O passado medieval volta a escola do futuro

Publicado em Íntegra
VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960
Hoje com Circe Cunha e Mamfil, Manoel de Andrade

 

Vivemos a década em que a inteligência artificial resolve equações impossíveis, e em que a computação quântica promete redesenhar a própria noção de cálculo. Seria de se esperar, portanto, que a escola mais bem-sucedida do nosso tempo fosse também a mais tecnológica: telas em toda carteira, algoritmos adaptativos, gamificação, realidade aumentada. A surpresa incômoda para boa parte dos educadores que apostaram todas as fichas na inovação digital é que algumas das experiências educacionais mais consistentes e mais celebradas da atualidade vêm de escolas que fizeram o caminho inverso. Em vez de acumular ferramentas novas, essas escolas desenterraram uma ferramenta muito antiga: o Trivium, estrutura de ensino da gramática, da lógica e da retórica que organizava as escolas monásticas e as primeiras universidades da Idade Média.
A pista para entender esse movimento está em um pequeno ensaio de 1947, “As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem”, da escritora e tradutora britânica Dorothy Sayers. Nele, Sayers argumenta: o modelo escolar herdado da Revolução Industrial com disciplinas fatiadas, conteúdos decorados, conclusões prontas entregues ao aluno para memorização produz jovens abarrotados de informação e, ao mesmo tempo, incapazes de articular um raciocínio próprio. O Trivium, ao contrário, não ensina “matérias”: ensina operações da mente. Na fase da gramática, a criança pequena absorve fatos, vocabulário e estruturas com a avidez natural de quem aprende com prazer. Na fase da lógica, o pré-adolescente aprende a organizar esses fatos, a identificar falácias, a argumentar com coerência e sentido. Na fase da retórica, o jovem aprende a comunicar suas próprias conclusões com clareza e beleza. O resultado pretendido não é o aluno que sabe a resposta certa, mas o aluno que sabe como chegar a qualquer resposta ou a definição mais precisa possível do que significa aprender a aprender.
Esse programa, que soa arcaico à primeira vista, é hoje o motor de um dos movimentos educacionais de crescimento mais rápido nos Estados Unidos. A chamada educação clássica, presente tanto em redes de escolas particulares quanto em um contingente expressivo de famílias que educam os filhos em casa, multiplicou o número de escolas cristãs clássicas de poucas dezenas para centenas nas últimas três décadas, um crescimento que os próprios pesquisadores do campo descrevem como o mais acelerado entre os modelos alternativos de ensino no país.
Levantamentos como o Cardus Education Survey, que acompanhou mais de mil egressos desse tipo de escola, mostram diferenças difíceis de ignorar: cerca de 81% desses alunos ingressam imediatamente no ensino superior, contra 59% dos egressos de escolas públicas e 64% dos egressos de escolas católicas tradicionais na mesma pesquisa; e cerca de 64% concluem a graduação, taxa superior à de pares oriundos de escolas evangélicas convencionais e de escolas públicas.
O Ideb, índice brasileiro que combina proficiência e fluxo escolar numa escala de 0 a 10, chega a 6,0 nos anos iniciais do ensino fundamental, mas cai para 5,0 nos anos finais e desaba para 4,3 no ensino médio sinal de que a escola brasileira perde o aluno exatamente na fase em que ele deveria estar desenvolvendo capacidade de argumentação e leitura crítica. Organizações da sociedade civil apontam o investimento público insuficiente, historicamente abaixo de 4% do PIB, como um dos fatores estruturais por trás desse quadro, ao lado de políticas como a progressão continuada sem mecanismos eficazes de reforço pedagógico, que reduziram a evasão escolar mas não resolveram o déficit de aprendizagem.
Há sinais, ainda tímidos, de que parte do Brasil já percebeu o problema. Nos últimos anos, multiplicaram-se pelo país pequenas escolas particulares e grupos de ensino domiciliar que se autodenominam “clássicos” e adaptam o Trivium à realidade brasileira, com aulas de latim, debate e leitura de textos originais em vez de resumos didáticos. São iniciativas ainda restritas a famílias de maior poder aquisitivo e a nichos urbanos, sem qualquer equivalente na rede pública, que concentra a esmagadora maioria dos alunos do país.
Um país que decora fórmulas sem compreender por que elas funcionam, que treina para o gabarito da prova em vez de para o argumento, continuará produzindo jovens tecnicamente equipados e intelectualmente desarmados diante da próxima onda de mudança, seja ela a inteligência artificial, a computação quântica, ou qualquer outra que ainda venha a ter um nome que ainda não conhecemos.

A frase que foi pronunciada:
“Temos uma população alfabetizada, no sentido de que todos são capazes de ler e escrever; porém, devido à ênfase dada à formação científica e técnica em detrimento das humanidades, muito poucos dos nossos cidadãos aprenderam a compreender e a usar a linguagem como instrumento de poder.”
Dorothy Sayers

Imundície
Constrangedora a situação dos banheiros do Aeroporto Internacional da capital do país. Na quarta feira pela manhã a situação estava alarmante.

História de Brasília
Pontes de Miranda esclarece mais, examinando justamente os casos dos possuidores de dupla nacionalidade (caso de Mazzola e Sormani): “O que lhe importa (ao Brasil) é saber que o seu nacional prefere outra nacionalidade. Portanto, a expressão “naturalização Voluntária” abrange, no inciso I, a ligação posterior, voluntária, qualquer que seja a outro estado”. (Publicada em 25.05.1962)

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