Severino Francisco
Luis Turiba, que nos deixou na semana passada, era um pernambucano, muito carioca e muito baiano. Quer dizer, muito brasiliense. Inquieto, dinâmico, idealista, agregador e pragmático, com ele, as ideias se transformavam, rapidamente, em poemas, livros, revistas, coletivos, coleções e saraus.
Se na primeira metade da década de 1970, Brasília foi uma cidade cinzenta, em razão do cerceamento imposto pelo regime de exceção, instalado a partir de 1964, na década de 1980, ela seria efervescente, audaciosa, solar, prazerosa, lisérgica e feliz. No caso, a felicidade não decorria de uma ordem compulsória ou da alienação, mas, sim, da alegria de criar, experimentar e arriscar.
Sob os ventos da redemocratização, as novas gerações injetavam novo ânimo na cultura e apostavam, com grandes esperanças, no futuro da cidade e do país. Os fantasmas e traumas do regime de exceção estavam vivos, mas a arte parecia dar voo para encarar e transcender todas as mazelas históricas.
E Turiba foi um personagem relevante no campo das letras, quase sempre em conexão com outras artes. Teve importância decisiva na fermentação da poesia marginal em Brasília. Animou o grupo Lira Pau Brasília. Trouxe Chacal do Rio de Janeiro, que espalhou em Brasília o sopro poético coloquial da Nuvem Cigana. Colocou a palavra no caldeirão cultural do movimento Cabeças. Criou a coleção Poesia de Bolso, que revelou novos poetas da cidade.
Editou com João Borges a Bric-a-Brac, a revista que se tornou uma referência nacional ao publicar poemas de Leminski, Nicolas Behr, Francisco Alvim, mas, também, entrevistas antológicas com Caetano Veloso, Nise da Silveira, Augusto de Campos e Manoel de Barros. Uma das marcas distintivas da publicação era a experimentação gráfica. Era uma revista de Brasília e do Brasil.
Só para se ter ideia do alcance da Bric a Brac tomo a liberdade de citar trecho da apresentação do volume que reúne Poemas rupestres, Menino do mato e Escritos em verbal de ave, de Manoel de Barros, assinada por Alberto Pucheu. Ele tomou conhecimento da poesia de Manoel de Barros na revista Bric a Brac, indicada pelo professor Glause Abreu: “Acabei de ler em uma revista chamada Bric a Brac, na Leonardo da Vinci, uma entrevista impressionante com um poeta que você tem de conhecer. Vá lá e compre a revista”.
Pucheu entendeu e recebeu o impacto da entrevista como se tivesse lido um poema: “Fiquei pasmo como o que lia naquelas palavras que formavam um longuíssimo poema estranho, intenso, ilegível em qualquer outro lugar que não fosse aquele”. Além disso, Turiba era muito ligado à música, compôs canções com Renato Mattos e flertava com a poesia visual, o que se refletiu no arrojo gráfico da Bric a Brac.
Era singular e coletivo. Parece-me que o movimento Cabeças reverbera nos shows gratuitos no Museu da República, nos saraus da Feirinha da 216 Norte e no Eixão do Lazer. Turiba era um dos agitadores da geração que fez a primeira ocupação cultural de Brasília e ensinou aos brasilienses novas formas de viverem, amorosamente, a cidade.
O traço que mais me impressionava em Turiba era a fé na poesia que o animava para fazer qualquer coisa, jornalismo, revista, sarau, agitação cultural, articulação de projetos, festa ou assessoria de imprensa: “Meu coração é uma uva/pulsa explode abusa pluga/meu coração é rebelde/vive ameaçando greve”.

