A alienação ambiental

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Severino Francisco

Estava assistindo a um noticiário na tevê quando uma jornalista célebre passou a palavra para a outra colega, com o comentário: “Esse é um assunto do seu coração, meio ambiente”. Mas a colega está equivocada. As ameaças ao meio ambiente se tornaram tão avassaladoras e tão abrangentes que esse não é mais um tema que diga respeito aos ambientalistas, mas, sim, a todos os cidadãos. As mudanças do clima se manifestam de maneira transtornada em forma de secas cruciantes, frios enregelantes, incêndios florestais, mutações nos ciclos das chuvas e desertificação do solo.

Apesar de todos os sinais dramáticos, as excelências da Câmara dos Deputados parecem estar vivendo em outro planeta. Eles votaram um verdadeiro pacote da destruição com o desmonte de políticas socioambientais essenciais para preservar o que nos resta e dar uma esperança de futuro viável. A chamada PL do Marco Temporal defende a tese de que teriam direito à demarcação de terras indígenas apenas as comunidades originárias que vivessem ou disputassem o território até outubro de 1988.

Ora, essa restrição é absurda, uma vez que, desde que os primeiros colonizadores aportaram no país, perseguiram e expulsaram os indígenas de suas terras. Além disso, as excelências esvaziaram as atribuições do Ministério do Meio Ambiente e o Ministério dos Povos Originários e flexibilizaram as leis para permitiriam o desmatamento da Mata Atlântica.

É algo de um desinteligência inominável, pois o primeiro segmento a sofrer as consequências será o agronegócio, com as mudanças climáticas que afetarão o ciclo de produção no campo e provocarão prejuízos incalculáveis. Ontem, houve uma manifestação organizada por diversos coletivos contra o desmonte ambiental. Nem sei quantas pessoas foram, mas me chama a atenção a alienação geral sobre questão gravíssima. A começar pelos meios de comunicação que ainda não perceberam que estamos em uma contagem regressiva dramática em relação ao meio ambiente.

As pessoas saíram às ruas impelidas por motivações absurdas e desrrazoadas: o suposto ativismo judicial, as supostas fraudes do sistema eleitoral, a negação das vacinas, a reivindicação do voto impresso e o pedido por uma ditadura militar. Um monte asnices e de mentiras bombardeadas pelas redes sociais que transformou a militância em uma caça de fantasmas, manipulada pelos robôs eletrônicos e humanos.

Assisti a um documentário sobre política na França e uma cientista política afirmou que, por lá, até os partidos de extrema direita precisam ter um programa de sustentabilidade ambiental, senão perdem completamente a competividade e ficam fora da disputa. Se vão cumprir o programa, é um outro capítulo da história. Por aí, é possível perceber que temos um delay de consciência ambiental, estamos atrasados.

Até líderes e partidos de esquerda são alienados. Os colegas que foram tão importantes para lutar contra o negacionismo da ciência durante a pandemia ainda não acordaram para a relevância do tema. O meio ambiente deixou de ser uma questão para ambientalistas. Quem não for ambientalista não sobreviverá.

Eu disse a alguns estagiários que estava indignado com a falta de indignação. E relembrei algumas canções berradas pelos punks do grupo paulista Fogo Cruzado, durante a década de 1980. Um deles comentou que eu estaria “nostálgico”. Não, nostálgica é a música breganeja, com aquela infindável sofrência sem saída. Meu foco de preocupação é o presente e o futuro.

Estou mesmo é indignado e o único canal que encontrou para expressar o inconformismo foram aquelas canções, das quais faço uma colagem livre para vocês: “Inimizade eu tenho pelas pessoas que se deixam enganar e roubar/Inimizade, inimizade/Gente, qual é?/Eu não sei/Como este mundo vai pra frente/Se só existe delinquente/O mundo vai acabar, o mundo vai acabar/O mundo acabará numa grande explosão/Cegos, surdos e mudos nada ouvirão.”

Severino

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