Severino Francisco
Há 32 anos, José Arimathéia foi convidado por um gerente do Cine Brasília para vender pipoca na porta do cinema. E ele aceitou. O gerente arrumou um lugar para que ele guardasse o carrinho todas as noites. Naqueles tempos, a sala não era muito frequentada, a não ser durante o período do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, quando fica lotado, com gente de Brasília e de todo o Brasil.
E, assim, o tempo passou, a situação melhorou, os fregueses aumentaram e Arimathéia sustentou a família, educou os filhos e sobreviveu vendendo pipoca e pequenos lanches. E a pipoca feita pelo Arimathéia é muito boa. Sempre que vou ao Cine Brasília me dirijo à banca para comprar um saco e me alimentar depois de um dia corrido.
O Cine Brasília é uma joia da arquitetura e da cultura em Brasília. É um dos últimos cinemas de rua do Brasil. Para muitos, é uma segunda casa. O professor José Carlos Coutinho é um desses frequentadores contumazes. Sempre passa por lá, independentemente da programação na certeza de que encontrará um amigo, verá um bom filme ou comerá pipoca na banca de Arimathéia. .
Mas há três semanas, Arimathéia ou simplesmente Ari foi surpreendido com um ultimato: ele recebeu notificação para desocupar o espaço que ocupa no Cine Brasília até o dia 30 de agosto. Depois de 32 anos, alegaram que ele estava em situação irregular. Arimathéia ficou abalado com a notícia que provocaria uma reviravolta em sua vida e tentou contrargumentar e negociar. No entanto, não foi bem-sucedido, os representantes da Box Cultural, organização que administra o Cine Brasília e a Secretaria de Cultura e Economia Criativa avaliaram que a situação é insustentável. Conheci essa história em reportagem da tevê Globo.
Vejamos: alega-se que a banca de pipoca não está sem autorização oficial para funcionar, não tem amparo para ocupar a área pública, não tem licença sanitária. A Secretaria de Cultura tem a proposta de garantir a qualidade da pipoca e o cuidado com a preservação do prédio, que é tombado como Patrimônio Cultural do Distrito Federal.
Os argumentos apresentados pela Secretaria de Cultura para a retirada do pipoqueiro não me parecem razoáveis. As autorizações para funcionar são questões burocráticas que poderiam ser resolvidas no plano formal se houver bom ânimo. É um procedimento de rotina. Quanto a preservação do prédio, parece-me que o pipoqueiro não representa risco a preocupar as autoridades. Muito mais graves são os megaletreiros luminosos espalhados pela cidade, que ferem a lei de preservação e colocam em risco a vida dos motoristas, sem que nenhuma providência seja tomada. .
Ao longo do tempo, Arimathéia fez muitos amigos, é sempre procurado e se tornou uma referência do espaço. Ele faz parte do patrimônio afetivo do Cine Brasília. A Box Cultural tem feito um trabalho competente e dinamizou o Cine Brasília com uma programação diversificada, que atrai público de diversas faixas etárias.
É justo e correto que queira regularizar a ocupação do espaço. No entanto, em consideração aos bons serviços prestados e aos vínculos afetivos com os cinéfilos, Arimathéia deveria ser tombado na condição de patrimônio cultural do Cine Brasília. Espero que as questões formais sejam superadas e Arimathéia continue a vender pipoca para a felicidade geral dos frequentadores da sala de cinema.
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