O fascismo é o demo

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Severino Francisco

Arnaldo Jabor escreveu uma crônica saborosa sobre um encontro que o cineasta-cronista e os amigos Glauber Rocha e Cacá Diegues tiveram no longínquo 1965 com Guimarães Rosa no Itamaraty, do Rio de Janeiro. Jabor, Glauber e Cacá eram cineastas iniciantes, atiçados pelo ânimo de transformação política, no ápice da petulância juvenil. Achavam-se Rimbauds inéditos, segundo Jabor.
Aquela geração pertencia a um terceiro ciclo do modernismo que abraçou a política e viveu revoluções por minuto. Os três amigos investiam armados de preocupações ideológicas, mas Rosa desconversava e respondia com blagues de nonsense sobre loucos. A trinca começava a ficar irritada com o desinteresse ou a alienação de Rosa. No entanto, depois de certa blague, Glauber teve um estalo, deu um risinho, entendeu a postura de Rosa e a conversa fluiu.
O autor de Grande Sertão: Veredas padeceu da fama de alheado durante muito tempo, pois não se metia nas ninharias da vida política. “Mas você já observou que os que mais falam de política são sempre os que têm menos livros publicados?”, questionou em um congresso de literatura. No entanto, a alienação ou a suposta alienação do escritor foi posta à prova durante o período em que trabalhou como cônsul na Embaixada do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, de 1938 a 1951.
Nessa época, Rosa conheceu e se apaixonou por Aracy Moebius de Carvalho, uma brasileira que prestava serviços para a secretaria do consulado. A Segunda Guerra Mundial se acirrou e Hitler ordenou caça implacável aos judeus na Europa. Eles passaram a procurar, cada vez mais, a Embaixada do Brasil em busca de fuga. Aracy e Rosa acolheram a muitos e ajudaram com grande risco pessoal de serem descobertos e punidos pelos nazistas: “Eu levava até o vapor, porque lá os nazistas não pegavam eles”, dizia Aracy, em depoimento ao Jornal do Brasil, reproduzido na ótima biografia sobre Guimarães Rosa (Editora Nova Fronteira-Topobooks), de Leonencio Nossa.
Aracy revelou que Rosa ficava muito preocupado com ela: “Ara, qualquer dia você desaparece”. Rosa tinha medo pela amada e por ele mesmo. “Mas eu não tinha medo, não”, dizia Aracy. Só que quem assinava os passaportes era Rosa: “Ele ajudava por minha causa. Assinava os passaportes e tal, mas tinha pavor. Fazia, mas tinha medo dos nazistas. Lá as pessoas desapareciam e ninguém sabia mais nada. Os alemães eram fanáticos por Hitler”. Em um diário, Rosa anotou: “O Fuhrer e o marechal Goring fazem o que querem com o povo alemão pois esse povo é muito burro”.
Rosa sempre teve foi obcecado pelo tema do diabo, a ponto de inventar muitos nomes para não nomear o original. O que era o diabo? “O que não é Deus é o estado do demônio”, diz o personagem Riobaldo Tatarana em Grande Sertão: Veredas. Mas ao vivenciar o inferno do nazismo, com a suspensão de todos os direitos humanos em favor dos caprichos de um ditador paranoico, Rosa teve uma experiência histórica concreta de embate com as forças do sem nome.
Em conversa com o poeta Haroldo de Campos, registrada na biografia de Leonencio Nossa, Rosa confidenciou: “O fascismo, você não sabe, mas é o demo. Eu sei, porque estive lá e sei que é o demo, porque tive que lidar com os alemães para proteger refugiados judeus.”

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