Severino Francisco
Em 2009, Claudomiro de Almeida, 45 anos, assistiu a uma cena dramática na região em que mora. Começou um incêndio de grandes proporções em Alto Paraíso, o fogo se alastrou e avançou sobre o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Uma equipe combateu o flanco do lado direito; outra, do lado esquerdo, a ideia era chegar na cabeça do fogo.
No começo, a estratégia deu certo, mas, quando faltava cerca de 50 metros para controlar o incêndio e os moradores já comemoravam a vitória, o fogo chegou em área de pastagens, gramíneas africanas plantadas para criar gado, com muita palha seca. Não é vegetação nativa do Cerrado. Então, o fogo cresceu muito e se espalhou pelo parque. A devastação foi terrível. Ali, surgiu, com alguns moradores, a ideia de restaurar o Cerrado. Foi realizado o primeiro experimento, com sucesso. No segundo, a área aumentou, precisava de mais semente e de mais gente.
Com isso, Claudomiro se juntou a outros moradores e fundou a Cerrado de Pé, associação de coletores de sementes da Chapada dos Veadeiros, que vem fazendo um trabalho extraordinário de restauração do bioma, que envolve 240 famílias da região, com cerca de 70% de mulheres. Eles colhem cerca de 20 toneladas de sementes por ano.
Além de prover a região da Chapada, a Associação abastece o projeto de restauração do Cerrado de Mariana, a cidade mineira que teve a vegetação arrasada por um acidente da mineração. Esse dinheiro garante a subsistência das famílias da região. Com isso, a comunidade se sente estimulada a preservar o Cerrado, pois ele é a fonte de renda.
Claudomiro é nascido e criado no mato, não tem nenhuma pretensão a pesquisador. É agricultor, mateiro, brigadista e coletor de sementes. Ele era um agricultor familiar, praticava o que se chama na região roça de toco. Tinha de trabalhar fora algum tempo para ganhar dinheiro e comprar roupas e outros produtos que a comunidade não tinha condições de fabricar. Começou como funcionário dos serviços gerais do Parque Nacional de Veadeiros, mas, na verdade, precisava atuar a maior parte do tempo como brigadista, combatendo o fogo.
O contato com as ameaças ao meio ambiente acenderam a consciência para a necessidade de preservar e restaurar o Cerrado. Pergunto a Claudomiro se ele está notando alguma mudança no ciclo dos ipês-amarelos e ele confirma o que observamos na cidade. Com menos chuva e mais aquecimento, é possível perceber o efeito das mudanças climáticas na floração, que atrasa ou adianta. Os polinizadores tem diminuído. Ele lembra que em 2009, quando começou a coletar sementes e ia mapear o terreno, encontrava verdadeiros dosséis de ipês-amarelos com uma cor tão intensa que pareciam um incêndio no Cerrado.
As abelhas, os beija-flores e outros pássaros rondavam. Era uma música da vida. Mas, agora, não existe unidade. De vez em quando, ele se depara com uma árvore de florada exuberante. No entanto, os ipês-amarelos não apresentam mais unidade, florescem de maneira descontínua. As sementes também são afetadas. O tempo do ápice da floração era agosto. No entanto, ela está se atrasando ou adiantando. Virou uma bagunça.
Mas os moradores da Chapada dos Veadeiros não desistem de lutar e de resistir. “Quando não estamos na coleta, estamos apagando fogo,” diz Claudomiro. Ele estabeleceu uma meta para si próprio e para todos porque ninguém faz nada sozinho. Juntar-se, coletar e plantar tantas sementes quanto estrelas existem no céu.

