Acertei na raspadinha!!!

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Severino Francisco

Brasília teve duas apostas entre as oito vencedoras da Mega da Virada. Os candangos que nasceram de quina para a Lua jogaram na Real Loteria (114 Norte), com três cotas (R$ 26 milhões) e na Onze da Sorte (Lago Sul), com 30 cotas (R$ 2,6 milhões). Pois bem, nós aqui da redação, também acertamos na Mega de 2020. É a pura verdade leitor, faturamos a quadra, deu R$ 130 para cada um, o susto e a promessa de felicidade não cumprida. Batemos na trave.

Mas, hoje, em homenagem aos que ganharam e aos que não ganharam na Mega, evocarei o dia em que ganhei na Raspadinha. Tudo é rigorosamente exato, como vocês poderão constatar. Vamos aos fatos.

Rezam as estatísticas que é mais fácil um raio cair em nossa cabeça do que acertarmos na Mega Sena, na Lotomania ou na Raspadinha. Brasília é famosa tanto pela alta incidência de raios quanto pelos agraciados com a fortuna arrebatada nos prêmios. Mas sempre há o dia em que o acontecimento mais absurdo e improvável irrompe com a força do destino. E, graças aos deuses, tive o meu.

Estava passando por um período particularmente dramático, com as contas no vermelho, quando fui pagar um boleto em uma lotérica da 203 Norte. Depois de receber o comprovante, a funcionária ofereceu várias possibilidades de jogos. Fiquei indeciso, mas terminei acedendo ao convite.

Pensei: afinal, os brasilienses costumam ser predestinados quando se trata de faturar prêmios na Mega. Por que não poderia sobrar um pouquinho para mim? Por que o raio benfazejo da sorte não me atingiria, nem que fosse de raspão, nem que fosse de raspadinha?

Como o dinheiro era escasso, optei justamente pela Raspadinha, me apeguei a todos os santos e iniciei a operação de desvelamento do destino, usando a maior chave que guardava no bolso, uma tetra de não sei quantas polegadas. Comecei com a expectativa alta, mas a combinação de valores nunca me era favorável, sempre faltava um bendito número para completar a trinca e levar o prêmio. Parecia mais uma pegadinha do que uma Raspadinha.

Contudo, na última cartela, a sorte me sorriu inesperadamente, olhava e não acreditava. Raspei os três números e eles cravavam o valor de R$ 100 mil. Os 100 mil reais me pareceram 100 mil surreais caídos do céu: “Pena de pavão de Krishna/Vixe Maria mãe de Deus/Será que esses olhos são meus?”, eu cantava sem que ninguém entendesse nada.

Era preciso tomar cuidado para não me precipitar e criar uma expectativa vã. A ansiedade era tão grande que perdi as chaves. Mas não dei a menor importância. Que se danasse o molho de chaves, pois eu acabara de embolsar a grana salvadora de R$ 100 mil. Poderia fazer outras chaves e ainda comprar portas novas, se quisesse. Poderia quase comprar uma quitinete.

Em casa, todos me perguntavam se eu tinha certeza, e eu respondi com um sim épico. Decidimos ir à lotérica para confirmar a dádiva. Ela ficava a poucos passos, mas foi uma trajetória angustiada e cheia de um suspense de matar o Hitchcock. Os 100 metros pareciam 100 quilômetros. Ao chegar, a funcionária me transmitiu uma informação que me fez cair das nuvens, o que, segundo Machado de Assis, é melhor do que cair do terceiro andar.

De fato, eu acertara na Raspadinha. Só com um detalhe: eu ganhara R$ 10 (dez reais). Só faltaram alguns zeros no meu prêmio. A sorte me sorriu, mas com um riso tão oblíquo e dissimulado quanto o de Capitu, a morena com olhos de ressaca, inventada por Machado de Assis, que fascinou e iludiu Bentinho. Que falta fazem os óculos.

PS: Eu gostaria de comunicar aos felizardos candangos ganhadores da Mega Sena que se compadeceram com a história que esse cronista não tem soberba e aceita doações ou rateios do prêmio por meio de transferência bancária, PIX ou vale-refeição. Sintam-se à vontade.

Severino

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