O manto sagrado

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Severino Francisco

“Plumi/alvor na/árvore/-névoa/ou/manto?/é quase/a pele/de um anjo/o que/se vê”. O poeta Francisco K sempre foi fascinado pela peça Harogomo, do teatro Nô japonês. A partir da leitura do fragmento final de Hagoromo, traduzido por Haroldo de Campos, ele escreveu, em 1990, o que chamou de poedrama sintético, com o mesmo nome: “veste/de um/anjo/sua/quase/pele/coisa/caída/do céu”.

Agora, ele lança Experimanto, com um texto poético homônimo, a reedição do poema Hagoromo e de um ensaio de Marçal Barreto sobre ambos os textos. A trama inspiradora tem como fonte a peça do teatro Nô, Hagoromo, em que uma tennin (anjo-ninfa) deve executar uma dança celeste, rarissimamente vista pelos mortais, para reaver seu manto de plumas mágico em posse de um pescador.

A peça despertou fascínio nos poetas Erza Pound e Haroldo de Campos. No caso de Francisco K, ele ficou, particularmente, encantando com a dimensão erótica de Hagoromo, envolta em uma dimensão mítica. É uma face misteriosa, subentendida e insinuada. O erotismo aparece como a possibilidade de uma dança em que se consuma o encontro do humano com o divino.

K acentuou a carga erótica e, ao mesmo tempo, explorou a simbologia do manto de plumas, que coloca a questão da nudez, mas pode ser interpretado também como metáfora da linguagem poética: “se/mínima/(sem/hímem)/se/da/-na relva/te de-/volvo/(ou só/revolvo/insano pensar?).

Com uma linguagem extremamente concisa, muito próxima do hai kai, Francisco K aspira que cada fragmento seja autônomo e, ao mesmo tempo, deseja tecer uma fábula modernizada:”teatro/da pele/(tateio-/a/em/pelo)-se, em/câmbio, me/deres/a dança/circulará/sempre/em/mim”.

Francisco K não queria que fosse uma mera apropriação de uma fábula oriental e estabeleceu uma conexão brasileira com os parangolés de Hélio Oiticica, vestimentas multicoloridas criadas com a intenção de fazer com que o dançarino se transformasse em obra de arte.

Pouco depois, K fez um roteiro para um vídeo, que acabou não se realizando, mas tinha esses componentes mais marcados: uma dimensão mítica e outra lúdica, mais próxima de um experimentalismo com a contracultura brasileira de Hélio Oticica e Julio Bressane.

Em 1998, fez um experimento de vídeo com a dançarina Lorena Moura. As fotos estão registradas nesta edição. Elas têm como cenário áreas do Cerrado isolado e ruínas próximas à Universidade de Brasília. K transformou o roteiro em roteiro poético. É uma apropriação crítica e criadora. O experimento virou Experimanto radicalmente híbrido: “Sombra/da/primavera/imanta/o/ar/-ao invés/de voar/resvala/ao céu/do meu/desejo”.

PS: Francisco K lança Experimanto, hoje, às 19h, no Beirute da 109 Asa Sul.

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