Severino Francisco
Jamais imaginaria que Nietzsche, o meu filósofo preferido, baixaria na Estrutural. Mas é isso mesmo que acontece no premiado curta de ficção Meu amigo Nietzsche, do talentoso cineasta brasiliense Fáuston Silva.
Quando estava filmando, uma senhora perguntou ao diretor se Nietzsche era o nome de algum traficante da comunidade. Nietzsche dizia que não era um homem, mas, sim, uma dinamite. Em Meu amigo Nietzsche, numa trama engenhosa, Lucas, um garoto com desempenho escolar ruim, encontra um exemplar de Assim falava Zaratustra no Lixão, e a leitura do livro desencadeia uma revolução em sua vida, na relação com a família e com a comunidade.
Ele se transforma em um garoto-dinamite. Lucas é tomado pelas profecias de Zaratustra de maneira semelhante ao Dom Quixote, que enlouquece ao ler as aventuras de cavalaria. Mas Fáuston mostra o confronto dramático do menino-filósofo com a comunidade de uma maneira inteligente e bem-humorada.
Ao proclamar que “Deus está morto!”, por exemplo, ele passa por uma sessão de descarrego em uma igreja evangélica fundamentalista. Na escola, arregimenta uma legião de pequenos super-homens entre os colegas.
É, simultaneamente, um filme sobre o analfabetismo funcional, sobre o poder da transformação do conhecimento e sobre a força transfiguradora da poesia. “Avaliar é criar; sem avaliação, a existência seria oca”, proclama o garoto-dinamite, a plenos pulmões. Sem formular nenhuma tese, Fáuston toca nos temas mais espinhosos com rara delicadeza. Ele mostra que a loucura lúcida da poesia salva da mediocridade.
Meu amigo Nietzsche colecionou uma galeria de prêmios pelo Brasil e pelo mundo. Faturou, entre outros, o Prêmio de Melhor Filme do Público e Melhor Filme Cômico no prestigioso Festival Internacional de Clemond-Ferrand, na França, um dos mais importantes eventos do gênero. Pois bem, o filme ganhou o Prêmio Câmara Legislativa em 2012 e, com isso, decolou uma carreira internacional.
Em entrevista ao Correio, Fáuston lembra que a reação da plateia de Clemont-Ferrand lhe proporcionou um dos momentos mais epifânicos da vida. Quando terminou a exibição de Meu amigo Nietzsche 1.400 pessoas ficaram de pé, aplaudindo e cantando. O evento não costumava brindar dois prêmios para o mesmo filme, mas a exceção foi aberta para a fita brasiliense.
Lembrei do filme exibido na Mostra Brasília de 2012 por causa das ameaças que pairaram de não realização do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Dessa mostra saíram outros filmes que se destacaram em festivais internacionais. Então, em vez de ser ameaçada, ela deveria receber mais incentivo. É a cultura que nos representa, é a cultura que confere dignidade a Brasília.

