Marco Aurélio, o imperador que virou conselheiro de De la Fuente na Copa

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Enquanto a maioria dos técnicos da Copa do Mundo mergulha em estatísticas, inteligência artificial, vídeos e relatórios produzidos por departamentos de análise de desempenho, Luis de la Fuente, de 65 anos, procura respostas em um homem que morreu há quase 1.900 anos.

O livro de cabeceira do treinador espanhol no Mundial é Meditações, obra escrita pelo imperador romano Marco Aurélio entre os anos 170 e 180 d.C. Não por acaso. Em um torneio decidido nos detalhes e pela capacidade de suportar a pressão, De la Fuente encontrou na filosofia estoica um manual para liderar um grupo jovem com média de idade de 26,9 anos, a mais baixa entre os semifinalistas.

O detalhe mais fascinante é que Meditações nunca foi pensado para chegar às livrarias. Marco Aurélio escrevia para si mesmo. Eram anotações íntimas registradas durante campanhas militares, enquanto comandava as legiões romanas nas fronteiras do império.

Em vez de celebrar vitórias ou registrar feitos políticos, o imperador fazia exatamente o contrário: lembrava diariamente que precisava controlar o ego, dominar as emoções e concentrar sua energia apenas naquilo que realmente dependia dele.

Quase dois milênios depois, essas páginas atravessaram os séculos para desembarcar no vestiário da seleção espanhola.

A conexão é direta.

Para o estoicismo, existem acontecimentos sobre os quais não temos qualquer controle — o erro do árbitro, uma lesão, um desvio da bola, um gol sofrido aos 49 minutos do segundo tempo ou uma disputa por pênaltis. O que permanece sob domínio é a maneira de reagir diante desses acontecimentos.

Essa talvez seja a principal lição de Marco Aurélio para o futebol.

Durante a Copa, De la Fuente citou duas passagens de Meditações que ajudam a compreender a identidade da Espanha. A primeira resume sua gestão de grupo: “A calma é poder”. A segunda explica por que a La Roja se tornou um adversário tão difícil de enfrentar: “O que é mau para a colmeia é mau para a abelha”. Em outras palavras, nenhum talento individual pode valer mais do que o coletivo.

As ideias do imperador romano aparecem, de forma quase invisível, na maneira como a Espanha joga. A equipe não se desespera quando está em desvantagem, raramente perde a organização, aceita sofrer sem abandonar o plano e transmite uma serenidade pouco comum para um elenco cuja média de idade está entre as menores da Copa: 26,9 anos.

Outras reflexões de Marco Aurélio parecem ter sido escritas para uma preleção antes de uma final. “O obstáculo torna-se o caminho” poderia explicar cada dificuldade superada durante uma Copa do Mundo. “Você tem poder sobre sua mente, não sobre os acontecimentos” resume o desafio emocional de qualquer jogador a caminho da cobrança de um pênalti diante de milhões de espectadores.

Talvez seja por isso que Meditações tenha deixado de ser apenas um clássico da filosofia para se transformar em leitura frequente entre líderes, empresários, militares e atletas de alto rendimento. O livro não oferece fórmulas mágicas. Ensina que a maior batalha de qualquer ser humano acontece dentro da própria mente.

Há uma ironia bonita nessa história.

Marco Aurélio escrevia cercado por soldados, administrando guerras decisivas para o futuro do Império Romano. Luis de la Fuente prepara a Espanha cercado por analistas, computadores, fisiologistas e telas de vídeo para disputar a maior partida do futebol mundial.

Os tempos mudaram. As armas também.

Mas a missão permanece praticamente a mesma: conservar a lucidez quando tudo ao redor conspira para que a razão dê lugar ao medo.

X: @marcospaulolima

Instagram: @marcospaulolima.jor

Marcos Paulo Lima

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Marcos Paulo Lima
Tags: Copa do Mundo 2026 espanha estoicismo filosofia no futebol La Roja liderança Luis de la Fuente Marco Aurélio Meditações seleção espanhola

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