O dia que não terminou

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Severino Francisco

Aquele 8 de janeiro de 2023 foi um dos dias mais trágicos para Brasília. A cidade foi invadida por uma horda de vândalos fanáticos, manipulados por mentiras acionadas pelos robôs das redes sociais, numa verdadeira apoteose da boçalidade. Eu havia ido ao Conjunto Nacional para comprar alguma coisa. Quando passamos próximo à Catedral Metropolitana de Brasília, avistamos uma legião de manifestantes enrolados na bandeira do Brasil se dirigindo rumo à Esplanada dos Ministérios sem nenhuma barreira. Era a senha para a tragédia anunciada. Todos sabiam o que iria ocorrer.

Ao ser questionado sobre a razão de ter colocado uma bomba embaixo de um caminhão de querosene, próximo ao Aeroporto de Brasília, que poderia ter causado uma tragédia de enorme magnitude, o terrorista respondeu ao deputado Chico Vigilante, presidente da CPI sobre os atos golpistas na Câmara Legislativa do DF: “Para protestar contra o código-fonte”. “E o que era o código-fonte”?, indagou Chico. Mas o autor do despautério confessou que não sabia o que era. Arriscaram a própria vida e a dos outros fanatizados por mentiras como essas.

Sem o 6 de janeiro de 2021, quando extremistas norte-americanos invadiram o Capitólio para contestar a vitória de Joe Biden, impulsionados pelas fake news de Trump, não haveria o fatídico 8 de janeiro de 2023 em Brasília. A diferença é que as instituições brasileiras agiram para defender a democracia e podem dar exemplo para o mundo punindo os autores da tentativa de golpe.

É preciso manter viva essa memória. O filme Ainda estou aqui, de Walter Salles, com Fernanda Torres, cumpre essa função, ao mostrar a devastação de uma família pela ditadura, que expõe a violência, o arbítrio e o absurdo dos regimes autocráticos. Alguns extremistas cobraram de Fernanda Torres que fizesse a defesa dos vândalos punidos pela Justiça por atentarem contra a democracia. Obviamente, são situações completamente distintas. Não se pode comparar quem atentou contra a democracia com quem foi vítima do arbítrio de uma ditadura.

Atacar obras de arte sempre foi um atestado de barbárie. Felizmente, várias obras atacadas pelos vândalos foram restauradas e serão devolvidas ao acervo do governo federal, entre elas, a pintura As mulatas, de Di Cavalcanti, uma escultura em madeira de Frans Krajcberg e a escultura O Flautista, de Bruno Giorgi.

Leio que alguns chefes dos poderes estarão ausentes da cerimônia de celebração da democracia. Não importam as desculpas, deveria ser uma prioridade. Talvez temam que a presença seja entendida como alinhamento político. Nada a ver. Essas instituições têm um compromisso inalienável com a democracia e não fazem nenhum sentido sem ela. Só existem em um sistema democrático, fora dele, são uma farsa, como ocorre em todos os regimes autocráticos.

A democracia não pertence a Lula, ao PT ou ao STF. Ela é um patrimônio de todos os brasileiros. A ditadura é o regime do arbítrio, da supressão dos direitos, da censura, da injustiça, da violência, do terror e dos privilégios para poucos que adoram uma mamata.

Todos os partidos, de esquerda ou de direita, têm o dever cívico de defender a democracia. O Brasil precisa ser pacificado. E o primeiro passo rumo a isso será a aplicação da lei e a responsabilização dos que lideraram, instigaram, financiaram e executaram as ameaças à democracia. Senão, o 8 de Janeiro permanecerá o dia que não terminou.

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