Autocuidado? Eu?

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Ana Castro & Cosette Castro

Brasília – Autocuidado é quase um mantra para o Coletivo Filhas da Mãe.

Pode parecer provocação falar sobre isso para quem é cuidadora familiar e mal tem tempo de ir ao banheiro. Mas não se trata apenas de cortar o cabelo e cuidar das unhas. Isso não é autocuidado. Este é um aspecto da higiene íntima, básica. E quando alguém não consegue fazer o básico por falta de tempo, é hora de parar e encontrar um tempo para pensar no que anda fazendo.

Isso pode ocorrer quando você está cuidando de uma pessoa querida. Às vezes vem aquele sentimento de impotência e parece que não vai ser possível dar conta de tanto trabalho, estresse, frustração, medo e solidão. E até esquece de olhar para si.

Este é o momento de colocar os pés no chão, dar três pulos e tocar em todo o corpo. Pra ter certeza de que você existe. Que é você mesma. Para estar segura de que você é – e precisa ser – prioridade neste e em todos os momentos.

Lembra da aeromoça no avião dizendo que, na hora de colocar a máscara, primeiro tenho de colocar em mim para depois ajudar os demais? Na vida cotidiana também é assim. É uma questão de saúde física e mental. De sobrevivência.

É preocupante quando alguém diz que “está tudo bem” ou “Eu dou conta “. Não somos heroínas nem deusas, embora muitas vezes assumamos – no nível imaginário – esse papel. E tentemos, sem sucesso, controlar tudo.

Há pessoas que desejam “salvar” o familiar com demência. Impossível. Esta é uma doença sem cura e, por mais carinho e cuidado, a saúde do paciente vai decair dia após dia. Inesperadamente ou não. De uma semana para outra. E isso pode ocorrer ao longo de uns 20 anos.

Tem gente que imagina que está em uma missão. É uma forma de encarar o desafio de lidar com as demências. Mas vale lembrar que “a missão” ocorre no plano terrestre, sem milagres. Ficar em segundo plano, dia após dia, não será suficiente. As demências são irremediáveis.

Outras pessoas escolhem o sacrifício pessoal. Há um desejo (inconsciente) de quase santificação por parte da cuidadora familiar, mesmo que tudo ao seu redor esteja desmoronando. Inclusive a própria vida.

É difícil aceitar, mas somos apenas humanas, cheias de falhas e preconceitos. Sim, particularmente preconceitos contra cuidadoras profissionais e contra instituições de longa permanência para idosos (ILPIs).

Quem não escutou a pérola: “só eu sei cuidar bem da minha mãe”. Pode até ser verdade. Mas qual o preço a pagar?

A frase evidencia perfeccionismo. Mostra o desejo de alcançar patamares (emocionais, físicos e financeiros) de cuidado, em geral, inalcançáveis. Esses patamares de perfeição podem, inclusive, afastar as pessoas, como os familiares e amigas.

Boa parte das cuidadoras familiares esquecem sua própria vida. Trabalho, projetos, sonhos, marido, afetos. Até filhos correm o risco de ficar em segundo plano. Sexualidade, prazer? Nem pensar. O cansaço e o familiar enfermo estão em primeiro lugar.

E aí reside o perigo. Toda vez que abdicamos de nós, uma luzinha interna acende.

Podemos não prestar atenção, mas ela está lá. Aparece na forma de insônia, choro, irritação, compulsão (comida, doces, bebida, medicações, jogos, séries), medos, fobias, síndrome do pânico ou dores no corpo. Em geral, ignoramos os sinais. Ou deixamos pra lidar com eles depois.

Criamos o Coletivo Filhas da Mãe em 2019 pensando nisso. Em apoiar cuidadoras familiares, estimulando o cuidado e o autocuidado. Criando espaços de riso, alegria, arte e leveza.

Pensamos nas pessoas que se tornam cuidadoras compulsoriamente. Sem escolha ou formação. A maioria cai na teia do cuidado por “obrigação amorosa” e vai se enroscando mais, dia após dia. Até não saber como sair.

Autocuidado começa de forma individual, com pequenas coisas. De um banho quente demorado, passando pela revisão dos dentes ou uma noite de sono completa. Para isso é preciso organização e disciplina. Você organiza o tempo do familiar doente. Sugerimos presentear a si mesma com a organização do seu próprio tempo. Isso não é egoísmo. É um ato de amor por si mesma.

Sugerimos abrir espaços no dia para estar sozinha. Ler ou ouvir música, caminhar de máscara (sem levar a pessoa enferma nem o cachorro a tiracolo). Pra fazer algo que goste. Aliás, você ainda lembra das coisas que gosta?

Nós, do Coletivo Filhas da Mãe, convidamos a você a lembrar do tempo em que você era você. Do tempo em que você ria sem culpa.

Autocuidado não existe apenas no plano individual. Ele cresce e se fortalece ao ser exercitado em grupo. Grupo de apoio, de amigas, terapias de grupo, exercícios físicos em grupo, meditação, canto ou dança online. Há várias possibilidades, muitas gratuitas.

O autocuidado é uma prática individual exercitada no coletivo.  Com ajuda mútua e companheirismo,  olhamos para dentro e também olhamos para o lado. Vemos o que está ocorrendo no mundo, para fora da janela. E  podemos crescer juntas, mesmo em tempos de pandemia e vida virtual.

Hoje  completamos dois meses de publicação. Convidamos você a responder o nosso questionário online.

Cosette Castro

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