Autor: Denise Rothenburg
Com a aprovação do impeachment hoje, o presidente em exercício, Michel Temer, ajustará o foco para baixar a poeira da luta interna em sua base aliada. E a batalha da largada que se desenha no horizonte é pela Presidência da Câmara. O cargo é almejado por tucanos, sonhado pelos integrantes do Democratas e, de quebra, desejado pelo antigo “centrão”, que planeja comandar a Casa, para compensar a derrota de Rogério Rosso para Rodrigo Maia (DEM-RJ).
De todos esses, quem vai jogar com todas as armas de que dispõe é o PSDB. Assim, o partido ficará com o controle da pauta do Congresso, com a vice-presidência da República e terá assento no núcleo duro do governo, onde hoje os tucanos estão à margem. Nessa linha, dizem alguns, Temer terá que decidir: é pegar ou largar. Nunca é demais lembrar que foi a briga pela Presidência da Câmara o estopim da frágil aliança do governo Dilma Rousseff no início de 2015, abrindo caminho à votação de hoje. A missão do governo é não deixar a história se repetir.
Lá e cá
O discurso do senador Aécio Neves em defesa da advogada Janaína Pascoal, ontem pela manhã, assustou os peemedebistas. Foi tão voltado à preservação da instituição Senado que alguns interpretaram como palavras de um pré-candidato a presidente da Casa. Nada disso. O jogo do tucano é apoiar o candidato do PMDB no Senado (Eunício Oliveira) e buscar a reciprocidade para que o PSDB presida a Câmara.
Jogo jogado
Os próprios aliados da presidente Dilma Rousseff comentavam reservadamente, ontem, no fim da tarde, que estavam esgotadas as chances de reverter votos. Eles tentaram ainda levar o senador Davi Alcolumbre, do DEM do Amapá, a votar contra o impedimento da presidente Dilma Rousseff. Mas a ida de Abelardo Lupion para a Itaipu Binacional cortou as esperanças dos petistas.
A disputa de hoje
A ideia dos petistas é apresentar um destaque para votar separadamente a perda dos direitos políticos da presidente Dilma Rousseff por oito anos. Há quem aposte que é aí que o bicho vai pegar.
Os protetores de Cunha
Líderes de nove partidos, mesmo cobrados pelo PSol e Rede no plenário da Câmara, se recusaram a assumir o compromisso público de colocar suas bancadas na Casa em 12 de setembro para votar o processo de cassação do ex-presidente Eduardo Cunha. São eles: PMDB, PP, PTB, PR, PSD, SD, PV, PHS e Pros.
Os algozes de Cunha
A ideia dos líderes do Psol, da Rede, do PT, do PDT, do PCdoB e do PSB, que se mobilizam para votar logo a cassação de Cunha, é levar o tema às campanhas de candidatos desses partidos a vereador e prefeito pelo país afora, a fim de constrangê-los e forçar os deputados a dar quórum e votar o processo contra Cunha.
CURTIDAS
Santinho!/ A presidente Dilma Rousseff registrou algumas ausências entre seus apoiadores. Citou textualmente Cid Gomes (foto), nomeado ministro da Educação em seu governo contra tudo e contra todos, inclusive o PT.
Santinhos!/ Também ficou na memória a falta dos governadores do partido: Rui Costa, da Bahia; Wellington Dias, do Piauí; Camilo Santana, do Ceará; e Tião Vianna, do Acre.
Não tem preço/ O choro de José Eduardo Cardozo deixou a presidente Dilma emocionada ontem. Se tem alguém de quem ela não se esquecerá e defenderá sempre que puder é o seu ex-ministro. O mesmo vale para a senadora Kátia Abreu.
De professor para professor/ Cristovam Buarque (PPS-DF) registrou ontem que Dilma repetiu Fidel Castro, que, ao deixar o poder, proclamou que a história o absolveria. Na verdade, lembra o deputado Chico Alencar, do Psol, a frase de Fidel foi dita bem antes de o comandante chegar ao poder, quando foi preso ao liderar o ataque ao quartel de Moncada e condenado a 15 anos de cadeia. “O jovem advogado fez sua própria defesa, memorável, em 1953, na ditadura de Fulgêncio Batista.”
Rádio Câmara em expansão/ Não será por falta de canal que o contribuinte vai deixar de acompanhar o trabalho dos deputados. O deputado José Priante (PMDB-PA), novo secretário de Comunicação da Casa, acaba de emplacar a compra de transmissores a fim de expandir a rede legislativa de rádio e tevê para São Luís, Salvador e… Belém. Sabe como é… Em política, quem faz milagre é o santo de casa.
Nove em cada dez senadores ouvidos pelo blog consideraram que Dilma cumpriu o seu papel nas 14 horas de exposição no Senado. Porém, diante de um colegiado que já está “com a cabeça feita”, o saldo do dia foi o gesto de comparecer ao Parlamento, numa demonstração de apreço ao Legislativo, algo que Dilma raramente demonstrou enquanto comandava o país. Quanto aos votos, que era o que Dilma mais queria, o Senado ficará devendo. O governo Temer calcula ter fechados 59 votos pró-impeachment, podendo chegar a 61. Já o governo Dilma,que obteve 21 na pronúncia do processo, terá, na melhor das hipóteses, 22 votos.
As primeiras horas da presença de Dilma no Parlamento foram consideradas um gol de placa pelo PT. Ela acertou no tom, abordou todos os temas, foi incisiva sem ser arrogante ou agressiva. Ao longo dia, entretanto, Dilma foi ficando cada vez mais Dilma. Como se ainda estivesse com a faca e o queijo do poder nas mãos, o que fazcom que muitos permaneçam refratários.
Os ex-ministros do governo e o presidente do PT,Rui Falcão, ficaram até o último minuto. Lula saiu antes. Iria participar de um ato pró-Dilma. O ex-presidente acompanha, conversa com senadores, ficará ao lado dela, mas também nõ acredita muito em milagres.
Depois de acompanhar a exposição de Dilma ao longo do dia, a cúpula petista praticamente considerou cumprida a sua missão com Dilma. No geral, os petistas querem agora virar essa página e partir para a oposicão. Com a economia em frangalhos, dizem alguns, o melhor mesmo é ficar agora na posição de ataque ao governo em exercício e trabalhar para voltar em 18.
O presidente do Senado, Renan Calheiros, cedeu a sala de audiências da Presidência da Casa para que Dilma Rousseff possa ficar num local mais reservado na hora que chegar ao Senado, na segunda-feira.
Experiente em antecipar movimentos politicos, o senador Renan Calheiros comentava há pouco na sala de café do Senado que um dos momentos de maior polêmica pós a visita de Dilma nesta segunda-feira deve ser a definição de votação em dois tempos, um para o afastamento, outro para a perda dos direitos políticos por oito anos. É que, no período de análise do impeachment de Fernando Collor, os senadores fizeram duas votações porque ele renunciou horas antes da votação. Agora, ainda que Dilma não renuncie, o PT quer repetir a dose para abrir a possibilidade de Dilma concorrer a um mandato eletivo em 2018, se essa for a sua vontade.
A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) também falou há pouco. Ela disse que Renan agora colocou a verdade dos fatos, uma vez que ela não era indiciada naquele processo. “Foi no calor da hora, agora está esclarecido”,disse. Ou seja, a vida segue e o processo também. A tarde nos reservou um debate morno, que, pelo ânimo dos senadores, promete continuar até à noite.
“Sou a única pessoa que conversa com todos os lados da República”
O presidente do Senado, Renan Calheiros, está arrependido da confrontação em plenário hoje pela manhã. Em entrevista na sala de café dos senadores, ele falou em “ressaca” pós-confronto. Considerou que os petistas Lindbergh Farias, Gleisi Hoffmann e, ainda, Vanessa Graziotin,do PCdoB, provocaram-no para tirá-lo da neutralidade que marcou a atuação ao longo do processo enquanto presidente da Casa.”É injusto e desproporcional me transformar em personagem do impeachment”,comentou. “Sou a única pessoa que conversa com todos os lados da República”, completou.
Renan lembrou que, desde o afastamento de Dilma, esteve com ela três vezes,também jantou com Michel Temer e tem atuado de uma muito diferente daquela adotada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Hoje,entretanto, diante das provocações, ele disse que cometeu “um erro”. O que não significa que esteja decidido a votar a favor do impeachment. “Ainda não me decidi. A tendência é me abster. O presidente do Senado tem uma responsabilidade institucional, mas ainda não me decidi”,disse ele. “Eu não gosto de me explicar repetindo várias vezes que estava arrependido da confrontação,”que não é do meu estilo”, disse ele, par, em seguida,completar: “Eu também não gosto de me explicar. Prefiro que me interpretem”, referindo-se ao fato de não ter anunciado até o momento como votará quando chegar a hora
Ao longo da conversa com os repórteres, Renan lembrou as várias provocações que ouviu nos últimos dias, com referências ao jantar dele com o presidente em exercício, Michel Temer; e até declarações tentando depreciar o Senado, por exemplo, o fato de Gleisi Hoffmann dizer que a Casa não tinha moral para votar o impeachment de Dilma Rousseff. O senador lembrou inclusive que já havia terminado o seu discurso, quando, diante das provocações ao seu redor, voltou ao microfone e citou o fato de ter ajudado a desfazer o indiciamento de Gleisi da Polícia Federal.
Ele, entretanto, se referia à busca e apreensão na casa da senadora, quando da prisão do marido dela, o ex-ministro Paulo Bernardo. A senadora,entretanto, não está relacionada à suspeita de favorecimento de empresa e pagamento de propina no caso de recursos dos empréstimos consignados. Gleisi à época pediu que a Presidência do Senado intercedesse para que não houvesse mais busca e apreensão na residência oficial. Renan atendeu. Ontem, na sala de café, brincou:”Vamos aproveitar a reforma do código Penal e propor um agravamento da pena por ingratidão”, disse ele.
Ciente de que não tem os 27 votos para preservar o mandato de Dilma Rousseff, os petistas partiram para a tática de provocar os senadores aliados a Michel Temer. O primeiro tiro foi dado ontem pela senadora Gleisi Hoffmann, dizendo que a Casa não tinha moral para julgar Dilma Rousseff. Hoje, continuou com o senador Lindbergh Farias (PT-RJ).
O PMDB engoliu a corda. O presidente do Senado, Renan Calheiros, ensaiou um discurso de pacificação na Casa, porém, na hora de falar, tropeçou nos verbos e nos adjetivos, mencionando as manobras do PT como de “uma burrice infinita”. E, se levado ao pé da letra, confessou ainda interferências no Judiciário, ao dizer que havia ajudado a “desfazer” o indiciamento de Gleisi no Supremo Tribunal Federal. Longe dos microfones, Gleisi reagiu: “Mentiroso, canalha!”
O clima está quente, a sessão suspensa e, pelo andar da carruagem, o PT até aqui conseguiu o que queria: atrasar o calendário. Os aliados de Temer vão tentar recuperar esse atraso evitando perguntas às testemunhas. Vejamos o que esta tarde nos reserva.
O presidente do STF, Ricardo Lewandowski, acaba de dispensar o procurador Júlio Marcelo enquanto testemunha. Porém, permitiu que o procurador seja arguido enquanto informante. Logo, do ponto de vista processual, Cardozo ganhou. Mas, do ponto de vista político, Júlio Marcelo vai falar. Logo, noves fora… Segue o baile!!! São 31 senadores inscritos para interrogar o, agora, informante júlio Marcelo.
Depois das discussões desta manhã, primeiro dia do julgamento da presidente Dilma Rousseff, o ex-ministro José Eduardo Cardozo vai arguir daqui a pouco a suspeição do procurador Júlio Marcelo enquanto testemunha do processo. “As testemunhas têm que ser isentas e ele tem interesse no processo, foi militante político em favor da tese do impeachment. Não tem isenção para ser testemunha”, diz o ex-ministro, que aproveita o intervalo de almoço para conversar com alguns senadores da base aliada da presidente Dilma Rousseff.
O ex-ministro esteve com Dilma ontem, antes do ato no teatro dos Bancários, um evento que deixou a desejar em termos de público e, para completar, não contou com as estrelas do PT. A presidente acompanha o processo pela TV, no Alvorada. Assistiu pela manhã e deve prosseguir hoje à tarde. Ela assiste até para usar alguns elementos no discurso que fará na segunda-feira.
Em tempo: diante dos atrasos __ até agora nenhuma testemunha foi ouvida __, a expectativa dos senadores é de sessões no fim de semana.
A leitura política dos peemedebistas sobre a presença do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes, na solenidade Agro+, ontem no Planalto, foi muito além dos simples laços de amizade que une o magistrado e o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, ambos de Mato Grosso. Deputados e senadores saíram do evento com a convicção de que Mendes não patrocinará nada que possa jogar o presidente em exercício, Michel Temer, no cadafalso.
Dois pedidos…
O Solidariedade, do deputado Paulinho da Força, conta com a criação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Porém, a Frente Parlamentar de Agricultura (FPA) prefere um órgão sem status de ministério que faça a regularização dos assentamentos já concretizados, e do sistema fundiário, com muita assistência técnica, deixando a parte de cestas básicas para o Ministério do Desenvolvimento Social.
…Uma enrolação
O presidente em exercício, Michel Temer, não disse nem sim nem não à FPA. Afirmou apenas que a solução será discutida com os deputados que integram o grupo, considerado a mais poderosa organização suprapartidária do Congresso.
Eles e elas
Quem acompanha de perto a guerra entre as distritais Celina Leão e Liliane Roriz só tem um receio: que as duas terminem no fosso. Foi assim, quando da disputa entre os senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho nos idos de 2000. Um puxou o outro
para baixo.
O que dá cadeia
É bom o grupo de distritais afastados da Câmara Legislativa pensar duas vezes antes de esconder documentos: o ex-senador Delcídio do Amaral foi para a cadeia por tentativa de obstrução da Justiça. O mesmo ocorreu com José Roberto Arruda, que escapou da prisão quando do estouro da Caixa de Pandora, mas terminou preso, acusado de subornar testemunha.
Sem intermediários
Uma das questões de ordem que promete tomar um bom tempo hoje será sobre se os senadores podem ou não fazer perguntas diretamente à presidente afastada na segunda-feira ou terão que se dirigir ao presidente da sessão, ministro Ricardo Lewandowski, que, por sua vez, repetirá a questão para Dilma. A turma pró-impeachment prefere perguntar diretamente.
Curtidas
Seguro morreu de velho/ O presidente em exercício, Michel Temer, só viajará para a China depois da exibição de seu pronunciamento pós-impeachment. Ainda que perca o seminário empresarial em Xangai, seu primeiro compromisso, seguirá o conselho de Ulysses Guimarães: “Não existe vácuo de poder”.
Sessão coruja I/ Os cálculos dos senadores preveem 48 horas só para a oitiva das oito testemunhas. Logo, a aposta é a de que haverá sessão no sábado. Para a última fase, fala dos senadores, da defesa e da acusação, a ordem é seguir madrugada adentro.
Sessão coruja II/ Rígido no quesito horário, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski (foto), passou boa parte das reuniões para definição do rito de impeachment, preocupado com a hora de encerrar as sessões. Rápido, um senador respondeu: “O senhor não se preocupe, que aqui o pessoal está acostumado a dormir tarde”. Para quem não se lembra, a aceitação do processo no plenário do Senado terminou 6h30 da matina. E a pronúncia, 2h40.
Dilma e Getúlio/ Aliados da presidente Dilma Rousseff ficaram atônitos quando o senador petista Lindbergh Farias leu a carta-testamento de Getúlio Vargas ontem no plenário, como forma de marcar os 52 anos da morte do ex-presidente. Otto Alencar, do PSD da Bahia, foi tirar satisfações: “Ei, que é isso? Num momento como esse? Ele cometeu suicídio! Você quer que a Dilma se mate?”

