Categoria: Íntegra
VISTO, LIDO E OUVIDO
Criado por Ari Cunha em 1962 – Brasília
Hoje com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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“A política não tem nada a ver com a razão, e sim com o poder.” A frase, atribuída a Maquiavel, incomoda porque despe a política de qualquer verniz moral e a devolve ao seu osso: quem manda, manda; o resto é justificativa. Para o cidadão que ainda acredita nas fábulas da soberania popular, soa cínica demais. Mas basta observar o Brasil dos últimos meses para perceber que a crueza maquiavélica descreve a realidade com mais precisão do que qualquer manual de civismo escolar. Isso não significa que o poder seja sempre exercido às claras, com a violência nua de quem empunha uma arma. A forma contemporânea de dominação é mais sutil: opera por decreto, por resolução de agência reguladora, por acórdão de tribunal que se apresenta como guardião da democracia enquanto redesenha, sozinho, as regras do jogo público. É precisamente esse o movimento que se pode observar no Brasil de 2026, às vésperas de uma eleição presidencial.
Em 20 de maio, o governo federal editou dois decretos o 12.975/2026 e o 12.976/2026 que ampliam de forma expressiva os poderes de fiscalização do Estado sobre plataformas digitais. O primeiro transforma a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), criada por lei com a competência estrita de proteger dados pessoais, em uma espécie de fiscal de conteúdo, encarregada de verificar se as redes sociais estão cumprindo obrigações de moderação. O Congresso, é bom lembrar, já havia debatido e não aprovado uma proposta semelhante, o chamado PL das Fake News. O que o Legislativo rejeitou pela porta da frente voltou pela porta dos fundos do Executivo.
O gesto não é isolado. Há apoio numa decisão do Supremo Tribunal Federal que, ao derrubar a exigência de ordem judicial para responsabilizar plataformas por publicações de terceiros, o que criou um incentivo estrutural à autocensura: toda empresa que hospeda conteúdo passa a preferir remover em excesso a arriscar sanção. Não é necessário proibir uma opinião para silenciá-la; basta tornar caro demais mantê-la no ar. Essa é a censura que não precisa se declarar censura ela se disfarça de “gestão de riscos sistêmicos”, de “proteção à integridade do processo eleitoral”, de combate a discursos vagamente definidos como “antidemocráticos”.
Aqui reside o paradoxo que autores de tradições muito diferentes já haviam identificado: os regimes que mais restringem a liberdade raramente o admitem. Preferem fazê-lo em nome de um bem maior como a proteção da democracia, o combate à desinformação, a defesa das mulheres e das crianças no ambiente digital, todas causas nobres em si mesmas, mas que servem também de veículo perfeito para normas de contornos propositalmente imprecisos.
Quando um decreto define violência digital como qualquer conduta que cause “sofrimento psicológico”, a plataforma prudente prefere apagar a crítica contundente contra uma autoridade a discutir, caso a caso, se aquela crítica configura ou não crime. O efeito prático independe da intenção declarada. É aqui que a advertência do início se confirma. Quando abrimos mão de decidir por nós mesmos o que pode ou não circular no debate público, delegando essa tarefa a um órgão do próprio governo que se autofiscaliza, não estamos defendendo a democracia, estamos entregando a um grupo específico, momentaneamente instalado no poder, a prerrogativa de definir os limites da própria liberdade que todos deveriam usufruir igualmente.
O problema do momento brasileiro é que essa simetria não existe. De um lado, um Executivo que edita normas por decreto; de outro, plataformas, veículos de imprensa e cidadãos comuns que não têm como negociar em pé de igualdade os termos de sua própria expressão. Não é à toa que o próprio Congresso, instituição que, com todos os seus defeitos, ainda depende do voto popular, se tornou o principal ponto de resistência a esse avanço, articulando decretos legislativos para sustar as medidas. Isso mostra que o fechamento político não é uma sentença irreversível, mas um processo que se pode ainda conter desde que se reconheça sua natureza. Vale lembrar que nenhum regime que restringiu liberdades o fez confessando essa intenção.. Reconhecer isso não é pessimismo, é realismo. Maquiavel não escrevia para justificar o poder, mas para que os súditos e hoje, os cidadãos deixassem de se iludir sobre sua natureza. Só quem enxerga o poder como ele é pode cobrar de suas instituições que ele seja contido pelas vias legítimas: o debate legislativo, a fiscalização parlamentar, o voto. A alternativa de aceitar cada novo decreto como um mal necessário, cada nova competência regulatória como um detalhe técnico é o caminho mais curto para transformar a exceção em regra e a vigilância em rotina.
A frase que foi pronunciada: “Quase todos os homens conseguem suportar a adversidade, mas se você quiser testar o caráter de um homem, dê-lhe poder.” Abraham Lincoln
História de Brasília
Agora, para que tenha apenas uma Igreja, está realizando um programa de quermesses, que se iniciará no dia 2 de junho. Serão quermesses nos fins de semanas 2 e 3 e 9 e 10. (Publicada em 24.05.1962)
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Poucas vezes na história uma tecnologia avançou com tanta velocidade quanto a inteligência artificial. Da mesma forma, raríssimas foram as ocasiões em que os próprios criadores dessa tecnologia decidiram interromper momentaneamente a celebração do progresso para fazer um alerta à humanidade. Quando isso acontece, convém ouvir.

Quem foi Marvin Minsky?
Minsky foi um dos fundadores do MIT Computer Science & Artificial Intelligence Lab. Foi um matemático, cientista da computação e pioneiro na IA.
Morreu em 2016, tendo publicado dez anos antes o seu último livro, ‘The Emotion Machine: Commonsense Thinking, Artificial Intelligence, andthe Future of the Human Mind’.
O trabalho de Minsky é mencionado algumas vezes no livro ‘Algoritmosfera’, de @camilaaleporace. Uma das menções acontece na página 92, junto aos nomes de outros feras da robótica e da IA:
‘Existe um paradoxo que é o seguinte: enquanto uma variedade de tarefas consideradas difíceis para a cognição e ainteligência humana são desempenhadas com sucesso por sistemas artificiais –muitas vezes sendo capazes de jogar xadrez, ter bons resultados nos chamadostestes de inteligência, resolver tarefas de álgebra, teoremas e daí por diante– outras atividades, que acabamos considerando triviais ou ordinárias, sãoainda assumidas como muito complexas para serem executadas por sistemasartificiais. Encontram-se no grupo dessas tarefas algumas que mesmo um bebêpode protagonizar; dentre elas, ações relacionadas à percepção e à mobilidade.Essas questões desafiadoras para a IA foram aglutinadas sob o rótulo do chamado“Paradoxo de Moravec” (Dellermann et al., 2019) – pelo próprio Hans Moravec epelos roboticistas Marvin Minsky e Rodney Brooks’.
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De acordo com o Cadastro Único (CadÚnico) e do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com População em Situação de Rua (OBPopRua/UFMG) em junho desse ano (2026) 392.400 pessoas viviam em situação de rua em todo o país. Esse número é quase o dobro de dezembro de 2022, quando o registro era de 198.700. Ou seja, houve um aumento de 97,4%. Na verdade. não é preciso consultar organismos oficiais para verificar que o número de mendigos e moradores de rua tem aumentado exponencialmente em todas as cidades brasileiras. Não há uma praça sequer ou área verde que não estejam tomadas por famílias inteiras, vivendo ao relento, em marquises, pontes ao em debaixo de lonas de plástico. Observe que esses são números oficiais. Na realidade esses números são significativamente maiores do que os divulgados e há quem diga que existem hoje mais de meio milhão de pessoas vivendo nas ruas do país, sem quaisquer direitos ou obrigações civis. Apesar de declarações garantirem que esses números são bem menores, não há como esconder essa imensa população desamparada dos olhos da população. Poucas estatísticas conseguem retratar com tanta força o estado real de um país quanto o número de pessoas que vivem nas ruas.
Mesmo que o Produto Interno Bruto possa crescer, a arrecadação aumentar, bolsas de valores podem atingir recordes e governos podem anunciar sucessivos programas sociais. Independentemente das discussões metodológicas sobre os levantamentos, há um fato que dispensa qualquer planilha estatística. Basta caminhar pelas cidades brasileiras. Praças antes ocupadas por crianças brincando transformaram-se em acampamentos improvisados. Viadutos converteram-se em dormitórios permanentes. Canteiros centrais passaram a servir de residência. Áreas verdes, parques urbanos e terrenos públicos foram ocupados por barracas, colchões e lonas plásticas. A pobreza deixou de ser um dado estatístico. Passou a fazer parte da paisagem urbana. As grandes capitais concentram a maior parte dessa população, mas o fenômeno já alcança cidades médias e até pequenos municípios. O que antes parecia restrito aos grandes centros tornou-se uma realidade nacional.
É verdade que períodos prolongados de baixo crescimento econômico costumam ampliar a vulnerabilidade social. Economias que geram poucos empregos formais oferecem menos oportunidades para famílias que já vivem em situação de fragilidade. O debate público, entretanto, frequentemente transforma uma questão humana em disputa política.
A realidade possui uma característica inconveniente. Ela não desaparece porque alguém decide ignorá-la. Esse crescimento de desamparados também impõe novos desafios às cidades. Serviços de saúde enfrentam maior demanda. Redes de assistência social tornam-se insuficientes. A segurança pública convive com situações cada vez mais complexas. Comerciantes, moradores e usuários dos espaços urbanos passam a disputar áreas que deveriam cumprir funções coletivas. A consequência é uma deterioração gradual da convivência urbana. Ao mesmo tempo, cresce o risco de naturalização do problema. Uma sociedade acostuma-se lentamente com aquilo que deveria considerá-lo intolerável. Esse talvez seja o aspecto mais preocupante. A pobreza extrema deixa de ser percebida como emergência e transforma-se em cenário permanente.
Nosso país ocupa posição relevante entre as maiores economias do planeta. Possui uma das maiores produções agrícolas do mundo, amplo parque industrial, sistema financeiro sofisticado e enorme capacidade produtiva. Ainda assim, convive com um contingente expressivo de cidadãos privados das condições mais elementares de existência. Essa contradição merece reflexão. O Índice de Desenvolvimento Humano não mede apenas renda. Considera também educação e expectativa de vida. Mais do que isso, procura avaliar o interesse de um governo em oferecer oportunidades concretas para que seus cidadãos desenvolvam plenamente suas potencialidades. Não basta produzir riqueza. É necessário criar condições para que essa riqueza se traduza em melhoria efetiva da qualidade de vida. O desafio não será resolvido por um único programa governamental nem por soluções simplistas. Exige que parte da sociedade exija crescimento econômico sustentado, políticas públicas eficientes, atenção à saúde mental, combate às dependências químicas, qualificação profissional, ampliação da oferta habitacional e melhor coordenação entre União, estados e municípios.
Mais do que um problema estatístico, a população em situação de rua tornou-se um dos retratos mais visíveis das dificuldades de gestão do governo brasileiro. O verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas pela expansão da economia ou pelo volume de investimentos anunciados. Mede-se também pela capacidade de reduzir a vulnerabilidade humana e de assegurar que a dignidade deixe de ser privilégio de alguns para tornar-se uma condição acessível ao conjunto da população. Enquanto centenas de milhares de brasileiros continuarem vivendo sem moradia estável, sem escolas que preparem para o futuro, sem acesso regular a políticas de emprego que valorizem a própria força e sem perspectivas concretas de reintegração social, permanecerá aberta uma distância significativa entre o discurso e a prática.
A frase que foi pronunciada:
“Há o suficiente no mundo para as necessidades de todos, mas não o suficiente para a ganância de todos.”
Frank Buchman
História de Brasília
O padre José Bertoldo é o unico do mundo que tem 64 igrejas. É que êle é pároco da Asa Norte e celebra nos pilotis dos 64 blocos residenciais daquela Asa. (Publicada em 24.05.1962)
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Durante décadas, o futebol brasileiro foi visto como muito mais que um esporte. Foi elemento de identidade nacional, instrumento de integração social e um dos poucos espaços onde ricos e pobres dividiam a mesma paixão. Nas arquibancadas, nos campos de várzea e nos grandes estádios, consolidou-se uma das mais importantes manifestações culturais do país. Hoje, porém, essa tradição enfrenta um adversário muito mais perigoso do que qualquer rival dentro das quatro linhas: a expansão silenciosa do crime organizado sobre a economia do futebol.
Recentes investigações conduzidas por autoridades brasileiras e estrangeiras mostram que organizações criminosas passaram a enxergar o futebol não apenas como entretenimento, mas como um ambiente extremamente atraente para movimentação de recursos financeiros, lavagem de dinheiro, manipulação de resultados e ampliação de influência econômica. Trata-se de um fenômeno que já havia sido observado em diversas partes do mundo e que agora desperta crescente preocupação também no Brasil.
Relatórios de órgãos de segurança pública, investigações da Polícia Federal e estudos de organismos internacionais apontam que essas organizações diversificaram suas fontes de receita, passando a atuar em setores como mineração ilegal, contrabando de combustíveis, comércio clandestino de cigarros, grilagem de terras, transporte, logística, mercado imobiliário, fintechs clandestinas, empresas de fachada e esquemas de lavagem de dinheiro. Além disso afirmam investigadores que nos últimos anos, o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e outras organizações ampliaram significativamente sua atuação para além do tráfico de drogas. Essa diversificação segue uma lógica empresarial. Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, já afirmou que o tráfico continua extremamente lucrativo, mas também se tornou mais arriscado diante da cooperação internacional entre agências de combate ao narcotráfico.
Para reduzir riscos e ampliar receitas, essas organizações passaram a investir em atividades que ofereçam aparência de legalidade. Infelizmente o futebol tornou-se um desses ambientes. O setor reúne algumas características particularmente vulneráveis. A circulação de grandes volumes financeiros, as negociações internacionais de atletas, a valorização subjetiva dos direitos econômicos, os contratos de publicidade, o patrocínio privado e a enorme quantidade de empresas intermediárias que criam oportunidades que podem ser exploradas para ocultação da origem ilícita de recursos.
Não se trata de um problema exclusivamente brasileiro. Na Europa, diferentes operações policiais já identificaram grupos mafiosos infiltrados em clubes, torcidas organizadas, casas de apostas e esquemas de manipulação de partidas. A Interpol, a Europol e organismos ligados à FIFA vêm alertando há anos para o crescimento das chamadas redes internacionais de manipulação esportiva. A Ásia tornou-se um dos maiores mercados clandestinos de apostas do planeta. Na Itália, investigações envolvendo a máfia demonstraram, em diferentes momentos, tentativas de utilização de clubes para lavagem de capitais. Na Bélgica, Espanha, Grécia e outros países europeus também surgiram operações policiais relacionadas à manipulação de resultados. O Brasil passou a integrar esse mapa de preocupação. A explosão das plataformas de apostas esportivas acelerou ainda mais esse cenário. A regulamentação do setor buscou criar regras para um mercado que já existia informalmente, mas especialistas em prevenção à lavagem de dinheiro alertam que a fiscalização precisa acompanhar a velocidade da expansão dessas empresas.
Atualmente as apostas esportivas movimentam atualmente centenas de bilhões de dólares por ano em todo o mundo. Grande parte desse volume circula por empresas sediadas em diferentes jurisdições, dificultando o rastreamento financeiro. No Brasil, o crescimento foi extraordinário. Patrocínios de empresas de apostas passaram a ocupar praticamente todas as camisas dos clubes das principais divisões. Estádios receberam nomes comerciais vinculados às plataformas. Programas esportivos, transmissões televisivas e redes sociais passaram a incorporar publicidade permanente dessas empresas. Esse novo modelo econômico trouxe receitas importantes para clubes que enfrentavam graves dificuldades financeiras. Ao mesmo tempo, aumentou o desafio regulatório. A manipulação de resultados tornou-se uma preocupação constante.
Operações conduzidas pelo Ministério Público e pelas polícias estaduais identificaram esquemas envolvendo atletas, intermediários e apostadores interessados em eventos específicos das partidas, como cartões amarelos, escanteios e faltas, sem necessidade de alterar necessariamente o placar final. Essa modalidade de fraude tornou-se sofisticada exatamente porque movimenta enormes volumes financeiros em mercados pouco perceptíveis ao torcedor comum. É importante distinguir fenômenos diferentes. A grande maioria dos clubes, atletas, dirigentes e empresas do setor atua dentro da legalidade. Também não há base para afirmar que plataformas de apostas regularmente autorizadas participem de atividades criminosas apenas por integrarem esse mercado. Essencialmente, o problema reside na utilização desse ecossistema por indivíduos ou organizações que buscam explorar suas vulnerabilidades. É justamente por isso que fiscalização eficiente se torna indispensável.
A frase que foi pronunciada:
“É só o começo”
Carlo Ancelotti
História de Brasília
A exposição de arte popular do aeroporto abriu, inaugurou, fechou e nunca mais abriu. (Publicada em 22.05.1962)
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Há uma tendência recorrente de imaginar o Estado como uma entidade abstrata, dotada de existência própria e capaz de funcionar independentemente daqueles que o administram. A imagem, embora conveniente para a compreensão das estruturas políticas modernas, pouco explica sobre a natureza das instituições públicas e tampouco responde à questão que atravessa séculos de reflexão filosófica e política: até que ponto um Estado pode ser melhor do que as pessoas encarregadas de conduzi-lo? A resposta nunca foi simples e talvez resida justamente na percepção de que governos passam, constituições são reformadas, partidos se alternam no poder, mas a confiança da sociedade nas instituições leva décadas para ser construída e pode ser comprometida em poucos anos.
A história da organização política demonstra que a formação do Estado moderno nunca esteve dissociada de preocupações relacionadas à conduta humana. Quando Thomas Hobbes publicou Leviatã, em 1651, descreveu a necessidade de uma autoridade capaz de impedir que os conflitos naturais entre os indivíduos inviabilizassem a convivência social. Poucas décadas depois, John Locke defenderia que essa autoridade somente encontraria legitimidade se fosse exercida para proteger direitos fundamentais, enquanto Jean-Jacques Rousseau acrescentaria que nenhuma organização política poderia se manter estável sem uma permanente correspondência entre o interesse coletivo e a atuação daqueles que exercem o poder. Em comum, essas interpretações revelam que o Estado jamais foi concebido apenas como uma máquina administrativa. Desde sua formulação teórica, ele esteve associado à preservação de valores que permitissem a coexistência entre liberdade, autoridade e segurança.
Ao longo do século XX, o debate adquiriu contornos mais objetivos. O sociólogo alemão Max Weber definiu o Estado como a instituição que detém o monopólio legítimo do uso da força em determinado território, deslocando o foco da discussão para a legitimidade das instituições e para a capacidade de suas estruturas funcionarem segundo regras permanentes, independentemente das mudanças de governo. Essa distinção tornou-se um dos pilares das democracias constitucionais contemporâneas, nas quais o Estado deve permanecer enquanto governos se sucedem em ciclos eleitorais regulares.
Acontece que a própria experiência histórica demonstrou que a existência de instituições sólidas não elimina o papel desempenhado pelas pessoas responsáveis por sua condução. O filósofo italiano Norberto Bobbio observava que a democracia depende muito menos de promessas grandiosas do que da observância cotidiana das regras que garantem publicidade dos atos, alternância de poder, respeito às leis e responsabilidade dos agentes públicos. Em sentido semelhante, Hannah Arendt advertia que o poder político encontra sua legitimidade não na força, mas na confiança depositada pela sociedade nas instituições que o exercem.
Nas últimas décadas, essa percepção deixou de pertencer exclusivamente ao campo da filosofia política e passou a ser objeto de mensuração por organismos internacionais e centros independentes de pesquisa. Indicadores de governança, transparência e confiança institucional tornaram-se parâmetros utilizados para avaliar o funcionamento das democracias, permitindo comparações entre países com diferentes tradições políticas e distintos níveis de desenvolvimento econômico.
No caso do Brasil, o país insere-se nesse contexto internacional de maneira particularmente complexa. A Constituição de 1988 ampliou mecanismos de controle institucional, fortaleceu órgãos independentes de fiscalização, consolidou instrumentos de transparência administrativa e ampliou significativamente o acesso da sociedade às informações públicas. Nas décadas seguintes, iniciativas como a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Lei da Transparência e a Lei de Acesso à Informação contribuíram para modificar padrões históricos de publicidade dos atos administrativos e fiscalização das contas públicas. Ao mesmo tempo, sucessivas pesquisas de opinião continuaram registrando oscilações na confiança dos brasileiros em relação às instituições políticas, fenômeno que acompanha tendências observadas em diversas democracias contemporâneas.
Esse cenário demonstra que a construção da legitimidade institucional não depende exclusivamente da arquitetura jurídica do Estado. Constituições estabelecem princípios, leis disciplinam competências e tribunais asseguram sua aplicação, mas a percepção social acerca das instituições forma-se também a partir da experiência cotidiana dos cidadãos com os serviços públicos, com a previsibilidade das decisões administrativas, com o funcionamento da Justiça e com a capacidade do poder público de responder às demandas coletivas de maneira transparente e eficiente.
Talvez seja essa a principal característica do Estado moderno. Embora concebido como uma estrutura permanente e impessoal, ele permanece inseparável da ação humana. Não possui consciência, vontade ou valores próprios, mas incorpora, por meio das instituições, decisões tomadas diariamente por milhares de pessoas investidas em funções públicas. Em última análise, a solidez de um Estado não pode ser medida apenas pela extensão de seu aparato administrativo ou pela sofisticação de suas leis, mas também pela capacidade de preservar, ao longo do tempo, a credibilidade das instituições perante cidadãos e eleitores.
A frase que foi pronunciada:
“O fascismo deveria ser mais apropriadamente chamado de corporativismo, pois é uma fusão do poder estatal com o poder corporativo.”
Benito Mussolini
História de Brasília
Mas a VASP merece censura noutra parte. Cancelou a linha do Ceará, e fêz uma conexão em Salvador que não funciona nunca. Outro dia um amigo ficou três dias em Salvador sem querer, esperando outro avião, porque o vôo fôra cancelado. (Publicada em 22.05.1962)
Em 1918, quando a Primeira Guerra Mundial ainda lançava sua sombra sobre a Europa, o historiador e filósofo alemão Oswald Spengler publicou O Declínio do Ocidente. A obra causou espanto porque contrariava a crença, então dominante, de que a civilização europeia caminhava rumo a um progresso ilimitado. Para Spengler, as civilizações comportavam-se como organismos vivos: nasciam, amadureciam, envelheciam e, inevitavelmente, entravam em declínio. O Ocidente, segundo ele, já havia ultrapassado seu auge criativo e ingressado na fase da civilização burocrática, materialista e tecnocrática. Mais de um século depois, suas ideias voltaram ao centro dos debates. Não porque suas conclusões devam ser aceitas como verdades incontestáveis, mas porque diversos fenômenos contemporâneos parecem dialogar com suas preocupações. A crescente polarização política, a perda de confiança nas instituições, a fragmentação cultural, os conflitos geopolíticos e a crise demográfica em diversas sociedades ocidentais alimentam novamente a pergunta: estaria o Ocidente vivendo um processo de desgaste histórico?
Spengler afirmava que toda grande cultura nasce de uma visão espiritual do mundo. Enquanto essa força permanece viva, florescem a filosofia, a arte, a ciência e a religião. Quando essa energia se esgota, a criatividade cede lugar à administração, à técnica e ao poder econômico. A política transforma-se em disputa permanente pelo controle das estruturas de poder, enquanto a cultura passa a privilegiar o consumo, o entretenimento e a produção em massa. Essa interpretação influenciou pensadores posteriores, ainda que muitos discordassem de seu determinismo histórico. José Ortega y Gasset, em A Rebelião das Massas, advertiu para o surgimento do “homem-massa”, pouco interessado na tradição intelectual, mas cada vez mais influente sobre as decisões públicas. Sigmund Freud, em O Mal-Estar na Civilização, observou que o progresso material jamais eliminaria os conflitos internos do ser humano, pois toda civilização exige renúncias que frequentemente produzem frustrações e tensões.
Embora escritos em contextos diferentes, esses autores compartilhavam uma preocupação comum: o enfraquecimento dos elementos culturais e institucionais que sustentam uma sociedade. No século XXI, novos fatores passaram a integrar esse debate. A globalização aproximou economias, pessoas e culturas em escala inédita. Para seus defensores, esse processo ampliou oportunidades econômicas, reduziu barreiras comerciais e fortaleceu a cooperação internacional. Para seus críticos, porém, também acelerou a perda de identidades nacionais, aumentou desigualdades percebidas em alguns setores e intensificou reações políticas em defesa da soberania e das tradições locais. Outro tema frequentemente associado a esse debate é o chamado movimento “woke”. O termo, originalmente ligado à conscientização sobre injustiças sociais e raciais, passou a ser utilizado de maneiras bastante diferentes no debate público. Seus apoiadores afirmam que representa um esforço por maior inclusão e reconhecimento de grupos historicamente marginalizados. Seus críticos sustentam que, em determinadas circunstâncias, essa agenda pode restringir o pluralismo de ideias, favorecer formas de censura social e reduzir espaços para o debate aberto. Independentemente da posição adotada, é evidente que essas transformações alimentam uma profunda disputa cultural em diversas democracias ocidentais.
No campo político, cresce também o debate sobre o funcionamento das democracias representativas. Spengler previa que o dinheiro exerceria influência crescente sobre a política. Atualmente, diferentes estudos apontam para a expansão do financiamento eleitoral, do lobby organizado, da influência das grandes plataformas digitais e da concentração de poder econômico em escala global. Essas questões aparecem hoje em democracias de diferentes orientações políticas e constituem objeto permanente de discussão entre cientistas políticos. Isso ao mesmo tempo, muitos países enfrentam uma crise de confiança institucional. Pesquisas internacionais mostram queda da confiança em governos, parlamentos, partidos políticos e meios de comunicação em várias democracias consolidadas. Essa desconfiança contribui para a ascensão de movimentos que propõem reformas profundas do Estado, tanto à direita quanto à esquerda do espectro político. O Brasil não está isolado desse contexto. Polarização política, dificuldades econômicas recorrentes, baixa produtividade, desafios educacionais, violência urbana, criminalidade organizada e sucessivos escândalos envolvendo recursos públicos alimentam um ambiente de permanente tensão institucional. Chama atenção o empobrecimento do debate público. Redes sociais ampliaram extraordinariamente a circulação de informações e opiniões, mas frequentemente favorecem mensagens curtas, emocionais e polarizadas. Perdeu-se o fôlego intelectual. Umberto Eco observava que a abundância de informação não produz necessariamente mais conhecimento. Em vários ensaios, Eco alertou para o risco de a velocidade da circulação de conteúdos reduzir o tempo dedicado à leitura crítica e à assimilação das obras.
Essa percepção aproxima-se das inquietações formuladas por Spengler sobre a passagem de uma cultura criativa para uma civilização voltada predominantemente à técnica e ao consumo. Mais de cem anos após a publicação de O Declínio do Ocidente, permanece atual não exatamente sua conclusão, mas a pergunta que motivou sua obra: quais são os sinais de vitalidade de uma civilização e quais indícios revelam seu desgaste? A resposta continua aberta. É precisamente essa abertura que mantém viva a reflexão histórica e filosófica sobre o presente.
A frase que foi pronunciada:
Onde a ignorância reina, não há possibilidade de paz verdadeira.
Dalai Lama
História de Brasília
A 15 de julho estarão voando no Brasil os novos Electra da Varig. Os super serão recolhidos e ficarão como aviões de carga. (Publicada em 22.05.1962)
Famílias cada vez mais endividadas e os limites das soluções de curto prazo
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Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas em maio de 2026, o maior percentual da série histórica. O endividamento das famílias brasileiras deixou de ser um fenômeno estatístico para se tornar um dos principais desafios econômicos do país. Esses números mostram uma tendência consistente de crescimento do comprometimento da renda das famílias com dívidas, ao mesmo tempo em que a inadimplência permanece elevada. Independentemente da avaliação que se faça sobre as políticas do governo, o quadro exige atenção porque afeta diretamente consumo, investimento e crescimento econômico.
Entre as famílias de menor renda, a inadimplência também apresentou aumento, indicando maior dificuldade para cumprir compromissos financeiros. Esse cenário não surgiu de um único fator. A combinação entre juros elevados, crédito caro, inflação acumulada sobre itens essenciais e baixo crescimento da renda disponível ajuda a explicar a deterioração das finanças domésticas. Economistas têm apontado que o elevado custo do crédito continua sendo um dos principais obstáculos para a recuperação financeira das famílias brasileiras. Foi nesse contexto que o governo federal lançou o programa Novo Desenrola Brasil, destinado à renegociação de dívidas bancárias de famílias com renda de até cinco salários mínimos. O programa prevê descontos que podem chegar a 90%, juros limitados e parcelamento em até 48 meses, com o objetivo declarado de reduzir a inadimplência e reinserir consumidores no mercado de crédito. A proposta tem potencial para beneficiar parte dos inadimplentes. Estudo da Serasa estima que, no cenário mais favorável, cerca de 7,8 milhões de pessoas poderiam deixar a condição de negativadas ao longo da vigência do programa. Entretanto, programas de renegociação costumam enfrentar uma limitação conhecida: tratam principalmente das consequências do endividamento, não necessariamente de suas causas estruturais.
Se renda, produtividade, emprego e custo do crédito não evoluírem de forma consistente, parte dos consumidores pode voltar a enfrentar dificuldades financeiras após a renegociação. Esse é um ponto frequentemente destacado por especialistas em educação financeira e mercado de crédito, como Gustavo Cerbasi e Reinaldo Domingos.
Merece atenção o comprometimento crescente da renda familiar. Quando parcela significativa do orçamento mensal é destinada ao pagamento de financiamentos, cartões de crédito e empréstimos, sobra menos espaço para consumo, investimento e formação de patrimônio. Esse fenômeno reduz a capacidade de reação da economia diante de novas dificuldades. Outro aspecto relevante diz respeito à confiança. Consumidores excessivamente endividados tendem a adiar compras, reduzir investimentos e aumentar a poupança preventiva sempre que possível. Empresas respondem diminuindo investimentos, o que pode afetar emprego e crescimento econômico.
Nenhuma política pública consegue alterar essa realidade apenas por meio da renegociação de contratos. A recuperação duradoura das finanças familiares depende de fatores mais amplos, como estabilidade econômica, inflação controlada, crescimento da renda, produtividade, ambiente favorável aos investimentos e acesso a crédito em condições sustentáveis. Isso não significa que programas de renegociação sejam inúteis. Eles podem oferecer alívio imediato para milhares de famílias e reduzir parte da pressão sobre consumidores inadimplentes. A questão central é outra: sua eficácia de longo prazo dependerá da evolução das condições econômicas que levaram ao endividamento. O problema é que o debate público tende a transformar políticas econômicas em disputas exclusivamente políticas. Convém, porém, distinguir avaliação técnica de posicionamento partidário.
Ao longo do tempo, acompanhar os beneficiários do Novo Desenrola mostrará mais sobre os efeitos da inadimplência só poderão ser avaliados de forma consistente no futuro. O verdadeiro teste não será o número de contratos renegociados nos próximos meses, mas quantas famílias conseguirão permanecer adimplentes nos anos seguintes. É essa diferença que separa uma solução temporária de uma recuperação financeira sustentável.
A frase que foi pronunciada:
“Não existe uma solução mágica, uma bala de prata que vai resolver tudo.”
Lauro Gonzalez
Convivência
De um lado moradores reclamam do aumento de capivaras nos lagos Norte e Sul. De outro, há quem fique de olho na carne desse animal. O certo é que a reunião realizada no Ministério Público / (Prodema) Programa de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, com a presença da promotora de Justiça Luciana Bertini e de representantes do Instituto Brasília Ambiental tranquilizou a população afirmando que não há perigo de febre maculosa.
Curiosidade
Efraim Filho e Rodrigo Pacheco lutaram pela lei que permite a divulgação da 1ª lista de devedores contumazes. Pelo visto ficou de fora o devedor de precatórios.
História de Brasília
Os horários distribuídos pela Ponte Aérea no início da operação não estão valendo nada. Sai o avião que quiserem na hora que desejarem. Para o Rio, mesmo, continua a VASP, com horário, equipamento de primeira, e passagem ida e volta mais barata. (Publicada em 22.05.1962)
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Poucos fenômenos cresceram com tanta velocidade no Brasil quanto às plataformas de apostas esportivas. Em poucos anos, elas deixaram de ocupar espaços discretos na internet para dominar transmissões esportivas, patrocinar clubes, comprar horários na televisão e invadir, de maneira permanente, celulares e redes sociais de milhões de brasileiros.
Durante a Copa do Mundo de Futebol, essa presença tornou-se ainda mais intensa. Praticamente cada intervalo de transmissão, cada vídeo nas redes sociais e cada aplicativo passou a exibir anúncios convidando o público a fazer sua primeira aposta, multiplicar ganhos ou aproveitar “oportunidades imperdíveis”. A estratégia é sofisticada. Utiliza algoritmos capazes de identificar o perfil do usuário, seus hábitos de navegação e seus interesses esportivos. A publicidade deixou de ser apenas uma mensagem genérica e transformou-se em um recado personalizado. O celular, antes instrumento de comunicação e trabalho, passou a funcionar também como uma porta de entrada permanente para um gigantesco cassino virtual instalado no bolso de cada cidadão.
Segundo dados do Banco Central, os brasileiros movimentam dezenas de bilhões de reais por mês em apostas eletrônicas. Em estudo divulgado em 2024, a autoridade monetária estimou que os gastos mensais com apostas variavam entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões, evidenciando a dimensão econômica alcançada pelo setor. Esse volume impressiona não apenas pelo montante financeiro, mas por sua origem. Grande parte desse dinheiro sai diretamente do orçamento das famílias. Recursos que poderiam ser destinados à alimentação, educação, lazer, poupança ou investimento acabam sendo direcionados para plataformas cuja lógica matemática favorece, inevitavelmente, a própria casa de apostas.
A publicidade acompanha essa expansão. Influenciadores digitais, atletas, ex-jogadores, artistas e produtores de conteúdo aparecem diariamente estimulando apostas rápidas, frequentemente associando o jogo à ideia de sucesso financeiro, independência econômica ou enriquecimento fácil. A linguagem é cuidadosamente construída para transformar uma atividade de elevado risco em simples entretenimento. Especialistas em saúde pública têm alertado para o crescimento dos casos de ludopatia, o transtorno relacionado ao jogo compulsivo.
Enquanto pesquisadores brasileiros observam o aumento na procura por tratamento em razão das apostas online, a Organização Mundial da Saúde reconhece os transtornos comportamentais relacionados aos jogos como um problema relevante de saúde mental.
Outro aspecto que desperta preocupação crescente diz respeito à origem dos recursos que circulam nesse mercado. Autoridades brasileiras e organismos internacionais têm alertado para os riscos de utilização das plataformas de apostas em esquemas de lavagem de dinheiro. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o Ministério da Fazenda e a Polícia Federal vêm reforçando mecanismos de fiscalização justamente porque o elevado volume financeiro e a velocidade das transações podem ser explorados por organizações criminosas. Não significa que todas as empresas do setor estejam envolvidas em práticas ilícitas. Significa, porém, que o mercado apresenta vulnerabilidades conhecidas pelas autoridades.
Relatórios produzidos por organismos internacionais, como o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), apontam que atividades de apostas e jogos podem ser utilizadas por organizações criminosas para ocultação e circulação de recursos ilícitos quando não existem controles rigorosos de identificação de usuários, rastreamento financeiro e prevenção à lavagem de dinheiro. Esse quadro amplia a responsabilidade do poder público. A discussão deixou de envolver apenas liberdade econômica ou arrecadação tributária. Passou a abranger proteção do consumidor, saúde pública, segurança financeira e combate ao crime organizado.
Também merece atenção a intensidade da publicidade dirigida ao público. Embora a legislação brasileira tenha estabelecido regras para o funcionamento das apostas de quota fixa, cresce o debate sobre a necessidade de limitar campanhas publicitárias, sobretudo aquelas direcionadas a jovens e pessoas vulneráveis. Diversos países europeus já adotaram restrições severas quanto aos horários de exibição, utilização de celebridades e divulgação em eventos esportivos. O Brasil enfrenta agora desafio semelhante.
A facilidade tecnológica transformou qualquer intervalo de poucos minutos em oportunidade comercial. Basta abrir um aplicativo, assistir a um vídeo ou consultar uma rede social para que novos anúncios apareçam oferecendo bônus, apostas gratuitas ou promessas de retorno imediato. Nenhuma sociedade elimina completamente o jogo. Trata-se de uma atividade presente há séculos. O desafio contemporâneo consiste em impedir que a tecnologia transforme uma prática recreativa em mecanismo permanente de captura da renda familiar.
O problema surge quando o espetáculo esportivo passa a funcionar principalmente como plataforma de recrutamento de novos apostadores. Num ambiente digital dominado por algoritmos, publicidade personalizada e comunicação instantânea, a proteção do consumidor exige fiscalização constante, transparência regulatória e educação financeira. Caso contrário, milhões de brasileiros continuarão cercados diariamente por incentivos cuidadosamente desenhados para estimular apostas sucessivas, enquanto parte significativa dos lucros permanecerá concentrada em um mercado cuja expansão ainda desafia a capacidade de supervisão do Estado.
A frase que foi pronunciada:
Um jogador nunca comete o mesmo erro duas vezes. Geralmente são três ou mais vezes.
Terrence “VP Pappy” Murphy

História de Brasília
Na sua superquadra há um caminhão arrecadando agasalhos para as crianças pobres. Não deixe de dar um auxílio, que vai servir demais a quem não tem meios. (Publicada em 22.05.1962)
Terremotos e governos: qual desastre deixa cicatrizes mais profundas?
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
jornalistacircecunha@gmail.com
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Poucas imagens são tão devastadoras quanto a de uma cidade destruída por um terremoto. Em poucos segundos, inocentes morrem, prédios desaparecem, estradas racham, hospitais entram em colapso e os milhares de sobreviventes têm a vida alterada para sempre. Foi exatamente esse cenário que voltou a assombrar a Venezuela após os fortes terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram o país nesta semana, provocando mortes, centenas de feridos e danos extensos à infraestrutura. Autoridades venezuelanas decretaram estado de emergência diante da magnitude da tragédia. Mas o que causa mais danos a uma nação, uma catástrofe natural ou um governo incapaz, corrupto ou destrutivo? Terremotos matam depressa. Maus governos costumam matar devagar. A natureza é indiferente às ideologias. Quando as placas tectônicas se movem, não perguntam quem está no poder. Não distinguem ricos de pobres, governistas de oposicionistas. Simplesmente liberam forças acumuladas durante séculos. Em poucos minutos, o trabalho de gerações pode ser reduzido a escombros.
Governos ruins operam de forma diferente. Seus efeitos são graduais. Quase imperceptíveis no início. Primeiro surgem pequenos sinais de deterioração institucional. Depois aparecem a inflação, a fuga de capitais, a perda de confiança dos investidores, o enfraquecimento dos serviços públicos, a corrupção crescente e o aumento da pobreza. Quando a população percebe a dimensão do estrago, grande parte do dano já foi produzida. A história oferece inúmeros exemplos. O terremoto de Lisboa, em 1755, destruiu boa parte da capital portuguesa e matou dezenas de milhares de pessoas. Mesmo assim, Portugal conseguiu reconstruir sua principal cidade em poucas décadas. A Alemanha saiu arrasada da Segunda Guerra Mundial. Suas cidades estavam em ruínas. Sua infraestrutura havia desaparecido. Poucos anos depois iniciava uma das mais impressionantes recuperações econômicas da história moderna. O Japão sofreu terremotos, tsunamis e duas bombas atômicas. Ainda assim transformou-se em uma das maiores economias do planeta.
Catástrofes naturais podem destruir patrimônio. Instituições sólidas permitem reconstruí-lo. O problema surge quando o desastre natural encontra um Estado enfraquecido. Nesse caso, o terremoto deixa de ser apenas um fenômeno geológico. Passa a funcionar como um teste brutal da qualidade das instituições nacionais. Hospitais não funcionam; os serviços de emergência não respondem; as estradas não resistem; as construções não obedecem normas técnicas; os recursos destinados à prevenção não chegam ao destino correto. É óbvio que cada uma dessas questões remete menos à geologia e mais à política. Países bem administrados também sofrem terremotos. A diferença é que costumam sofrer menos mortes.
Ano caso da Venezuela a tragédia chega carregando décadas de problemas econômicos, institucionais e sociais. Antes mesmo dos tremores, milhões de venezuelanos haviam deixado o país em uma das maiores crises migratórias da história recente da América Latina. A produção petrolífera caiu drasticamente ao longo dos últimos anos. Serviços públicos enfrentaram dificuldades recorrentes. A infraestrutura envelheceu. Tudo isso amplia a vulnerabilidade diante de qualquer desastre natural. O terremoto não criou esses problemas. Apenas os expôs de forma dramática. Há uma diferença importante entre um fenômeno natural e um fenômeno político. Nenhum cidadão pode impedir um terremoto. Já os erros humanos são, em teoria, evitáveis. Corrupção não é força da natureza. Má gestão não é fenômeno geológico. Desvios de recursos públicos não são inevitáveis.
Aristóteles observava que a finalidade da política é criar condições para uma vida boa em comunidade. Séculos depois, Winston Churchill resumiria o mesmo princípio ao afirmar que o preço da grandeza é a responsabilidade. Governos existem justamente para preparar a sociedade para enfrentar o imprevisível. Ninguém espera que um governante impeça terremotos. Espera-se, porém, que reduza seus efeitos. Por isso talvez seja inútil tentar estabelecer uma competição entre tragédias naturais e tragédias políticas. Cada uma destrói de maneira diferente. Os erros políticos podem destruir durante décadas. O caso venezuelano mostra que as duas formas de desastre podem acabar se encontrando no mesmo lugar. Quando isso ocorre, o resultado costuma ser especialmente cruel para a população comum, que perde duas vezes: primeiro para a natureza, depois para as falhas humanas.
Enquanto equipes de resgate procuram sobreviventes entre os escombros e o país tenta medir a extensão dos danos, permanece uma lição que atravessa séculos e continentes. Uma boa escolha no momento do voto frequentemente determina quantos sobreviverão quando a terra voltar a tremer.
A frase que foi pronunciada:
“Precisamos de um terremoto político, não de um terremoto geológico.”
Davan Yahya Khalil
Ninguém pode negar a importância da preservação da memória coletiva, da construção da identidade de um povo, o estímulo ao pensamento crítico, a coesão social, a formação educacional da população. A não ser a autoridade que permite uma obra durar mais de 10 anos para entregar aos contribuintes a sala Villa Lobos, do Teatro Nacional. Essa, autoridade não se preocupa.
História de Brasília
O Setor de Residências Econômicas será um dos mais belos bairros de Brasília. Estão ampliando tôdas as casas, e já começaram o trabalho de urbanização, com o asfaltamento de ruas internas. (Publicada em 22.05.1962)






