Museu da Bíblia

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Crédito: Diego Ponce de Leon/CB/D.A Press.  O Teatro Nacional Claudio Santoro, com tapumes na entrada, em estado de abandono: será que a prioridade seria construir um Museu da Bíblia?

Severino Francisco

Em primeiro lugar, gostaria de registrar que nada tenho contra a Bíblia. O meu pai era pastor presbiteriano e cresci lendo os Salmos, os Cantares, as Epístolas de São Paulo, o Livro de Jó e o Apocalipse de São João. Mas, mesmo assim, não consigo entender o projeto da edificação de um Museu da Bíblia no Eixo Monumental, com uma presteza rara, quando existem tantas outras prioridades e problemas nos espaços culturais da cidade.

Espaços culturais importantes da cidade permanecem na condição de monumentos ao descaso. Todos os governos prometem reformar o Teatro Nacional Claudio Santoro e o Museu de Arte de Brasília, mas a intenção não sai do papel. O Teatro Nacional é um dos mais importantes monumentos criados por Niemeyer, está integrado ao cotidiano da cidade, mas se deteriora a cada dia.

Parece-me que reformar os espaços existentes seria a prioridade. Todavia, se pensarmos na possibilidade de construir novos monumentos, o projeto da sede definitiva da Fundação Athos Bulcão deveria ser o primeiro da fila. Athos é o mais importante artista da cidade e a preservação e difusão de sua obra é uma questão essencial numa cidade tombada pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade.

Crédito: Reprodução/Fundação Athos Bulcão. Nova sede da Fundação Athos Bulcão, projeto de Lelé Filgueiras.

O arquiteto e parceiro Lelé Filgueiras ressalta que Athos Bulcão é uma figura exemplar nas artes plásticas, não só no Brasil, mas no mundo. Nenhum artista integrou de forma tão profunda a sua arte na arquitetura. Apesar das propostas de Fernand Léger e de Mondrian nesse sentido, depois do advento da arquitetura moderna, isso só aconteceu com abrangência pelas mãos de Athos Bulcão: “Athos não é somente um artista de Brasília; é um artista universal”.

É verdade que parte da sua criação está espalhada pela cidade e integrada de maneira indivisível com a arquitetura. No entanto, ele tem uma obra muito vasta e múltipla, doada em 1992 por Athos à fundação que leva seu nome para que fosse preservada, conhecida e difundida.

E, apesar das dificuldades, a instituição não reduziu o precioso legado a material passivo entulhado em um depósito. Ele se transformou em exposições didáticas, roteiro de visitas guiadas, jornais, projetos de educação pela arte e de direitos humanos. Alguns projetos receberam prêmios nacionais.

Crédito: IBTH/Reprodução. Croquis do projetos da nova sede da Fundação Athos Bulcão,   de autoria do arquiteto Lelé Filgueiras, no Eixo Monumental

No ano passado, apresentei um texto sobre Athos Bulcão, que sairá, brevemente, em livro, para alguns estagiários. O objetivo era fazer um teste de audiência e saber se eles tinham dificuldade de entender. Para minha surpresa, boa parte deles conhecia muito bem a obra de Athos.

Perguntei qual era a fonte e eles me disseram que estudaram e pesquisaram no ensino médio. Esse trabalho pedagógico é organizado pela Fundação Athos Bulcão. Lelé Filgueiras, com quem Athos fez brilhantes parcerias, costumava brindar os amigos com um presente preciso: riscos de arquitetura.

Crédito:IBTH/Reprodução. Projeto de Lelé Filgueiras para a sede definitiva da Fundação Athos Bulcão.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             E ele desenhou um prédio magnífico para ser a sede definitiva da Fundação Athos Bulcão. Morreu sem ver o sonho realizado. Se fosse edificada, seria mais uma atração turística para Brasília no Eixo Monumental só pela arquitetura.

Mas, além disso, impulsionaria todo o trabalho da Fundação Athos Bulcão. Athos é uma das pessoas que conferem dignidade a Brasília. Não merece ser relegado à condição de sem-teto na cidade que ajudou a construir e a ser distinguida como patrimônio cultural da humanidade.

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