Severino Francisco
O resultado ou os resultados das eleições surpreenderam a muitos, inclusive aos institutos de pesquisa. No caso da disputa para presidente da República, o noticiário foi dominado por vazamentos de investigações, sem espaço para o debate de realizações ou de projetos para o futuro. É imprevisível o embate que se dá no submundo desregulado das redes sociais.
A situação ficou delineada em pesquisa de agosto de 2026 da CNT/MDA, segundo a qual 45,6% dos brasileiros pretendiam se informar sobre o processo eleitoral pelas redes sociais. Em segundo lugar, figurava a televisão, com 33,9%, seguida pelos sites e portais de notícia com 8,5. A mídia impressa ficou com apenas 3,2%, enquanto ao rádio coube 3,1%. Quer dizer, precisamente os meios de informação mais confiável ocuparam os últimos postos.
Então, nestas condições, uma eleição no escuro das redes sociais tem significativa probabilidade de surpreender pela falta de critério para uma escolha, minimamente, racional. Evoquei, neste mesmo alto de página, o depoimento de um taxista preocupado com a suposta cobrança de uma taxa de 26% sobre o PIX, se determinado candidato vencesse a eleição. Perguntei de onde havia extraído a informação e ele disse que era das redes sociais.
Com a ausência de debate sobre projetos, esse é o ambiente ideal para a proliferação de mentiras, meia-verdades, fantasias bizarras ou fofocas. E isso contamina as eleições. É por isso que muitas escolhas não têm qualquer relação com a história, as realizações e a biografia dos candidatos. E pode levar a um resultado coincidente com o título de um dos clássicos sobre o novo populismo digital: O povo contra a democracia – Por que nossa liberdade corre perigo e o que fazer para salvá-la, de Yascha Mounk.
Mais uma vez, nossa Justiça Eleitoral funcionou com organização, eficiência e agilidade. Um dos contratempos foi o de ter a sede de voto substituída, o que suscitou aborrecimentos e dificuldades. Outro foram filas demoradas em alguns lugares. Houve um travamento no sistema durante uma hora. Mesmo assim, às 21h, saiu o resultado. E ainda tem gente que invoca o voto impresso, quer dizer, quando perde a eleição. O nosso sistema de votação é um dos melhores do mundo e, comparado a ele, o norte-americano é uma carroça.
Daqui a três semanas, teremos eleições de segundo turno para governador e para presidente. O que está em jogo não é quem será eliminado no paredão do Big Brother: é o destino da cidade e do país que legaremos a nossos filhos e netos nos próximos anos. Por isso, o voto precisa ser mais informado, racional, lúcido e responsável.
O que causa apreensão é a eleição de candidatos sem compromisso com a democracia. A democracia é um exercício de saber ganhar e saber perder. Em ambos os casos, é preciso dignidade. Ser de direita, de centro ou de esquerda faz parte do jogo. O que não está fora da regra é negar a democracia, graças a qual se foi eleito.
Espero, independentemente dos partidos ou da cor ideológica, que os eleitos cumpram o juramento de defender a democracia e a Constituição. “Prometo manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil”.

