A corrupção e o preço do pão  nosso de cada dia

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CIArce

Existe uma desconexão silenciosa no debate público brasileiro. De um lado, o preço da cenoura, do tomate, do leite e da carne sobe nos supermercados. Isso corrói o orçamento das famílias de menor renda e daqueles que dependem do Bolsa Família para colocar comida na mesa.Por outro lado, a corrupção é tratada como um assunto distante. Muitos a encaram como um tema abstrato, restrito à classe média escolarizada e à elite política.

Pragas

Contudo, falta ligar os dois fenômenos no debate nacional. A corrupção e o preço dos alimentos estão intimamente conectados. Afinal, os desvios não representam um problema paralelo ao custo de vida; eles funcionam como uma de suas principais causas estruturais.

"Entre os beneficiários do Bolsa Família, apenas 14% apontam a corrupção como o principal problema do país, contra 27% entre os não beneficiários."
— Pesquisa BTG Pactual/Nexus (setembro de 2026)

Os dados da percepção pública e a lógica da sobrevivência

Os números da pesquisa BTG Pactual/Nexus, divulgada em setembro de 2026, expõem essa desconexão com clareza. Entre quem ganha até um salário mínimo, o índice cai para 12%, um terço do registrado entre quem recebe mais de cinco salários mínimos (32%).

O recorte por escolaridade segue o mesmo padrão: 31% dos eleitores com ensino superior citam a corrupção como prioridade, contra 18% entre os que possuem apenas o ensino fundamental.

O próprio instituto associou o resultado a uma lógica de sobrevivência. Quem vive no aperto financeiro diário simplesmente não possui margem mental para conectar o preço do feijão à propina paga em uma licitação.

O impacto financeiro dos desvios públicos no PIB

Essa desconexão possui um custo econômico mensurável. Estudos convergem para uma conclusão alarmante: a corrupção drena entre 1,4% e 5% do Produto Interno Bruto brasileiro todos os anos.

  • Fiesp: Estimou o rombo entre R$ 41,5 bilhões e R$ 69 bilhões anuais (dados de base).
  • IBPT: Calculou um prejuízo de cerca de R$ 160 bilhões, equivalente a 8% de tudo o que o país produz.
  • ONU: Citada por juristas, chegou à cifra de R$ 200 bilhões por ano (entre 4% e 5% do PIB).

Esses montantes comprovam que uma fatia relevante da riqueza nacional é sistematicamente desviada de sua função original, prejudicando a saúde, a infraestrutura e a saneamento básico.

Como a corrupção e o preço dos alimentos se conectam na prática

Esse desvio de recursos pressiona os preços por caminhos bastante concretos. Obras superfaturadas encarecem a logística de transporte de alimentos, formando o chamado Custo Brasil.

Além disso, recursos destinados à fiscalização sanitária e ao crédito rural subsidiado sofrem desvios. Isso reduz a produtividade do campo e, por consequência, diminui a oferta de alimentos no mercado interno.

Por fim, o Estado perde receita para a corrupção. Para compensar essa diferença, o governo eleva a carga tributária sobre bens de consumo básico ou amplia o endividamento público. Essa dinâmica pressiona as taxas de juros e encarece o crédito para toda a cadeia produtiva, chegando ao consumidor final na etiqueta do supermercado.

O cenário internacional e a Transparência Internacional

A literatura global sobre desenvolvimento reforça esse elo. O Índice de Percepção da Corrupção, elaborado anualmente pela Transparência Internacional, revela uma correlação persistente entre baixa integridade institucional e baixo desenvolvimento humano.

O Brasil ocupa atualmente a 107ª posição entre 182 países avaliados. O país registrou nota 35 em uma escala de 0 a 100 — a segunda pior marca da série histórica iniciada em 2012. O índice brasileiro permanece abaixo da média global e da média das Américas, ambas situadas em 42 pontos.

"Onde a corrupção é elevada, a eficiência do gasto público cai, o investimento produtivo perde atratividade e o círculo se fecha contra o cidadão comum."
— Relatório da Transparência Internacional

A inflação de alimentos e os bolsões de pobreza

Enquanto a integridade institucional patina, a inflação de alimentos corrói o poder de compra das famílias vulneráveis. Em 2026, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou sucessivas altas puxadas pelo grupo de alimentação:

  • Cenoura: Acumulou alta de 80% nos primeiros quatro meses do ano.
  • Leite longa vida: Subiu 13,66% apenas no mês de abril.
  • Cebola: Registrou alta de 11,76%.
  • Tomate: Avançou 6,13%.

Trata-se de produtos essenciais, sem substitutos fáceis na dieta das classes populares. São justamente esses consumidores que mais sofrem as consequências sistêmicas da má gestão e dos desvios de recursos.

O papel da corrupção estrutural e a necessidade de informação

Casos recentes de macrocorrupção — como as investigações de desvios no INSS e os esquemas ligados ao Banco Master — expuseram falhas profundas no sistema financeiro. Cada real desviado nesses esquemas representa verbas que deixam de financiar o apoio à agricultura familiar ou a segurança alimentar.

É preciso reconhecer, contudo, que a inflação de alimentos também responde a fatores externos. Questões climáticas, entressafras, cotações internacionais de commodities e choques geopolíticos afetam os custos.

A corrupção não se isola como a única variável da equação. No entanto, ela atua como um imposto invisível sobre cada refeição, enfraquecendo a capacidade do Estado de amortecer crises.

Romper esse ciclo exige, acima de tudo, informação e educação cívica. Explicar a relação entre a corrupção e o preço dos alimentos com dados concretos é uma forma de justiça social. É preciso devolver às famílias de menor renda a certeza de que a luta contra a corrupção não é um luxo de elite, mas uma condição indispensável para garantir o sustento de todos.

Números não mentem, mas também não dizem a verdade

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A revisão do PIB pelo IBGE entrou no centro do debate econômico nacional. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística confirmou que prepara uma atualização do Sistema de Contas Nacionais. Essa mudança alterará o ano-base de 2010 para 2021. Entre os pontos mais discutidos dessa atualização está a possibilidade de passar a estimar a economia informal e ilícita. O instituto pretende medir o valor gerado por atividades como o tráfico de drogas, o contrabando e as apostas esportivas online, as chamadas bets.

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Combate

A notícia, compreensivelmente, provocou espanto na sociedade. Críticos mencionam a ocorrência de maquiagem estatística. Fala-se em uma economia que cresce no papel enquanto o país enfrenta violência e insegurança. Além disso, questiona-se o fato de o Estado contabilizar como riqueza aquilo que deveria combater. A militância política rapidamente passou a manipular esses números.

Títere

É uma imagem forte, e há nela um fundo de verdade que merece atenção. Contudo, a imagem completa é mais complexa do que as manchetes sugerem. Por essa razão, vale a pena separar a mudança técnica legítima dos sintomas preocupantes do país.

O padrão internacional na revisão do PIB pelo IBGE

Na revisão do PIB pelo IBGE segue estritamente o Sistema de Contas Nacionais das Nações Unidas (SNA). Esse manual internacional orienta como as nações devem medir o tamanho de suas economias. Desde 2014, países como Itália, Reino Unido e Espanha passaram a incluir estimativas de tráfico de drogas, prostituição e contrabando em seus cálculos. Posteriormente, esse movimento se estendeu a todos os 27 países da União Europeia.

Como critério técnico, o que é utilizado internacionalmente, baseia-se no conceito de transação voluntária. Quando duas partes negociam livremente um bem ou serviço, ainda que ilegal, considera-se que há produção econômica mensurável. Por essa razão, entram no cálculo o tráfico e as apostas online. Nessas atividades, comprador e vendedor concordam com a troca comercial.

Por outro lado, ficam de fora crimes como roubo, furto e extorsão. Essas ações representam apenas transferências forçadas de patrimônio, sem geração de riqueza nova. O caso da corrupção segue em aberto. Embora envolva duas partes em acordo, a corrupção não gera produção, apenas desvia recursos já existentes.

Transparência técnica e checagem de fatos

Agências de checagem, como a Aos Fatos, classificaram como enganosas as publicações que atribuem a mudança a uma decisão governamental deliberada para inflar índices. Trata-se de um processo estritamente técnico. O trabalho é conduzido por servidores de carreira do IBGE e alinhado a padrões internacionais adotados por democracias consolidadas.

Vejam que a inclusão dessas atividades no cálculo não significa legalização, reconhecimento moral ou validação política do crime organizado. Significa, apenas, uma tentativa de que a estatística oficial capture uma fatia da economia que movimenta bilhões de reais e impacta diretamente o orçamento das famílias.

No espelho das estatísticas, economia ilegal

Ainda assim, seria ingênuo tratar o episódio como mera curiosidade metodológica. Existe um aspecto profundamente perturbador quando a estatística oficial precisa reservar espaço contábil para o tráfico de drogas.

O fato de a metodologia ser correta não elimina o desconforto social. O agronegócio, a indústria automobilística e o comércio de entorpecentes figuram lado a lado na mesma tabela econômica. Essa convivência reflete o tamanho real que o mercado ilícito atingiu no país. O Estado brasileiro simplesmente não sabia, ou não queria, medir essa dimensão.

Impacto das apostas esportivas no orçamento familiar

No caso das apostas online, as bets, é ainda mais revelador. Trata-se de uma atividade legalizada e regulamentada que se espalhou rapidamente entre as famílias de menor renda.

Um estudo da Universidade de São Paulo (USP), divulgado em setembro, estimou o impacto financeiro do setor. As apostas online reduziram o consumo das famílias brasileiras entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões em 2025. Esse montante equivale a aproximadamente 1% do PIB nacional.

  • Alimentação: Redução direta no orçamento doméstico diário.
  • Moradia: Desvio de recursos destinados a bens essenciais.
  • Transferência de renda: Migração de capitais do consumidor para operadoras, muitas delas sediadas no exterior.

Contabilizar esse fluxo dentro do PIB apenas descreve a realidade de forma técnica. No entanto, a mesma realidade revela uma regulamentação que acabou retirando renda das classes mais vulneráveis.

O papel da transparência e os riscos da instrumentalização políticas

É legítimo que o cidadão desconfie de dados maquiados perto de períodos eleitorais. Por essa razão, a revisão do PIB pelo IBGE exige transparência radical do instituto. A metodologia de estimativa para atividades ilícitas é indireta e sujeita a margens de erro. O IBGE precisa explicar com clareza pedagógica a origem dos dados para evitar pânico ou distorção partidária.

Diferença entre medição estatística e narcoestado

Classificar o Brasil como um narcoestado devido a uma atualização contábil é uma leitura imprecisa. Um narcoestado caracteriza-se pela captura sistemática das estruturas de poder público pelo crime organizado. Isso ocorre em áreas específicas dominadas por facções, mas não define a totalidade do Estado brasileiro.

Vejam que a mudança estatística expõe a dimensão econômica do problema de segurança pública. O tráfico de drogas movimenta somas comparáveis a grandes setores da economia formal. Essa constatação representa uma realidade crua, e não uma manipulação de dados.

O perigo do uso político das estatísticas do PIB

O verdadeiro risco reside na exploração política desses resultados. O novo PIB não pode ser exibido em discursos como prova de sucesso econômico sem as devidas ressalvas técnicas. Caso contrário, o país substituirá a invisibilidade da economia ilícita pela instrumentalização política de um indicador inflado.

Nenhuma revisão contábil substitui políticas de segurança pública, investimentos sociais ou o combate efetivo ao crime organizado. A controvérsia sobre tráfico e bets revela a expansão do mercado informal e a perda de poder de compra do trabalhador.

A metodologia do IBGE permanece tecnicamente correta e alinhada às normas mundiais. O desconforto gerado pela mudança é real e precisa ser tratado com maturidade. O país deve encarar os números como um retrato analítico da sociedade para enfrentar os problemas estruturais com clareza e responsabilidade.

O calote silencioso de 2027

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A inadimplência das empresas atingiu o maior nível da série histórica no Brasil. O levantamento divulgado nesta semana pela FecomercioSP, com base em dados do Banco Central, mostra que há nuvens negras se aproximando além do horizonte das eleições de outubro. Apenas no segundo trimestre de 2026, as empresas brasileiras acumulavam R$ 86,1 bilhões em operações de crédito com atraso superior a três meses. Em apenas um ano, o montante cresceu 24% — o equivalente a quase R$ 17 bilhões a mais, já descontada a inflação do período. Este recorde não é sazonal, pois vale quando comparado a qualquer outro trimestre do calendário.

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O raio-x do endividamento

O detalhe mais incômodo do estudo não está no valor absoluto, mas sim na sua origem. O volume total de crédito concedido às empresas avançou apenas 2,3% no período. Portanto, o país não se endividou mais; o setor produtivo simplesmente parou de conseguir pagar as contas. A parcela da carteira em atraso subiu de 2,7% para 3,3%. A FecomercioSP atribui o movimento, sobretudo, ao efeito defasado do ciclo de juros elevados entre 2022 e 2025. Consequentemente, esse impacto só agora se reflete com força no caixa das corporações. Isso equivale a dizer que a conta de hoje foi contratada há cerca de um ano ou mais.

Asfixia

A distribuição desse peso transforma um dado técnico em um grave problema social. As pequenas e médias empresas respondem por aproximadamente 43% da carteira de crédito, mas concentram três de cada quatro reais em atraso. As pequenas devem R$ 33,4 bilhões (39% do total) e as médias, R$ 31,7 bilhões (37%), apresentando uma alta de 34% em doze meses. Além disso, entre as microempresas, o salto foi de 45%, subindo de R$ 6,9 bilhões para R$ 9,9 bilhões.

Orçamento secreto bem escondido nas algibeiras

Setor produtivo

Por outro lado, as grandes companhias, que detêm quase metade de todo o crédito, mantêm o atraso bem abaixo da média. Elas possuem caixa, tesouraria e maior poder de negociação. Assim, não estamos diante de uma crise geral do setor produtivo, mas sim de uma asfixia seletiva das empresas mais frágeis.

Dispersão geográfica

Tampouco se trata de um fenômeno regional. A inadimplência das empresas bateu o maior nível da história em 18 das 27 unidades da Federação simultaneamente. As maiores altas em doze meses vieram de economias muito distintas entre si:

  • Paraíba: alta de 123%
  • Amapá: alta de 73%
  • Rio Grande do Sul: alta de 67%
  • Amazonas: alta de 66%

São Paulo, como seria de esperar, concentra o maior valor absoluto: R$ 23 bilhões, o equivalente a 27% de todo o atraso empresarial do país. Contudo, é longe dos grandes centros urbanos que a deterioração corre mais rápido.

Serasa

Os dados da Serasa Experian completam esse retrato preocupante. Em junho de 2026, mais de 9,1 milhões de CNPJs estavam negativados, somando R$ 232,9 bilhões em dívidas. Trata-se de uma alta de 16,67% em um ano e um recorde na série iniciada em 2016. São Paulo lidera o ranking nacional, registrando 3,12 milhões de empresas negativadas.Além disso, no ano passado, 2.466 empresas ingressaram com pedidos de recuperação judicial, o maior número já registrado. A proporção de companhias que acabam falindo depois da recuperação subiu para cerca de 30%, ante uma média histórica próxima de 20%. Em suma, o instrumento jurídico é mais acionado, porém funciona menos.

Desaceleração econômica

A moldura macroeconômica explica por que o quadro não deve se resolver sozinho. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, após registrar 1,1% no primeiro. Simultaneamente, o consumo das famílias recuou 0,4%. O mercado projeta uma expansão de cerca de 1,9% em 2026, sendo o primeiro ano abaixo de 2% desde a pandemia.

Teto

O Copom cortou a taxa Selic para 13,75% em 16 de setembro, realizando o quinto corte consecutivo. No entanto, manteve o tom cauteloso. A inflação cheia desacelerou para 4,22% em doze meses até agosto, mas as projeções para o ano rondam 4,9%, permanecendo acima do teto da meta.

Pressão sobre o varejo

Em São Paulo, o faturamento real do varejo da capital caiu 8,8% no primeiro semestre. Houve recuo até mesmo em setores essenciais como supermercados (-6,9%) e farmácias (-2,1%) — segmentos que, por definição, não deveriam ser adiáveis.

Dívidas

O que há de verdadeiramente novo nesse conjunto é a combinação dos fatores. Nas outras ocasiões em que o atraso empresarial atingiu patamares semelhantes — como no início dos anos 2000 e em 2016-2017 —, o país vivia uma recessão aberta ou tinha um mercado de crédito muito mais estreito. Desta vez, a inadimplência das empresas se aproxima do maior nível histórico com a economia ainda crescendo perto de 2% e com o emprego formal resistente. Este é um sinal grave: significa que a atividade existe, mas a receita não chega ao caixa das empresas na velocidade necessária para quitar as obrigações.

Maldita herança

Quem vencer as urnas em outubro não tomará posse em um cenário de crise espetacular, com corridas bancárias ou disparada cambial. O eleito tomará posse, em 1º de janeiro de 2027, sobre uma corrosão lenta, difusa e já contratada.

Cenário

A política monetária opera com defasagem temporal. Mesmo que os cortes da Selic continuem, leva cerca de um ano para que a queda dos juros alcance as contas em atraso. Da mesma forma, levará mais tempo para que as corporações recomponham o caixa e voltem a investir. Em outras palavras, boa parte do ajuste que será cobrado do próximo governo já decorre de decisões tomadas entre 2022 e 2026.

Restrição fiscal

A restrição fiscal agrava consideravelmente o quadro. A dívida bruta do governo geral chegou a 81,9% do PIB em junho, o maior nível desde 2021. O déficit primário acumulado atingiu R$ 157,2 bilhões em doze meses, com despesas de juros próximas de 9% do PIB. Projeções de mercado e da Instituição Fiscal Independente colocam a dívida acima de 86% do PIB em 2027.

Balança

Portanto, não há espaço para que o novo mandatário compre a paz social com aumento de gastos públicos. Tampouco será possível financiar a sobrevivência de empresas por meio de crédito público barato e indiscriminado. Esse seria o caminho mais rápido para transformar um problema de fluxo de caixa privado em um passivo fiscal permanente.

Espaço para subsídios

Também não haverá lua de mel com a inflação. As expectativas para 2027 já rondam 4,3%, ficando acima do centro da meta, enquanto o Copom mantém a avaliação de riscos assimétricos para cima. Um governo que estreie prometendo estímulo à demanda encontrará o Banco Central obrigado a interromper — ou reverter — o ciclo de cortes. Isso jogaria de volta sobre as pequenas e médias empresas exatamente o custo financeiro que hoje as sufoca.

A agenda econômica realista para o próximo governo

A agenda realista é menos vistosa e mais árida do que qualquer palanque admitirá até outubro. Ela exige obrigatoriamente:

  • Credibilidade fiscal: adoção de regras sustentáveis que sobrevivam ao próprio mandato.
  • Transição tributária: implementação disciplinada da reforma, que começará a afetar o caixa das empresas nos primeiros anos do próximo governo.
  • Redução do custo do crédito: avanço por vias microeconômicas (garantias, informação e execução previsível de contratos), e não por subsídios artificiais.
  • Reestruturação de dívidas: tratamento sério para micro e pequenas empresas, que hoje chegam à recuperação judicial tarde demais para viabilizar a recuperação.

75%

Há ainda um risco estrutural que os indicadores atuais escondem: o mercado de trabalho. O emprego aquecido tem sido o principal amortecedor social desta desaceleração. Por essa razão, a inadimplência das famílias, medida mensalmente pela PEIC da FecomercioSP na capital paulista, oscila em torno de 20% sem explodir. Isso ocorre embora o endividamento dos lares ronde 75% e o comprometimento da renda esteja no maior patamar já medido pelo Banco Central.

Sem trabalho

Entretanto, o emprego é a última variável a ceder em momentos de crise. Empresas com caixa apertado cortam investimentos, reduzem estoques, suspendem fornecedores e só então demitem pessoal. Se o atraso recorde de hoje ainda não virou desemprego em massa, é porque a fila está andando. O próximo governo pode receber justamente a etapa final dessa sequência.

Inadimplência

Há ainda um risco estrutural que os indicadores atuais escondem: o mercado de trabalho. O emprego aquecido tem sido o principal O silêncio do debate eleitoral e a urgência do tema

Indiferença

Portanto, nada disso aparecerá no debate eleitoral com a devida franqueza por uma razão simples: não há solução de curto prazo compatível com o horário eleitoral. Além disso, a solução não dependerá apenas do Palácio do Planalto. A agenda de crédito, tributação e reestruturação de dívidas depende do Congresso Nacional que será eleito em outubro. Como resultado, a experiência recente sugere que a fragmentação parlamentar costuma cobrar seu preço em emendas e renúncias fiscais, exatamente o oposto do que a trajetória da dívida pública comporta.

Sem ideias?

Mas o eleitor tem o direito de exigir dos candidatos, ainda durante a campanha, que expliquem como pretendem tratar os R$ 86 bilhões que as empresas brasileiras já não conseguem pagar. Neste contexto, o silêncio é uma resposta clara.

No vermelho, literalmente

De acordo com a FecomercioSP o aspecto mais preocupante do estudo aponta a ausência de qualquer sinal de melhora. Sem alarmismo, resta a constatação de que, quando 9,1 milhões de empresas estão negativadas e a inadimplência das empresas bate recorde em dois terços dos estados ao mesmo tempo, o problema deixou de ser conjuntural e passou a ser estrutural.

Vencedor de quê

Por outro lado, o vencedor de outubro herdará um país economicamente fragilizado, cujo tecido empresarial já opera sem margem de manobra. Convém que os candidatos ao governo compreendam essa realidade bem antes da posse, evitando surpresas no primeiro balanço trimestral de 2027, quando já será tarde demais.

A frase que foi pronunciada

“O problema deixou de ser conjuntural e passou a ser estrutural. Não há qualquer sinal de melhora no curto prazo.”

FecomercioSP, em relatório sobre a inadimplência empresarial no Brasil.

História de Brasília

A Quadra 48 ainda é a grande sem sorte da W-3. Começaram o serviço de urbanização. Deixaram pelo meio, com esgotos e telefones cortados. Consertaram, e deixaram a poeira. Agora, está sendo preferida pelos ladrões de automóveis. .( Publicada em 26.05.1962)

Crise no Supremo Tribunal Federal: O que nasceu torto não se endireita

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A crise no Supremo Tribunal Federal ganhou novos contornos após o pronunciamento da ministra Cármen Lúcia. Ao declarar consternação, admitir o mal-estar cívico e pedir desculpas ao povo brasileiro, a decana fez um diagnóstico devastador do próprio Poder Judiciário. Afinal, a declaração partiu de quem integrou a construção dessa estrutura ao longo de duas décadas.

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Debate eleitoral é uma obrigação moral e ética

Vergonha

Com uma frase mais grave a ministra não abordou apenas a vergonha individual. Além disso, ela lembrou que o Judiciário existe para tranquilizar a sociedade, mas gerou intranquilidade. Quando a corte responsável por pacificar a República se torna a principal fonte de sobressalto, a crise no Supremo Tribunal Federal deixa de ser conjuntural e revela uma falência institucional.

Perda da previsibilidade

O país precisa perguntar onde esse processo começou. O desgaste não surgiu espontaneamente em setembro de 2026. Ele nasceu quando o tribunal decidiu fazer política por meio da forma processual. Ao anular condenações sem analisar o mérito, utilizando argumentos de incompetência territorial, o tribunal dissolveu processos em tecnicalidades e reinseriu atores políticos na disputa eleitoral.

Desconfiança geral

Argumentou-se, na época, que a decisão refletia zelo garantista. Contudo, o resultado prático foi a restauração de velhos métodos e arranjos de bastidor. Com isso, a própria Corte que se apresentava como fiadora da democracia passou a enfrentar o desgaste de não conseguir investigar a si mesma.

Instituições se esvaindo: A ONU de guardiã da paz a palanque ideológico

Omissão institucional

Ao pedir desculpas por não ter promovido o rigor necessário, a ministra reconheceu uma omissão coletiva e continuada. Consequentemente, um tribunal que precisa se desculpar publicamente pelos próprios atos já proferiu uma sentença contra a sua própria atuação.

O depois

Além disso, a Constituição de 1988 confiou ao Supremo a guarda da Carta, mas não a curadoria do debate público. A ampliação de atribuições ao longo dos anos transformou a excepcionalidade em regra. Regimes de exceção, mesmo motivados por boas intenções declaradas, terminam devorando as instituições que os criaram.

Impactos políticos e econômicos

Impactos Políticos e Econômicos no País

As discussões internas no plenário paralisam o julgamento de pautas essenciais. O uso recorrente de pedidos de vista e disputas regimentais demonstra que o adiar virou método. Por conseguinte, esse cenário afeta diretamente a economia e a estabilidade das instituições.

  • Insegurança Jurídica: Pesa sobre contratos de longo prazo e afasta investimentos.
  • Apatia Legislativa: O Congresso reage à invasão de competências com soluções inadequadas.
  • Desgastes Eleitorais: O debate público acaba sequestrado por disputas de gabinetes.

Reformas estruturais

Esta crise no Supremo Tribunal Federal demonstra que não haverá conserto por meio de simples autocrítica. O tempo apenas acentua as inclinações de um modelo que perdeu a confiança da sociedade. Por conseguinte, para recuperar a legitimidade, o país precisa discutir reformas profundas. Medidas como mandatos com prazo certo, limitação de decisões monocráticas e critérios objetivos de indicação tornaram-se indispensáveis. O povo brasileiro não busca apenas desculpas formais, mas exige prestação de contas e responsabilidade institucional.

A frase que foi pronunciada:

“A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica.”

Blaise Pascal

História de Brasília

De tôdas as árvores plantadas na W-3, as mais bonitas são as magnólias, em frente às casas da ECPL, que começarão a florir dentro em pouco. ( Publicada em 26.05.1962)

O QUE NASCEU TORTO NÃO SE ENDIREITOU

Há discursos que valem menos pelo que dizem e mais pelo que denunciam sem querer. Foi o caso da manifestação da ministra Cármen Lúcia na sessão do dia 15 deste mês. Ao declarar-se em estado de consternação e tristeza, ao dizer-se envergonhada de estar ali, ao admitir que o Supremo Tribunal Federal provocou um mal-estar cívico no país e ao pedir desculpas ao povo brasileiro, a decana dos votos moderados fez muito mais do que um desabafo de ocasião. Fez um diagnóstico. E o diagnóstico é devastador precisamente porque veio de dentro, da boca de quem participou, ao longo de vinte anos, da construção do edifício que agora parece ruir.

A frase mais grave da ministra não foi a da vergonha. Foi outra: o Poder Judiciário existe para tranquilizar o povo, e nós geramos intranquilidade. Está aí, em uma linha, a medida exata do fracasso. Uma corte constitucional não é avaliada pela simpatia que desperta nem pela popularidade de seus ocupantes, mas por uma função única e insubstituível de ser o lugar da previsibilidade, o ponto fixo a que o cidadão recorre quando tudo o mais oscila e fica sem chão. Quando o tribunal encarregado de serenar a República se converte na principal fonte de sobressalto nacional, a menos de vinte dias de uma eleição presidencial, não há crise conjuntural. O que há é a  falência de função e tudo o mais que dela poder decorrer.

O país precisa ir além da comoção do momento e perguntar onde toda essa história começou. Esse é um exercício antigo que recomenda voltar atrás para retomar o caminho certo. Ela não começou em setembro de 2026, com relatórios da Polícia Federal circulando pelo plenário, com ministros acusando ministros de seletividade na divulgação de documentos, com mensagens trocadas entre um integrante da Corte e um banqueiro preso, com contratos milionários e pedidos de vista que empurram para o limbo aquilo que o país quer ver urgentemente julgado e finalizado. Tudo isso é apenas sintoma de uma doença que começou lá atrás.

A doença nasceu quando o Supremo decidiu que podia fazer política com a forma. Ao anular condenações inteiras sem enfrentar o mérito de uma única acusação,  valendo-se de filigranas como o caso da incompetência territorial ou de CEP, além da suspeição do julgador,  o tribunal não absolveu ninguém: simplesmente dissolveu o processo no ácido da tecnicalidade e devolveu à disputa presidencial um ator político que a jurisdição ordinária havia, de forma cristalina, condenado em três instâncias. A distinção entre inocentar e desfazer é jurídica, sofisticada e verdadeira. É também irrelevante para o efeito prático que se produziu, e o Supremo sabia disso quando produziu e fabricou esse veneno deletério . Ressuscitou-se um cadáver político, recolocando o defunto diretamente  no Planalto, com a chancela do carimbo processual e ajuda na balança desonesta de uma justiça contaminada pelo o que de pior tem a política.

Quem argumentou, à época, que se tratava de zelo garantista sustentava que o resultado eleitoral posterior legitimaria a decisão. Não foi o que se viu. O que se viu foi a restauração de métodos condenáveis do passado. O país que fora obrigado a passar a borracha sobre os escândalos do petrolão não aprendeu nada de novo, a não ser repetir o modelo velho e execrável do passado. Com isso, inevitavelmente voltaram os arranjos, as intermediações, o balcão em que interesse privado e decisão pública se encontram em algum ponto discreto da agenda. E, desta vez, o enredo alcançou o próprio tribunal que se apresentara como fiador moral do que chamava defesa da democracia.  A Corte que havia se colocado acima da política agora não consegue sequer decidir se pode ou não investigar a si mesma, e transfere para uma sessão futura, ou para a prescrição do interesse público, aquilo que deveria ter resolvido em uma tarde.

É aqui que a ministra, mesmo sem querer, entrega a chave do problema. Ela pediu desculpas por não ter ajudado a promover o rigor e a serenidade que deveria. Ou seja: reconheceu que houve omissão, e omissão continuada, e omissão coletiva. Ora, um tribunal que precisa se desculpar publicamente pelos próprios atos já proferiu contra si a sentença que se recusa a proferir contra seus membros. Nenhuma instituição sobrevive à admissão de que perdeu a régua com que mede os outros.

A Constituição de 1988 confiou ao Supremo a guarda da Carta  não a tutela da democracia, não a curadoria do debate público, não a arbitragem do que o cidadão pode dizer, não o comando de inquéritos em que o mesmo ministro acumula as funções de vítima, investigador, acusador e juiz. Cada uma dessas atribuições foi sendo assumida por conta própria, ao longo de uma década, sob o argumento sempre disponível da excepcionalidade. A excepcionalidade virou regime. E regimes de exceção, mesmo quando montados com togas em pretensas boas intenções declaradas, terminam invariavelmente do mesmo modo, ou seja,  devorando quem os construiu. O espetáculo do dia 15, com ministros expondo uns aos outros diante das câmeras, é a conta atrasada chegando.

Repare-se, ainda, no detalhe que resume o conjunto: a discussão que paralisou o plenário não foi sobre culpa ou inocência de quem quer que seja. Foi apenas sobre o rito  se os casos deveriam ser apreciados juntos ou separados, se cabia a um ministro levantar o sigilo de um procedimento que alcançava um colega, se a questão de ordem prosperava ou não. Terminou como tantas outras vezes, com um placar de quatro a três, pedido de vista, prazo que pode se arrastar por noventa dias e uma sessão futura marcada para depois de algum dia. O país acompanhou horas de embate público para sair sem resposta alguma. Não é lentidão,  é método. Adiar, no Supremo, deixou de ser um acidente do calendário e virou uma forma ou modelo sofisticado de decidir sem assinar embaixo, ou simplesmente sem decidir coisa alguma.

O preço disso não é abstrato. Pesa sobre a economia, que precifica insegurança jurídica em cada contrato de longo prazo. Pesa sobre um Congresso tomado pela apatia e  que reage à invasão de competências com propostas que vão na contramão do que espera o cidadão. A República do rabo preso dita o andamento de regras e tudo, credite ou não, pesa sobre a eleição em curso e sobre o futuro. Dessa forma é preciso deixar claro que  o  debate público foi sequestrado por uma disputa interna de gabinetes, com todo e qualquer  candidato  obrigado a se posicionar sobre o tribunal em vez dos reais problemas do país.  Qualquer que seja o vencedor, ele herdará uma crise que não criou e uma Corte que não confia em si mesma e toda uma herança deixada por um governo que voltou a vida por ação direta do Supremo. Isso não é normalidade republicana ,  é a antessala de um confronto entre Poderes cuja fatura ninguém sabe estimar, nem as eleições.

Não há conserto por dentro. Essa é a conclusão incômoda que a ministra chegou perto de formular e não formulou. Um tribunal cuja crise atual decorre não de  isolados, mas do acúmulo de decisões que subordinaram a norma à conveniência, não se corrige com autocrítica em plenário nem com notas de repúdio à imprensa. O que nasceu torto não se endireita com o tempo. O tempo apenas acentua a inclinação até a queda derradeira. Esse destino triste e incerto está à vista de todos, na jurisprudência que muda conforme o réu, no garantismo que floresce quando o acusado é conveniente e evapora quando não é, na suspeição que se enxerga com nitidez no juiz de Curitiba e que se torna invisível quando o espelho é o próprio plenário.

Dizer que o Supremo perdeu o direito de existir tal como muitos hoje reconhecem e dizem  não é ameaça nem arroubo retórico: é a constatação de que a legitimidade da corte não vem propriamente da Constituição escrita, e sim da confiança que ela difunde diariamente. Essa confiança acabou. O que resta é discutir ou talvez a  refundação com novos modelos e  mandatos com prazo certo, critérios objetivos e sabatina real para a indicação, fim das decisões monocráticas com efeito nacional, vedação absoluta de que o tribunal investigue causas em que seus integrantes sejam parte, prestação de contas de foro e de agenda. Qualquer coisa aquém disso será maquiagem em um edifício que já apresenta rachaduras na fundação.

A ministra pediu desculpas ao povo brasileiro. Não basta. O povo brasileiro, por sua vez, não pede desculpas: pede contas. E há de cobrá-las, nas urnas e fora delas, com a serenidade que a Corte não soube lhe oferecer. Porque o país poderia conviver com juízes que erram quando decidem na forma da lei. O que nenhuma República suporta por muito tempo é um tribunal que erra sempre na direção errada e patentemente contra os interesses da Nação.

Banco Master e STF: O Templo Profanado pela Crise Institucional

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O enredo envolvendo o Banco Master e STF promete virar ficção de grande bilheteria em breve. O roteiro já está pronto e reúne todos os ingredientes de um suspense de grande impacto. A história acompanha um banqueiro de quarenta anos que inflou um banco pequeno até transformá-lo em um fenômeno de captação. No entanto, a trama envolve títulos de crédito inexistentes e uma venda ao banco público do Distrito Federal barrada na última hora. O caso revelou um fluxo atípico de bilhões entre as duas instituições. O ápice ocorreu com ministros do Supremo Tribunal Federal trocando acusações em sessão pública transmitida ao vivo. Enquanto isso, as eleições se aproximam e deixam milhões de eleitores apreensivos.

Dinheiro do trabalhador

Os números conhecidos até o momento são superlativos. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master em novembro de 2025, gerando prejuízos bilionários. Como consequência, fundos de pensão de trabalhadores em todo o país viram seus recursos evaporar. Além disso, investigadores apontam movimentações atípicas de R$ 12,2 bilhões entre o BRB e o Master no início de 2025. Uma gestora ligada ao grupo sofreu liquidação em janeiro deste ano. O controlador Daniel Vorcaro enfrentou prisões sucessivas, embora sua defesa alegue fatos inexistentes. De fato, o escândalo do Banco Master e STF deixou de ser financeiro e virou uma crise de Estado

Já publicamos: Aos brasileiros, as batatas

Resumo dos impactos da crise de Estado

Fundos de pensão de trabalhadores lesados em todo o país
Envolvimento de políticos, reguladores e ministros da Suprema Corte
R$ 12,2 bilhões em movimentações atípicas investigadas pela PF
Tensão institucional elevada às vésperas da eleição presidencial

Os Tentáculos do Caso Banco Master e STF no Poder

A situação tornou-se uma crise de Estado porque os tentáculos apareceram onde não deveria haver sombra. Consequentemente, a apuração revelou contratos de honorários milionários com escritórios próximos do poder. Servidores do Banco Central passaram a sofrer suspeitas de vazar informações privilegiadas. Além disso, relatórios policiais descrevem mensagens do banqueiro para telefones atribuídos a ministros da Corte. O processo trouxe à tona pedidos para sensibilizar autoridades, adiar decisões e atravessar filas de julgamento.

Sem credibilidade

Revelou-se também um encontro entre um ministro e o investigado meses antes da relatoria do caso. Da mesma forma, apareceram remessas ao exterior para bancar a cinebiografia de um ex-presidente com recursos públicos. Embora cada personagem negue as acusações dentro do devido processo legal, a credibilidade das instituições sofreu um duro golpe. Em política institucional, afinal, a plausibilidade representa metade do patrimônio público.

Tudo dominado

A sessão do plenário teve um tom litúrgico às avessas. Os ministros se reuniram para decidir se investigavam um integrante do próprio tribunal e terminaram em acusações recíprocas. O julgamento consumiu cinco horas de apartes irritados e divergências abertas. Uma questão de ordem acabou resolvida de forma provisória por 4 a 3 após um pedido de vista. Uma ministra declarou em voz alta estar envergonhada com a situação. Em termos simbólicos, presenciamos a profanação do templo e sua exposição aos olhos da nação.

Até quando Catilina? O duplo padrão que corrói a confiança na Justiça

A Engenharia das Chicanas na Crise do Banco Master e STF

A partir desse ponto, a velha caixa de ferramentas nacional entrou em ação. O juridiquês das manobras espertas transforma pedidos de investigação em um labirinto de preliminares. Nulidades são arguidas antes do mérito e competências são discutidas antes dos fatos. Além disso, a erudição serve apenas como escudo retórico. A ética camaleônica muda de cor conforme o investigado seja aliado ou adversário político, produzindo decisões indefensáveis.

Protex

Há um ponto em que o rigor formal deixa de proteger o processo e passa a proteger as pessoas. O problema central não reside na sorte pessoal de um banqueiro preso. Pelo contrário, o risco real é a normalização de uma zona cinzenta entre reguladores, magistrados e parlamentares. Onde cabe um jantar, cabe um pedido e uma dívida futura. A crise do Banco Master e STF apenas filmou essa engrenagem em alta definição.

O Papel do Jornalismo e do Banco Central

As vítimas raramente aparecem no cartaz principal dessa história. Aposentados e pensionistas sofrem com descontos indevidos em seus benefícios por causa de esquemas paralelos. Além disso, correntistas e investidores de varejo compraram CDBs confiando no Fundo Garantidor de Créditos. No fim, a conta acaba rateada por todo o sistema bancário e pelo cliente comum. Servidores honestos também passam anos sob suspeita por causa de condutas alheias.

Resistência

Por outro lado, vale registrar o que funcionou no país. O jornalismo profissional trouxe relatórios, encontros, remessas e mensagens à superfície com apuração rigorosa. Da mesma forma, a fiscalização técnica do Banco Central interrompeu operações que transfeririam riscos ao contribuinte. A investigação policial também resistiu a pressões descritas nos autos. Para acompanhar atualizações e regulamentações oficiais, consulte o Portal do Banco Central e as notas do Supremo Tribunal Federal.

O Apagão do Congresso e o Futuro das Instituições

Os maus presságios para o futuro estão visíveis no horizonte. O calendário empilha uma crise de credibilidade da alta corte sobre uma eleição presidencial polarizada. Um tribunal desmoralizado em ano eleitoral representa um convite aberto a aventureiros políticos. Além disso, o custo econômico da quebra bilionária testou a paciência do sistema financeiro. O país sofre com a fadiga de quem já viu esse enredo no Mensalão e na Lava Jato.

O Congresso Nacional produziu sobretudo barulho até aqui. Requerimentos de CPI e CPMI se acumulam sobre a mesa conforme a conveniência do calendário eleitoral. Investigar o esquema interessa a muitos parlamentares apenas enquanto o alvo for o adversário político. Essa aritmética partidária explica a razão de uma comissão mista ainda não ter saído do papel.

As soluções necessárias não exigem a refundação da República:

  • Exigência de regras claras e públicas sobre contatos entre autoridades e investigados.
  • Transparência obrigatória em contratos de honorários de escritórios ligados a agentes públicos.
  • Sorteio auditável de relatorias com impedimento automático diante de encontros prévios.
  • Quarentena real entre a alta cúpula regulatória e o mercado financeiro regulado.

A transparência recente foi humilhante, mas extremamente útil para a sociedade. É possível seguir o caminho difícil de investigar a todos sem corporativismo ou seletividade. O Brasil está na beira do precipício e precisa decidir se dá um passo atrás ou se continua avançando rumo ao abismo.

A frase que foi pronunciada:

“A reputação de mil anos pode ser determinada pela conduta de uma hora.”

Provérbio Japonês

História de Brasília

Um senhor chegou ao Banco do Brasil em Brasília, e quase não conseguiu o que queria, porque seu nome não era outro senão José Cadê Negócio. ( Publicada em 26.05.1962)

Crise do Banco Master e STF na Imprensa Internacional

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O mundo acompanha
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Há um ponto em que a imprensa internacional que acompanha o Brasil parece unânime: o que começou, em novembro de 2025, como a liquidação de um banco médio de varejo de crédito consignado e CDBs com juros acima do mercado deixou de ser, há meses, uma história sobre finanças. Tornou-se, nas palavras recorrentes de correspondentes e editorialistas estrangeiros, um teste de estresse sobre as instituições que sustentaram a democracia brasileira desde a tentativa de golpe de 2022 ,a começar pelo próprio Supremo Tribunal Federal. A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal no mesmo dia em que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, é tratada por agências e jornais como Reuters, Bloomberg e Financial Times como o ponto de partida daquilo que boa parte da cobertura já descreve como o maior escândalo de fraude bancária da história do país, e o mais significativo escândalo de corrupção desde a Operação Lava Jato.

Publicado pela coluna em 2017: Proposta pede concurso público para ministros do STF e TCU

Às vésperas das eleições

A Bloomberg, em reportagem assinada por Rachel Gamarski, Matheus Piovesana, Martha Beck e Andrew Rosati, reconstitui a trajetória do banqueiro Daniel Vorcaro e descreve como o chamado “caso Master” devolveu a corrupção ao topo das preocupações do eleitorado brasileiro às vésperas da eleição presidencial de outubro de 2026. A agência nota que o desfecho do escândalo, hoje estimado por analistas em cerca de US$ 10 bilhões em rombo e ressarcimentos, deverá pesar diretamente sobre quem vier a governar a maior economia da América Latina. Escritórios internacionais de advocacia que assessoram investidores, como Covington & Burling e Steptoe, chegaram a conclusões semelhantes em notas técnicas voltadas a clientes estrangeiros: ambas tratam o caso como um evento de risco institucional que já alterou o desenho da corrida eleitoral, ao mesmo tempo em que fragiliza a reputação regulatória do Banco Central e cria, segundo a Steptoe, “um novo patamar de risco institucional” para quem investe no país

Em 2019 era assim: O STF e a opinião pública interna e externa

Redes de relações

O fio que essas análises seguem é o mesmo: a fraude bancária, sustentada por títulos com prêmios muito acima da média de mercado e por uma expansão agressiva via fundos de pensão estaduais e municipais, não ficou circunscrita ao sistema financeiro. Investigações da Polícia Federal, a partir de dados extraídos dos celulares de Vorcaro, passaram a expor uma rede de relações entre o banqueiro e autoridades públicas — parlamentares, ex-presidentes, reguladores e, no centro da crise mais recente, ministros do próprio Supremo Tribunal Federal. A revista britânica The Economist resumiu o cerne do problema em um editorial, cuja manchete :“Quando os defensores da democracia viram as costas para ela”, foi amplamente replicada pela imprensa brasileira: os mesmos juízes que, segundo a publicação, protegeram o Brasil do golpismo em 2022 e 2023 aparecem agora sob suspeita de terem se beneficiado, por vias indiretas, do dinheiro do banco que colapsou.

Manobras vernaculares e o desrespeito ao cidadão brasileiro. Um julgamento que não aconteceu.

Envolvimento de autoridades no caso Banco Master

O episódio mais citado pela imprensa estrangeira é o confronto aberto entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. O Financial Times descreve como o levantamento do sigilo do relatório da Polícia Federal, determinado por Mendonça, relator do caso no Supremo, trouxe à tona registros de ao menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro entre 2024 e 2025, além de um contrato de R$ 129 milhões entre o Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. Segundo o jornal britânico, Moraes reagiu acusando Mendonça de abuso de poder e de tomar decisões motivadas por cálculo político; a publicação nota que Mendonça foi indicado à Corte por Bolsonaro, o que adiciona uma camada partidária à disputa entre os dois magistrados. Para o cientista político Leandro Consentino, ouvido pelo FT, trata-se de “uma crise institucional com potencial para pesar na decisão do eleitor” — avaliação que resume o tom com que a imprensa internacional passou a tratar o STF: não mais como árbitro acima da disputa, mas como parte interessada nela.

Em 2020 dissemos: Reformar o STF é evitar crises futuras

O impacto da crise do Banco Master no futuro do STF

Essa mudança de enquadramento é o que mais chama atenção em quem lê a cobertura estrangeira de fora para dentro. Até o início de 2026, artigos em veículos como o próprio Financial Times e a Bloomberg tratavam o Supremo como o contrapeso que resistiu às tentativas de ruptura institucional. A partir de março quand,o o presidente da Corte, Edson Fachin, declarou publicamente que as apurações sobre o Master iriam “até o fim, doa a quem doer”, numa referência direta a colegas de toga , essa narrativa começou a se inverter. Boletins voltados a investidores, como o da Rio Times, descreveram as sessões deliberativas do STF como “o primeiro teste totalmente público da coesão da Corte” desde que o sigilo do processo principal foi levantado. A publicação resume o ponto central para o leitor estrangeiro: não se trata mais de um escândalo bancário, mas de um teste de resistência da instituição que ancorou a democracia brasileira ,agora acusada da mesma opacidade que deveria fiscalizar, a semanas de uma eleição presidencial.

FGC e o Sistema bancário

Outro eixo recorrente na cobertura estrangeira é o regulatório. Análises voltadas a investidores insistem que o caso Master expôs uma falha sistêmica de supervisão bancária: o próprio Vorcaro, em depoimento à Justiça noticiado pelo Valor Econômico e replicado por veículos internacionais, afirmou que técnicos do Banco Central revisavam informalmente documentos do banco antes de sua submissão oficial ao regulador, alegação que, se confirmada, sugeriria uma captura regulatória mais profunda do que se supunha. Publicações como a Rio Times observam que reguladores de toda a América Latina acompanham o caso de perto, na medida em que ele demonstra como uma licença bancária somada a um canal de distribuição digital agressivo pode escalar uma estrutura fraudulenta a proporções nacionais mais rápido do que os ciclos de supervisão conseguem reagir. O Fundo Garantidor de Créditos já desembolsou mais de R$ 37 bilhões a cerca de 1,6 milhão de credores, o maior pagamento da história do fundo , e o banco público BRB, que tentara adquirir o Master antes da liquidação, precisou provisionar quase R$ 9 bilhões em perdas.

Eleger isso?

A dimensão eleitoral é tratada pela imprensa internacional como inseparável da crise institucional. Reportagens da Steptoe e da Bloomberg apontam que o escândalo atingiu, em graus distintos, praticamente todo o espectro político recente do país: documentou-se um fluxo de cerca de R$ 65 milhões em contratos e repasses do banco para nomes ligados aos governos Lula, Temer e Bolsonaro. Ainda assim, o efeito eleitoral não tem sido simétrico. Sondagens citadas por analistas estrangeiros mostram candidaturas de oposição e da base governista sentindo o desgaste da associação entre aliados e o esquema do Master. Ao mesmo tempo, analistas alertam que o desgaste institucional do STF, a corte que também julgará eventuais contestações ao resultado das urnas em outubro, pode se voltar contra o establishment político como um todo, independentemente de quem vença a disputa pelo Palácio do Planalto.

Sugestão de leitura: O Deserto da República

Futuro das instituições

O retrato que emerge dessa cobertura, lida em conjunto, não é o de um golpe de Estado em curso, tampouco o de uma crise passageira de índole puramente financeira. É antes o de uma erosão de confiança que atinge simultaneamente três pilares, o sistema bancário, o Congresso e o Judiciário ,no momento mais sensível do calendário político brasileiro. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pediu “verdade sem manipulação” e “justice sem privilégios”; ex-ministros aposentados do próprio Supremo teriam pedido a Fachin que convocasse o plenário para deliberar publicamente sobre o caso. Para a imprensa internacional, esse é talvez o dado mais preocupante: um tribunal que se acostumou, nos últimos anos, a atuar como guardião de última instância da estabilidade democrática brasileira agora precisa provar, sob os olhos do mundo, que consegue investigar a si mesmo sem se fragmentar , e sem que o processo seja lido, pelos eleitores, como mais uma etapa da disputa partidária.

Dimensão eleitoral

Se há um consenso possível entre analistas tão distintos quanto os colunistas do Financial Times, os editorialistas da The Economist e os advogados de bancas internacionais que assessoram fundos estrangeiros, é o de que o caso Banco Master deixou de ser um problema exclusivamente brasileiro para se tornar um estudo de caso sobre os limites da autorregulação institucional em democracias sob pressão. O desfecho dos inquéritos abertos pela Polícia Federal e o resultado da eleição de outubro dirão se as instituições brasileiras, Banco Central, Congresso, Judiciário, conseguirão, enfim, aplicar a si mesmas o mesmo padrão de escrutínio que a imprensa internacional já lhes aplica há meses.

A frase que foi pronunciada

 “Até a máfia tem ética; é preciso ter decência”

Ministro Gilmar Mendes

História de Brasília

O sr. Sebastião de Almeida Prado Sampaio, presidente da Associação Médica Brasileira escreveu ao dr. Fábio Rabelo, e, sobre o Plano Hospitalar, disse isto: “Esse Plano representa a solução para o problema médico em nosso meio, realizando a comunidade de serviços, baseado no município”. ( Publicada em 26.05.1962)

O Brasil regula o discurso, mas abandona o consumidor

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A cada hora que passa, quase oito mil brasileiros sofrem tentativas de fraude digital. Em doze meses, o país registrou 34,5 bilhões de investidas golpistas. Cerca de 16,5 milhões de pessoas perderam dinheiro no período. O prejuízo acumulado atingiu R$ 21,2 bilhões no mercado nacional. Quatro em cada dez vítimas só descobrem o golpe após alertas externos. Esses números evidenciam a urgente relação entre fraudes digitais e regulação de redes sociais.

GSS

O cenário mundial reflete essa mesma gravidade. O relatório Global State of Scams revela que 57% dos adultos do planeta foram alvos de golpistas em um único ano. Além disso, 23% das pessoas consultadas chegaram a perder recursos financeiros. O prejuízo global alcança US$ 442 bilhões por ano. O golpe da compra on-line figura como a modalidade mais comum. O consumidor paga pelo produto, mas recebe um item falso ou simplesmente não recebe a encomenda

Vácuo legislativo

Diante de dados alarmantes, a coibição da publicidade enganosa deveria ser prioridade no Congresso. No entanto, o país não possui legislação específica para responsabilizar as redes pelos anúncios falsos. As plataformas vendem, posicionam e lucram com as campanhas patrocinadas. Contudo, a regra geral segue os parâmetros do Marco Civil da Internet de 2014. As empresas só removem o conteúdo fraudulento após ordens judiciais específicas.

Sugestão de leitura – Regular o que é de direito

Proteção às plataformas

As empresas só removem o conteúdo fraudulento após ordens judiciais específicas. Essa arquitetura jurídica transfere a responsabilidade para o cidadão lesado. O consumidor precisa reunir provas e acionar a Justiça individualmente. Enquanto isso, a empresa recolhe o pagamento e distribui o golpe para milhões de usuários. O PL 2630/2020 previa a responsabilização civil por publicidade nociva monetizada. O Senado aprovou o texto em 2020, mas a Câmara paralisou a votação. A pressão de empresas de tecnologia travou o avanço da matéria. As discussões sobre golpes virtuais e responsabilidade das plataformas permanecem paralisadas.

STF

Paralelamente, o Supremo Tribunal Federal assumiu o protagonismo na moderação de conteúdo. O tribunal passou a atuar no combate à desinformação política e aos discursos de ódio. Contudo, essa atuação foca na perseguição e na prisão de dissidentes políticos. A liberdade de expressão sofreu graves restrições constitucionais. Em contrapartida, a proteção ao patrimônio do trabalhador continuou totalmente desamparada. A publicidade enganosa no marco civil da internet segue impune e sem checagem prévia.

Assimetria do debate

O debate público sobre regulação prioriza disputas ideológicas e políticas. Os episódios de 8 de janeiro de 2023 aceleraram projetos contra a desinformação. Em contraste, os golpes comerciais do dia a dia raramente motivam mudanças legislativas céleres. O Código de Defesa do Consumidor proíbe propaganda enganosa desde 1990. Porém, a lei foi desenhada para outdoors e anúncios de televisão, não para algoritmos voláteis.

Sugestão de leitura Leis em favor do povo só perecem

Captura regulatória

Agências reguladoras e órgãos estatais demonstram lentidão no combate às fraudes. Processos administrativos se arrastam por anos sem aplicar sanções efetivas. As multas irrisórias não desestimulam as gigantes da tecnologia. Entidades de defesa do consumidor apontam um cenário claro de captura regulatória. A régua da fiscalização atende aos interesses dos grandes anunciantes e das plataformas globais. O texto do PL 2630 e anúncios fraudulentos perdeu espaço para o controle ideológico.

Omissões

O setor bancário investe R$ 5 bilhões por ano em prevenção e conscientização contra golpes. Contudo, essa verba privada não substitui obrigações legais permanentes para as redes sociais. A energia política mobiliza ministros e audiências públicas apenas para discutir moderação discursiva. O cidadão comum paga pela omissão do Estado e pelo prejuízo com fraudes financeiras no Brasil.

Soluções possíveis

A estrutura pública de defesa do consumidor opera muito abaixo da demanda digital. Procons locais enfrentam falta de verbas e de pessoal. O Conar atua por adesão voluntária e não possui poder de multa. Além disso, o país não definiu se a Anatel ou outra agência fiscalizará os anúncios pagos. A indefinição institucional travou as discussões do Marco Civil e das redes digitais.

Desafios

Países com sistemas de pagamento instantâneo discutem a responsabilidade solidária entre bancos e plataformas. O Brasil lidera o uso do Pix no mundo, mas também concentra fraudes. O Relatório Scamscope projeta crescimento contínuo de golpes usando o meio de pagamento instantâneo. A falta de fiscalizacao em golpes no pix exige regras imediatas de coresponsabilidade financeira.

Simples assim

Exigir que a plataforma verifique o anunciante antes da venda de espaço é um passo básico. As redes devem suspender campanhas denunciadas em prazo curto e responder pelos lucros obtidos. Essa mudança não exige inovações tecnológicas, mas sim determinação política dos parlamentares.

Liderança

Regular as redes digitais não deve significar o arbitramento do debate político. A prioridade precisa focar na verificação mínima dos produtos e serviços anunciados. Enquanto o Estado priorizar o controle de opiniões e ignorar o roubo ao consumidor, o Brasil continuará liderando os índices mundiais de estelionato digital.

A frase que foi pronunciada

“Para cada login no inferno, existe um logout para a esperança”

Alberto Daniel Hill

História de Brasília

O Ministro Sampaio Costa entregou, ontem, a sala dos Advogados no Bloco 6 da Esplanada dos Ministérios. Foi homenagear os advogados e recebeu consagradora manifestação, transferindo-se a homenagem para a pessoa do presidente do Tribunal Federal de Recursos. ( Publicada em 26.05.1962)

A sabatina que não sabatina

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Publicado no jornal Correio Braziliense

Toda boa história, aceita como narração de fatos verdadeiros — com ou sem “H” maiúsculo —, precisa ter começo, meio e fim, e precisa se prender à realidade, mesmo quando essa realidade parece surreal e distante da razão. A crise que hoje testemunhamos na mais alta corte do país, capaz de abalar ainda mais uma democracia já combalida, não nasceu de um escândalo repentino. Ela tem começo, meio e, se nada mudar, um fim previsível. E esse começo está em um lugar aparentemente banal, tratado por décadas como rotina institucional sem maiores consequências: o modo como escolhemos e “sabatinamos” os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Premissas

A Constituição de 1988 é clara quanto aos requisitos. Os artigos 101 a 103 exigem dos candidatos ao STF “notório saber jurídico” e “reputação ilibada”, cidadania brasileira, idade entre 35 e 70 anos, e o crivo de duas instâncias: a indicação do Presidente da República e a aprovação, por maioria absoluta, do Senado Federal, após arguição pública em sabatina hoje realizada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). No papel, é um desenho de freios e contrapesos razoável. Na prática, tornou-se um ritual de chancela

Hermenêutica

A Constituição de 1988 é clara quanto aos requisitos. Os artigos 101 a 103 exigem dos candidatos ao STF “notório saber jurídico” e “reputação ilibada”, cidadania brasileira, idade entre 35 e 70 anos, e o crivo de duas instâncias: a indicação do Presidente da República e a aprovação, por maioria absoluta, do Senado Federal, após arguição pública em sabatina hoje realizada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). No papel, é um desenho de freios e contrapesos razoável. Na prática, tornou-se um ritual de chancela

Harpista

O problema não está no texto constitucional, mas no uso que dele se faz. “Notório saber jurídico” é expressão elástica o bastante para caber em qualquer currículo que um governo queira validar; “reputação ilibada” raramente é investigada com rigor, e quase nunca é motivo de reprovação. O resultado é que o escrutínio público, que deveria mirar a competência técnica e a trajetória na magistratura, desliza para outro alvo: o alinhamento ideológico e político do indicado com a agenda de quem o indicou.

Retrovisor, espelho meu

O perfil dos indicados e a independência da Corte

Não é surpresa, portanto, que a maioria dos atuais integrantes do STF nunca tenha exercido a carreira de juiz de carreira. Alguns chegaram a prestar concurso e não foram aprovados. Advogados de partido, ex-ministros de Estado, ex-parlamentares e, mais recentemente, advogados particulares do próprio presidente da República ocupam cadeiras que, em tese, deveriam representar o topo técnico da magistratura nacional.

Camaradas

Em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou Cristiano Zanin , seu advogado pessoal durante os processos da Operação Lava Jato,  para a vaga aberta por Ricardo Lewandowski. Zanin foi aprovado na CCJ por 21 votos a 5 e, no plenário, por 58 a 18, apenas vinte dias após a indicação formal. Meses depois, o mesmo presidente indicou Flávio Dino, então ministro da Justiça de seu próprio governo, aprovado por 47 votos a 31. São nomeações que talvez tenham mérito técnico individual , isso cada um julgará , mas que expõem sem disfarces o vínculo direto entre indicado e indicador, o oposto do desenho de imparcialidade judicial que a Constituição pretendia proteger.

Matriz

Essa não é uma exclusividade de um governo ou de um espectro político: é um padrão que atravessa décadas e legendas. O que chama atenção é a naturalidade com que essa lógica foi normalizada, a ponto de a opinião pública já discutir as indicações ao STF nos mesmos termos em que discute a escalação de um ministério — por proximidade, lealdade e peso político — e não pela independência que a função supostamente exige.

Resultado antecipado

Na prática brasileira, a sabatina no Senado dura, em média, poucas horas, concentradas em uma única sessão da CCJ. O indicado responde a perguntas dos senadores, mas raramente é confrontado com decisões concretas que precisaria tomar, com casos hipotéticos de conflito de interesse, ou com um exame minucioso de seu patrimônio, suas teses jurídicas pregressas e sua rede de relações.

Mãos lavadas

Desde a redemocratização, a rejeição de um nome indicado ao STF é praticamente inexistente: a história registra apenas cinco recusas, todas em 1894, ainda no governo de Floriano Peixoto. Ou seja, há mais de um século o Senado brasileiro não nega uma única indicação presidencial para a Corte. Não porque todos os indicados tenham sido irrepreensíveis, mas porque o desenho institucional , presidencialismo de coalizão, composição partidária do Senado, barganhas de apoio político , torna a rejeição custosa demais para ser exercida.

A dinâmica das sessões na CCJ

A arguição pública, que deveria ser o momento de maior tensão democrática do processo, transforma-se em cerimônia:

  • Base aliada: Faz perguntas amistosas e protocolares.
  • Oposição: Faz discursos políticos mais do que questionamentos técnicos.
  • Indicado: Treinado por assessores de mídia, atravessa a sessão sem sobressaltos.

Não há, como regra, exame público e sistemático de sentenças anteriores (quando o indicado veio da magistratura), de pareceres jurídicos, de doações eleitorais recebidas como advogado, ou de potenciais impedimentos futuros, ainda que este último ponto tenha aparecido, de forma pontual, na sabatina de Flávio Dino, questionado sobre eventual impedimento em julgamentos envolvendo adversários políticos do governo que integrava.

O modelo norte-americano e o escrutínio do Senado

Nos Estados Unidos, o desenho constitucional é parecido no papel, o presidente indica (“nominate”) e o Senado aprova (“advice and consent”) , mas a prática é radicalmente diferente. Lá, a sabatina perante o Comitê Judiciário do Senado costuma se estender por vários dias, com múltiplas rodadas de perguntas por senador, exame público de decisões judiciais anteriores linha a linha, investigação de antecedentes conduzida pelo FBI, divulgação obrigatória e minuciosa de patrimônio, contratos, publicações acadêmicas e discursos proferidos ao longo de décadas. Organizações da sociedade civil, associações de advogados e a imprensa participam ativamente do escrutínio, produzindo dossiês que circulam meses antes da sabatina propriamente dita.

Rejeições históricas na Suprema Corte dos EUA

Mais importante: nos Estados Unidos a rejeição não é hipótese de manual — é fato histórico recorrente:

  1. Robert Bork (1987): Indicado por Ronald Reagan, foi rejeitado em plenário por 58 votos a 42 após uma sabatina hostil sobre sua filosofia jurídica.
  2. Harriet Miers (2005): Indicada por George W. Bush, retirou sua própria candidatura diante da resistência no Senado.
  3. Merrick Garland (2016): Indicado por Barack Obama, sequer teve sua sabatina marcada por recusa da maioria republicana no Senado.

Preço

Fossem esses casos exceção, poderiam ser creditados ao acaso; sendo recorrentes, revelam um sistema em que o Legislativo, de fato, disputa poder com o Executivo na composição da Corte,  inclusive quando isso significa paralisar o processo.

Essa disputa tem um preço: o processo americano é hoje marcado por hiperpolarização, espetáculo midiático e, algumas vezes, por linchamentos públicos de reputações, como no caso da sabatina de Brett Kavanaugh em 2018, marcada por acusações de conduta sexual inadequada investigadas ao vivo diante do Comitê Judiciário. Não é um modelo isento de patologias — apenas patologias diferentes das nossas. Enquanto no Brasil o risco é o excesso de deferência ao Executivo, nos Estados Unidos o risco é o excesso de instrumentalização partidária.

Há ainda uma diferença estrutural: desde 2017, mudanças no regimento do Senado americano (o chamado “nuclear option”) reduziram de 60 para 51 votos o quórum necessário para confirmar um indicado à Suprema Corte, tornando as maiorias parlamentares ainda mais decisivas  e, paradoxalmente, tornando as sabatinas mais espetaculosas.

O que está em jogo na reforma institucional

A diferença essencial, portanto, não está na letra das duas Constituições, ambas preveem indicação presidencial e aprovação legislativa mas no uso real desses dispositivos. No Brasil, a sabatina tornou-se um trâmite protocolar que raramente barra qualquer indicação, ainda que o indicado seja o próprio advogado de defesa do presidente que o indica. Nos Estados Unidos, a sabatina é um campo de batalha político real, onde reputações se constroem e desmoronam publicamente, e onde indicações efetivamente fracassam.

Contraponto

Há quem defenda que alguma proximidade entre Executivo e Judiciário é inerente a qualquer sistema presidencialista, e que magistratura de carreira não é garantia automática de melhor julgamento, muitos juristas de reputação sólida vieram da advocacia, do Ministério Público ou da vida acadêmica, sem que isso comprometesse sua atuação na Corte. Tampouco a ausência histórica de rejeições no Senado brasileiro prova, por si só, ausência de escrutínio; pode refletir também estabilidade institucional e um recorte mais criterioso feito ainda na fase de indicação, antes de chegar ao Senado. Os dois sistemas, de todo modo, carregam disfunções próprias, e nenhum dos dois deveria ser copiado sem adaptação.

Hiato

Ainda assim, fica difícil sustentar que o modelo brasileiro cumpre hoje a função para a qual foi desenhado. Enquanto o Senado brasileiro não recuperar a disposição de exercer, na prática, o poder de veto que a Constituição já lhe confere questionando com profundidade teses jurídicas, patrimônio, vínculos e potenciais impedimentos, e estando genuinamente disposto a rejeitar um nome quando necessário , a sabatina continuará sendo aquilo que hoje é: um espetáculo de poucas horas, previsível em seu resultado, que transforma em rito de passagem aquilo que deveria ser o principal freio institucional contra a captura política do STF. E é exatamente nessa lacuna, silenciosa e aceita como normal por tanto tempo, que a crise de hoje encontrou espaço para crescer.

A frase que foi pronunciada

“Sei de uma coisa sobre mim: não meço meu valor pelas expectativas dos outros nem deixo que eles o definam.” 

Sonia Sottomayor

História de Brasília

Já que o assunto é Ministério da Fazenda, há outro. A segunda Pagadoria do Tesouro Nacional paga, em média, 100 milhões por dia. Os processos são aprovados pelo Tribunal de Contas em Brasília e vão para o Rio, onde são pagos. Tudo porque o Ministério não quer vir para Brasília.

( Publicada em 26.05.1962)

O celeiro do mundo com a semente alheia

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CIArce

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Uma imagem síntese revela a fragilidade oculta da potência agrícola brasileira. O país se orgulha de ser o maior exportador global de grãos. No entanto, o agronegócio planta sementes cujas decisões ocorrem em reuniões internacionais. Essa dependência reflete a atuação de conglomerados corporativos e afeta diretamente a dependencia de sementes e insumos no brasil. A concentração de mercado preocupa órgãos reguladores em todo o mundo.

Números

Apenas quatro grupos globais controlam 56% do mercado mundial de sementes comerciais e 61% dos defensivos. A empresa Bayer detém isoladamente cerca de 23% do mercado de sementes no planeta. Economistas apontam que a participação superior a 40% exige vigilância antitruste severa. O setor de insumos agrícolas atua acima desse patamar crítico há anos.

Abrolhos

Essa concentração resultou de fusões estratégicas entre grandes corporações. A Dow uniu-se à DuPont para criar a Corteva. A estatal chinesa ChemChina adquiriu a Syngenta. Paralelamente, a Bayer pagou 63 bilhões de dólares pela Monsanto em 2018. Por sua vez, a BASF absorveu ativos negociados para aprovar o negócio. O movimento criou um oligopolio no mercado de sementes sem precedentes.

Monitoramento

Estudos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos indicam queda na inovação independente. Bayer e Corteva concentram a maioria das patentes de milho, soja e algodão. Essa realidade encarece os pacotes tecnológicos e limita as opções dos produtores rurais.

Conflitos Jurídicos e a Proteção do Agricultor

A legislação brasileira protege o agricultor através do privilégio de replantio. A Lei de Cultivares garante ao produtor o direito de guardar sementes para a próxima safra. A regra se aplica após o pagamento inicial dos direitos devidos.

Sindicatos atentos

Entretanto, conflitos entre a lei de cultivares e patentes abalam essa segurança. A disputa envolve a tecnologia da soja Intacta RR2 PRO. A empresa arrecada cerca de 2,6 bilhões de reais por ano em royalties. Sindicatos rurais questionam as cobranças sobre os grãos reservados para replantio.

Respaldo

Decisões do Superior Tribunal de Justiça priorizam a Lei de Propriedade Industrial sobre biotecnologia. Essa interpretação esvazia as garantias da Lei de Cultivares em sementes transgênicas. Com isso, a atuação de empresas como Bayer e Monsanto no agronegócio ganham respaldo judicial contínuo.

Campo livre

Além da pressão jurídica, a fiscalização federal enfrenta escassez de recursos. O Ministério da Agricultura conta com apenas cem fiscais para monitorar 61 milhões de hectares. No estado de Mato Grosso, existem pouco mais de dois fiscais para 15 milhões de hectares. Esse cenário amplia a vulnerabilidade do produtor rural.

Soberania alimentar e o papel do Estado

A dependência tecnológica atinge diretamente a biotecnologia e soberania alimentar da nação. Cada geração de sementes traz eventos patenteados empilhados. Essa complexidade dificulta o desenvolvimento de cultivares totalmente nacionais e independentes.

Sem apoio

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária atua com orçamento reduzido. A instituição estatal precisa licenciar tecnologias privadas para manter a produtividade. Com isso, o produtor nacional torna-se refém de pacotes tecnológicos fechados. A cobrança de royalties sobre sementes transgênicas encarece a produção a cada safra.

Encruzilhada

Especialistas afirmam que o desenvolvimento de um evento biotecnológico custa cerca de 300 milhões de dólares e exige proteção jurídica. Por outro lado, defensores da soberania alertam que a concentração sufoca o desenvolvimento local. O país precisa decidir se enfrentará o problema como política industrial e soberania nacional.

Solução

O fortalecimento da pesquisa pública e a revisão das fusões no Cade são medidas urgentes. O Brasil precisa garantir autonomia tecnológica para proteger seu agronegócio. O celeiro do mundo não pode depender de decisões tomadas fora de suas fronteiras.

A frase que foi pronunciada:

“Se ao menos o corpo humano pudesse lidar com traumas tão bem quanto as ações de empresas de biotecnologia” 

Alex Berenson

História de Brasília

As pessoas que procuram a Coletoria Federal de Brasília reclamam que há poucos funcionários para o trabalho. A averbação de contratos ou recibos é feita rapidamente, mas às vêzes, os funcionários ficam presos a leituras de longos contratos, em prejuízo do funcionamento mais rápido do serviço. Publicada em 26.05.1962

O Deserto da República

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Existe um som característico que precede o desmoronamento das repúblicas. É o mesmo estalo surdo que podemos ouvir quando se aproxima o colapso final de uma construção, momento em que a base e os pilares, por não suportarem mais a sobrecarga, desabam sobre si mesmos, soterrando primeiro os andares de baixo. Nos noticiários, multiplicam-se expressões como a liquefação da República. Falam também em anomia e rumo a uma desobediência civil, como se fossem categorias abstratas de um manual de ciência política. Na realidade, descrevem com precisão desconfortável o retrato em preto e branco de um Estado que se afastou das leis e da ética pública , como se isso fosse possível.

Costume de casa vai à praça

Nos últimos dias, o país assistiu a um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) determinar o afastamento preventivo da cúpula da Polícia Federal, sob a alegação de ter sido alvo de monitoramento sistemático pela própria inteligência policial. Esse monitoramento, segundo o relato do próprio ministro, teria sido encaminhado a um colega de Corte no âmbito de um inquérito em curso. Se verdadeira, a suspeita não é um detalhe: é o retrato acabado de um Estado cuja engrenagem de investigação deixou de mirar o crime para mirar o próprio poder que deveria fiscalizá-lo.

Muralha ideológica

Poucos dias antes, outra decisão monocrática alterava as regras para o julgamento de ministros da Corte, endurecendo quóruns e restringindo legitimados — movimento que setores da advocacia e da política leram como blindagem institucional. Em paralelo, cogitou-se a convocação de um conselho constitucional adormecido havia décadas, mecanismo que, em tese, poderia abrir caminho ao estado de sítio ou de defesa. Nenhum desses fatos, isoladamente, destrói uma república. Juntos, contudo, formam um sobrepeso insustentável.

A perda da lógica e a crise entre os Poderes

A lógica perdeu a própria lógica, e essa é talvez a característica mais desorientadora do momento atual. É certo que o Judiciário acumulou competências muito acima do que previa nossa Carta Magna de 1988. O Legislativo, entre a omissão e reações tardias, observa tudo sem a responsabilidade que lhe é exigida. Não há, na gerência do Estado, uma resposta institucional capaz de reequilibrar o sistema de freios e contrapesos. O que se observa é o “salve-se quem puder” diante de um prédio prestes a ruir. Para o Executivo, a saída mais rápida dessa crise tem sido via instrumentos de exceção, censura e diversionismo. Em uma realidade de normalidade, a reforma do Estado seria a primeira medida; na ausência dela, sobrevive quem acha que possui mais poder

Liberdade à prova

A liquefação da República é a perda progressiva da legitimidade institucional, transformada em areia líquida a escorrer entre os dedos. A descrença e o desgaste da confiança pública avançam, refletidos em pesquisas com recordes de desaprovação simultânea nos Três Poderes. Cria-se um deserto de incertezas alimentado por miragens enganosas e narrativas sobre golpes de todas as categorias, do clássico uso da força à erosão silenciosa das liberdades.

Anomia institucional e desobediência civil

A anomia de que tanto se fala não é a ausência de leis num país marcado pelo excesso regulatório, mas a não observância das normas por aqueles que ocupam o topo da pirâmide. Anomia é a ausência de um sentido comum sobre o que essas leis significam e a quem elas obrigam. É o momento em que as regras deixam de ser bússola e passam a ser arma usada seletivamente. Nesse ambiente, a desobediência civil deixa de ser o gesto extremo de quem esgotou os canais institucionais e passa a ser tentação cotidiana de cidadãos e autoridades que escolhem a leitura da lei que melhor lhes convém.

Excepcionalidades

A última década brasileira consolidou-se como uma sucessão de excepcionalidades: cada crise resolvida com a derrubada de garantias, cada incêndio apagado à custa da estrutura necessária no incêndio seguinte. A operação anticorrupção que se tornou hegemônica fragilizou a política em nome da moralidade; a permanência no poder a qualquer custo fragilizou as instituições em nome da governabilidade; e a resposta judicial a essa fragilização acumulou poderes em nome da defesa democrática. Tratar o excepcional como método impede o retorno ao espaço institucional original.

O mito do salvador e o papel da sociedade civil

Diante desse quadro, a tentação mais perigosa é esperar por um salvador. A história recente do país é a sucessão de apostas messiânicas: o juiz, o general, o presidente ou o ministro que resolveria o problema sozinho. Cada aposta produziu um alívio temporário e um novo desequilíbrio a corrigir. Uma república recompõe-se pela reconstrução paciente dos mecanismos de controle e pela transparência, trabalho que não rende manchetes imediatas, mas detém o avanço ao deserto.

Impróprio à paz

Não há absolvição para nenhum dos lados, pois a crise é estrutural. Instituições que se protegem mutuamente da fiscalização deixam de ser republicanas e passam a ser centros de poder administrando a própria impunidade. Essa erosão atravessa a economia na forma de prêmio de risco, atinge a vida cotidiana do cidadão e empobrece a linguagem pública com um vocabulário de guerra como “inimigo”, “traição”, “golpe”.

Nosso papel

Cabe destacar o papel da sociedade civil, da imprensa livre e de instituições como a OAB, universidades e ordens profissionais. Em democracias saudáveis, atuam como amortecedores entre o cidadão e o embate dos Poderes. Quando parte dessas entidades é capturada pela polarização e outra parte assiste paralisada, sobra a elas um papel de mediação emergencial enquanto as instâncias constituídas redefinem sua própria razão de existir.

A frase que foi pronunciada

“Votar em Lula não significa ser de esquerda, de direita, de baixo, de trás ou de cima. Significa uma tolerância moralmente insustentável com o crime e o criminoso.”

Ives Gandra Martins

História de Brasília

Foi aí que a reunião transformou-se numa solenidade usando da palavra o advogado da defesa Newton Antunes, e, a seguir, o promotor Sebastião Barbosa. Foi uma solenidade de grande civismo. Publicada em 26.05.1962