Luiz Gutemberg

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Severino Francisco

Tive o prazer de trabalhar com jornalista e escritor Luiz Gutemberg, em 1999 e 2000, no Jornal de Brasília. Era um brilhante analista político. Eu costumava vê-lo na Band em um telejornal no qual formava uma dupla afinada com Marília Gabriela e ele me pareceu com um tanto solene, embora levemente irônico. No entanto, quando o conheci pessoalmente a impressão foi completamente outra.

Como editor, estabeleceu a primazia do texto. E, por isso, resgatou a antiga nomenclatura do Redator chefe e estendeu a todos as editorias. Assim, os editores passaram a ser nomeados por Redator de política, Redator de cidades, Redator de cultura. Ou seja, o editor tinha de escrever reportagens, entrevistas e artigos. Ambicionava a autoridade da autoria. Os traços que o distinguiam eram a inteligência, a ilustração, a crítica, o afeto, a verve e a coragem.

Gutemberg veio do Jornal do Brasil dos bons tempos, uma das melhores escolas de jornalismo da imprensa brasileira, de onde saíram Ferreira Gullar, Alberto Dines, Jânio de Freitas, Reinaldo Jardim, Castelinho, Antônio Calado, Oliveira Bastos e José Carlos Oliveira, entre tantos outros. Ele escreveu o livro essencial JB – A invenção do maior Jornal do Brasil, conduzida por Odylo Costa Filho (Aeroplano). Carregava na cabeça um mar de histórias e, ao mesmo tempo, protagonizava um outro tanto delas na vida.

Todos os dias, ele chegava cedo à redação e, logo em seguida, aportava o revisor Beviláqua, a quem ele dispensava muito apreço, com a saudação invariável, a plenos pulmões: “Bevilácqua, o saudoso Beviláqua!”. Ao que, Beviláqua protestava: “Alto lá, não estou morto”. Era inútil, no outro dia, o ritual se repetia: “Beviláqua, o nosso saudoso Bevilácqua…”

Quando inventou o Teatro Galpão na 508 Sul, a partir da ocupação de um almoxarifado, o ator João Antônio resolveu inaugurar o novo espaço com um espetáculo feito inteiramente com gente de Brasília. Chamou Laís Aderne para dirigir, e ela convocou a turma do Colégio Pré-Universitário, onde era professora. E, aí, apareceu Gutemberg com o texto da peça O homem que enganou o diabo e ainda pediu troco. A montagem fez muito sucesso e João ganhou um amigo.

Para João, Gutemberg tinha esse jeito de inventar encontros. De transformar uma amizade em projeto, uma ideia em aventura, uma conversa em alguma coisa que podia ganhar o mundo. Uma dessas ideias foi a criação da Companhia Popular de Comédia do Hospital Sarah, proposta por Gutemberg depois de uma estada no espaço em razão de um acidente de trânsito. Ele chamou João para ser o diretor.

Gutemberg era imprevisível. Naquela época, o editor de Cidades era um paraibano do fio desencapado. Por qualquer razão, real ou aparente, ele se destemperava e se desentendia. E foi o que aconteceu em um horário de pico do fechamento da edição. Jogou o crachá de editor em cima da mesa e foi embora para casa. Gutemberg tinha afeição pelo nosso personagem e o chamou no outro dia para uma conversa no meio da redação.

Aos poucos, o colóquio entre o alagoano arretado e o paraibano do fio desencapado subiu a temperatura, a tensão se tornou insuportável e, a certa altura, Gutemberg levantou-se da cadeira, ergueu as mãos e bradou uma frase que era uma mistura de bronca terrível e declaração de afeto, que deixou o nosso personagem desconcertado: “Nós te amamos, seu paraibano imbecil!”

A redação inteira explodiu em uma gargalhada, inclusive e, principalmente, o nosso personagem. Gutemberg era extremamente sério no compromisso profissional, mas sem perder o afeto e o senso de humor jamais.

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