A cruz esquecida e o que as lições da Europa

Publicado em Íntegra

VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960

hoje

Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade

Há países que se tornam laboratórios involuntários da história. A França de hoje, com suas escolas sem crucifixos, seus debates intermináveis sobre véu e burquíni, e bairros inteiros onde o francês do dia a dia convive com o árabe das mesquitas e o pregão dos muezins, é um desses laboratórios. Não porque tenha sido “invadida” por um exército, mas porque, ao longo de décadas, abriu mão de afirmar com clareza aquilo que a constituía como nação, ou seja, sua herança greco-romana, judaico-cristã e iluminista e isso obviamente deixou um vácuo que, como todo vácuo civilizacional, não permaneceu vazio, sendo imediatamente ocupado.
A laicidade francesa, nascida da separação entre Igreja e Estado em 1905, foi concebida como neutralidade: o Estado não professa nenhuma fé, mas também não combate nenhuma. Na prática recente, porém, essa neutralidade se transformou, em muitos espaços públicos, em apagamento ativo dos símbolos cristãos onde as cruzes foram retiradas de repartições, presépios contestados na Justiça, calendário escolar cada vez mais desvinculado de suas raízes cristãs. O paradoxo é cruel: o mesmo país que se orgulha de ter decapitado reis em nome da razão, hesita décadas depois, em nomear com igual firmeza os limites que pretende impor a costumes importados, incluindo interpretações da sharia que disputam, em bairros inteiros, a primazia sobre o direito civil francês. A cultura é como natureza : abomina o vácuo. Quando uma sociedade permite deixar de transmitir às novas gerações sua própria memória religiosa e cívica, ela não fica “neutra”: fica disponível. E o que ocupa o espaço disponível não é escolhido por decreto, mas pela vitalidade de quem ainda crê, ainda batiza os filhos, ainda organiza a vida cotidiana em torno de uma fé praticada.
A França tem hoje a maior comunidade muçulmana da Europa Ocidental em números absolutos cerca de 5,7 milhões de pessoas segundo o Pew Research Center, mais que a soma dos muçulmanos de países como Catar e Bahrein. É uma comunidade heterogênea, majoritariamente integrada e distante dos estereótipos que a imprensa sensacionalista explora; mas é também, em certos bairros de Paris, Marselha ou Roubaix, uma presença numericamente dominante, com suas próprias regras informais de convivência, enquanto os templos cristãos ao redor esvaziam e, não raro, são vendidos e convertidos a outros usos. Quem caminha por certas ruas de Saint-Denis ou do 18º arrendores de Paris relata a sensação de estar em outro país não por preconceito, mas porque a paisagem humana, comercial e religiosa de fato mudou. Isso não é, como às vezes se afirma com exagero retórico, uma “tomada de território” orquestrada; é o resultado, mais prosaico e mais preocupante, de décadas de imigração pouco planejada somadas ao recuo silencioso da prática cristã entre os próprios franceses.
Esse deslocamento demográfico caminha lado a lado com um deslocamento simbólico. Escolas que antes marcavam o calendário letivo pelo Natal e pela Páscoa hoje evitam até menções explícitas a essas datas em nome da neutralidade; hospitais e prefeituras retiram crucifixos que estavam pendurados havia gerações; e, na direção oposta, cresce a demanda por refeitórios com opções halal, por horários de oração respeitados em ambientes de trabalho e por interpretações informais de normas de conduta baseadas na sharia em bairros onde o Estado francês, na prática, mal se faz presente.
Afinal de contas, a quem interessa essa discussão? Por que nós, brasileiros precisamos ficar atentos? Porque os mesmos mecanismos , secularização acelerada, esvaziamento das igrejas, relativismo cultural travestido de tolerância, associado a fluxos migratórios cada vez mais intensos e pouco regulados, não são exclusividade europeia. O Brasil, herdeiro da mesma matriz greco-romana e judaico-cristã, vive seu próprio processo de afastamento das tradições que historicamente deram coesão à nação: queda na frequência às igrejas entre os jovens, disputas judiciais sobre símbolos religiosos em espaços públicos, e um discurso público que, muitas vezes, trata a preservação de valores como sinônimo de atraso. Advogar por Sharia em solo brasileiro ainda soa distante, mas a lição francesa não é sobre Sharia especificamente, é sobre o que acontece quando uma civilização deixa de acreditar em si mesma. Defender a herança cultural do Ocidente não é, como pretendem seus críticos, uma forma de xenofobia. É reconhecer, com dados e sem eufemismos, que nenhuma sociedade sobrevive a longo prazo esvaziada de sentido próprio. Se a França de hoje serve de alerta, que sirva também de convite: cultivar as próprias raízes, a família, a cruz, mas também a ética cívica e o legado republicano que dela derivam antes que o vácuo, mais uma vez, seja preenchido por quem tem mais fé e vontade do que nós.

A frase que foi pronunciada:
“Aqueles que, diante do Islã, refletem sobre a própria fé, dificilmente alcançam uma compreensão abrangente da outra religião como um mundo independente. Trata-se meramente de uma contra-imagem. Modelos muito diferentes.”
Hans Zirker

História de Brasília
Pontes de Miranda, o acatado constitucionalista, comentando o art. 130 da Constituição, ensina que desde que “o brasileiro dê ensejo a que o Estado estrangeiro o considere seu nacional, “Há perda da nacionalidade brasileira.”.(Publicada em 25.05.1962)

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