Juan viu o cansaço de Julio Cesar, Maicon e Lúcio na Copa de 2010 após final da UCL. Foto: RAfael Ribeiro/CBF
Aos 47 anos, Juan Silveira dos Santos é um peça importante no organograma da CBF. O zagueiro titular nas edições de 2006 e de 2010 da Copa do Mundo é o gerente técnico da Seleção. Um dos homens de confiança do técnico Carlo Ancelotti e do diretor Rodrigo Caetano, ele precisa ser ouvido pelo italiano.
Vou explicar o motivo…
Em 2010, Juan formava dupla de zaga com Lúcio no time de Dunga. Por sinal, a mesma dupla escolhida por Carlos Alberto Parreira em 2006. A retaguarda era um dos pontos fortes do Brasil para a campanha na África do Sul. O time liderado pelo capitão do tetra sofria pouco na defesa e tinha uma arma letal: o contra-ataque. Foi assim até a Copa começar na terra de Nelson Mandela. O Brasil tomou gol da Coreia do Norte na estreia e sofreu para vencer por 2 x 1.
A defesa tinha três jogadores importantíssimos: o goleiro Julio Cesar, o lateral-direito Maicon e o xerifão brasiliense Lúcio. O trio jogava no mesmo, a Internazionale da Itália. Antes da Copa, a trupe italiana liderada à época por José Mourinho, alcançou a finalíssima da Champions League contra o Bayern de Munique no Santiago Bernabéu, em Madri. Venceu o jogo por 2 x 0 e os três brasileiros se apresentaram a Dunga campeões europeus.
O que parecia bom na verdade foi ruim. Os três desembarcaram na África do Sul exaustos não somente pela temporada desgastante e a necessidade de entregar até a última gota de suor pela Internazionale, mas pela necessidade de seguir entregando o máximo pelo hexa depois de aquele Brasil ganhar Copa América (2007), Copa das Confederações (2009) e terminar as Eliminatórias Sul-Americana disparado como campeão simbólico, com direito a goleada contra o Uruguai por 4 x 0, em Montevidéu, e triunfo por 3 x 1 contra a Argentina, em Rosário, a terra de Lionel Messi escolhida pela AFA para o clássico.
Como se não bastasse o cansaço físico, pesou o mental. Maicon fez gol na estreia contra a Coreia do Norte. Ao contrário do penta em 2002, Lúcio estava seguro com a faixa de capitão. Juan entregou a excelência de sempre. O problema inesperado aconteceu no gol.
Julio Cesar aterrissou na Copa como melhor goleiro do mundo. Havia feito uma temporada extraordinária pela Internazionale. Controlou quase tudo, menos a exaustão. Isso estourou nas quartas de final contra a Holanda. Cometeu erros que não aconteceriam em condições normais de temperatura e pressão. Trombou com Felipe Melo no primeiro gol de Sneijder. A Laranja Mecânica virou a partida para 2 x 1 e mandou o Brasil mais cedo para casa.
O que Juan tem a ver com isso se ele jogava na Roma à época? Ele jogava na defesa com Julio Cesar, Maicon, Lúcio e Michel Bastos à época. Sabia do peso da temporada da Inter no corpo de três dos cinco companheiros. O cansaço estouraria a qualquer momento. Julio Cesar era um baita goleiro, mas bastou um segundo de desatenção, autoconfiança e exaustão mental para minar o trabalho de um ciclo inteiro.
A defesa do Brasil na Copa de 2026 teve os dois zagueiros na final da Champions League entre Paris Saint-Germain e Arsenal. O Marquinhos e Gabriel Magalhães. O fardo físico e emocional daquele jogo é pesadíssimo. O capitão falhou no primeiro jogo depois daquela decisão. Recua a bola errado para Alisson no lance do gol do Egito. Gabriel Magalhães foi poupado daquela partida devido ao trauma psicológico do pênalti que perdeu para o Arsenal e consagrou o PSG campeão.
O gol do Marrocos no último sábado marcado por Ismael Saibari é uma combinação de erros iniciada com Lucas Paquetá, que estoura justamente no meio da dupla de zaga do Carlo Ancelotti, mal posicionada, e na saída de gol precipitada de Alisson. Tudo errado.
Assim como Carlo Ancelotti, Juan tem experiência dentro das quatro linhas. Uma conversa entre eles sobre a situação de Marquinhos e Gabriel Magalhães é fundamental sob pena de nós vermos o filme de 2010 se repetir devido ao estresse de uma temporada inteira. Isso diz respeito também a Vinicius Junior, o convocado que mais entrou em campo em 2025/2026. Embora fale pouco do vestiário para fora, Juan tem voz ativa internamente e pode ajudar.
Não se trata de tirá-los do time ou poupá-los de jogos, mas de compactar a Seleção, formar um cinturão sólido de proteção aos dois. Lembram de Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho blindando Aldair e Márcio Santos na campanha do tetra em 1994? É mais ou menos por aí… Do contrário, ambos terão de correr mais do que o necessário e o esgotamento pode custar caríssimo ao sonho do hexa.
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