A mentira do PIX

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Severino Francisco

Eu tomei um táxi para resolver um para um problema na Asa Norte e, em determinado momento, o motorista me interpelou se eu era jornalista. Respondi que sim e ele me perguntou sobre o PIX: “Afinal, será taxado ou não será taxado?” Disse a ele que era mentira propagada pelas redes sociais e que não levasse a sério mais essa, pois não merecia credibilidade.

Ele me disse que foi negociar um carro em Taguatinga e não se falava em outro assunto. E contra-argumentava com a alegação de que as pessoas acreditavam na versão falaciosa. Tentei replicar que a origem é semelhante a asnice de que as vacinas continham chips e provocaram a morte de tanta gente. O motorista concordou com a falta de veracidade, mas insistiu na crença das pessoas.

E estava certo. A medida pretendia combater a sonegação fiscal, mas sem aumentar os tributos. Antes, somente os bancos tradicionais forneciam essas informações. Com as novas normas, os bancos digitais e as operadoras de cartão de lojas passaram a ter obrigação de informar transações que ultrapassem R$ 5 mil. A regra da sonegação seria a mesma para todas as modalidades de transações comerciais.

Só ficou com medo quem sonega ou utiliza o PIX para negócios nebulosos. Na quarta-feira, em face da avalanche de fake news sobre taxação do PIX e da repercussão negativa, o governo resolver rever a decisão. A mentira venceu a verdade e muitos ainda aplaudiram como se fosse somente uma derrota do governo.

Isso já ocorreu no Brexit, no negacionismo contra a vacina durante a pandemia, nas eleições de 2018, de 2022 e de 2024. As consequências das informações falsas são graves. Não surpreende que tenhamos parlamento tão despreparado, pois a maioria é votada com fundamento na mentira.
É um parlamento que ignora as mudanças climáticas, vota a favor de venenos proibidos na maioria dos países, solapa direitos, legisla em causa própria e em afronta à Constituição. Daí, os constantes embates com o STF. Tergiversar para se colocar a favor da mentira me parece um despautério.
O mundo piorou muito depois da emergência das redes sociais. Não porque elas sejam , intrinsecamente, maléficas, mas, sim, pela razão de não serem reguladas. São uma selva selvagem, uma terra de ninguém, governada pelos algoritmos, a serviço dos interesses de meia-dúzia de bilionários que se consideram os donos do mundo. Esse episódio do PIX deveria despertar a atenção para a necessidade urgente de regular as redes sociais.
A ala dos parlamentares que se posiciona contra a regulamentação das redes sociais argumenta com uma indagação desafiadora: quem determinará o que é mentira e o que é verdade? Realmente, é uma problema de difícil solução. Quem definirá se vacina tem ou não tem chip? Quem vai assegurar que pedofilia é ou não é crime? Quem delibera se racismo é ou não é crime? Quem pode assegurar que tentativa de golpe de estado é ou não é exercício de liberdade de expressão? Quem garante que a terra é ou não é plana? Quem decide se a mentira deve ou não ser aplaudida? A mentira deve ou não vencer?

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