Entre Zé Carioca e Tio Sam

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VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960

hoje

Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade

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Criado por Walt Disney em 1942, durante a Política da Boa Vizinhança, Zé Carioca nasceu como um símbolo da aproximação entre Brasil e Estados Unidos. Elegante, simpático, dono de conversa fácil e de um talento quase sobrenatural para escapar das dificuldades, o papagaio brasileiro tornou-se um dos personagens mais conhecidos dos quadrinhos mundiais. Representava um Brasil cordial, criativo, improvisador e profundamente confiante na força da própria lábia. Passadas mais de oito décadas, o personagem continua servindo como metáfora útil para compreender certos momentos da vida política nacional.

(Gemini)

Na diplomacia, como na vida, existe uma diferença fundamental entre simpatia e poder. A boa conversa pode abrir portas. Não substitui interesses nacionais. A habilidade retórica pode aliviar tensões. Não altera a correlação de forças entre países. Grandes potências negociam com base em interesses estratégicos permanentes, muito mais do que em afinidades pessoais entre governantes. Foi justamente essa lição que a história da diplomacia ensina repetidas vezes. Os Estados Unidos mantiveram relações estreitas com governos democráticos e autoritários, conservadores e progressistas, republicanos e socialistas, sempre que seus interesses nacionais assim recomendaram. A China faz exatamente o mesmo. Rússia, Índia e União Europeia seguem lógica semelhante.
Na política internacional, amizades são circunstanciais. Interesses costumam ser permanentes. Por isso, encontros entre chefes de Estado raramente podem ser avaliados apenas pelas imagens produzidas para a imprensa. Um aperto de mão não significa convergência estratégica. Um sorriso diante das câmeras não elimina divergências comerciais, tecnológicas ou geopolíticas. O Brasil ocupa posição singular nesse tabuleiro. É a maior economia da América Latina, possui enormes reservas minerais, enorme produção agrícola, matriz energética relativamente limpa e importância crescente na segurança alimentar mundial. Justamente por isso desperta o interesse simultâneo de Washington, Pequim, Bruxelas e Moscou. Essa condição exige uma diplomacia extremamente cuidadosa. Qualquer percepção de alinhamento automático ou de antagonismo permanente tende a reduzir a margem de manobra brasileira.
A tradição diplomática construída pelo Itamaraty ao longo de décadas sempre buscou preservar autonomia, previsibilidade e capacidade de diálogo com diferentes polos internacionais. Nos últimos anos, entretanto, a política externa brasileira tornou-se mais polarizada internamente. Decisões diplomáticas passaram a ser interpretadas também sob a ótica da disputa política doméstica. Isso elevou o custo de cada gesto e aumentou a repercussão de cada declaração presidencial. Nesse ambiente, a metáfora de Zé Carioca volta a fazer sentido. O personagem acreditava que inteligência improvisada bastava para resolver praticamente qualquer situação. Muitas vezes conseguia. Outras tantas descobria que havia interlocutores igualmente experientes, conhecedores das regras do jogo e pouco suscetíveis ao charme do improviso. A política internacional raramente recompensa improvisações, corpo a corpo ou conexão descontraída e despreparada. Negociações entre países envolvem cadeias produtivas, investimentos bilionários, segurança nacional, tecnologia, comércio exterior e alianças militares.
Quando uma governante aposta na informalidade e na quebra de protocolos, o argumento de seus defensores é que isso humaniza a liderança, abre canais diretos de diálogo e projeta um soft power autêntico no exterior. No entanto, o contra-argumento que ganha muita força em momentos de crise econômica ou de impasses diplomáticos sérios é o de que a liturgia do cargo não é mero capricho estético. Ela serve para blindar a imagem do país e garantir que as negociações de alto nível sejam tratadas com a gravidade que os interesses nacionais exigem. Ao longo da história, países que confundiram retórica com estratégia acabaram reduzindo sua influência internacional. Os que preservaram instituições diplomáticas profissionais conseguiram atravessar mudanças de governo mantendo credibilidade perante diferentes parceiros. O verdadeiro patrimônio de uma política externa não é o brilho momentâneo de uma fotografia nem o impacto de uma declaração. É a confiança acumulada durante décadas de comportamento previsível. Zé Carioca permanece um personagem fascinante justamente porque simboliza um traço conhecido da cultura brasileira: a crença de que criatividade e improvisação sempre encontrarão uma saída. Na vida cotidiana, isso pode até funcionar. Na geopolítica, entretanto, costuma prevalecer uma máxima muito mais antiga: nem sempre quem parece ingênuo realmente o é, e quase nunca as grandes potências entram numa negociação sem conhecer, com antecedência, todos os interesses que pretendem defender. Entre a simpatia do papagaio e o pragmatismo das relações internacionais existe uma distância que nenhuma boa conversa consegue eliminar. É nessa distância que se decide o espaço de um país no cenário mundial.

A frase que foi pronunciada:
“Lula é o presidente que o Brasil merece”
Celso Amorim

História de Brasília
A primeira disputa pela presidência da Novacap partiu do PTB de Goiás. Fala-se na fôrça que os políticos estão fazendo para substituir o dr. Afrânio Barbosa pelo deputado Haroldo Duarte, vice-presidente da Assembléia Legislativa de Goiás. (Publicada em 24.05.1962)

Univer(sali)sidades esquecidas

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*Gemini

Poucas imagens conseguem sintetizar tão bem uma crise institucional quanto aquela oferecida por parte dos campi de universidades públicas brasileiras. Em diversas instituições espalhadas pelo país, o visitante encontra prédios envelhecidos, fachadas cobertas por pichações, corredores ocupados por cartazes acumulados ao longo dos anos, laboratórios necessitando de modernização, equipamentos defasados e sinais evidentes de falta de manutenção. Independentemente da posição ideológica de quem observa esse cenário, uma conclusão parece inevitável: boa parte do patrimônio público brasileiro destinado ao ensino superior vem sofrendo um processo prolongado de deterioração.
Naturalmente, esse diagnóstico não se aplica da mesma forma a todas as universidades. O Brasil possui instituições públicas que continuam produzindo pesquisa de alto nível, formando profissionais altamente qualificados e ocupando posições relevantes em diferentes áreas do conhecimento. Universidades como USP, Unicamp, UFMG e outras permanecem responsáveis por parcela expressiva da produção científica nacional. Ainda assim, a realidade de muitos campi revela dificuldades que deixaram de ser episódicas para se tornar estruturais. A crise começa pela infraestrutura. O resultado aparece em salas superlotadas, dificuldades administrativas e crescente pressão sobre professores e técnicos.
Outro aspecto frequentemente debatido diz respeito ao ambiente universitário. Universidades são, por definição, espaços de liberdade intelectual. Devem acolher diferentes correntes de pensamento, estimular o confronto de ideias e formar cidadãos capazes de questionar consensos. Quando esse ambiente plural é substituído por intolerância ao dissenso, perde-se uma das características fundamentais da vida acadêmica. Estudos sobre o Perfil do Funcionalismo Público e Elites Intelectuais (Ipea / Universidades Federais, Análises de Produção Acadêmica nas Ciências Humanas e Pesquisas de Opinião em Períodos Eleitorais (Simulações e Enquetes por Categorias mostram que a maioria dos docentes das universidades brasileiras tende a posicionar-se mais à esquerda no espectro político.
Pesquisadores vinculados a áreas como a Ciência Política e a Sociologia têm investigado o ambiente universitário. Um dos argumentos centrais dessas análises é a aplicação da Teoria da Espiral do Silêncio (de Elisabeth Noelle-Neumann): estudantes que percebem suas opiniões (sejam liberais na economia, conservadoras nos costumes ou críticas a correntes teóricas hegemônicas) como minoritárias no grupo tendem a se calar por medo do isolamento social ou de retaliação acadêmica (como avaliações subjetivas de trabalhos e bancas).Outros pesquisadores contestam essa percepção e sustentam que faltam evidências sistemáticas de doutrinação institucionalizada. O tema permanece objeto de intenso debate.
Há ainda questões relacionadas à convivência cotidiana nos campi. É comum encontrar relatos sobre consumo de álcool e, em alguns locais, uso ostensivo de drogas ilícitas em áreas abertas das universidades. Embora essa realidade varie significativamente entre instituições e não caracterize a totalidade dos campi, ela alimenta críticas sobre a dificuldade de garantir segurança, preservar o patrimônio público e assegurar um ambiente adequado ao ensino e à pesquisa. Enquanto isso, os desafios acadêmicos tornam-se cada vez maiores.
A competição internacional por produção científica, inovação tecnológica e formação de pesquisadores intensificou-se nas últimas décadas. Países asiáticos ampliaram maciçamente seus investimentos em universidades. Estados Unidos e Europa continuam concentrando boa parte dos centros de excelência. A China transformou o ensino superior em prioridade estratégica nacional. O Brasil, por sua vez, enfrenta dificuldades para acompanhar esse ritmo. Nos principais rankings internacionais, poucas universidades brasileiras conseguem manter posições de destaque. Embora continuem figurando entre as melhores da América Latina, ainda enfrentam limitações significativas quando comparadas aos grandes centros mundiais de pesquisa. Além disso, indicadores de inovação, transferência tecnológica e registro de patentes permanecem aquém do potencial científico do país. Essa realidade não pode ser atribuída exclusivamente à falta de recursos. Gestão eficiente, planejamento estratégico, avaliação permanente de desempenho, internacionalização, aproximação com o setor produtivo e autonomia administrativa também desempenham papel decisivo na qualidade universitária. Os sistemas mais bem-sucedidos combinam financiamento adequado com mecanismos transparentes de cobrança por resultados.

A frase que foi pronunciada:
“A universidade precisa estar aberta à realidade inteira do seu tempo, precisa imergir no espaço público… Quando ela se fecha em dogmas ou se isola em si mesma, ela deserta de sua missão universal e torna-se um casarão de espectros.” José Ortega y Gasset

História de Brasília
Um amigo nosso saiu de Fortaleza porque o povo vivia em muitas dificuldades, e a cidade tinha clubes demais. Veio para Brasília, ouviu o que dizem os comerciantes, os gerentes de bancos, recebeu, no mesmo dia, proposta para comprar 15 ações de clubes diferentes, fechou a mala, marcou a passagem e foi embora. (Publicada em 24.05.1962)

Rebeldes e cientistas no mesmo quadrado

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Foto: Divulgação/USP

 

Na ponta da velha balança, nos dois extremos, pesa o debate sobre o ensino superior brasileiro, assunto que costuma oscilar. De um lado, a percepção de que as universidades públicas atravessam uma crise permanente. Drogas, festas e muita bebida alcóolica. De outro, a narrativa segundo a qual o país teria construído um sistema universitário capaz de competir em igualdade de condições com os principais centros acadêmicos do mundo. Os números mais recentes sugerem uma realidade mais complexa, marcada por avanços significativos, mas também por limitações estruturais que continuam a afastar o Brasil das nações líderes em ciência, tecnologia e inovação.
Segundo o Leiden Ranking 2025, a Universidade de São Paulo, principal instituição de pesquisa do país, aparece na 17ª colocação mundial em volume de produção científica, levantamento elaborado pelo Centro de Estudos em Ciência e Tecnologia da Universidade de Leiden, na Holanda. Entre 2020 e 2023, a USP produziu mais de 20 mil artigos científicos indexados na base Web of Science, consolidando-se como a única universidade ibero-americana entre as cem maiores produtoras de conhecimento científico do planeta.
Uma universidade brasileira ao lado de instituições tradicionalmente associadas à liderança científica mundial realmente chama atenção. O próprio ranking destaca que 42,5% dos artigos publicados pela USP situam-se entre os 50% mais citados em suas respectivas áreas de conhecimento. Em nota oficial, a instituição ressaltou sua posição como “a universidade brasileira que mais produz pesquisa no mundo”.
Curiosamente, nos rankings globais mais abrangentes a relevância da pesquisa nacional não se reflete integralmente. Em junho de 2026, o levantamento do Center for World University Rankings revelou que 45 das 52 universidades brasileiras avaliadas perderam posições em relação ao ano anterior. A USP permaneceu como a instituição mais bem colocada do país, mas recuou para a 119ª posição mundial. Segundo o relatório, o desempenho em pesquisa foi justamente o indicador que apresentou maior deterioração entre as universidades brasileiras.
O contraste entre os dois resultados ajuda a compreender uma das principais características do ensino superior nacional. O Brasil produz ciência em quantidade considerável, mas encontra dificuldades para ampliar seu impacto internacional, sua capacidade de inovação e sua inserção em redes globais de pesquisa. Enquanto alguns rankings privilegiam o volume de publicações, outros incorporam indicadores como reputação acadêmica, internacionalização, influência das pesquisas, empregabilidade dos egressos e transferência de conhecimento para a sociedade.
A comparação internacional revela a dimensão do desafio. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 48% dos jovens adultos dos países membros possuem formação superior. Em várias economias avançadas, a expansão do acesso ao ensino superior foi acompanhada por elevados investimentos em pesquisa, inovação e cooperação internacional.
No Brasil, embora o número de estudantes universitários tenha crescido expressivamente nas últimas décadas, persistem obstáculos relacionados ao financiamento, à permanência estudantil e à internacionalização das instituições. Dados da OCDE mostram que apenas 0,2% dos estudantes do ensino superior no país são estrangeiros, índice muito inferior à média observada nas nações desenvolvidas. O mesmo relatório aponta que o gasto anual por estudante permanece entre os mais baixos do grupo analisado.
As universidades federais e estaduais continuam concentrando a maior parte da pesquisa científica nacional. Instituições como USP, Unicamp, UFRJ, UFMG, UFRGS e UnB respondem por parcela expressiva dos artigos, teses, dissertações e projetos de pesquisa produzidos no país. No ranking CWUR de 2026, essas universidades permanecem entre as mais bem posicionadas do Brasil, embora praticamente todas tenham enfrentado perda relativa de posições diante do crescimento acelerado de concorrentes internacionais, especialmente da Ásia.
O cenário evidencia uma realidade paradoxal. O Brasil construiu um sistema universitário capaz de gerar conhecimento em escala global e de formar pesquisadores reconhecidos internacionalmente. Ao mesmo tempo, os indicadores mostram que o país ainda ocupa posição distante daquela observada nas principais potências científicas. A produção acadêmica brasileira continua relevante, mas sua transformação em inovação tecnológica, patentes, produtos e ganhos de competitividade econômica ocorre em ritmo inferior ao observado em países que hoje lideram a economia do conhecimento.
A discussão sobre o futuro das universidades brasileiras não se limita, portanto, ao número de artigos publicados ou à posição em rankings internacionais. Ela envolve a capacidade de um país transformar conhecimento em desenvolvimento. Os dados disponíveis mostram que o Brasil já possui uma base universitária robusta e consolidada. Mostram também que, diante das exigências de uma economia cada vez mais dependente da ciência e da tecnologia, ainda permanece consideravelmente aquém do patamar alcançado pelas nações que ocupam os primeiros lugares na produção e no aproveitamento estratégico do conhecimento.
A frase que foi pronunciada:
“A educação não é preparação para a vida; a educação é a própria vida.”
John Dewey
John Dewey. Foto: gettyimages.com
História de Brasília  
Volta. assim, às manchetes, o nome do major Lameirão, tristemente celebre pelos acontecimentos de Jacareacanga e Aragarças. E o povo pergunta desesperado o que será feito do homem que por pouco não provocou o maior desastre dos nossos tempos. (Publicada em 22.05.1962)