Palanques não enchem panelas

Publicado em Íntegra

imagem: GPT

VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960

hoje

Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

Existe uma diferença fundamental entre quem estuda economia e quem administra uma economia. O primeiro trabalha, em grande medida, com modelos, projeções e hipóteses. O segundo convive diariamente com os efeitos concretos das decisões tomadas. Basta uma medida equivocada para alterar juros, inflação, câmbio, crédito, investimento e emprego. Por isso, quando ex-presidentes do Banco Central, economistas que já enfrentaram crises reais, fazem alertas sobre o rumo do país, suas opiniões merecem atenção, ainda que possam ser objeto de divergências.
Foi exatamente isso que ocorreu recentemente quando Armínio Fraga, presidente do Banco Central entre 1999 e 2003, afirmou que o Brasil atravessa uma crise estrutural grave e alertou para um risco concreto de recessão em 2027. Em entrevista publicada pela revista Veja, Fraga afirmou que a situação fiscal “não é sustentável”, descreveu o quadro geral como “desastroso” e aconselhou empresas e famílias a preservarem caixa e evitarem novas dívidas diante dos sinais emitidos pelo mercado de crédito. Armínio Fraga participou diretamente da estabilização econômica brasileira no início dos anos 2000, período em que o país enfrentava fortes pressões cambiais, inflação elevada e profunda desconfiança internacional.
Discursos podem convencer durante algum tempo mas os números acabam impondo seus próprios limites, principalmente quando a inflação é percebida antes nas prateleiras dos supermercados do que nas estatísticas oficiais. Antes de fechar definitivamente as portas as empresas reduzem estoques, cortam investimentos, suspendem contratações, substituem funcionários, renegociam dívidas e simplificam linhas de produtos. O resultado vai aparecer nas ruas. Em praticamente todas as grandes cidades brasileiras multiplicam-se imóveis comerciais vazios, lojas fechadas e placas de aluguel em regiões que até poucos anos atrás concentravam intenso movimento econômico. Cada porta definitivamente fechada representa menos arrecadação, menos empregos e menor circulação de renda. É a chamada “venezuelização”, neologismo que entende a destruição econômica de um país como resultado de políticas econômicas montadas não em fórmulas e números, mas em ditames do tipo ideológico.
Nas últimas décadas, o Brasil perdeu participação relativa na produção manufatureira mundial. Diversos segmentos passaram a produzir menos ou deslocaram investimentos para países com ambiente tributário, regulatório ou logístico considerado mais competitivo. Esse processo a ganhar corpo a duas décadas passadas e permanece como um dos principais desafios estruturais da economia brasileira.
Edmar Bacha, um dos formuladores do Plano Real, destaca a necessidade de controlar o crescimento do gasto público e elevar a produtividade. Gustavo Franco, também ex-presidente do Banco Central, tem insistido na importância da estabilidade institucional e da previsibilidade econômica para estimular investimentos privados. Pérsio Arida ressalta há anos a necessidade de reformas capazes de ampliar o potencial de crescimento do país. Ainda que divirjam em diversos aspectos, esses economistas convergem na avaliação de que desequilíbrios fiscais persistentes tendem a pressionar juros, reduzir investimentos e limitar o crescimento de longo prazo.
O governo, por sua vez, sustenta e insiste em leitura diferente. Argumenta que a ampliação do gasto público, programas sociais e investimentos estatais fortalecem a demanda, reduzem desigualdades e estimulam a atividade econômica. O que na prática tem demonstrado ser um desastre. O que ocorre é que os indicadores maquiados do mercado de trabalho, com crescimento do PIB em determinados períodos e expansão de programas de crédito estão distantes da realidade.
A divergência entre maior intervenção estatal e maior disciplina fiscal acompanha praticamente toda a história econômica brasileira desde meados do século XX. E se intensificou a partir de 2003 com os velhos novos pensamentos. O problema surge quando a realidade crua passa a emitir sinais totalmente contraditórios em relação ao discurso oficial. A manutenção de taxas elevadas de juros, o aumento do endividamento público, dificuldades no mercado de crédito e a persistência de incertezas fiscais formam um conjunto de fatores observado atentamente por investidores nacionais e estrangeiros. São justamente esses elementos que Armínio Fraga identifica como prenúncios de um cenário recessivo caso não haja mudanças de rumo. Na verdade, mesmo que mudanças totalmente contrárias sejam adotadas agora, o rumo descendente de nossa economia já está precificado. Ao mesmo tempo, é visível que o ambiente externo tornou-se ainda mais complexo. As recentes tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, incluindo novas tarifas anunciadas por Washington sobre produtos brasileiros, acrescentaram um forte componente adicional de incerteza às exportações nacionais. O governo brasileiro tem levado essa situação para o palanque e desprezado, o quanto pode, as negociação diplomática com o seria natural. As autoridades americanas nunca esconderam o jogo e justificam essas medidas com base em interesses comerciais e estratégicos, o que também é natural.

A frase que foi pronunciada:
“O maior problema da comunicação é a ilusão de que ela aconteceu.”
George Bernard Shaw

História de Brasília
De acôrdo com a lei italiana, que consagra o princípio do “jus sanguinis”, o filho adquire, necessariamente, a nacionalidade dos genitores. Assim, aqueles dois jogadores, para o Brasil são brasileiros (porque aqui nasceram — “jus loci”) e para a Itália são italianos (porque filhos ou descendentes de italianos). (Publicada em 25.05.1962)

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