A livraria de rua que aposta no encontro

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Em uma cidade conhecida pelas grandes distâncias e pelo espaço pensado para os carros, uma livraria de rua insiste em fazer o caminho inverso: aposta na conversa de balcão, na indicação feita por quem leu e no encontro casual entre desconhecidos diante de uma mesma prateleira. A Circulares, localizada na Asa Norte (714/715), nasceu de um acervo pessoal que as sócias Camile Sahb e Ariana Frances começaram a emprestar a leitores.

Inaugurada em 2021, a livraria se tornou um ponto de encontro da literatura contemporânea e da produção independente de Brasília. Entre lançamentos, clubes de leitura, oficinas e rodas de conversa, abre espaço para autores e editoras que dificilmente ganhariam destaque nas vitrines das grandes redes. Em um mercado pressionado pelo comércio on-line, a aposta é simples e antiga: o livro circula melhor quando circula junto com as pessoas.

“Brasília foi pensada para o carro e tem uma vida muito setorizada, então a rua e o encontro espontâneo não são naturais aqui. Uma livraria de rua cria um ponto de parada, um lugar para onde as pessoas se deslocam de propósito, mas também onde esbarram umas nas outras. Já vimos gente de outros bairros atravessarem a cidade para um lançamento e acabar descobrindo a vizinhança. A distância continua existindo, mas o livro dá um motivo para vencê-la”, informa Camile Sahb, sócia-proprietária da Livraria Circulares.

Para Camile, estar à frente da Circulares  é prazeroso e difícil ao mesmo tempo. Segundo a empreendedora, a melhor parte é ver as pessoas conversando sobre livros dentro da sua loja. Em contrapartida, a mais desafiadora é manter a saúde financeira de um negócio que opera com margens apertadas. “Para os custos ficarem baixos, a operação é muito caseira. Jogamos em todas as posições: abrimos caixas, falamos com as editoras e os autores, mantemos as redes sociais ativas, organizamos a agenda de eventos, fazemos a produção. Tudo é muito intenso”, explica.

Em contrapartida, acompanhar as prateleiras cheias de livros que foram selecionados pelas próprias sócias, ver as pessoas falando sobre as histórias e suas leituras são aspectos que mantêm a alegria do local. “Gostamos também de acompanhar o mercado editorial e pensar no que trazer para a livraria”, ressalta. Nesse sentido, as sócias acompanham de perto diferentes tipos de obras para que possam fazer a curadoria da Circulares. “O foco é a literatura contemporânea, com atenção às editoras independentes e a vozes que talvez não tenham tanto espaço nas grandes redes”, ressalta. 

Para isso, a curadoria parte do que dialoga com a comunidade e com os eventos realizados na casa. A livraria também dá atenção ao que os clientes dizem: pedidos e conversas de balcão influenciam o que chega às prateleiras. Como o espaço é pequeno, cada título precisa justificar o seu lugar. E até chegar na loja, o caminho é extenso: “as pessoas não imaginam o tanto de coisa que a gente tem que fazer para o livro estar na prateleira. É um negócio como outro qualquer, exige muita energia, muita atenção, um enorme esforço para fechar as contas no final do mês”, afirma.

Essa programação, aliás, é parte central do negócio. Para a livraria, lançamentos e rodas aproximam leitores e autores, enquanto os clubes criam um hábito e uma comunidade fiel. Muita gente, segundo Camile, entra pela primeira vez por causa de um evento e depois volta no dia a dia. “Ler é uma atividade solitária, mas a conversa sobre o que se leu é coletiva, e é aí que a leitura se prolonga”, diz. As iniciativas também ajudam a formar leitores, o que ela define como a razão de ser do negócio.

Por isso, a oferta de clubes foi ampliada ao longo dos anos. Hoje, a livraria mantém um clube principal, gratuito, além de encontros dedicados à poesia e a livros de não ficção. Neste ano, firmou parceria com o clube do livro do projeto Margens Subversivas, e o Leio Mulheres também realiza seus encontros no espaço. Camile vê, porém, um longo caminho a ser percorrido. 

“Brasília continua muito fora do circuito do livro. Acho que já ajudamos a mudar um pouquinho essa realidade, mas não temos nenhum evento relevante na cidade que aborde literatura”, diz. Para ela, a proposta do Sesc-DF de realizar um festival literário será muito importante para a cidade. Nos dias 17 e 18 de outubro, a capital receberá o Festival Literário do Sesc-DF (FliSesc 2026), com uma programação dedicada à literatura e à cultura no Sesc 504 Sul.

Três perguntas para Camile Sahb, sócia-proprietária da Livraria Circulares:

Como e quando nasceu a ideia de abrir a Circulares?

No meio da pandemia, começamos a fazer um perfil de livros e a emprestar nosso acervo pessoal. Mas a gente estava com vontade de fazer algo no mundo real, vontade de encontrar as pessoas, de conversar ao vivo. A ideia foi crescendo. Nesse mesmo período, começou um movimento, especialmente em São Paulo, da abertura de pequenas livrarias. 

Qual foi o momento mais marcante da história da livraria até aqui?

Tanta coisa já aconteceu nesses cinco anos de vida da livraria. Dizer só um momento é injusto com tanta coisa legal que a gente viveu até aqui. Mas acho que a primeira vez que o Itamar Vieira Junior esteve na livraria nos marcou bastante. Foi uma festa bem bonita, na rua, com 5h de autógrafos, música, leitura dramática ao longo da fila e observamos o quanto as pessoas estavam felizes com aquele momento. Tanto o público, como o autor e, claro, nós duas.

Qual a sua visão sobre o mercado de livros atualmente?

É um mercado que precisa ser olhado com cuidado e atenção, com políticas públicas que valorizem e facilitem a cadeia de produção e circulação do livro. As pessoas falam muito que o livro é caro, e precisamos mudar essa visão. O preço de capa financia toda a cadeia de profissionais: autores, tradutores, revisores, editores, diagramadores. Em geral, o custo de produção de um livro leva muito tempo para se pagar. A questão dos descontos também merece atenção. A concorrência precisa ser justa, e ninguém deveria achar que o livro é mais caro na livraria sem entender o comportamento predatório de algumas plataformas. 

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