Sopro de alegria

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Credito: Diego Bresani/Divulgação. Espetáculo Saltimbancos de Hugo Rodas: atores que cantam, cantores que dançam.

Severino Francisco

Uma das coisas das quais mais senti falta no isolamento social imposto pela pandemia foi de ir até o Espaço Renato Russo da 508 Sul para de assistir peças de teatro. Certa noite, dirigi-me a bilheteria e pedi um ingresso. A funcionária perguntou: “Para qual peça? Tem quatro peças em cartaz.”

As artes presenciais foram as que mais sofreram com a pandemia. Elas são, simultaneamente, as mais intensas e as mais fugazes. Ficam na memória com a matéria tênue dos sonhos, que nos deixa na dúvida se vivemos ou não aquela experiência.

Umas das peças de teatro que mais me tocaram, nos últimos tempos, foi a remontagem de Os saltimbancos, dirigida por Hugo Rodas, com a Agrupação Amacaca, no Teatro Galpão. Levei os meus dois netos, Judá, de 3 anos, e Aurora, de 7, para assistir. É um privilégio nosso sermos contemporâneos de um artista que se tornou um dos maiores diretores de teatro do país ao fazer de Brasília o palco de suas experimentações.

Ele é nosso bruxo emérito do teatro. Utiliza Os saltimbancos para propor um ritual de comunhão para todas as idades. Na fábula, a trupe de bichos músicos se une para desbancar os barões donos da cidade, do país, das florestas e da liberdade. Hugo construiu um espetáculo para nos lembrar que somos animais alegres, animais imaginosos, animais brincantes. Não importa o que acontecer, todos juntos somos fortes.

Não bebo nada de álcool, mas, depois de assistir a Saltimbancos, confesso que saí do teatro meio alterado, com a sensação de ter bebido um bom vinho. É o sopro dionisíaco do nosso bruxo do teatro. Sempre monta espetáculos experimentais e essenciais para cada momento, que transmitem jatos de dramaticidade, de energia, de alegria e de humor.

Fiquei com saudades dos teatrinhos da 508 Sul e de Saltimbancos, mas, insolitamente, nos últimos dias, vi a peça se desdobrar e se estender para dentro do carro durante a pandemia. É que conseguimos um CD com as canções do espetáculo e, toda vez que saímos com Judá e Aurora, eles pedem para tocar. Então, o teatro e a festa se instalam no carro.

E não é apenas para escutar. Aurora puxa o coro, todos têm de cantar e coreografar, nos limites estreitos do carro e do cinto de segurança. Aurora parece uma reencarnação de Emília, a boneca rebelde do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. Fazia muitas atividades antes da pandemia e ficou indignada com o coronavírus: “Este vírus é um idiota!”, disparou. Ponderei a ela: “Existem outras pessoas mais idiotas”. Ela quis saber: “Quem?”. Repliquei: “Deixa pra lá, vamos cantar os saltimbancos”.

Os partidos políticos não nos representam; representam apenas os próprios interesses pessoais mesquinhos e baixos de seus dirigentes e integrantes. Nós precisamos nos representar a nós mesmos. Conquistar voz para dizer que queremos vacina, saúde, democracia, preservação das nossas florestas, respeito ao nosso voto e ao Brasil.

Estamos fracos porque a máquina da mentira e os políticos traíras nos desunem. Os Saltimbancos é uma fábula para todas as idades. Mostra que, não importa o que acontecer, todos juntos somos fortes. A arte é oxigênio para quem vive tempos tão difíceis. Em meio ao período mais distópico da história do Brasil e de Brasília, aquele canto dos animais saltimbancos puxado pelas crianças no carro é um sopro de alegria e de utopia.

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