Filhas da Mãe Estão Chegando

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Cosette Castro

Brasília – A cultura brasileira está em festa. Em menos de um mês ganhamos o Globo de Ouro com o Filme “O Agente Secreto” e no domingo o prêmio Grammy de melhor álbum para “Caetano e Betânia ao Vivo”.

Enquanto isso, de Norte a Sul do país milhões de pessoas preparam suas fantasias para brincar no carnaval. Mas há quem pense que carnaval é só brincadeira.

O carnaval é  muito mais do que  samba, axé, frevo, maracatu, pop ou cirandas que se espalham por bairros, cidades e na zona rural. Carnaval é cultura popular na veia. É arte, folia e fantasia, mas também, no nível individual, é  uma forma de abrir-se para o mundo.

Abrir-se para o mundo pode ser difícil para algumas pessoas. Ainda mais quando elas precisam se tornar mais fortes para enfrentar os desafios cotidianos dos cuidados de pessoas com demências, com outras doenças ou de pessoas com deficiência.

Durante os anos de cuidado familiar, independente da idade e de quem é cuidado,  a pessoa cuidadora vai perdendo direitos básicos. Inclusive, para muitas, o direito à alegria e à brincadeira.  Isso é um processo. Não acontece do dia para a noite.

Quem cuida sem remuneração vai se tornando invisível. Vai sendo invisibilizada pela família e pela sociedade. E, a partir dessa silenciosa violência cotidiana,  muitas vezes, quem cuida passa a praticar a auto-invisibilidade. Na maioria dos casos, sem nem se dar conta.

Ao não ter muito tempo livre, quem cuida vai deixando de lado os  projetos de vida. Os pequenos e grandes prazeres. E com isso vai deixando de olhar para si mesma.

É a última a tomar banho, come quando dá tempo, dorme com um olho aberto e uma orelha esticada. E com o tempo, a vida fica restrita ao mundo da doença e do cuidado, familiar e/ou doméstico.

Some-se a isso a sobrecarga física e mental diária, não é de estranhar que algumas cuidadoras famíliares tenham dificuldade até de se olhar no espelho.

Para trabalhar a dificuldade de autocuidado, consequência das exigências do tempo de cuidado e outras questões pessoais, fazer acompanhamento terapêutico é essencial. Dar-se ao direito à brincadeira e à fantasia, também.

Socialmente pode parecer que “não é certo sorrir e brincar em meio a doença”. E há, inclusive no imaginário popular,  a ideia de quem quem cuida é uma pessoa séria, perfeita, que cuida alguém com fragilidade. Mas diferente dessa ideia, a seriedade não exclui o direito à existência e  à alegria para quem cuida. Já a perfeição, essa é uma meta impossível de alcançar já que somos humanas.

A seriedade no cuidado tampouco exclui o direito ao riso, a burlar, a se fantasiar, a cantar e dançar. E principalmente, não exclui o direito a brincar e sonhar, em meio as cores alegres do carnaval,  ao confete e  a serpentina, mesmo que seja apenas por algumas horas.

Não foi por acaso que o Coletivo Filhas da Mãe criou o bloco Filhas da Mãe e brinca nas ruas de Brasília desde  janeiro de 2020. Também brincamos online durante a pandemia e voltamos às ruas em 2023.

Somos o primeiro bloco do Brasil a falar e cantar sobre memória, cuidado e demência de forma leve. A transformar dor em alegria, medo em brincadeira e a ocupar a cidade lembrando que a música é a última memória que se perde.

Em 2026 mais uma vez voltamos às ruas de Brasília convidando quem cuida a levar toda a família, amigas e vizinhas para nossas atividades de Esquenta Carnaval e também de Pós-Carnaval.

Confira abaixo a programação:

1.Oficinas de Samba no Pé

Dias 03 e 05/02, terça e quinta-feira

Novo horário: das 14h30 às 15h30

Onde:Espaço Longeviver (Quadra 601 Asa Sul Ed. Providência)

2.Oficina de Adereços

Dia 07/02, sábado,

Onde: Loja Colaborativa Pé de Árvore (Quadra 411, bloco A, Asa Sul)

3.Esquenta Carnaval 2026

Dia 08/02, domingo

Onde: Beco da Infinu (Quadra 506 Sul), das 14h às 17h

Com as fanfarras Capivareta Repercussiva e Me Chame Pelo Nome

4.Pós-Carnaval 2026 – Dia 22/02, domingo

Cosette Castro

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