Severino Francisco
Hoje, eu quero falar do documentário Rodas de gigante, dirigido por Catarina Acyolli, sobre Hugo Rodas, nosso bruxo emérito do teatro, exibido na Mostra Brasília do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Tenho uma teoria segundo a qual, um espetáculo, um filme ou um livro bom para Brasília precisa ser bom em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Paris, Nova York, Marte, Vênus e Plutão. E foi exatamente isso que ocorreu com o filme Rodas de gigante.
Assisti à fita em 2023, no Cine Brasília, com Vladimir Carvalho, que ficou entusiasmado e fez o seguinte comentário: “Esse é o grande filme de Catarina Acyolli, ela acertou a mão. Todos os diretores, mesmo os grandes, só fazem, de verdade, um ou dois grandes filmes.” O documentário é singularmente brasilienses. Hugo Rodas se tornou um grande diretor de teatro de Brasília e do Brasil ao se apropriar da cidade como campo experimental.
E, no entanto, o filme rodou por mais de 80 festivais, ganhou 40 prêmios, sendo 29 internacionais e sensibilizou as plateias de outros continentes ou quase de outros planetas. Ganhou prêmio de Melhor documentário em Miami, Xangai, Amsterdã e Roma, entre outros. Em todas as críticas que Catarina recebeu, os autores ressaltavam a personalidade e o ser absolutamente inspirador de Hugo Rodas tanto pela paixão de viver e de celebrar a vida, no limiar da morte. Catarina acredita que esse é um tema universal. E, para completar o fascínio, mesmo as broncas terríveis vinham carregadas de humor.
No filme, Hugo aparece de corpo inteiro, com muitos momentos memoráveis e epifânicos. Ritualizava todos os momentos da vida. Esbravejava, dançava, falava e sorria com os olhos, as mãos, as pernas, os cotovelos e os cabelos. Era dionisíaco na arte e na vida. Não importa que tivesse mais de 80 anos, ele sempre foi um adolescente nato. Perto de Hugo todos eram caretas, embora fosse também paternal e chegasse a ser chamado de “Papito”. Ele enfrentou a doença e a morte com a liberdade, o senso de humor, a coragem e a alegria de sempre.
Catarina registrou imagens raras. Depois de sofrer com um câncer, a doença afetou os movimentos de Hugo, que se tornaram meio desconectados. Mas é impressionante, quando dançava em uma festa, o corpo dele se transmutava, as muletas eram incorporadas como instrumentos da performance. Pareciam uma extensão do corpo. No filme, ele diz que dançava melhor do que andava. Nada mais verdadeiro.
É desconcertante que um dos brasilienses mais legítimos era um uruguaio meio baiano. Hugo Rodas se tornou um dos mais importantes diretores do teatro brasileiro fazendo da nascente Brasília o seu campo de experimentações: “Eu fiquei em Brasília porque eu queria me tornar candango. Quando me perguntam se eu me tornei brasileiro, eu digo que, antes de ser brasileiro, sou brasiliense, sou candango”.
Na raça, sem dinheiro de edital, às próprias custas S. A. e dos amigos, Catarina acompanhou o cotidiano de Hugo durante os últimos quatro anos. Não dava tempo de esperar a burocracia estatal ou a boa vontade oficial dos que decidem. A tarefa era urgente, imperiosa e inadiável. Valeu a pena.
Hugo Rodas era um teatro completo. Com muita sensibilidade e competência, Catarina captou o melhor das situações para transformá-las em documentário de poesia, revelador do legado de arte e de vida de Hugo Rodas. A trajetória vitoriosa do filme em festivais internacionais reforça a relevância do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e da Mostra Brasília, que tem revelado filmes em destaque nos festivais internacionais. É a cultura que confere dignidade a Brasília.

