Balada para Di Cavalcanti

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Severino Francisco

Escrevo ainda sob o choque do ataque bárbaro contra a tela As mulatas, de Di Cavalcanti, pelos vândalos no Palácio do Planalto. O pintor que elevou as mestiças brasileiras à condição de madonas tropicais tem conexões com Brasília. É autor de uma tapeçaria para o Palácio da Alvorada, um painel para o Congresso Nacional e pinturas da Via Sacra na Catedral Metropolitana. Além disso, há uma inesperada relação com o Planalto Central e com o Correio Brasiliense.

É que no período de redemocratização do país, Glauber Rocha (sim, o cineasta baiano genial) deixou a única cópia do filme Di/Glauber, premiado no Festival de Cannes, com Oliveira Bastos, na época, diretor de redação do Correio. Paranoico, o cineasta temia que o filme fosse recolhido pelos militares.

Glauber optou por usar o poema Balada para Di, de Vinicius de Moraes, como fio narrativo do filme. O ataque inominável ao quadro de Di me fez lembrar do filme e do poema de Vinicius para o amigo. Evoca um Brasil afetuoso, generoso, cálido e elegante, que amava a cultura. Esse Brasil que tenta renascer contra as forças de um anti-Brasil atrasado. Então resolvi reler o poema para vocês.

Fala, Vinicius! “Amigo Di Cavalcanti/É com a maior emoção/Que este também carioca/Te traz esta saudação./É de todo coração/Poeta Di Cavalcanti/Que este também poetante/Te faz essa sagração!”

Na sequência, Vinicius celebra os porres memoráveis que tomou com Di: “Amigo Di Cavalcanti/Amigo de muito instante/De alegria e de aflição/Nos teus treze lustros idos/Cinco foram bem vividos/Bem vividos e bebidos/Na companhia constante/Deste também teu irmão.”

Na sagração do amigo, Vinicius desdenha até do tempo, que encaneceu Di: “Quantos amigos já idos!/Quantos ainda partirão!/Mestre pintor Emiliano/Augusto Cavalcanti/De Albuquerque: ou melhor Di/Um ano segue a outro ano/Diz o vulgo por aí/E daí? Se mais humano/Fica um homem (igual a ti)!/Mesmo entrando pelo cano/Se pode dizer: vivi? Mais de setenta luas/coroam a tua cabeça/que hoje é branca como a lua/mas continua travessa”.

Estávamos nos dramáticos momentos finais do período militar e Vinicius constata com um sentimento muito próximo ao da maioria dos brasileiros agora: “Amigo Di Cavalcanti/A hora é grave e inconstante./Tudo aquilo que prezamos/O povo, a arte, a cultura/Vemos sendo desfigurados/pelos homens do passado/Que por terror do futuro/Optaram pela tortura./Poeta Di Cavalcanti/nossas coisas bem-amadas/Neste mesmo exato instante/Estão sendo desfiguradas./Hai que luchar, Cavalcanti/Como diria Neruda”.

A resistência que Vinicius recomenda não é a da luta armada; é a resistência pacífica da arte, em um ato de amor pelo Brasil e sua gente: “Por isso, pinta, pintor/Pinta, pinta, pinta, pinta/Pinta o ódio e pinta o amor/Com o sangue de sua tinta/Pinta as mulheres de cor/Na sua desgraça distinta/pinta o fruto e pinta a flor/Pinta tudo que não minta/Pinta o riso e pinta a dor/Pinta sem abstracionismo/Pinta a vida, pintador/No seu mágico realismo.”

E, parafraseando Glauber, no filme: “Di por Di, as vozes do túmulo: é para isso que vocês querem tomar o poder,  seus falsos patriotas fascistóides? Respeitem a arte brasileira, respeitem o povo brasileiro, respeitem a democracia, respeitem o Brasil, sou um gênio, uma glória nacional, não encham meu sacooooooooo!!!”

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