Severino Francisco
Com a eliminação do Brasil da Copa do Mundo, o nível de bajulação de seleções e de jogadores estrangeiros chegou a um ponto da indignidade. Não consigo assistir mais a nenhum jogo sem sentir repulsa. Você nunca viu a um jornalista argentino bater palmas para os jogadores brasileiros em nenhuma época. Pelo contrário: nos Jogos Olímpicos de 1986, enquanto aguardava a partida entre Brasil e Nigéria para saber qual adversário a Argentina enfrentaria na final, o jornal esportivo Olé estampou a manchete: “Que vegan los macacos”.
Los macacos a que se referiam os jornalistas argentinos eram os brasileiros, favoritos para a peleja contra os africanos. Pois bem, desafiando todos os prognósticos, a Nigéria venceu e eliminou o Brasil. No entanto, os argentinos não tiveram melhor sorte contra os nigerianos e também foram derrotados.
Messi é um excepcional jogador, um dos maiores da história do futebol, acima de Maradona, abaixo somente talvez de Pelé e de Garrincha. No entanto, não vejo motivo para endeusar e gastar tantos adjetivos com alguém que nunca usou o prestígio internacional para se insurgir contra o racismo atávico dos argentinos. Seria um dos poucos com autoridade para recusar essa violência, do jeito e na medida em que quisesse, mas permanece completamente omisso.
Assisti a um vídeo em que um brasileiro pergunta a um argentino se ele torceria para o Brasil e a resposta é o deboche. Ele toma a indagação como uma piada, responde que jamais e que preferiria torcer para o Uruguai ou para qualquer outra seleção. Um profissional da informação tem a obrigação de conhecer a história, não pode se dar ao luxo de ser um ignaro.
Está certo que o Brasil deu um vexame contra a Noruega, não por perder, mas, sim, pelo fato de ser eliminado de uma maneira tão apática, desfigurada e covarde. Claro que a Seleção Brasileira vive uma terrível crise de identidade. Mas isso não justifica assumir a postura mais servil, subserviente e bajuladora em relação a outros times e jogadores que estão no ápice.
Senão, a pessoa cai no ridículo. Que disse eu, parece que esse limite foi abolido na cobertura esportiva. Existe um locutor que, quando se depara com uma jogada excepcional, se esgoela, a plenos pulmões, para o autor da façanha: “Você é ridículo!” Trata-se de uma expressão absolutamente tola, destituída de qualquer invenção, verve ou graça. É a perda total de sentido da linguagem. As tiradas populares são testadas, passam por uma decantação e uma depuração nas ruas.
Veja-se, por exemplo, “me erra”, invenção carioca que condensa humor e poesia. Mas, agora, qualquer asnice pronunciada ao microfone corre o risco de viralizar nas bolhas da rede social e se propagar sem o menor senso crítico.
Tenho a impressão de que se essas pessoas conhecessem futebol por meio de Nelson Rodrigues, Mario Rodrigues, João Saldanha não se rebaixariam a tal ponto. Não baterei palmas para racistas ou para os que se omitem ante o racismo. Eu bato palmas para o investimento em educação pública da pré-escola ao ensino superior, a distribuição de renda, o estado do bem-estar social, a consciência ambiental e o estágio de transição climática da Noruega.
Ao assistir a certas narrações de jogos ou rodas de debate esportivo fico com vontade de botar uma folha de parreira na cara de vergonha, diria Nelson Rodrigues. Para elogiar não é preciso perder a dignidade. Eu acho que até para enaltecer é necessário ter alguma compostura. É possível perder sem perder a dignidade.

