Entre tambores e ritmos, o Batukenjé transforma, há duas décadas, a percussão em instrumento de expressão, formação e valorização da cultura afro-brasileira. O grupo de Brasília trabalha com a releitura desses ritmos e atua em quatro principais vertentes, que ampliam sua presença para além dos palcos. Ao promover formação, intercâmbio cultural, inclusão social e difusão cultural, o Batukenjé leva a força da percussão brasiliense a diferentes públicos e territórios.
O nome ‘Batukenjé’ carrega um significado relacionado às culturas e línguas de matriz africana. “O sentido atribuído ao nome é ‘tocar um som para Deus’, ou ainda tocar um som alegre, forte, rico e misturado para Deus. Para nós, esse significado representa muito da essência do grupo: a percussão como expressão de alegria, celebração, encontro, ancestralidade e conexão com o sagrado”, informa Ana Paula Caio Zidorio, assessora administrativa, integrante da Banda Show Batukenjé e esposa de Celin du Batuk.
O início da história se deu em um período de transformação na vida de Celin, marcado pela perda da mãe e pelo processo de luto. Foi nesse contexto que recebeu o convite de um amigo para viajar à Finlândia e ministrar um workshop de capoeira. Durante a experiência, percebeu o interesse dos participantes pela percussão, elemento fundamental nas rodas de capoeira, e a vontade que muitos tinham de aprender a tocar os instrumentos.
De volta a Brasília, passou a ministrar aulas de capoeira em um curso de extensão da Universidade de Brasília (UnB). Ao final dos encontros, costumava organizar uma roda de instrumentos, criando um espaço para que os participantes experimentassem e aprendessem a tocar. Aos poucos, a atividade, que inicialmente complementava as aulas de capoeira, ganhou autonomia e se transformou em uma aula de percussão. Era o início do que viria a se tornar o Batukenjé.
No entanto, a relação com a percussão já fazia parte da trajetória do Célin du Batuk desde a infância. Ainda criança, sem ter instrumentos, ele utilizava baldes e panelas da mãe para acompanhar os grupos de Carnaval que passavam pelas ruas. Mais tarde, ao ingressar na capoeira, passou a aprender os instrumentos utilizados nas rodas, aproximando-se ainda mais da percussão, que se tornou parte fundamental de sua vida.
“Depois, tive contato com algumas pessoas vindas de Salvador que estavam morando em Brasília, como Delmo da Bahia e Mário Brother. Eles foram muito importantes na minha formação e no meu contato com a percussão afro-baiana e afro-brasileira. A partir dessas experiências, comecei a estudar cada vez mais por conta própria. Passei a pesquisar, ouvir, observar, experimentar e buscar diferentes referências dentro da percussão afro-brasileira”, conta Celin du Batuk, diretor artístico e mestre de Percussão do Batukenjé.
Celin conta que se considera um músico autodidata, visto que construiu sua formação fora das escolas formais de música. “Minha formação aconteceu principalmente na rua, nas rodas, na capoeira, na convivência com outros músicos e através da busca constante pelo conhecimento. Foi desse caminho de aprendizado contínuo que fui construindo minha própria maneira de tocar e, posteriormente, de ensinar a percussão”, ressalta.
Grupo familiar
Além da música, o Batukenjé tem na família uma de suas principais bases. Ao lado do mestre Célin du Batuk, esposa, filha e irmã participam da organização, produção e gestão do grupo, contribuindo para sua trajetória ao longo de duas décadas. Essa atuação conjunta faz do Batukenjé não apenas um grupo de percussão, mas também um projeto familiar dedicado à música e à valorização da cultura afro-brasileira.
Atualmente, o Batukenjé reúne diferentes grupos de participantes, considerando suas oficinas, projetos socioculturais e a Banda Show. Nas oficinas abertas à comunidade, realizadas no Parque da Cidade, participam aproximadamente 60 pessoas. “Na Banda Show Batukenjé, o grupo é formado por 11 integrantes”, informa Ana Paula. “Além disso, atualmente estamos desenvolvendo um projeto no Itapoã, voltado para mulheres idosas, com a participação de aproximadamente 20 mulheres. Recentemente, também concluímos o projeto Batukenjé Orquestrado, que circulou por três comunidades do Distrito Federal e envolveu 15 músicos em suas atividades”, acrescenta.
Três perguntas para Celin du Batuk, diretor artístico e mestre de Percussão do Batukenjé:
O que significa para você arte inclusiva?
Para mim, arte inclusiva é a possibilidade de todas as pessoas participarem juntas da mesma experiência artística, independentemente de suas características, limitações ou necessidades específicas. No Batukenjé, isso acontece de uma maneira muito concreta. Pessoas com diferentes idades, capacidades e necessidades participam da mesma aula, tocam os instrumentos juntas e produzem música coletivamente. Não acreditamos que uma pessoa precise ser colocada em uma aula separada ou em uma atividade à parte simplesmente porque precisa de alguma adaptação.
Qual legado você gostaria de deixar?
O principal legado que eu gostaria de deixar é que o Batukenjé se perpetue. Que ele não termine com as pessoas que o criaram, mas que outras pessoas possam dar continuidade a essa história, mantendo vivos os conhecimentos, as práticas, a música e os valores que construímos ao longo desses 20 anos. O mais importante é que o Batukenjé continue existindo, se renovando e sendo vivido por novas gerações.
Como a música pode transformar a vida de uma pessoa?
A música pode transformar a vida de uma pessoa porque ela cria possibilidades de expressão, pertencimento e encontro. No Batukenjé, vemos pessoas que chegam para aprender a tocar e acabam encontrando um espaço de convivência, amizade, autoestima e alegria. A música também pode abrir caminhos profissionais, culturais e sociais. Ela permite que cada pessoa perceba que tem algo a contribuir e que, quando sua contribuição se junta à dos outros, algo maior é construído.

