Mestre da natureza

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Severino Francisco

Cada vez mais a obra e a figura de Burle Marx se tornam dramaticamente atuais. Enquanto o desmatamento contribui para o desequilíbrio ambiental e para tragédias climáticas, como a que estamos assistindo com as enchentes que arrasaram o Rio Grande do Sul, as nossas excelências optam por uma política de afrouxamento das regras de preservação e de fiscalização.

Em vez de tomar providências efetivas para barrar a devastação, articulam para continuar uma política de predação do século 16, fundada na extração criminosa de árvores e no genocídio das populações indígenas. E, agora, em pleno desastre climático no Rio Grande do Sul, encaminham uma absurda PEC para privatizar as praias brasileiras e reduzir o controle sobre as regras de ocupação da terra no litoral.

Todas as vezes em que os terraplanistas ignoram a ciência, a catástrofe é certa. Por isso, neste momento de luta contra as trevas da ignorância, temos de voltar muitas vezes a Burle Marx para aprender as lições de um mestre da natureza.

Ele é reconhecido na condição de mais importante paisagista do século 20. Vejam só o que ele diziam em 1976, em depoimento ao Senado Federal.“A vegetação autóctone está sendo devastada a passos de gigante. Uma simples máquina de fazer estradas destrói em minutos o trabalho de séculos da natureza. E o pior é que arrasam para plantar depois árvores que não têm nada a ver com a paisagem”.

Agora, a situação se tornou mais dramática, pois estamos em contagem regressiva para mitigar ou permitir uma derrocada irreversível na situação do clima. É uma pena que tenha sido concedida a Burle Marx a oportunidade de executar um plano paisagístico completo para Brasília. Mesmo assim, somos privilegiados, ele deixou a marca do seu talento no Palácio do Itamaraty, no Teatro Nacional, no Palácio da Justiça, na 308 Sul.

Em Brasília é preciso compreender o clima, não se pode modificá-lo, ensinava Burle:“Se eu construo uma cidade num lugar onde a terra abriga uma flora característica, eu não posso transformá-la em Champs Elisées ou Hyde Park. Dizer que o cerrado não pode ser uma maravilha é um erro. Acho-o uma beleza, apenas deve-se compreendê-lo como ele é”.

Em 1976, Burle viajou de carro por Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo. Ficou estarrecido com a magnitude do desmatamento ao longo de 4 mil quilômetros para retirada das árvores de valor comercial. Com isso, a fauna também é exterminada. Naquela época, ele já previa uma drástica mudança climática, a erosão do solo, com grande perda de nossos mananciais e calcinação da camada fértil da terra. Uma marcha para desertificação inapelável.

Depois dessa viagem, Burle concedeu uma entrevista à revista Veja, que parece uma mensagem do outro lado da vida para os nossos governantes, parlamentares, falsos patriotas, ignorantes, tolos, falastrões covardes que destroem as riquezas naturais do país e empobrecem as próximas gerações: “Creio que é tempo de o Brasil aprender a amar a natureza — as florestas, os rios, os lagos, os bichos, os pássaros”, disse Burle. “Creio que é preciso reformular nosso conceito de patriotismo. Patriotismo, para mim, é proteger o nosso patrimônio. Artístico, cultural, e a terra, que nos dá tudo isso”.

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