O Rei do futebol 2

Publicado em Crônicas

 

Severino Francisco

 

A cada Copa do Mundo, surge uma campanha para destronar Pelé da condição de Rei do Futebol. Mas, agora, a cruzada conta com um aliado improvável: o craque Ronaldo Nazário, o Ronaldo Fenômeno. Nesta semana, ele afirmou que Messi é o melhor jogador da história do futebol. Possivelmente, Ronaldo proferiu a asnice apenas para bajular o craque argentino, que, de fato, foi um dos maiores jogadores do mundo.

De qualquer maneira, é uma declaração de ignorância e de vira-latismo flagrantes. Ao se referirem aos craques do passado, nossos jogadores costumam argumentar: “Não sei, não conheço, não é do meu tempo”. Bem, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Assis Chateaubriand, Shakespeare, Dostoiévski, Flaubert, Proust, Cervantes, Guimarães Rosa não são do meu tempo. Nem por isso, me desobrigo de conhecê-los e de  buscar referência ou inspiração nos escritos dessa turma.

No entanto, os nossos craques se consideram o epicentro do universo; para eles,  não existia nada antes de nascerem.  Como dizia Glauber Rocha: “Os jogadores de futebol do Brasil têm uma bola de capotão número 5 na cabeça. Se der um furão, só sai vento”. Ronaldo Fenômeno é aquele mesmo que, na Copa do Catar de 2022, se refestelou com churrasco folheado a ouro em Doha. Neymar levou uma coleção de nove relógios avaliada em 41 milhões para essa Copa.

Eles vivem dentro de uma bolha de alienação e de ignorância. Basta ver o documentário Isto é Pelé para evidenciar a ausência de fundamento e a leviandade da afirmação de Ronaldo Fenômeno sobre Messi. Só é possível encontrar o que Pelé fazia nos estádios de futebol nas partidas fictícias de videogame.

Contudo, quero evocar um acontecimento. Em 1968, eu tinha 14 anos, morava em São Paulo e um dos meus melhores amigos era santista doente e parceiro de peladas na rua do bairro Jabaquara. Sempre ia ao Morumbi e ao Paecambu para assistir aos jogos do Santos. Voltava extasiado com os malabarismos de Pelé em campo. Meu pai resistia a que eu frequentasse estádios, pois era pastor presbiteriano. Como ir à celebração pagã do futebol, coisa do demônio, em pleno domingo, dia de culto na igreja?

Todavia, tanto insisti que ele concordou que eu assistisse a um clássico, Santos e Corinthians.

E lá formos para o Morumbi. O jogo estava tenso, mas o Coringão se segurava. Pelé era o grande ausente. Eu tinha ido ao Morumbi, principalmente, para ver o maior jogador de todos os tempos e me frustrara. O beque corintiano Luiz Carlos, bom marcador, mas um pouco lento, fazia uma partida impecável, se antecipava, ganhava todas e não deixava Pelé ver a cor da bola.

O relógio avançava: 15, 30, 40 minutos, e nada, o camisa 10 do Santos continuava apagado. A partida prosseguia meio arrastada. Mas eis que, na metade do segundo tempo, se não me engano, Toninho cruzou a bola na área corintiana, o beque Ditão tentou se antecipar, Pelé ameaçou que ia, mas voltou e, em um átimo, na velocidade do instinto, aplicou um chapéu espetacular no beque Ditão e fuzilou para as redes. O Santos abriu o placar.

Pelé fez mais uma tabelinha com Edu, avançou para a área corinthiana e fez outro gol para o Santos. A equipe santista fez o terceiro. O Corinthians ainda descontou em um gol de cabeça de Paulo Borges, pouco comemorado em falta cobrada por Rivellino.

O camisa 10 do Santos só fez duas jogadas e acabou com o jogo. Tive o privilégio de ver em dois lances de futebol-arte, a serem emoldurados e colocados na parede, com assinatura, que me fizeram entender porque Pelé era o rei do futebol. Não é patriotada; é história. Que me desculpem os hermanos, Messi ou Maradona podem ser príncipes, condes, duques, arquiduques, marqueses, viscondes, mas o rei do futebol é mesmo Pelé.

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