A diplomacia capturada

Publicado em Íntegra

VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960

hoje

Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

Poucas instituições do Estado brasileiro construíram, ao longo de sua história, um patrimônio de credibilidade comparável ao do Itamaraty. Durante mais de um século, a diplomacia nacional foi reconhecida por uma rara combinação de profissionalismo, continuidade e capacidade de dialogar com governos de todas as orientações ideológicas. Presidentes entravam e saíam do Palácio do Planalto, crises internacionais surgiam e desapareciam, mas permanecia a percepção de que a política externa brasileira obedecia, acima de tudo, aos interesses permanentes do Estado. Essa tradição, construída pacientemente por sucessivas gerações de diplomatas, parece hoje submetida a uma pressão crescente provocada pela politização ideológica extremada que atualmente domina o país. As recentes tensões entre Brasil e Estados Unidos ilustram de forma eloquente todo esse processo. Em poucas semanas assistiu-se a uma sucessão de declarações públicas incomuns entre dois países que mantêm relações diplomáticas há mais de duzentos anos. Houve críticas do secretário de Estado americano Marco Rubio, respostas do governo brasileiro, manifestações do ministro Mauro Vieira e um artigo assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na imprensa americana defendendo uma visão totalmente obtusa sobre o relacionamento bilateral.
A discussão, que tradicionalmente ocorreria nos canais reservados da diplomacia, passou a ocupar manchetes internacionais, transformando divergências políticas em espetáculo público Quem chamou atenção para esse fenômeno foi justamente alguém que conhece por dentro a máquina diplomática brasileira. Ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, Rubens Barbosa afirmou que a relação bilateral entrou numa escalada inédita de confrontação política e alertou para os riscos da excessiva politização das relações exteriores. Para Barbosa, quando a diplomacia deixa de atuar como política de Estado e passa a refletir disputas ideológicas domésticas, o país perde capacidade de negociação e reduz seu espaço de influência internacional. Não é a submissão que se deseja sobre qualquer potência estrangeira, tampouco de abdicar da soberania nacional. Países soberanos divergem entre si diariamente. A questão central reside na forma como essas divergências são administradas.
Os Estados Unidos continuam sendo uma das maiores economias do planeta, importante destino das exportações brasileiras, fonte de investimentos, tecnologia e cooperação científica. O Brasil, por sua vez, representa parceiro estratégico na América do Sul, potência agrícola, energética e mineral. Há interesses objetivos suficientes para recomendar prudência, equilíbrio e capacidade de diálogo.
Em meio a esse ambiente conturbado, ganhou repercussão internacional um artigo publicado por Mary Anastasia O’Grady, colunista do Wall Street Journal. Em sua análise, a jornalista apresentou uma interpretação profundamente crítica sobre a situação institucional brasileira, argumentando que decisões recentes representariam riscos ao Estado de Direito e às liberdades civis. É a opinião da autora, não de uma posição oficial do governo americano nem do próprio jornal, mas o fato de avaliações dessa natureza encontrarem espaço em um dos mais influentes veículos econômicos do mundo revela como a imagem internacional do Brasil tornou-se objeto de críticas intensas. Investidores internacionais acompanham atentamente a estabilidade institucional dos países onde aplicam seus recursos. Empresas avaliam previsibilidade jurídica antes de instalar fábricas ou ampliar operações. Agências de classificação de risco observam o ambiente político com a mesma atenção dedicada aos indicadores econômicos. Em economia internacional, percepção frequentemente produz efeitos concretos. A história demonstra que diplomacias excessivamente identificadas com governos específicos costumam perder eficiência quando esses governos deixam o poder. Foi exatamente para evitar esse problema que o Itamaraty construiu, ao longo de décadas, uma cultura institucional baseada na continuidade administrativa e na defesa permanente dos interesses nacionais. Essa tradição permitiu ao Brasil dialogar simultaneamente com democracias liberais, monarquias constitucionais, repúblicas presidencialistas e governos de diferentes orientações ideológicas sem comprometer sua credibilidade.
O risco agora é transformar divergências naturais entre governos em crises duradouras entre Estados. O comércio exterior oferece inúmeros exemplos do custo dessa estratégia. Barreiras tarifárias, dificuldades regulatórias, atrasos em acordos comerciais e redução de investimentos raramente atingem governos específicos. Seus efeitos recaem sobre empresas, trabalhadores e consumidores. Quando exportações diminuem, quem perde mercado é o produtor nacional. Quando investimentos são adiados, empregos deixam de ser criados. Quando aumenta a insegurança diplomática, cresce o custo de fazer negócios. E olha que não está sendo discutido aqui a questão das tarifas sobre os produtos brasileiros, que estão pagando o pato pela postura do atual governo. Ao longo de sua história, o Brasil conquistou respeito internacional justamente por evitar alinhamentos automáticos e confrontos desnecessários.
A frase que foi pronunciada
“A história será gentil comigo, pois pretendo escrevê-la.”
Winston S. Churchill
História de Brasília
Jogar futebol na Itália, na França, no Congo ou na China, não acarreta a perda da nacionalidade. Mas se um brasileiro, voluntariamente, sem nenhuma coação de país estrangeiro, pratica um ato, qualquer que seja, demonstrando a sua preferência por outra nacionalidade, está dando causa expressa para que seja declarada a perda da sua nacionalidade brasileira. A nossa Constituição (art. 130) estabelece que perde a nacionalidade brasileira o brasileiro (n. I) “que, por naturalização voluntária, adquirir outra nacionalidade”. (Publicada em 25.05.1962)

It's only fair to share...Share on Facebook
Facebook
Share on Google+
Google+
Tweet about this on Twitter
Twitter
Share on LinkedIn
Linkedin