A paixão de Chatô

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Severino Francisco

Quando soube que havia a proposta de um musical sobre Chatô para comemorar os 100 anos dos Diários Associados, fiquei apreensivo com risco de ser um projeto chapa-branca. No entanto, o espetáculo não é nada chapa-branca; é chapa-real, é chapa-quente. Chatô é revelado de corpo inteiro, com as grandezas, mas também com as contradições.

O musical tem um roteiro engenhoso de Fernando Morais e Eduardo Bakr, que utiliza elementos de ficção para tornar mais interessante a narrativa, mas é lastreado pela história verídica da biografia Chatô – O rei do Brasil, de Fernando Morais. Chatô foi um cangaceiro modernizador e modernizante da comunicação no Brasil.

A biografia de Chatô se mistura com a história do Brasil, pois ele não era apenas um jornalista que fazia a cobertura dos fatos. Em muitas situações, ele foi protagonista e interferiu no rumo dos acontecimentos. A história dele poderia resultar em um documentário maçante em mãos menos talentosas, mas não é. É história encenada, musicada, dançada e coreografada.

Chatô e os Diários Associados – 100 anos de uma paixão, dirigido por Tadeu Aguiar, é um espetáculo dinâmico, agil, frenético, dramático e divertido, numa viagem estonteante pelo tempo, desde quando o jornalista-empresário adquire a primeira empresa, O Jornal, em 1921, até a morte em 4 de abril de 1968.

O elenco é formado por mais de 20 atores que dançam ou de dançarinos que cantam, em uma performance de versatilidade, com destaque para Stepan Nercessian, impagável na pele de Chatô, e de Sylvia Massari, hilária no papel da secretária Janete. Stepan é um ator tão bom que consegue o prodígio de protagonizar musicais sem cantar nem dançar.

A trama abarca um repertório de primeira linha da música popular brasileira, que vai de Noel Rosa até Caetano Veloso, passando pelo chorinho, por Dorival Caymmi, Carmem Mirada e as cantoras do rádio da década de 1940. A muitos talentos Chatô incentivou com o entusiasmo e com os contratos. A música não é apenas trilha sonora; é parte da história. É um espetáculo bom para ver, ouvir, cantar e refletir.

Em determinado momento do musical, Stepan Nercessian na pele de Chatô confessa que era gago na infância, curou-se da claudicação na fala, mas adquiriu a obsessão de comunicar. Do nada, ergueu um império das comunicações no século 20.

O espetáculo tem momentos de senso de humor que iluminam o personagem-protagonista. Sempre animado por projetos expansionistas, em uma reunião com os colaboradores, Chatô fala sobre planos e pergunta: “Vocês gostaram?” E ele mesmo responde, com a certeza e a obstinação dos visionários: “Na verdade, não importa se vocês gostaram ou não, pois vou tocar os projetos de qualquer maneira”.

Antonio Candido afirmou que os grandes homens desapareceram porque eles eram dependentes das utopias. O fim das utopias decretou a desaparição deles. Porque as utopias nos tornam melhores do que somos. Eu acho que, em alguma medida, isso vale para Chatô, embora ele não seja uma pessoa nada convencional. A utopia de Chatô não pode ser classificada de esquerda ou direita.

O Chatô-jornalista, muitas vezes, prejudicou os negócios do Chatô-empresário pelo compromisso que tinha com a notícia. Sem partidarismo, ao contar a história de Assis Chateaubriand, o espetáculo suscita um debate político sobre ditadura e democracia. A imprensa não respira sem liberdade. O jornalismo e a cultura eram as utopias dele. É por isso que a sua biografia se misturou com a história do Brasil. Com todas as contradições, Chatô é um personagem que reacende a paixão pela imprensa e provoca o sentimento da dignidade do jornalismo.

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