Severino Francisco
O professor José Carlos Coutinho é um dos brasilienses que mais vive a cidade. É sempre um prazer encontrar essa figura elegante, distinta e bem-humorada. Quando se aposentou, ele passou a dedicar-se, inteiramente, a acompanhar a vida cultural brasiliense. Segundo o amigo José Geraldo Sousa Júnior, a presença de Coutinho em um evento é um selo de qualidade.
Por isso, a aparição do nosso personagem é disputada a tapa pelos produtores culturais. Segundo outro amigo, Vladimir Carvalho, Coutinho foi visto, ao mesmo tempo, em três eventos culturais. Formou várias gerações de arquitetos na Universidade de Brasília. Se tivesse poderes para tal, Coutinho gostaria de criar uma lei para que, antes de assumirem cargos públicos, todos os governantes fizessem um curso sobre patrimônio histórico.
Certa vez, Niemeyer visitou a UnB e, ao ser convidado a passar pela Faculdade de Arquitetura, ele se recusou, pois, lá, teria um inimigo: José Carlos Coutinho. Na época, Coutinho sentiu o impacto, mas, com o passar do tempo, o acontecimento virou uma piada. Com toda a genialidade, Niemeyer tinha dificuldade de aceitar reparos à sua obra, mesmo que viesse de admiradores, como é o caso de Coutinho. E, para o professor, o apreço pela cidade e o senso crítico não são incompatíveis. Não é para qualquer um ser “inimigo” de Niemeyer.
O Cine Brasília é uma espécie de segunda casa para Coutinho. Desde que chegou à cidade, ele é um frequentador assíduo do cinema, obra arquitetônica inspirada de Oscar Niemeyer. Quando foi Diretor do Patrimônio Histórico de Brasília, ele e um colega resolveram tombar, em uma só tacada, o Cine Brasília e o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro como patrimônios culturais materiais e imateriais de Brasília. A identificação com o espaço é tão intensa que, independentemente do filme que estiver passando, ele vai ao Cine Brasília na certeza de que encontrará um bom filme ou um amigo.
Ao ser indagado sobre quais seriam as ações marcantes que fez por Brasília, Coutinho inverte a lógica da pergunta. “Não fiz nada, Brasília é que me ofereceu oportunidades que eu não teria em nenhuma outra cidade.” Por exemplo, ele teve a chance de conhecer Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Nelson Mandela, o líder sul-africano mundialmente famoso por ter enfrentado o apartheid.
Adalgisa do Rosário, aguerrida professora de história da UnB, propôs que Mandela recebesse o título de doutor honoris causa da universidade. O líder africano aceitou, a cerimônia seria realizada no auditório da Reitoria. No entanto, havia muita gente e decidiram transferir o ritual para o Auditório Dois Candangos. Logo, perceberam que não caberia. Em seguida, foram para o Auditório da Faculdade de Medicina.
Ocorre que a comunidade negra do DF se mobilizou e ocupou a UnB. Não havia lugar para ninguém mover-se e a reitoria de Antonio Ibanez resolveu outorgar o título a Mandela em um dos jardins da UnB, ao ar livre, em meio a uma multidão de pessoas.
Nos últimos tempos, Coutinho dispensou o carro dirigido por ele e só anda a pé, de táxi, de ônibus ou de uber. É uma outra Brasília que se descortinou para ele, semelhante a que se desvelou para Lucio Costa ao visitar a Rodoviária sozinho e de maneira anônima. Fica impressionado com a educação da gente do povo nos ônibus, que, quando o vê, se levanta e oferece a cadeira para sentar-se. Não se cansa de ter alumbramentos com as árvores retorcidas como esculturas naturais ou com a estação das flores pelas superquadras. Coutinho é uma das pessoas que ensinou a amar Brasília com senso crítico.

