Caliandras no quintal

Compartilhe
Caliandra rosa: visão do esplendor no quintal. Crédito: Juçara de Lavor/arquivo pessoal

Severino Francisco

Na infância e adolescência, andei muito pelo cerrado e sempre ficava impressionado com a beleza extraordinária da caliandra, que não tem medo do esplendor. Parece concentrar a resistência e a singularidade do cerrado. Ana Miranda chama a caliandra de flor extraterrestre.

É isso mesmo, parece uma flor colhida em um jardim de algum planeta de outras galáxias transplantada para o cerrado mais bravo. Eu acho que, por contraste, combina muito bem com a arquitetura branca e espectral de Niemeyer.

Com o estilo direto, afetuoso e bem-humorado, Nicolas Behr escreveu um belo poema intitulado Caliandra, que, a um só tempo, celebra a flor cerratense e a escritora brasiliana: “É a flor preferida da romancista Ana Miranda./ Sabendo disso, antes de uma palestra,/botei um jarro sobre sua mesa./Até hoje ela não sabe quem as deixou ali./Mas desconfia.”

Em minhas andanças, de vez em quando, em um átimo, topava com uma caliandra, solitária e altiva no meio do descampado, misturada à vegetação agreste. Ela esplende com tamanha fulguração que dá a impressão de ser uma flor de fogo. Por aqui, o fogo se incorporou ao ciclo da vida de muitas plantas da região.

Caliandra vermelha: embora agreste, ela se adapta bem aos jardins domésticos. Crédito: Juçara de Lavor/Arquivo pessoal.

É como se a caliandra fosse um incêndio do cerrado que se transformou em flor. De longe, ela parece uma flor de fogo; mas, de perto, tem a delicadeza trêmula da penugem de um pássaro. Na minha insciência, eu imaginava que fosse rebelde e refratária aos jardins domésticos. Nada disso, ela se adapta muito bem.

Quando descobri, comprei uma caliandra vermelha e outra rosa, e plantei no quintal. A vermelha já viveu o ápice nos últimos dois meses, mas a rosa ainda não havia aflorado. Acordo cedo, pois faço tai chi chuan todos os dias, religiosamente ou marcialmente, às 6 da matina. Estava em dúvida sobre cinco temas para escrever. É a pior situação para o cronista. Fui até a porta de vidro da sala para ver a aurora brasiliana despontar e levei um susto.

Olhava com atenção para me certificar se eu havia mesmo acordado ou estava sonhando. Plantamos uma caliandra rosa no quintal. Na terça, havia uma meia-dúzia de flores mirradas. Mas, ao raiar do dia, cheguei até a porta e me deparei com uns 40 botões de caliandras, com suas agulhas delicadas.

Sempre que as miro lembro do verso de Rimbaud: “A estrela chorou rosa…” Era como se elas não aflorassem, mas, sim, em um átimo, da noite para o dia, se acendessem nos galhos. As caliandras me proporcionam instantes de beleza salvadora.

Severino

Publicado por
Severino

Posts recentes

Nem quero ver…

  Severino Francisco   Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro... Estamos em contagem regressiva…

1 dia atrás

As coisas mais belas

  Severino Francisco     A pandemia do Coronavírus estabeleceu uma cultura do confinamento e…

2 semanas atrás

Tai chi na escola

  Severino Francisco Sempre que um mestre parte, eu fico me perguntando se ele sobreviverá…

3 semanas atrás

Paulo Andrade

  Severino Francisco     O artista plástico Paulo de Andrade, que nos deixou neste…

3 semanas atrás

Bola pro mato

  Severino Francisco A maneira como a gente torce por um clube é uma das…

1 mês atrás

Brinde ao Beiras

  Severino Francisco     Na quinta-feira, à noite, dei uma passada na 109 Sul…

2 meses atrás