A Idade da Terra

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Severino Francisco

Nelson Rodrigues foi assistir Terra em transe, de Glauber Rocha, em 1968, acompanhado de um amigo. A certa altura, incomodado com a fita, o amigo perguntou a Nelson o que ele estava achando e o nosso profeta do óbvio respondeu: “É um texto chinês, só que de cabeça para baixo”. Nelson detestou o filme, mas, no dia seguinte, Terra em transe continuou rodando em sua cabeça e, a certa altura, ele teve um estalo e reconheceu: “Aqueles personagens se debatendo em danações hediondas, aquilo somos nós, aquilo é o Brasil. Esse filme é genial”.

Pois bem, tenho a impressão de que o estranhamento e, em seguida, o reconhecimento, ocorre novamente com o filme A Idade da Terra. Glauber definiu A Idade da Terra como uma missa bárbara sobre o renascimento de quatro Cristos no Terceiro Mundo: o Kristo Negro Zumbi (Antônio Pitanga), o Kristo São Sebastião (Tarcísio Meira), o Kristo Pescador (Jesse Valadão) e o Kristo Ogum (Geraldo Del Rei).

Incompreendida na época do lançamento, em 1980, a obra ganhou uma atualidade dramática com a invasão da Venezuela, o sequestro de Maduro e os delírios imperialistas de Donald Trump. É como se Glauber antecipasse, de maneira visionária, o que acontece hoje no mundo. O personagem John Brams, antagonista dos quatro Kristos, é puro Trump. Glauber mistura, livremente, documentário, realidade, ficção e poesia.

Em Brasília, o Kristo Zumbi assume o protagonismo da cena. Brams diz para os operários verdadeiros que construíram o Teatro Nacional: “Há 500 anos, meus escravos estão construindo essa pirâmide, que, no futuro, será meu túmulo”. Em outro momento, o Kristo Negro, na pele de Antonio Pitanga, insurge-se e berra: “Brams, chegou a hora de você ouvir a voz do Terceiro Mundo, você representa a pirâmide, nós somos os prisioneiros da pirâmide. Chegou a hora de você ouvir a voz do povo da Ásia, da América Latina, da África. A humanidade caminha para terceira guerra mundial, o mundo será destruído pela bomba atômica”.

No entanto, uma das sequências mais impressionantes e oníricas é aquela em que o Kristo Ogum, Deus da guerra, julga Brams, de maneira surreal, trepado em um morro, empunhando dois fuzis em riste como se fossem extensões do braço: “Acuso Brams de invadir países europeus, asiáticos, africanos e americanos. Acuso Brams de organizar a guerra psicobateriológica contra índios, contra negros, judeus e comunistas”.

Brams morre várias vezes e retorna, numa ruptura com o realismo, para revelar que a subjugação imperialista sempre pode voltar. Os Kristos do Terceiro Mundo trazem a mensagem da revolução do amor e da justiça na forma de uma poesia poderosa. A prova mais cabal da força de uma obra de arte é fato de a gente lembrar-se dela, é o fato de ser memorável. Continuo achando A Idade da Terra um filme desigual, mas com sequências geniais.

Revi as mencionadas sequências trêmulo, impressionado pela atualidade e pela antecipação transfiguradora, a ponto de minha filha perguntar se eu estava com Alzheimer. É que sob impacto estético costumo estremecer mesmo. E que falta nos fazem obras que nos façam tremer de comoção.

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