Além disso pagam empresas que deixam de vender, trabalhadores que podem perder empregos e consumidores que enfrentam ambiente econômico ainda mais incerto do que o atual.

Não é de hoje que o atual governo brasileiro, desde que tomou posse, tem assumido posições públicas bastante críticas em relação a Donald Trump e à orientação internacional de sua administração. Da mesma forma, Trump respondeu com críticas severas ao governo brasileiro e ao Supremo Tribunal Federal, elevando o tom das divergências entre os dois países. Embora seja até natural que governos democraticamente eleitos possuam visões diferentes sobre comércio internacional, meio ambiente, organismos multilaterais ou política externa. O que não se pode é deixar que diferenças ideológicas passem a dominar uma relação que historicamente sempre foi construída sobre interesses permanentes de Estado. O Itamaraty também possui sua parte de culpa no enfraquecimento dessas relações internacionais, ao deixar os ensinamentos da escola de Rio Branco, substituindo-o por ideias vagas de um terceiro mundismo retrógrado. Lembrando aqui que a política externa brasileira sempre cultivou certa tradição de pragmatismo. E mesmo durante períodos de intensas divergências internacionais, sempre procurou preservar canais de diálogo com governos de diferentes orientações ideológicas. Essa postura permitiu ao país ampliar mercados, atrair investimentos e exercer papel relevante em negociações multilaterais.

Enquanto isso, investidores observam estabilidade institucional, previsibilidade jurídica e qualidade das relações internacionais antes de decidir onde aplicar bilhões de dólares. Empresas multinacionais avaliam riscos políticos da mesma maneira que avaliam custos tributários, infraestrutura ou disponibilidade de mão de obra. Isso significa que quanto maior a percepção de conflito diplomático, maior tende a ser a cautela dos investidores. A questão toda é que será que o atual governo ouve e segue as orientações vindas do Itamaraty? A resposta é não. A experiência internacional demonstra que grandes potências frequentemente se criticam em público enquanto negociam intensamente nos bastidores, mostrando que a política externa eficaz costuma sempre privilegiar resultados concretos em vez de vitórias retóricas. Em períodos de desaceleração econômica mundial, juros elevados e crescente competição entre mercados emergentes, preservar relações comerciais sólidas deixa de ser apenas uma questão diplomática e passa a integrar a própria estratégia de sobrevivência e de crescimento econômico. O Brasil enfrenta desafios suficientemente complexos em sua economia doméstica para acrescentar novos focos de incerteza no cenário internacional quanto pelos cidadãos.

O relacionamento bilateral tornou-se progressivamente mais personalista e menos pragmático, com divergências entre chefes de governo passando a ocupar espaço que anteriormente era reservado apenas às negociações diplomáticas conduzidas por profissionais do Itamaraty. O problema é que mercados não reagem a discursos.

A frase que foi pronunciada:

“Para Roosevelt, se uma nação fosse incapaz ou não estivesse disposta a agir para defender seus próprios interesses, não poderia esperar que os outros a respeitassem. Inevitavelmente, isso aconteceria.”

Henry Kissinger, Ordem Mundial

 

História de Brasília

Mas jogar futebol por outro país pode ser causa de perda da nacionalidade brasileira? Um assunto tão sério como êsse pode ser misturado com futebol e acarretar tão graves consequências? (Publicada em 25.05.1962)

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