Apesar das invenções de moda dos cartolas, feliz ano de Copa do Mundo

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Seja bem-vindo 2022, ano da última Copa do Mundo sob medida. Minha bola de cristal pode estar descalibrada, tomara, mas a profecia apocalíptica é sustentada pelo ataque de uma legião de hereges de fora e de dentro da família Fifa que, a pretexto de democratizar ou dar um F5 no torneio inaugurado em 1930, arrisca miná-lo, desfigurá-lo e até mesmo destruí-lo.

A Copa do Catar, a partir de 21 de novembro, será a última com 32 seleções. Para mim, esse é o número perfeito de participantes. A primeira edição teve 13 países. A segunda contou com 16. A terceira caiu para 15. Voltou a 13 em 1950, e estabilizou-se com 16, de 1954 a 1982. Houve expansão para 24 nações de 1986 a 1994. O último upgrade correto, em 1998, elevou para 32.

Quando o árbitro encerrar a Copa do Catar, em 18 de dezembro, entraremos em uma nova era. O Mundial de 2026 será disputado em três sedes: Canadá, Estados Unidos e México. O número de seleções crescerá de 32 para 48. Em vez dos atuais 64 jogos, a competição passará a ter 80. Provavelmente com direito a mais uma fase de mata-mata batizada de 16 avos, anterior às oitavas de final. Se os cartolas podem complicar, para quê simplificar?

Os engravatados querem mais. Como se não bastasse a Copa do Mundo no fim — e não no meio do ano — para driblar o calor no Catar — e a inflação de seleções em 2026, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, está em uma cruzada insana pela mudança na periodicidade do evento. Ele ignora o calendário caótico do futebol mundial e faz campanha pela redução do intervalo de quatro para dois anos. Na prática, teríamos mais uma edição em 2028 antes do aniversário de 100 anos da Copa, em 2030.

A família Fifa é muito unida, mas também muito ouriçada. Briga por qualquer razão, mas nem sempre acaba pedindo perdão. Infantino não parece disposto a recuar. Uefa e Conmebol resistem. Contrárias à Copa a cada dois anos, Uefa e Conmebol articulam a inclusão das 10 seleções da América do Sul na Liga das Nações. Protótipo, talvez, de uma elitizada Copa Euroamericana.

A Fifa acerta no rodízio da Copa pelos mais variados continentes. Levou ao Japão e à Coreia do Sul, em 2002; à África do Sul, em 2010; e quebrará novo paradigma ao realizá-la pela primeira vez em uma nação árabe em 2022, mas mexer na fórmula perfeita do torneio é pecado capital.

Infantino caiu na tentação da vaidade. Quer superar o antecessor dele. Joseph Blatter fracassou na tentativa de transformar a Copa do Mundo em bienal. Em vez de unir, dividiu a Fifa na virada do século. Até quem o catapultou ao poder, o brasileiro João Havelange, considerou “ideia de jerico” e calou-se diante da teimosia. “Vou lutar com todas as minhas forças para que ela seja aprovada”, avisou Blatter, em 1999. Ele deixou a entidade pela porta dos fundos e a Copa segue quadrienal.

Enquanto os cartolas fazem de tudo para quebrar o encanto do Mundial, sugiro a você curtir a edição do Catar como se não houvesse amanhã. Afinal, ano vai, ano vem, uma espécie sobrevive: o estraga prazer. Para esses perfis de cartola, o torneio jamais estará sob medida.

Apesar deles, feliz ano de Copa!

Coluna publicada neste sábado (1/1/2022) no Correio Braziliense

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Marcos Paulo Lima

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