Cosette Castro
Brasília – Cuidado Coletivo e Autocuidado são quase mantras no Coletivo Filhas da Mãe.
Pode parecer provocação falar sobre autocuidado para quem é cuidadora familiar e mal tem tempo de ir ao banheiro. Quando uma pessoa não consegue fazer o básico por falta de tempo, é hora de parar para pensar no que anda fazendo.
Isso pode ocorrer quando você está cuidando de um familiar que necessita atenção contínua. Às vezes vem aquele sentimento de impotência e parece que não vai ser possível dar conta de tanto trabalho, estresse, frustração, medo e solidão.
Este é o momento de colocar os pés no chão, dar três pulos e tocar no seu corpo. Pra ter certeza de que você existe. Que você é você mesma. Para estar segura de que você é – ou deveria ser – prioridade neste e em todos os momentos.
Lembra da aeromoça no avião dizendo que, na hora de colocar a máscara de oxigênio, primeiro é preciso colocar em si para depois ajudar os demais? Na vida cotidiana também é assim. É uma questão de sobrevivência.
É preocupante quando alguém diz que “Está tudo bem” ou “Eu dou conta “.
Não somos heroínas nem deusas, embora muitas vezes assumamos – no nível imaginário – esse papel. E tentemos, sem sucesso, controlar tudo.
Há pessoas que desejam “salvar” o/a familiar com demência. Impossível. As demências são síndromes progressivas e sem cura. Por mais carinho e cuidado, a saúde de quem recebeu o diagnóstico vai decair.
O declínio por ocorrer inesperadamente. De uma semana para outra. E isso pode ir ocorrendo ao longo de uns 20 anos.
Tem quem imagine que está em uma missão. Essa é uma forma de encarar o desafio de lidar com as demências ou outras doenças sem cura. Mas vale lembrar que “a missão” ocorre no plano terrestre, sem milagres.
A cuidadora ficar em segundo plano, dia após dia, não será suficiente. E, pior, pode adoecer física e mentalmente quem cuida.
Há pessoas que escolhem o sacrifício pessoal. Há um desejo (inconsciente) de quase santificação por parte da cuidadora familiar. Mesmo que tudo ao seu redor esteja desmoronando.
Somos apenas humanas, cheias de falhas e preconceitos. Sim, preconceitos. Contra cuidadoras profissionais (que “não cuidam bem”) e contra instituições de Longa Permanência para Pessoas idosas (ILPIs), às vezes, é o único local possível, dependendo do caso.
Quem não escutou a pérola: “só eu sei cuidar bem da minha mãe, do meu marido”. Pode até ser verdade. Mas qual o preço a pagar?
A frase revela perfeccionismo. Mostra o desejo de alcançar patamares (emocionais, físicos e financeiros) de cuidado, em geral, inalcançáveis. Esses patamares de perfeição podem, inclusive, afastar outras pessoas, como familiares e pessoas amigas.
Boa parte das cuidadoras familiares esquecem sua própria vida.O tempo de cuidado tira trabalho, projetos, sonhos, marido, afetos. Até filhos correm o risco de ficar em segundo plano. Sexualidade? prazer? Nem pensar. O cansaço e a/o familiar enferma/o estão em primeiro lugar.
E aí reside o perigo. Toda vez que abdicamos de nós, uma luzinha interna acende. Podemos não prestar atenção, mas ela está lá.
Aparece na forma de insônia, choro, irritação, compulsão (comida, doces, bebida, medicações, jogos, séries), medos, fobias, síndrome do pânico ou dores no corpo. Em geral, ignoramos os sinais. Ou deixamos pra lidar com eles depois.
No Coletivo Filhas da Mãe acolhemos as pessoas que se tornam cuidadoras compulsoriamente. Sem escolha ou formação. A maioria cai na teia do cuidado por “obrigação”, nem sempre amorosa, e vai se enroscando mais, dia após dia. Até não saber como sair.
Autocuidado começa de forma individual, com pequenas coisas. De um banho quente demorado, passando pela revisão dos dentes ou uma noite de sono completa. Para isso é preciso organização e disciplina.
Você organiza o tempo da pessoa que está doente. Sugerimos presentear a si mesma com a organização do seu próprio tempo. Isso não é egoísmo. É sobrevivência. E um ato de amor por si mesma.
Sugerimos abrir espaços no dia para estar sozinha. Ler ou ouvir música, caminhar sem levar a pessoa enferma nem o cachorro a tiracolo. Fazer azer algo que goste. Aliás, você ainda lembra das coisas que gosta?
Convidamos a você a lembrar do tempo em que você era você. Do tempo em que você ria sem culpa.
O autocuidado cresce e se fortalece ao ser exercitado em grupo.
Grupo de apoio, de amigas, terapias em grupo, exercícios físicos em grupo, como as caminhadas de domingo do Coletivo. Ou meditação, canto, dança, técnica de redução do estresse online. Há várias possibilidades, muitas gratuitas, em especial nas UBS.
Com ajuda mútua e companheirismo, olhamos para dentro e também olhamos para o lado. Vemos o que está ocorrendo no mundo, para fora da janela. E nesses momentos, temos a oportunidade de crescer juntas.
PS: Este texto foi escrito por mim e por Ana Castro em 2021 e foi atualizado para esta edição.
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