Univer(sali)sidades esquecidas

Publicado em Íntegra

VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960

hoje

Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

*Gemini

Poucas imagens conseguem sintetizar tão bem uma crise institucional quanto aquela oferecida por parte dos campi de universidades públicas brasileiras. Em diversas instituições espalhadas pelo país, o visitante encontra prédios envelhecidos, fachadas cobertas por pichações, corredores ocupados por cartazes acumulados ao longo dos anos, laboratórios necessitando de modernização, equipamentos defasados e sinais evidentes de falta de manutenção. Independentemente da posição ideológica de quem observa esse cenário, uma conclusão parece inevitável: boa parte do patrimônio público brasileiro destinado ao ensino superior vem sofrendo um processo prolongado de deterioração.
Naturalmente, esse diagnóstico não se aplica da mesma forma a todas as universidades. O Brasil possui instituições públicas que continuam produzindo pesquisa de alto nível, formando profissionais altamente qualificados e ocupando posições relevantes em diferentes áreas do conhecimento. Universidades como USP, Unicamp, UFMG e outras permanecem responsáveis por parcela expressiva da produção científica nacional. Ainda assim, a realidade de muitos campi revela dificuldades que deixaram de ser episódicas para se tornar estruturais. A crise começa pela infraestrutura. O resultado aparece em salas superlotadas, dificuldades administrativas e crescente pressão sobre professores e técnicos.
Outro aspecto frequentemente debatido diz respeito ao ambiente universitário. Universidades são, por definição, espaços de liberdade intelectual. Devem acolher diferentes correntes de pensamento, estimular o confronto de ideias e formar cidadãos capazes de questionar consensos. Quando esse ambiente plural é substituído por intolerância ao dissenso, perde-se uma das características fundamentais da vida acadêmica. Estudos sobre o Perfil do Funcionalismo Público e Elites Intelectuais (Ipea / Universidades Federais, Análises de Produção Acadêmica nas Ciências Humanas e Pesquisas de Opinião em Períodos Eleitorais (Simulações e Enquetes por Categorias mostram que a maioria dos docentes das universidades brasileiras tende a posicionar-se mais à esquerda no espectro político.
Pesquisadores vinculados a áreas como a Ciência Política e a Sociologia têm investigado o ambiente universitário. Um dos argumentos centrais dessas análises é a aplicação da Teoria da Espiral do Silêncio (de Elisabeth Noelle-Neumann): estudantes que percebem suas opiniões (sejam liberais na economia, conservadoras nos costumes ou críticas a correntes teóricas hegemônicas) como minoritárias no grupo tendem a se calar por medo do isolamento social ou de retaliação acadêmica (como avaliações subjetivas de trabalhos e bancas).Outros pesquisadores contestam essa percepção e sustentam que faltam evidências sistemáticas de doutrinação institucionalizada. O tema permanece objeto de intenso debate.
Há ainda questões relacionadas à convivência cotidiana nos campi. É comum encontrar relatos sobre consumo de álcool e, em alguns locais, uso ostensivo de drogas ilícitas em áreas abertas das universidades. Embora essa realidade varie significativamente entre instituições e não caracterize a totalidade dos campi, ela alimenta críticas sobre a dificuldade de garantir segurança, preservar o patrimônio público e assegurar um ambiente adequado ao ensino e à pesquisa. Enquanto isso, os desafios acadêmicos tornam-se cada vez maiores.
A competição internacional por produção científica, inovação tecnológica e formação de pesquisadores intensificou-se nas últimas décadas. Países asiáticos ampliaram maciçamente seus investimentos em universidades. Estados Unidos e Europa continuam concentrando boa parte dos centros de excelência. A China transformou o ensino superior em prioridade estratégica nacional. O Brasil, por sua vez, enfrenta dificuldades para acompanhar esse ritmo. Nos principais rankings internacionais, poucas universidades brasileiras conseguem manter posições de destaque. Embora continuem figurando entre as melhores da América Latina, ainda enfrentam limitações significativas quando comparadas aos grandes centros mundiais de pesquisa. Além disso, indicadores de inovação, transferência tecnológica e registro de patentes permanecem aquém do potencial científico do país. Essa realidade não pode ser atribuída exclusivamente à falta de recursos. Gestão eficiente, planejamento estratégico, avaliação permanente de desempenho, internacionalização, aproximação com o setor produtivo e autonomia administrativa também desempenham papel decisivo na qualidade universitária. Os sistemas mais bem-sucedidos combinam financiamento adequado com mecanismos transparentes de cobrança por resultados.

A frase que foi pronunciada:
“A universidade precisa estar aberta à realidade inteira do seu tempo, precisa imergir no espaço público… Quando ela se fecha em dogmas ou se isola em si mesma, ela deserta de sua missão universal e torna-se um casarão de espectros.” José Ortega y Gasset

História de Brasília
Um amigo nosso saiu de Fortaleza porque o povo vivia em muitas dificuldades, e a cidade tinha clubes demais. Veio para Brasília, ouviu o que dizem os comerciantes, os gerentes de bancos, recebeu, no mesmo dia, proposta para comprar 15 ações de clubes diferentes, fechou a mala, marcou a passagem e foi embora. (Publicada em 24.05.1962)

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