Marxista da linha burle

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Severino Francisco

Confesso que, cada vez mais, sou um marxista da linha Burle Marx. Enquanto aspectos de outros criadores do modernismo são questionados, a obra do paisagista se revela ainda mais preciosa com o decorrer do tempo e com a emergência climática. Ele fica cada vez mais atual em razão da consciência sobre o meio ambiente. Na década de 1980, em uma viagem à Amazônia, Burle ficou assombrado com a magnitude e o horror do desmatamento.

Naquela época, ele antecipava, de maneira profética, o receio de que viveríamos tempos sombrios em relação ao meio ambiente no Brasil. Em 15 minutos, a motosserra destrói árvores que demoraram 15, 20 ou 30 anos para florescer em um paciente trabalho da natureza: “Essa árvore jamais poderia ser destruída. Constroem uma estrada e colocam uma placa no lugar. A árvore era um monumento vivo”.

Ele via as plantas como manifestações divinas. Deus seria uma espécie de jardineiro cósmico a criar as mais misteriosas alquimias vegetais de extraordinária beleza. E tudo isso está sendo destruído pela ambição rasa associada à ignorância. Burle é reconhecido na condição de mais importante paisagista do século 20.

É deliciosa a audácia modernista que teve de colocar mandacarus, chiques-chiques, cactos, vitórias-régias, coqueiros, palmeiras, entre outras plantas brasileiras, consideradas pouco nobres, nos jardins públicos do Recife na década de 1930, para escândalo dos conservadores e colonizados pelo paisagismo europeu. E ele trouxe essa experiência para os jardins que construiu em Brasília, no Itamaraty, no Palácio da Justiça, na 308 Sul,no Palácio Jaburu, no Teatro Nacional e no Tribunal de Contas.

Nada mais oportuno, neste momento, do que trazer o legado de Burle Marx para que as novas gerações entendam o poder de cuidar e preservar o que temos de precioso. Roberto Burle Marx é o personagem do novo livro da coleção Mestres Cobogós, de autoria de Ana Maria Lopes e Marcia Zarur. Logo na capa, Burle aparece em uma imagem maravilhosa, vestido com folhas imensas de guaimbé, planta que usava muito nos jardins.

Folhear o livro é um convite a mergulhar na vida do paisagista e nos seus jardins impregnados de brasilidade. De maneira concisa e direta, o personagem vai se delineando numa primorosa interação entre texto e imagens. Os signos virtuais são transpostos para o papel. Ler o livro é como passear por um jardim de Burle Marx, cheio de surpresas para os olhos.

Maria Cobogó é um coletivo de mulheres talentosas, bravas, elegantes, generosas, inflamáveis e bem-humoradas. O grupo já foi finalista em quatro categorias do Prêmio Jabuti e revelou ficcionistas e poetas da cidade. Elas sabem fazer as coisas acontecerem.

O livro traz um encarte pedagógico para atividades nas escolas produzido por Solange Cianni. Educar as novas gerações para as questões ambientais sempre foi importante, mas, agora, com as mudanças climáticas, se tornou uma tarefa e urgente. E o volume sobre Burle Marx é uma contribuição preciosa para esse esforço: “As plantas fazem parte de uma organização que os religiosos chamam de Deus”, ensina o mestre.

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