O Brasil não foi Brasil

Publicado em Crônicas

 

Severino Francisco

Torci, me retorci e quase varei a tevê e entrei em campo para marcar os noruegueses sob pressão, chegar junto a Halland para evitar o segundo gol e chutar a bola para a rede adversária em quatro chances claras para o Brasil. Mas não teve jeito. O Brasil jogou incrivelmente mal. Mesmo assim, com todos os erros, dentro e fora do campo, a Seleção Brasileira poderia ter ganhado o jogo, se não perdesse tantos gols.

Um time que quer vencer a Copa do Mundo não pode perder um pênalti como aquele do Bruno Guimarães. Quando o juiz marcou, eu saí da sala e disse: “nem quero ver”. Claro que se o Vini Jr. cobrasse também poderia ter perdido. Mas a justificativa do Ancelotti para Bruno bater não convence. Ele argumentou que o nosso meio de campo teve o maior aproveitamento nos treinos. Sim, essa é uma maneira de interpretar os dados, mas, em outra, mais ampla, ficamos sabendo que Bruno só bateu três pênaltis na vida de jogador profissional.

É preciso lembrar que, com toda a categoria que tinha, Zico perdeu um pênalti contra a França na Copa de 1986 e o Brasil foi eliminado. Mas voltemos ao nosso jogo contra a Noruega. No primeiro tempo, Martineli recebeu passe de Vini Jr. e chutou em cima do goleiro.

Logo depois de entrar no segundo tempo, Endrick também perdeu um gol cara a cara com o goleiro, em passe açucarado de Vini Jr. E, para fechar, Casemiro infiltrou pela esquerda, penetrou na área, mas, em vez de cruzar para Neymar, tentou um gol espírita, sem ângulo, soltou uma bomba sem direção e a boa saiu para linha de fundo.

Qualquer torcedor que acompanha a Seleção Brasileira percebeu que o nosso time assistiu ao talentoso meio de campo norueguês desfilar em campo, sem que fosse pressionado ou levasse um bote para tomar a bola. E, quando pressionou, o Brasil criou chances de gol. O time norueguês é muito bom do meio de campo para frente. No entanto, é lento e a defesa é fraca. Ancelloti justificou que dar a bola para a Noruega foi uma estratégia para não levar contra-ataque na velocidade.

Pode ser uma tentativa válida, mas, desde o instante em que não deu certo no primeiro tempo, o técnico tinha a obrigação de mudar a postura e incomodar a Noruega. E não mudou. Foi desesperante assistir um jogo em que o Brasil perdia e permanecia apático e em ritmo de treino. Não existe o Brasil só ter 34% de posse de bola. O Brasil parecia o Bonsucesso contra o Flamengo. E tudo piorou com a substituição de Rayan por Neymar, que, como se previa, não fez nada. Sem o vigor de Rayan, o lado esquerdo virou uma avenida para a Noruega fazer os dois gols. Realmente, não é só uma questão de ganhar ou perder. O problema é que o Brasil estava desfigurado; o Brasil não foi Brasil.

A Seleção Brasileira mexe com as placas tectônicas da brasilidade, para o bem e para o mal. No intervalo de um programa esportivo, o âncora, em uma das manifestações mais patéticas que já assisti na tevê, ganiu de humildade e pediu que todos aplaudissem ao centroavante Halland, que marcou dois gols contra o Brasil. Meio constrangidos, os ex-jogadores que compunham a roda de debate bateram palmas protocolares. Claro que Halland é um grande jogador.

No entanto, em primeiro lugar, é uma incrível falta de sensibilidade com a dor dos brasileiros pela eliminação da Copa do Mundo. Isso é piada de bêbado em velório. E, depois, é uma atitude de bajulação vira-lata mais servil.

Na Copa do Mundo de 2002, o Brasil foi campeão, Ronaldo Fenômeno e Rivaldo comeram a bola na final. Em duas edições recentes da Champions League, Vini Jr. bailou, foi protagonista e sagrou-se campeão pelo Real Madrid. No entanto, nunca se viu a mesma reverência de nenhum âncora. Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor.

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