A partir de hoje temos o desafio de construir uma Sociedade do Cuidado
Cosette Castro & Natália Duarte
Brasília – O texto de hoje foi escrito ainda sob o impacto do resultado das eleições do domingo e sua repercussão mundial.
O Brasil está de parabéns. No segundo turno houve a menor taxa de abstenção dos últimos 20 anos: 19,2%. E ocorreu uma redução de 1,83 milhão no número de votos brancos e nulos.
Isso mostra que, em todas as gerações, a população estava preocupada com o futuro do país. Elas e eles, apesar das dificuldades, fizeram questão de sair de casa para construir o futuro. Juntas e juntos mostraram que cada voto importa.
Hoje quem escreve no Blog é a professora da UnB, Natália Duarte, que faz parte da coordenação do Coletivo Filhas da Mãe. Ela reflete sobre os dias que virão.
Natália Duarte – “As eleições terminaram. As urnas falaram. E, como acontece em toda democracia viva, algumas pessoas estão felizes, outras frustradas, muitas esperançosas e outras estão preocupadas com o futuro.
Mas existe algo que merece ser celebrado por todos nós: a democracia. A possibilidade de escolher, discordar, debater, votar e conviver apesar das diferenças.
Essa conquista da humanidade não foi simples nem rápida. Foram séculos de lutas para que o poder deixasse de pertencer a poucos e passasse, ao menos em parte, para as mãos da sociedade.
As eleições também deixaram uma mensagem clara. Não existe consenso político no Brasil. Somos um país desigual, diverso, plural, atravessado por diferentes histórias, necessidades e visões de mundo.
Ignorar essa realidade apenas aprofunda a fratura que hoje atravessa famílias, amizades, coletivos, comunidades e territórios.
O resultado das urnas nos convida menos à comemoração de um lado sobre o outro e mais ao desafio de reconstruir pontes.
No Coletivo Filhas da Mãe acreditamos que existe uma dimensão da política frequentemente esquecida em meio às disputas partidárias: as políticas públicas.
São elas que determinam se uma pessoa idosa com demência terá acesso a um centro-dia, se uma família conseguirá cuidar de alguém com demência sem adoecer junto, se haverá apoio às cuidadoras familiares e profissionais.
Ou se saúde, educação, assistência social, mobilidade urbana, cultura, lazer estarão presentes na vida cotidiana das pessoas.
A humanidade percorreu um longo caminho para construir instituições capazes de promover o bem-viver coletivo. Esse caminho está longe de terminar.
O envelhecimento da população, o aumento dos casos de demência, as transformações das famílias e do mundo do trabalho exigem novos arranjos e novas respostas. Exigem a construção cotidiana de uma Sociedade do Cuidado.
Independentemente do candidato em quem cada pessoa votou, a vida continua nos convocando para tarefas comuns.
Hoje milhares de filhas, noras e netas acordaram para cuidar. Esposas cuidarão de maridos. Filhos cuidarão de pais. E alguns maridos cuidarão das esposas.Muitas pessoas enfrentarão, mais uma vez, os desafios da demência e da dependência sem apoio suficiente.
Por isso, encerrado o tempo da disputa, queremos abrir o tempo da construção. Sair da disputa eleitoral e nos voltarmos para o cuidado como projeto de sociedade. Algo que o Coletivo Filhas da Mãe tem feito desde dezembro de 2019.
Convidamos todas as pessoas a se somarem à luta por uma vida mais digna para todas as pessoas, inclusive as idosas que vivem com demência, para suas famílias e para quem cuida.
Porque, no fim das contas, haverá sempre diferenças sobre os caminhos. Mas o cuidado pode e deve ser o ponto de encontro.”
PS: Após o resultado das urnas, o Presidente Lula se comprometeu a reforçar a Política Nacional de Cuidados. E também informou que o novo governo vai ênfase à segurança e ao bem viver das mulheres e das pessoas idosas.

