Grupo leva apoio a tutores em luto

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Reuniões mensais e página no Facebook serão um espaço para tutores em luto ou que enfrentam a doença de seus melhores amigos conversarem e compartilharem experiência. Evento é gratuito

Nina inspirou a tutora a idealizar o projeto Crédito: Kadydja Albuquerque
Nina inspirou a tutora a idealizar o projeto Crédito: Kadydja Albuquerque

Quem já perdeu o melhor amigo – seja ele um gato, um cão, um hamster, um pássaro ou qualquer outro animal – sabe que, além da dor do luto, terá de enfrentar a incompreensão social. Apesar de os pets fazerem parte da família, muitas pessoas ainda são incapazes de compreender que o sofrimento provocado pela morte do bichinho costuma ser tão intenso quanto o causado pela morte de um parente humano.

A empresária Kadydja Albuquerque conhece bem esse sentimento. Em novembro do ano passado, a gatinha Nina, companheira de quase 10 anos e a quem ela tinha como filha, foi diagnosticada com um câncer agressivo e incurável. “Foi muito assustador. Eu nunca havia tido contato com essa doença nem com humanos nem com animais”, conta. Kadydja recebeu muito apoio da equipe de veterinários que cuidou de Nina, mas era uma relação profissional. “Me senti em um processo muito solitário. Senti falta de um espaço em que pudesse conversar abertamente sobre isso, sem preconceito e incompreensão”, conta.

Nina foi tratada com cirurgia e quimioterapia, mas, depois de três meses, o organismo sinalizou que não estava suportando mais os fortes medicamentos. A empresária teve de tomar uma decisão muito difícil: deixar a quimio e começar o tratamento paliativo, que, se por um lado encurtaria a vida da gatinha, por outra, garantiria maior qualidade de vida. Nina viveu mais quatro meses ao lado da tutora e dos dois filhos, os gatos Beto e Soneca, até o câncer retornar. Em três dias, o esôfago foi tomado pelo tumor. Para evitar mais sofrimento, Kadydja decidiu pela eutanásia, no início de junho.

Kadydja Albuquerque criou o projeto Ninar Crédito: Divulgação
Kadydja Albuquerque criou o projeto Ninar Crédito: Divulgação

“Me vi em luto, com os sintomas que temos quando uma pessoa morre. Nos primeiros três dias, recebi apoio, mas depois era aquela coisa de falarem ‘era só um gato'”, relata. Inconsolável, ela procurou um terapeuta com experiência no tratamento de enlutados. Na terapia, ouviu uma lição preciosa: “Ele me disse que as pessoas não veem problema de chorar por causa de um iPhone quebrado, mas não entendem alguém que chora por causa de um animal”. As sessões foram fundamentais para a empresária enfrentar o preconceito. “Vi que não tinha de ter vergonha do meu luto.”

Para dar um novo significado à morte de Nina, Kadydja pensou em se envolver com grupos de adoção ou algum outro tipo de voluntariado. Até que teve a ideia de ajudar outros tutores que, como ela, passaram ou estão passando por momentos de dor devido a doença ou morte de um animal. “Pode ser cavalo, vaca, cachorro, gato”, descreve. Assim, como o apoio do projeto ProAnima, da Pet Natural e do Manifesto Coworking, criou o Ninar – Grupo de Apoio a Tutores de Animais.

Além do grupo no Facebook , o Ninar vai oferecer palestras mensais gratuitas, com temas variados. A primeira será “Como lidar com o luto pela morte do meu animal de estimação?”, em 7 de agosto, com o terapeuta Abdon Sardinha. Os tutores presentes poderão compartilhar experiências. 

O projeto não tem fins lucrativos e tem como objetivo reunir pessoas que queiram falar sobre suas experiências, encontrar apoio, ouvir especialistas sobre temas delicados e dividir suas emoções com os outros tutores, contribuindo para o bem-estar das pessoas que passam por uma situação difícil com o seu pet e/ou vivenciam o momento de luto. As reuniões acontecerão toda primeira segunda-feira de cada mês, no Manifesto Coworking.

Embora seja gratuito, a idealizadora do projeto sugere que os participantes doem ração, produtos de higiene e medicamentos veterinários. As doações arrecadadas nesta primeira reunião serão destinadas ao Projeto de Adoção São Francisco

As inscrições podem ser realizadas neste link: http://bit.ly/ninardf1

Além das reuniões mensais, que possuem vagas limitadas, os tutores de animais do DF podem participar do grupo online que o Ninar criou no Facebook. O ambiente será um espaço para que os donos de animais possam compartilhar suas experiências, falar sobre as dificuldades durante a tutoria e encontrar apoio de outros com vivências semelhantes. Para participar, acesse este link: https://www.facebook.com/groups/gruponinardf/

 

SERVIÇO

 

O quê: Reunião do Projeto Ninar com palestra gratuita – “Como lidar com o luto pela morte do meu animal de estimação?” (terapeuta Abdon Sardinha)

Quando: 7 de agosto de 2017

Horário: 19h30

Onde: Manifesto Coworking – CLN 206, Bloco A, Loja 03. Asa Norte. Brasília-DF

Inscrições gratuitas com sugestão de doação de ração, produtos de higiene e medicamentos veterinários para o Projeto Adoção São Francisco. Vagas limitadas.

Inscrição: http://bit.ly/ninardf1

Mais informações pelo Facebook (Grupo Ninar) ou pelo telefone (61) 98277-8382.

Xixi e cocô no lugar certo

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Veja como ensinar o pet a fazer xixi e cocô no lugar certo. Tutores nunca devem brigar com o animal, caso ele não consiga se segurar

Charlotte só usa o banheirinho
Charlotte só usa o banheirinho: em quatro meses de treino, ela aprendeu o comando  

Qualquer pet, seja filhote ou adulto, pode acabar fazendo cocô ou xixi em lugares indesejado, o que os veterinários chamam de “problema de eliminação inadequada”. Mas, seguindo alguns passos,  ele pode aprender a usar o local correto. Para isso, é preciso paciência e persistência,  além de tapetinhos (aqueles higiênicos) ou folhas de jornais e os petiscos.

Tutora das cachorrinhas Chanel, Charlotte e Cindy, Renata Rezende contratou um adestrador para ensinar a primogênita a fazer as necessidades no tapete higiênico. “Ele me ensinou fazer um movimento no pescoço dela quando fizesse no lugar errado, dizendo ‘xixi (ou cocô), não pode’, com uma voz mais grossa, e depois levasse para o tapete e falasse ‘xixi aqui, xixi aqui’ com uma voz mais doce”, diz. Em seis meses, a yorkshire aprendeu a lição. Renata adotou a mesma tática com Charlotte e Cindy, que chegaram depois, e conseguiu que elas só usassem o banheirinho. “Você nunca deve limpar o xixi ou o cocô na frente do animal, e também nunca deve brigar com ele”, ensina.

1-Crie uma rotina
Logo que chegar na nova casa, o animalzinho precisará de uma rotina para que tudo seja mais fácil. Isso inclui horário para dormir, comer, brincar e fazer suas necessidades. Se todos da casa se comprometerem, logo ele vai se acostumar. Caso ele seja filhote, vai levar de 10 a 15 minutos após a refeição para fazer xixi ou cocô. Já os cães mais velhos podem ser levados até quatro vezes por dia.

2- Sempre no mesmo lugar
Além de precisar de uma rotina, os cãezinhos se adaptam mais rapidamente se tiverem um canto especial para fazer cocô e xixi. Pode ser em uma área do seu quintal, uma varanda ou a lavanderia. O importante é escolher um local de fácil acesso e que não esteja ao lado da comida ou do local onde ele dorme, pois os bichos não gostam de ir próximos aos locais de descanso ou das refeições.

3- Aposte na recompensa
No começo de adaptação, sempre leve o cão ao canto do xixi, logo depois que ele tiver feito sua refeição. Quando ele conseguir fazer algo, dê um petisco como recompensa, faça um elogio ou carinho. Nunca economize a festa! Assim ele vai entender que é recompensador agir dessa maneira. E com o tempo, ele só vai melhorando ao criar hábitos rotineiros.

4- Sempre ao seu lado
Nas primeiras três semanas, o mais adequado é que seu cão esteja sempre acompanhado. Você deve escolher uma palavra para “pedir” que ele faça xixi ou cocô, como por exemplo “banheiro”. Use-a quando levá-lo ao local correto para as necessidades. Quando não puder, de maneira alguma, ficar com ele, deixe-o em um lugar reservado com água, brinquedos e fraldinhas ou jornais.

5- Esqueça as broncas
Para educar um animal, a aposta sempre será sempre o estímulo e não a repreensão. A bronca nunca ensina, só estimula ele a fazer escondido e no lugar errado. Quando ele fizer fora do local estipulado, o correto é ignorar. E nem pensar em esfregar o nariz no xixi ou cocô! Embora pareça mais difícil, dessa maneira ele vai adotar uma rotina com mais facilidade.

Fonte: Pet Anjo

Catnip é o maior barato

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A erva dos gatos, conhecida por “dar barato” nos felinos, não é tóxica nem causa dependência. Ela pode ajudar a lidar com o estresse, mas, em alguns casos, deixa o bichano agressivo

Crédito: Reprodução
Crédito: Reprodução

Já ouviu falar na erva do gato ou catnip? O gatos são altamente sensíveis ao óleo essencial que existe nas hastes e folhas da planta do catnip (a erva do gato) e outras espécies do grupo Nepeta. Quando  sentem o cheiro da plantinha, eles roçam a cabeça e corpo na ervinha, pulam, rolam, vocalizam e alguns até salivam (bastante!).

 Ao contrário do que muitos pensam, a erva do gato, não é maconha, não causa dependência ou danos à saúde dos felinos, e os seus benefícios são muitos. Veja algumas curiosidades sobre os efeitos da erva, selecionadas pela Pet Anjo:

 1-  Não funciona com filhotes
A erva do gato não funciona’com os filhotes até que eles tenham cerca de 6 meses de vida! Só quando os gatinhos atingem essa idade e a maturidade sexual, é que começam a ser sensíveis à ervinha.

2- A sensibilidade é hereditária
A sensibilidade aos óleos essenciais da plantinha é hereditária. Só 70-80% dos gatos são afetados, nem todos têm os genes pra isso.

3- Prima distante

A plantinha do catnip é da família da menta, uma prima bem distante da planta da maconha, e a substância estimulante, que age nos gatinhos, é chamada nepetalactona.

4- Tem efeito de curta duração
Depois de 10 minutos em contato com o catnip, o gato fica temporariamente imune aos efeitos da erva por cerca de 30 minutos.

5- É utilizada para adestramento
Você pode, por exemplo, espalhar um pouco de catnip nos arranhadores paro o gato escolher esse lugar, em vez do seu sofá ou das cortinas. E se ele ficar relaxado depois de cheirar o catnip, você pode também espalhá-lo antes de viagens de carro, ao veterinário ou situações estressantes.

6- Podem ficar agressivos
Mas, cuidado, porque alguns gatos podem reagir com agressividade se têm contato com o catnip. Eles podem ficar tão estimulados que acabam extravasando a energia, criando brigas com outros gatos, ou brincando de maneira muito forte com os humanos.

 

Mais informações

Pets também ficam em luto

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Saiba como proceder quando um animalzinho perde seu melhor amigo e fica em luto. Ele precisa de muita atenção e cuidados: alguns podem até ficar doentes

A cena de Cosmo no velório de Kid Vinil foi comovente. Crédito: Reprodução
A cena de Cosmo no velório de Kid Vinil foi comovente. Crédito: Reprodução

A cena de Cosmo, o golden retriever do músico Kid Vinil, no velório do tutor, deixou muita gente emocionada e levantou a questão do luto no mundo dos pets. Assim como os humanos, os bichinhos também sofrem com a perda em caso de morte. “Os pets têm sentimentos, podem sentir a falta de alguma pessoa ou de um outro bichinho que deixou de conviver com eles”, explica a veterinária Karina Mussolino, gerente técnica de clínicas da Petz.

Por isso, é importante dar atenção e apoio a eles nessa situação, orienta “Evite, num primeiro momento, deixá-los sozinhos; pois eles precisam de companhia para não ficarem estagnados. Procure levar para passear e brincar, oferecer brinquedos e petiscos, para entreter e animar seu ambiente”, comenta a veterinária.

A dica é deixar os brinquedos em local acessível para que ele possa se distrair. Além das bolinhas e pelúcias, existem modelos onde é possível esconder a ração ou petiscos, entretendo o pet até que ele descubra uma forma de conseguir a comida escondida. A caminhada também ajuda a reduzir a ansiedade e a distrair, ao mesmo tempo em que o exercício ajuda a manter a saúde.

Kariana alerta que alguns sinais também devem ser observados durante este período, como a falta de apetite e apatia. Caso o pet deixe de comer ou beber, o ideal é levá-lo ao veterinário para evitar que ocorram problemas de saúde.

A veterinária acha importante o pet passar pelo ritual da despedida, como foi o caso de Cosmo, o golden retriever de Kid Vinil – e conta que, quando seu pai faleceu, o cachorro da família também foi levado ao velório. “Eles eram melhores amigos e, depois disso, acabou ficando mais próximo de minha mãe. Um ajudou a consolar o outro”, diz.

 

Socorro, meu cachorro come cocô!

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Hábito de comer cocô, chamado de coprofagia, pode ter várias causas. A mais comum é comportamental: o cão associa o cocô às broncas do tutor e come para escondê-lo

Nany, 9 meses: leva cocô até para a caminha. Crédito: Arquivo pessoal
Nany, 9 meses, leva o cocô até para a caminha. Crédito: Arquivo pessoal

 

A carinha de fofa de Nany, 9 meses, esconde um hábito bastante desagradável e comum. Desde filhotinha, ela come o próprio cocô. A dentista Nayany Priscilla Feitosa Ramos já não sabe mais o que fazer. “Logo quando ela chegou lá em casa, o veterinário falou que poderia ser porque a mãe deles limpava o ambiente, comia o cocô dela e o deles, e eles aprendiam. Mas o outro irmãozinho dela, o Thor, parou de comer quando começou a comer ração”, diz.

Priscilla conta que Nany sempre comeu muito rápido e, assim que fazia cocô, já virava e se deliciava. “Tentei várias coisas, o veterinário falou para colocar um remédio que deixa o gosto ruim no cocô, mas não adiantou. Parece até que ela está comendo mais”, lamenta. A dentista conta que, atualmente, Nany não devora o cocô logo depois das necessidades; por isso, ela tem tempo de retirar a sujeira antes que vire o “lanchinho” da cadela. “Mas se deixar e ela vir, ela pega, brinca, espalha pela sala e, quando vejo, já está mastigando. Não sei o que é”, diz. No começo, Priscilla dava bronca, mas já até desistiu porque a cachorrinha não se impressiona mais e come mesmo assim.

A veterinária Erika Almeida, da Pookie Pet, explica que vários fatores podem explicar a coprofagia. “Quando o cachorro é bem filhotinho, a mãe tem esse hábito de limpar todos os excrementos dele, aí pode vir por imitação. Em outros casos, pode ser relacionado à absorção de nutriente, e eles acabam tendo o hábito por desordem alimentar. Outra coisa que acontece bastante, e vejo muito no consultório, é o hábito de imitar o dono quando ele vai recolher o cocô”, conta.

Segundo a veterinária, muitos tutores brigam com o filhote quando ele faz cocô no lugar errado. “Ele não entende que o motivo é esse, e acha que a culpa é do cocô.  Então, toda vez, para não tomar bronca, ele come o cocô, para esconder”, diz. Também pode acontecer de o animal comer mesmo sem bronca, só para imitar o tutor, porque o vê recolhendo as fezes.

 

“A primeira coisa que o proprietário deve fazer é levar o cachorro no veterinário para descartar deficiência nutricional. Se isso for descartado, tem a parte do adestramento e alguns medicamentos, que deixam o cocô com gosto ruim, para ele assimilar que o cocô é algo ruim. O adestramento também ajuda bastante”, explica.

Segundo Erika Almeida, também é muito importante saber que a coprofagia pode acontecer em cachorros de qualquer raça e em SRD. Além disso, o cão pode acabar comendo cocô de outros animais, inclusive de outras espécies. “Tinha uma cliente que a cachorrinha dela comeu até de cavalo”, relata. “Tem muito cachorro que não tem o hábito de comer as próprias fezes e as de outros cães, mas tem interesse no cocô do gato. Isso acontece porque a alimentação do gato é diferente, tem um palatabilizante melhor, por isso ele fica atraído pelo cocô. O mesmo pode acontecer em relação às fezes humanas”, afirma a veterinária.

 

 

Farejadores de intenções

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Estudo científico mostra que o melhor amigo é mais esperto que se imagina. Ele tem habilidade de interpretar as intenções humanas e, assim, descobrir, por exemplo, onde tem petisco escondido

foto da cadelinha Lolla.sono dos bichos
“Toca aqui, humano!” – Eles são mais espertos do que se imagina Crédito: Jhonatan Vieira/@cbfotografia

 

 

Humanos são capazes de interpretar o comportamento de outros, atribuindo a eles estados mentais. Ao adotar a perspectiva das pessoas, eles podem assumir suas emoções, necessidades e intenções e, assim, reagir apropriadamente. No mundo animal, a habilidade de atribuir tais estados — a chamada teoria da mente — é um assunto altamente controverso. Biólogos cognitivos da Universidade de Medicina Veterinária de Viena conseguiram provar, com um novo método de pesquisa, que cães também são capazes de interpretar intenções alheias. No caso, de humanos. De acordo com os cientistas, isso deu a eles uma vantagem na integração com o ambiente dos homens, ao longo da evolução. O trabalho foi publicado na revista Animal cognition.

A Teoria da Mente descreve a habilidade dos humanos de entender os estados mentais como emoções, intenções, conhecimento, crenças e desejos. Essa capacidade se desenvolve nos primeiros quatro ou cinco anos de vida, enquanto que, normalmente, é negada em relação aos animais. Indicações de que eles também podem entender estados mentais ou mesmo estados de conhecimento de outros só foram encontradas em símios e corvídeos até agora. Já foram feitos muitos testes em cachorros, mas os resultados foram pobres e contraditórios.

Com uma nova abordagem experimental, biólogos cognitivos do Instituto de Pesquisa Messerli, de Viena, disseram que conseguiram evidências sólidas de que os cães podem adotar a nossa perspectiva. Ao fazer isso, eles são capazes de entender o que os humanos podem ver e, consequentemente, saber. Essa habilidade de prever conhecimento é apenas um dos componentes da vasta Teoria da Mente, mas não deixa de ser muito importante.

O chamado paradigma Adivinho-Conhecedor é um teste padrão na pesquisa sobre atribuição de conhecimento a outros. O experimento envolve duas pessoas: o “conhecedor” que esconde comida, invisível para o cachorro, em um de muitos recipientes (ou sabe onde outro a escondeu), e o “adivinho”. Este não esteve na sala ou, ao menos, estava com os olhos vendados durante o ato de se esconder o alimento. Uma parede sólida bloqueia a visão do animal. Depois disso, dois humanos tornam-se os informantes, apontando para diferentes recipientes.

O conhecedor sempre aponta para a vasilha falsa, enquanto que o adivinho, para a outra. Todas têm cheiro de comida. “Para conseguir o petisco, os cães têm de entender que sabe o lugar correto (conhecedor) e quem não sabe e, portanto, apenas adivinha (advinho). Eles devem identificar o informante no qual podem confiar se têm de decidir por uma das duas vasilhas”, explica o principal pesquisador, Ludwig Huber. Em aproximadamente 70% dos casos, os cães escolheram o indicado pelo conhecedor — e, portanto, passaram no teste. Esse resultado se manteve, independentemente da posição da vasilha, da pessoa que agia como conhecedor e do lugar para onde o adivinho estava olhando.

O objetivo da série de testes foi confirmar, de maneira independente, um trabalho realizado anteriormente na Nova Zelândia. Evidências claras de cães sendo capazes de adotar a perspectiva humana e tirar vantagem disso foram obtidas em um novo teste desenvolvido pela equipe, o chamado “adivinho olhando para o lado”. No novo experimento, uma terceira pessoa esconde a comida. Ela não oferece nenhuma pista de onde o alimento está. Os informantes em potencial ficavam de joelhos à esquerda e à direita dessa pessoa e olhavam para o mesmo lado, com a cabeça ligeiramente inclinada para baixo. Assim, quando uma das duas pessoas olhavam para a vasilha falsa, a outra desviava o rosto. “Isso significa que os cães testaram, para conseguir comida, tinham de julgar quem é o conhecedor, adotando as perspectivas dos informantes e seguindo seus olhares”, explica Huber. Mesmo nesse teste, muito difícil para os animais, aproximadamente 70% das tentativas foram acertadas.

Ser capaz de adotar a perspectiva de um humano, contudo, não requer a habilidade de entender intenções e desejos. “Mas o estudo mostrou que os cães podem descobrir o que os homens ou os congêneres podem ou não podem ver”, diz o pesquisador. “Ao adotar as posições dos humanos e seguir seus olhares geometricamente, os cães conseguiram descobrir o que os homens via e, portanto, sabiam — e, consequentemente, em quem poderiam confiar ou não.”

Em experimentos similares, chimpanzés e algumas espécies de pássaros, como corvos, foram capazes de entender o grau de conhecimento e também as intenções dos congêneres e modificar seus próprios comportamentos, de acordo com essa interpretação. Para cães, só havia especulações e vagas indicações até agora. Contudo, sabe-se que os cachorros compreendem bem o comportamento humano. Por exemplo, o grau de atenção. Eles podem aprender por pistas visuais diretas, como gestos ou olhares. Por isso, são capazes de encontrar comida mesmo se sua visão está bloqueada. “A habilidade de interpretar nosso comportamento e antecipar nossas intenções, o que foi obviamente desenvolvido por meio da combinação da domesticação e da experiência individual, parece ter sido a base da habilidade de adotar nossa perspectiva”, diz Huber. “Ainda não está claro quais mecanismos cognitivos contribuem para isso. Mas a capacidade certamente ajuda os cães a encontrarem muito bem seu caminho em nosso mundo.”

 

Crianças e pets: combinação perfeita

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  1. IA convivência com os cães tem muito a ensinar às crianças. Aposte nessa grande amizade

pets

Nove em cada dez crianças pedem para ter um bichinho em casa. Animais não são brinquedo e jamais devem ser dados como “presente” em datas comemorativas. Mas, se o os pais notam que não se trata de vontade passageira e, sim, de um verdadeiro amor pelos pets, podem e devem levar para casa um cão ou gato. Veja os benefícios dessa interação:

  •  Responsabilidades: cuidando de um pet, desde cedo os pequenos aprendem que um animal precisa se alimentar, tomar banho, passear, receber atenção etc. Isso apresenta para a criança questões relativas à compaixão, empatia e lealdade, ensinando-a ter respeito pelo próximo e desenvolver o senso de responsabilidade.
  • Lidar com frustrações e perdas: na infância, a criança se depara pela primeira vez com frustrações e com perdas. A relação de vida com um animal mostra isso de forma natural, já que um pet pode ficar doente ou vir a falecer durante esse período.
  • Saúde: é palpável o bem-estar que os pets trazem para quem convive com eles, e muitos estudos já mostraram isso. Uma pesquisa da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos, examinou os efeitos da presença de um cão na família com crianças em idade pré-escolar e verificou uma diminuição da pressão arterial, frequência cardíaca e estresse comportamental quando comparado às crianças sem a companhia do pet. Outra pesquisa americana estudou 643 crianças com idade entre quatro e dez anos, formando 2 grupos, com e sem cachorro. Das que tinham cachorro, 12% foram diagnosticadas com estresse e ansiedade, número bem menor que no grupo sem o cão de estimação, que apresentou 21% das crianças com esses problemas. Há ainda estudos que evidenciam os benefícios do contato com cães ao sistema imunológico de bebês, apontando que crianças que tiveram o convívio com animais teriam menor chance de desenvolver alergias e dermatites do que crianças que não tiveram esse contato com o animal.
  • Atividade física: ter um animal de estimação pode reduzir as chances de uma criança se tornar sedentária. A interação entre pet e humano estimula a prática de exercícios físicos através dos passeios e brincadeiras que as crianças adoram.
  • Limites e regras: com a presença de um animal na casa, as crianças têm a oportunidade de aprender desde cedo que existem regras de respeito ao próximo. Um desafio para os pais é o de impor os limites à criança, como o de respeitar o espaço do animal. Regras como as de higiene, saúde, organização e educação ficam muito claras de serem entendidas quando a criança convive com um pet.

As dicas são da Farmina

Como acabar com a destruição em casa

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Quando estão entediados, os melhores amigos são capazes de colocar a casa abaixo. Aprenda a lidar com a destruição, evitando prejuízos e dor de cabeça

Tommy, 8 meses: o destruidor de sofás. Crédito: Arquivo pessoal
Tommy, 8 meses: ele já acabou com dois sofás. A lista de destruição é maior, e inclui até a parede da casa  Crédito: Arquivo pessoal

Eles são fofos e engraçadinhos. Mas tiram qualquer um do sério quando o assunto é destruição. Filhotes ou cães muito ansiosos podem colocar a casa abaixo, levando os tutores ao desespero. Que o diga a jornalista Michelle Macedo, 28 anos. Ela é tutora de Tommy, um SRD lindo e sapeca de oito meses, que já deu cabo de DOIS sofás da casa dela.

“Ele fica grande parte do tempo sozinho porque saio para o trabalho pela manhã e volto à noite. Ele está tentando destruir a casa toda. Já comeu parede, já comeu o fio da internet duas vezes, já comeu um sofá, que joguei fora, aí comprei outro, e ele já comeu o outro, comeu a casinha de madeira MDF… Fora sandália, que é comum”, enumera Michelle. Ela ressalta que, quando está em casa, Tommy se comporta como “príncipe”. “Mas, quando está sozinho, ele tem muita energia, fica estressado e a forma de botar essa energia para fora é destruindo as coisas”, diz a tutora.

Tommy entrou na vida de Michelle aos 45 dias de vida, quando foi adotado pela jornalista. Ela conta que, nos fins de semana, consegue levá-lo para passear pela manhã e à noite. Mas, durante os dias úteis, nem sempre ela consegue sair com Tommy de manhã. “Dentro da minha rotina, estou tentando encaixar dois passeios”, afirma.

De acordo com a equipe de adestramento e comportamento da Cão Cidadão, empresa criada pelo zootecnista Alexandre Rossi, o “Dr. Pet”, o real motivo da destruição de objetos é a falta de atividade. Na natureza, os cães gastariam a maior parte do tempo buscando alimentos, abrigo, água, etc. Em casa, sozinho e sem ter o que fazer, o cachorro vai criar uma forma de se entreter, seja roendo o sofá ou escalando a pia da cozinha. E, como os objetos domésticos são manuseados pelos tutores, os cães os atacam para parecer mais próximos a ele, explicam os profissionais da empresa. Uma dica é mexer bastante nos brinquedos dos pets, para deixar o cheiro neles e, assim, estimular o animal a brincar com o que deve, e não com os móveis.

Veja o que diz a equipe da Cão Cidadão:

“A primeira coisa a se fazer quando trazemos um cão para casa é disponibilizar brinquedos próprios para ele. Há inúmeros modelos de brinquedos, desde aqueles que apitam e fazem barulho ao serem apertados, como aqueles que soltam a comida ou petiscos quando manuseados.

Disponibilize brinquedos de texturas e tamanhos variados. Vale comprar pelúcias, brinquedos de borracha, cordas, panos, bolinhas ou qualquer outro que julgue seguro para seu amigo peludo. Dessa forma, ao chamar a atenção enquanto ele estiver rasgando o sofá, você poderá direcioná-lo para o objeto correto.

Mas, não basta comprar dezenas de brinquedos e deixá-los largados pela casa. O melhor brinquedo para seu cão sempre será você e tudo aquilo que você gostar, e é por esse motivo que eles teimam em pegar nossos celulares, controle remoto, sapatos, etc. Sendo assim, é imprescindível que você valorize bastante aqueles brinquedos largados no chão. Brinque com eles quando possível e dê atenção ao seu pet sempre que ele estiver com um dos brinquedos na boca.

Tão importante quanto as dicas anteriores, é o controle dos locais e móveis que o animal terá acesso, pelo menos nos primeiros meses de vida, quando o cão possui maior necessidade de destruição. Evite deixar exposto qualquer objeto da casa que ele possa estragar ou se machucar.

Existe no mercado pet produtos amargos, que trabalham como repelentes para que o cão não destrua o objeto desejado, mas, em muitos casos, o repelente só vai adiantar quando utilizado em conjunto com as dicas anteriores.

A ajuda de um profissional adestrador nessa fase vale bastante a pena. Poucas aulas são necessárias, para que um filhote aprenda o que deve ou não ser feito em casa. Lembre-se: viver em harmonia com sua nova família é tudo o que ele mais quer.”

 

Olha só o que Tommy aprontou:

 

Licença mAUternidade

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Cervejaria britânica dá uma semana de folga para quem acaba de levar para casa um novo amigo. Objetivo é facilitar a adaptação de tutores e cães

Brewdog: o bar e cervejaria é 100% petfriendly. Crédito: Divulgação
Brewdog: o bar e cervejaria é 100% petfriendly. Crédito: Divulgação

A cervejaria BrewDog, na Escócia, é famosa por ser 100% pet friendly — o nome da marca já diz tudo. Agora, ela se torna a primeira do mundo a conceder licença a quem adotar um cãozinho. São sete dias de folga para facilitar a interação e a adaptação de tutores e animais. Além da unidade britânica, a fábrica oferecerá a vantagem para os funcionários da unidade norte-americana, instalada em Ohio, e que será inaugurada em breve. Lá, os funcionários também poderão levar seus pets para o trabalho.

A empresa foi fundada em 2007, “por dois homens e um cão”, definem os cofundadores, no site da cervejaria. Hoje, eles cuidam dos cachorros Simcoe e Dr. Gonzo, que frequentemente são vistos passeando pela fábrica. Os donos da BrewDog são tão apaixonados por animais que também têm um programa, o Ano Sabático do Cachorro, pelo qual, depois de cinco anos de trabalho, o funcionário pode tirar quatro semanas inteiras para tirar férias com seu cão.

“Não é fácil tentar tentar conciliar trabalho e cuidar de um novo cão na sua vida, e muitos membros da nossa equipe têm amigos de quatro patas em casa”, disse James Watt, cofundador da empresa, sobre a licença pAUternidade/mAUternidade. “Sempre queremos oferecer aos nossos colaboradores os melhores benefícios possíveis. Na BrewDog, somos preocupados com pessoas e cerveja, e também gostamos muito de cães.”

Veja o vídeo em inglês:

 


		
			

A ciência do melhor amigo

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Livro de pesquisadoras brasileiras investiga a cognição e o comportamento dos cachorros. Os estudos evidenciam, cada vez mais, que eles são inteligentes, emotivos e criam rápidos vínculos

A pesquisadora Natalia com Poly: fonte de inspiração
A pesquisadora Natalia de Souza Albuquerque com a cachorrinha Poly: fonte de inspiração. Crédito: Arquivo pessoal

Essa história de amor tem pelo menos 14 mil anos. Tanto tempo de cumplicidade e companheirismo fizeram do homem e do cachorro unha e carne. Não existe, na natureza, nenhum outro caso de duas espécies distintas que desenvolveram tamanha relação afetiva, cooperativa e comunicativa. E, apesar de milênios de convivência, há muito pouco se começou a compreender o comportamento do melhor amigo. Foi apenas no fim da década de 1990 que a ciência voltou os olhos para os cães. A riqueza e a complexidade do animal conquistaram os pesquisadores e, hoje, a produção de trabalhos é numerosa. Uma rápida pesquisa no Google Acadêmico encontra mais de 1,4 milhão de artigos com a palavra “dog” nos últimos 17 anos.

Atentas às investigações e descobertas mais recentes, as cientistas brasileiras Carine Savalli e Natalia de Souza Albuquerque — elas mesmas prolíferas pesquisadoras do tema — organizaram o primeiro livro nacional dedicado à cognição e ao comportamento de cães, sob o viés científico. Lançado há uma semana, Cognição e comportamento de cães — a ciência do nosso  melhor amigo (Editora Edicon) desvenda alguns dos mais curiosos aspectos de um animal que, segundo Natalia, ainda tem muito a ensinar. “Os cães são seres de direito e de valor próprio, muito interessantes e complexos. Estamos longe de saber tudo sobre eles”, define a bióloga, que é mestre em psicologia e, atualmente, faz doutorado em psicologia experimental/comportamento animal na Universidade de São Paulo (USP) e em comportamento e bem-estar animal na Universidade de Lincoln, no Reino Unido.

Pesquisadora de emoções e cães, um tema que envolve percepção e reconhecimento emocional, além de empatia, a bióloga explica que, até os anos 2000, os cachorros como objeto de estudo eram negligenciados tanto pela biologia quanto pela psicologia. Se, por um lado, o interesse maior estava em animais não-domesticados (e que, portanto, fornecem importantes conhecimentos da vida selvagem), por outro, os cães ainda eram vistos apenas como coisas fofinhas que respondiam a condicionamentos, como pegar a bola em troca de um afago ou um petisco. No Brasil, isso mudou com o psicólogo e pesquisador da USP César Ades, um dos pioneiros nos estudos da etologia (ciência do comportamento animal) que, ao morrer, em 2012, aos 69 anos, deixou uma vasta produção nessa área e a inspiração para dezenas de pesquisadores brasileiros que seguiram seus passos.

Entre os muitos objetos de estudo de Ades, esteve a cachorrinha Sofia, uma SRD que se tornou famosa para o público leigo por ter sido a primeira companheira na televisão do zootecnista Alexandre Rossi, hoje popularmente conhecido como “Dr. Pet”. O etólogo coordenava as pesquisas com Sofia no Instituto de Psicologia da USP, das quais também participou Carine Savalli. Um dos capítulos do livro, escrito por Carine, que é orientadora da pós-graduação em Psicologia Experimental/Comportamento Animal da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e pela veterinária Daniela Ramos, é justamente um estudo de caso sobre comunicação canina, protagonizado por Sofia.

 

Sofia, cachorrinha treinada na UPS. Crédito: Reprodução
“A Sofia foi muito estimulada, de uma forma única, e desde pequenininha”, conta Carine Savalli. “Ela aprendeu a aprender muito rápido, era muito especial”, diz, sobre a cachorrinha, que morreu de câncer em 2014 e ainda deixa muitas saudades na professora da USP. Sofia aprendeu a usar um teclado para se comunicar com humanos. Por meio de símbolos representados no objeto, mostrava o que queria: água, comida, casinha, passear, brinquedo, carinho, xixi… Além disso, respondia a pedidos verbais compostos de dois termos (busca bola ou aponta garrafa, por exemplo) e, mesmo quando as palavras eram invertidas (bola busca, garrafa aponta), ela compreendia.

A cadelinha foi filmada muitas vezes sozinha. Nesses casos, não usava o teclado, um claro indicativo de que ela sabia que aquele era um instrumento para se comunicar com humanos. Para ela, os testes eram pura diversão. “Muitas vezes, eu ia buscá-la em casa para levar para a USP. Quando ela ouvia a palavra ‘USP’, ficava louca de alegria”, relata Carine. Outro caso que ela descreve no livro é o do border collie Rico, estudado por pesquisadores alemães, que publicaram um artigo sobre ele na revista Science. O cão conhecia mais de 200 palavras (na maioria, brinquedos) e, quando alguém perguntava por eles, corria para levá-los.

Da mesma raça, a cadela Chaser é conhecida na internet como “a mais inteligente do mundo”. Ela conhece mais de mil palavras e tem compreende o nome de um objeto em três níveis (sabe o que é garfo, entende que garfo é um utensílio e, ainda, que ele é um talher). Segundo Carine Savalli, esses casos mostram que, com treinamento precoce e adequado, os cães podem desenvolver habilidades cognitivas verbais que, há até pouco tempo, eram inimagináveis. “Há variações individuais, mas acredito que o meio e a estimulação fazem toda a diferença. Outros animais que passassem por isso provavelmente teriam essas habilidades”, diz.

Emoções

Quando a bióloga Natalia de Souza tinha 2 anos, divertia a família dizendo que, quando crescesse, queria ser psicóloga de bicho. Aos 4, afirmou que ganharia um Nobel ao provar que os animais são tão inteligentes quanto os homens. Hoje, aos 29, é doutoranda em “psicologia de bicho” e, quem sabe, ainda poderá comprovar sua hipótese. De uma coisa, a coautora do livro Cognição e comportamento de cães — a ciência do nosso melhor amigo já tem certeza: os cães percebem as emoções humanas e mostram-se sensíveis a elas.

Uma fonte de inspiração para Natalia é Poly, daschund que viveu nove anos, período em que se tornou a melhor amiga e confidente da bióloga. “Eu nunca a treinei e ela tinha uma comunicação maravilhosa. Quando queria alguma coisa, apontava, me chamava. Nosso laço afetivo era impressionante. Eu queria entender se era assim mesmo ou eu que estava imaginando”, conta a cientista.

Hoje, o foco do trabalho da bióloga, tanto na USP quanto na Universidade de Lincoln, no Reino Unido, são as emoções. “Pesquiso como é a relação afetiva entre humanos e cães e de que forma eles conseguem entender nossas emoções”, explica. No capítulo dedicado ao assunto, ela fala de diversos experimentos recentes que investigaram a resposta emocional dos animais. Em alguns deles, fica evidente não só que os cachorros são capazes de reconhecer e distinguir diferentes emoções, como há fortes indicativos de que são empáticos com outros da espécie e com os homens.

Carine e Natalia também destacam, no livro, as descobertas científicas sobre o apego de cães e tutores, algo que, de acordo com elas, se assemelha, em muitos aspectos, com o apego entre criança e figura materna. As pesquisadoras citam, inclusive, a primeira evidência arqueológica dessa relação de afeto, que data de 12 mil anos atrás. “Trata-se de um esqueleto humano com a mão sobre o esqueleto de um filhote de cão que, provavelmente, não servia de comida, pois estava inteiro”, escreveram no capítulo sobre o tema, também assinado pela psicóloga e mestre em medicina veterinária Alice de Carvalho Frank. Um dos experimentos mais indicativos dessa relação foi o que mediu, em cães e mulheres, os níveis de ocitocina após a interação entre eles. Essa substância, também conhecida como “hormônio do amor”, por ser produzida na hora do parto para estimular o vínculo de mães e filhos, aumentou tanto nos cachorros quanto nas voluntárias do estudo.

Segundo as autoras do livro, um dos objetivos do trabalho é fazer com que, conhecendo melhor, as pessoas possam respeitar mais os animais. “Cães são animais fantásticos e incríveis. Muitos sofrem maus-tratos, negligência e abandono. Algumas pessoas não sabem que eles percebem emoções, sofrem e criam vínculos. Se soubessem, acho que não os abandonariam”, afirma Natalia de Souza. “Uma das coisas mais incríveis sobre os cachorros é que eles foram programados para amar os seres humanos”, conclui Carine Savalli.

 

Entrevista // ANGÉLICA DA SILVA VASCONCELLOS, bióloga, doutora em psicologia e professora da pós-graduação da Universidade Católica de Minas Gerais

Nos últimos anos, temos visto uma produção científica na área de cognição e comportamento canino cada vez maior. A que se deve esse aumento no interesse?

A facilidade de reprodução e manutenção da espécie certamente desempenha um grande papel nisso. O processo de domesticação do cão, direta ou indiretamente, selecionou características que facilitam sua interação com o ser humano. Na verdade, nós somos o ambiente social da espécie e isso possibilita a manutenção de indivíduos para pesquisa em boas condições de bem-estar — quando isso não é possível, os resultados dos estudos podem ficar comprometidos. Essa facilidade de manutenção, em contrapartida, possibilitou o grande número de estudos sobre a espécie, o que também melhora a qualidade no cuidado com eles. Além disso, o estudo do cão traz uma possibilidade que é incomum em outras espécies: podem-se estudar processos evolutivos por meio da comparação de duas versões da mesma espécie! O fato de o ancestral silvestre do cão — o lobo — estar presente na cena atual traz essa possibilidade incomum.

O artigo que a senhora escreveu toca um tema central, do bem-estar dos cães. A senhora acredita que nós sabemos atender e respeitar as necessidades deles?

Essa é uma questão que merece reflexão por parte daqueles que têm um cão em casa. Embora muito do comportamento dos lobos já não apareça mais no repertório comportamental do cão, eles também não são mini-humanos. Aqui mora uma das principais contribuição de nosso trabalho para o público em geral — a compreensão sobre algumas características, potencialidades e necessidades do cão — que não são as mesmas de qualquer outra espécie. No livro como um todo, são discutidos trabalhos que levantaram o que é e o que não é verdade a respeito do cão. O que já se comprovou como característica dele, o que ainda está sob investigação e — principalmente — o que se provou falso após investigação cuidadosa. Nossa tendência ao antropocentrismo leva o ser humano, muitas vezes, a assumir como do cão necessidades que são exclusivamente humanas — e isso pode levar a impor aos animais padrões e estilos de vida que absolutamente não atendem a suas reais necessidades.

De que forma os artigos do livro podem ajudar tutores a lidar com seus melhores amigos?

Sabendo das reais potencialidades, características e necessidades do cão, eles poderão melhor adequar o cuidado com eles. E também — e não menos importante — é adequar suas expectativas para com seus cães, sabendo que há muitas coisas que eles realizam, sim. Mas há outras coisas que seria injusto esperar deles. A criação de uma expectativa mais realista com relação ao melhor amigo do homem contribuirá para diminuir as chances de desapontamento — de ambas as partes — e para a construção de um relacionamento duradouro e recompensador, também para ambos.

 

Veja como a cachorrinha Chaser é esperta!