O sonho de Chagall

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Enquanto o mundo explode, somos brindados com um inesperado presente: a exposição com mais de 180 obras do russo Marc Chagall, um dos maiores pintores modernos, no CCBB. Chagall nos atinge em cheio com as figuras oníricas e as cores fulgurantes, porque é um pintor que se move com a liberdade de poeta.

Os animais, os amantes, as flores e as casinhas de aldeia de suas pinturas parecem estar em permanente estado de levitação. Ele é animado pelo voo de poeta. Chagall foi considerado um dos precursores do surrealismo, mas ele dispensava a distinção. Nasceu na aldeia de Viperbsk, na Rússia, onde a realidade se entrelaçava com a fábula da maneira mais natural.

Por isso, em sua obra, os bodes tocam violino, os casais de amantes planam no céu, e as vacas sobrevoam as casinhas. O surrealismo de Chagall não foi aprendido na leitura dos manifestos do movimento, que reivindicava o direito ao sonho para a arte. Chagall conviveu em Paris com o surrealismo, o cubismo, o fauvismo e outros ismos, mas ele poderia afirmar: “Eu sou o surrealismo”.

Os quatro segmentos da exposição revelam, claramente, a carga autobiográfica da obra de Chagall: as origens e as tradições russas, o mundo sagrado, um poeta com asas e o amor desafia a força da gravidade. As quatro dimensões estão conectadas. Os desenhos para ilustrar as fábulas de La Fontaine se confundem com as evocações da aldeia onde Chagall nasceu. As representações do amor têm a ambição de transcendência do sagrado. O sagrado vem com o poder de revelação da poesia.

O mundo de Chagall é sempre o mesmo: as casinhas de aldeia,  as sinagogas, os animais alados, os amantes em êxtase: “Só é meu o lugar que encontro em minha alma”, disse o pintor-poeta. Mas ele é um mestre da cor, e a sua genialidade borbulhou em pinturas, gravuras, litografias, ilustrações e aquarelas. Ele imprime tal fulgor de cores que cenas triviais ganham a dimensão de acontecimentos cósmicos. Os azuis de Chagall são celestiais: “Eu sou azul da mesma forma que Rembrandt é marrom”, comentou Chagall.

O amor é a força que move o mundo fantástico, sagrado, lírico e onírico de Chagall. E foi com essa força que ele atravessou duas guerras mundiais: “Só o amor me interessa e estou apenas em contato com as coisas que giram em torno do amor”.

O grande amor e a grande musa de Chagall foi Bela Rosenfeld, uma mulher de sua aldeia. O paraíso de Chagall é representado pelo casal de amantes velado por uma onda de flores que esplendem.

É uma pintura alegre, animada por intensa fantasia da cor, que, quase sempre, irradia felicidade. Nestes tempos em que temos a sensação de estarmos dentro de um pesadelo real, para o qual não adianta acordar, ver a exposição de Chagall no CCBB é um bálsamo para a alma. Revela o poder de transfiguração e transcendência da arte. Saí da mostra com a impressão de ter vivido, por instantes, um sonho leve, um sonho lírico, um sonho de beleza, um sonho de amor.

Severino

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