Zuca Sardan

Publicado em Crônicas

 

Severino Francisco

 

Durante muito tempo, o vate Zuca Sardan se tornou uma figura tão enigmática que os desavisados desconfiavam de que era um pseudônimo, quiça, um heterônomio do também poeta Francisco Alvim. Na verdade, o amigo Chico sempre teve a carteirinha número 1 do fã clube de Zuca, que, desde o início dos anos 1950, fazia livrinhos mimeografados, contendo fábulas hilariantes, irreverentes e anárquicas. “Tentemos de novo…/A Economia é o estudo dos homens/em suas atividades ordinárias/segundo se ganham e gastam/uns meios de vida:/uns pra melhor, uns pra pior. Ou seja/gentil Leitora, distinto Leitor:/bem sabeis, cada qual/se vira como pode.”

Chico repassou os pasquins poéticos de Zuca aos integrantes da chamada geração da Poesia Marginal, que, imediatamente, o identificaram e reconheceram na condição de precursor do movimento. Zuca nos deixou, na quinta-feira, aos 93 anos, em Hamburgo, na Alemanha, onde residia, depois de uma queda e de sofrer complicações de saúde.

Com o tempo e o reconhecimento, os poetas costumam assumir um tom mais grave. No entanto, isso não ocorreu com Zuca. Não importava a idade que tivesse, sempre foi um adolescente de 17 anos, animado pelo desejo de demolir as certezas com uma poesia temperada pelo humor, como se vê no poema Calote Metaphysico: “A vida é curta/e a salvação difícil…/Além de que a salvação pessoal/parece um negócio dos mais duvidosos…/conviria primeiro saber/se a salvação existe./E se não existe…/então aquela força/e os sacrifícios/só pra no fim levar/o calote metafísico!…”

O Conde Lotrak, o professor Fumegas, o Capitão Busto, o Anjo Turbolev, o Cardeal Sacamuelas, os cataplasmas scaravelhos e os morcegos esparadrapos. A poesia de Zuca se tornou palco de uma furiosa metamorfose de seres e palavras-seres. Ele me passava a impressão de ser, ao mesmo tempo, desenhista, trapezista, dramaturgo, maestro e diretor de circo por causa do teatro frenético que colocava em cena. Era preciso que a poesia de Zuca fosse encenada no teatro, pois é um permanente diálogo caótico.

É difícil imaginar que o autor de tantas diatribes e diabruras tenha sido o diplomata de carreira Carlos Felipe Saldanha. Ele é filho do arquiteto e pintor Firmino Saldanha, parceiro de Oscar Niemeyer e Lucio Costa nos primeiros esboços da arquitetura moderna no Brasil. Estudou arquitetura, ingressou na carreira diplomática no Itamaraty, começou com a pintura, mas, segundo suas palavras, depois de ver o filme Orfeu, de Jean Cocteau, decidiu ser “um famoso poeta surrealista desconhecido”.

Na poesia brasileira não lhe restou outro caminho senão o de ser original. Assimilou Oswald de Andrade, Lewis Carrol e Alfred Jarry para fazer uma poesia patafísica, surreal, dadaísta e delirante: “Por quê, ó Venerável, existe o mal”/ indaga o ressentido Bacamarte./”Eu é que sei?”, brada Malaquias/”Porque não é o mundo em forma de livro,/com ilustrações sem sépia,/ou hachurado grosso,/ou escrito em papel arroz?/Enfim, vamos parar/com perguntas tolas/e vá me buscar uma cerveja”.

O melhor de Zuca está nos livros Osso do coração, Às de colete (Ed. Unicamp) e Ximerix (Cosac e Naif). Zuca era um marginal à margem da margem. Quer dizer, não se encaixava sequer no movimento da poeisa da década de 1970. Por temperamento e vocação, ele trilhou um caminho singular à revelia de qualquer voga ou moda: “Se poesia fosse táxi/já arrancava/com o leitor pagando bandeira 2”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*